Posts Tagged ‘A quase cronica de Nelson Safi

08
jul
11

A quase-crônica de Nelson Safi: os duelistas

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Os duelistas, por Nelson Safi

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Não se engane, esta quase crônica não falará do livro “Os duelistas”, do Joseph Conrad (que teve adaptação do Ridley Scott no cinema). O assunto será “O duelo”, uma rara novela do Anton Tchekhov. Logo de início o livro chamou a minha atenção pelo seu projeto gráfico (nem sei se estou falando certo, vou logo pedindo desculpas a quem é profissional na área). Então, retomando, o livro é muito bonito: capa, contracapa, papel, fonte, etc. Parabéns ao Hélio de Almeida, responsável pela capa, projeto gráfico e ilustrações. O livro agrada à visão e ao tato.

Antes disso, há o fato principal de ser uma obra do Tchekhov, o que para mim, independentemente do projeto gráfico, é motivo mais que suficiente para me interessar pela história (o livro é muito bonito mesmo, não poderia deixar de comentar este aspecto primeiro). Outro fato interessante é que se trata de uma novela, nada usual em se tratando deste autor. A história foi publicada, originalmente, em forma de folhetins em onze edições do jornal Nóvoie Vriémia (de propriedade de seu amigo e editor Aleksei Suvórin).

O livro vem prefaciado por Elena Vássina, o que sempre ajuda na contextualização da obra em relação à sua época e ao conjunto da obra tchekhoviana. Leio os prefácios com a mesma satisfação de ler a própria história. Outro dado relevante é o fato de ser uma tradução diretamente do russo, que torna ainda mais interessante a leitura. É dele, o prefácio, que roubei o trecho abaixo, para dar uma ideia aproximada do livro:

“Em O duelo, o zoólogo Von Koren, entusiasmado com as ideias do darwinismo social, gostaria de exterminar em prol da humanidade Laiévski, o sujeito depravado e perverso. O antagonismo entre os personagens chega a tal ponto que os dois se enfrentam em duelo.”

A composição dos personagens, o crescimento da tensão entre eles, que leva ao duelo que dá título ao livro, é o grande motor da história. Quando fui chegando ao fim bateu uma sensação estranha. Por um lado, de estar louco para saber como o Tchékhov resolveria a trama; por outro, de querer saborear o livro por mais tempo.

Abraço,

Nelson Safi

Nelson Safi. Nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer

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Nelson Safi publica no blog da Palavraria na segunda sexta-feira do mês.

 

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10
jun
11

A quase-crônica de Nelson Safi

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Quando os japoneses acabaram com a minha vida, por Nelson Safi

Num domingo passado escolhi o livro sobre o qual falaria na quase crônica deste mês. Seria “O amante detalhista”, romance do argentino Alberto Manguel (Cia. das Letras; tradução de Jorio Dauster). Procurei na estante onde deveria estar, não encontrei. Busquei nos quartos, mesma coisa. Então desisti do tema, pois gosto de reler trechos do livro antes de escrever. Para suprir a lacuna, coloco aqui um dos meus contos, que está entre os que mais gosto.

Aproveito para informar a criação do meu blog, http://conversacomovacuo.blogspot.com. Por enquanto postei apenas as crônicas que já foram publicadas neste espaço, mas em seguida colocarei alguns contos.

A vida costumava ter mais sentido para mim. Tudo andava de acordo com o seu tempo e na medida certa. À noite eu dava corda no despertador, verificava a hora de tocar, apagava a luz do abajur e encostava a cabeça no travesseiro para dormir. Havia ocasiões em que não apagava a luz e ficava lendo por algum tempo, mas isso era raro, gostava de ler era na minha poltrona favorita.

De manhã acordava ao primeiro toque. Fazia a barba, tomava banho e a seguir me vestia. Depois sentava na cama, puxava delicadamente o pequeno pino, e dava corda no relógio de pulso. Pertenceu ao meu pai, que o recebeu do meu avô. Era como se eu soprasse vida nele, parecia que os ponteiros se mexiam com mais vigor após as primeiras voltas que dava no mecanismo.

Um dia ganhei de presente um relógio de pulso novo, todo reluzente e cheio de funções. Como é que se dá corda, perguntei. Ao que me responderam, não precisa, ele só para quando acaba a bateria. Agora não consigo mais dormir direito, pois sei que, de uma hora para outra, ele pode deixar de funcionar.

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Abraço,

Nelson Safi

Nelson Safi. Nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer

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25
mar
11

A quase-crônica de Nelson Safi: O tradutor traduz o autor?

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O tradutor traduz o autor? – por Nelson Safi

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Quando um autor é bom a gente logo percebe. E todo mundo sabe, cada um tem seu jeito de escrever, o que obviamente explica o fato de alguns agradarem mais do que outros. Se estamos falando de textos em nossa língua, mesmo com os nuances regionais, seja qual for a região do planeta, ainda assim será a nossa língua.

E o que dizer dos autores estrangeiros? Em algum momento chega a informação de que fulano é um bom escritor e alguém decide publicá-lo em português (vamos fazer de conta que é simples assim). É evidente que as editoras contam com tradutores qualificados, pelo menos é o que se espera. Como garantir que o jeito especial do autor se expressar, a maneira como ordena suas frases que dá um sentido (ou vários) ao que pretende dizer será alcançada na tradução? Pois é, não é fácil, nada fácil. O tradutor é, de certa forma, um escritor. Aliás, muitos escritores conhecidos são ou foram tradutores. Aqui no estado temos e tivemos vários e, sem querer ser bairrista, creio que de boa qualidade em sua maioria.

Do meu mais profundo “achismo” vem a convicção de que o trabalho de tradução é tão desgastante que, mesmo sendo ele um escritor, não sobrará fôlego para escrever o seu próprio texto. Acredito que o tradutor gaste tanta energia e talento para reproduzir em sua língua o autor original, que pouco ou nada sobre para ele próprio.

E qual seria o maior dilema do tradutor durante a sua maratona profissional? Com certeza ocorre quando este se depara com uma palavra, situação ou expressão que, em hipótese alguma, teria correspondência em nosso idioma. É a hora em que o tradutor tem que ser infiel para ser fiel (estou aqui fazendo uso de uma expressão que o Sergio Faraco utilizou em uma palestra que tive a felicidade de assistir). Ou seja, para preservar a literariedade, a qualidade do autor original, o tradutor se vê obrigado a inventar ou, então, utilizar outra expressão que alcance o mesmo impacto. De tradução o Sergio Faraco entende muito, é dele a melhor versão em português de um livro do uruguaio Mario Arregui, “Cavalos do amanhecer” (L&PM), cujo título original é “Los dos caminos” (onde estão os cavalos do título?). Mas lendo-se o livro, fica tudo muito claro (para se ter uma ideia da seriedade do trabalho, basta dizer que a tradução foi acompanhada de perto pelo Arregui, que concordou com as modificações). Por outro lado, querem ver como é difícil? Façamos o inverso. Basta pegar um texto, do Guimarães Rosa, por exemplo, e imaginá-lo em alemão, japonês, russo. É tarefa para muito poucos, realmente.

Bem, a verdade é que toda essa conversa acerca de traduções seria para falar do livro “O Tenente Quetange”, de I. N. Tyniánov (Cosac & Naify). Isso porque a tradutora, Aurora Bernardini, resolveu de maneira muito mais eficiente o jogo de palavras que dá nome ao livro (e origina toda a confusão). O livro é muito bom e engraçado, e vou pedir que confiem em mim sem que precise explicar a razão. Vou usar do velho recurso de reproduzir um texto da contracapa e contar que isso seja suficiente para despertar o interesse pela história:

“Correm os últimos anos do século XVII e Paulo I ocupa o trono de todas as Rússias, quando um escrivão militar, sonolento e estabanado, altera por acidente o curso da História ou, pelo menos, de uma história ou, melhor dizendo, de duas histórias…”

Ocorre que este livro tem outra história muito interessante, relatada no quase-prefácio de Boris Schnaiderman (responsável por algumas das melhores traduções de Anton Tchékhov). Ele conta um pouco da obra de Tyniánov, de suas peculiaridades, entre as quais o fato de ter permanecido ileso, tanto física como profissionalmente, durante todos os anos de Stálin, o qual por muito menos fazia despachar para um gulag.

Abraço,

Nelson Safi

Nelson Safi nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer.

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Nelson Safi publica no blog da Palavraria mensalmente.

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21
jan
11

A quase-crônica de Nelson Safi: Los Angeles Lakers x New Jersey Nets

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Los Angeles Lakers x New Jersey Nets, por Nelson Safi

O ano é 1992, estamos na década de ouro da liga profissional de basquete dos EUA, a NBA. Final de jogo no Fórum de Inglewood, em Los Angeles, vitória do Lakers sobre o Nets. Os jogadores conversam entre si enquanto se dirigem aos seus vestiários, repórteres os entrevistam aqui e acolá. O pivô Vlade Divac, do Lakers, tenta brincar com seu ex-compatriota Drazen Petrovic, ala-armador do Nets, que o cumprimenta de forma protocolar, vira-se e segue para o vestiário dos visitantes.

Para compreender esta cena precisamos voltar um pouco mais no tempo. Em 1986 Petrovic transferiu-se para a liga profissional norte-americana, um dos primeiros a entrar naquele clube fechado. Foi contratado pelo Portland Trail Blazers, mas não deslanchou como esperava, ele que foi considerado o melhor jogador europeu de todos os tempos. Divac, seu colega na seleção iugoslava, transferiu-se em 1989 para o Los Angeles Lakers (o segundo europeu na NBA). Teve mais sorte em sua adaptação, mesmo com a difícil incumbência de substituir o mitológico Kareem Abdul-Jabbar; seu jogo de alta técnica e sua simpatia logo conquistaram o time e a torcida, apesar do inglês macarrônico. Petrovic telefonava diariamente para Divac, chorando suas mágoas por não conseguir o merecido espaço. Divac, ao contrário, estava feliz em seu clube e numa cidade onde o frio não existia. Vamos pular para 1990, Campeonato Mundial de Basquete na Argentina (a fase final foi disputada no Luna Park, um templo do esporte em Buenos Aires). A Iuguslávia já havia sido bronze no Mundial da Espanha (1986), prata na Olimpíada de Seul (1988) e ouro no Eurobasket (1989). Era um time jovem e unido, que estava junto há bastante tempo. Entretanto, fora do esporte, os ventos vinham mudando na Iugoslávia, onde alguns dos antigos territórios eslavos que compunham o país mostravam seu desejo de independência, em especial a Croácia. A final do campeonato foi uma revanche contra a URSS, vencedora na Espanha, vitória fácil dos iuguslavos por 92 a 75. Após o apito de final de jogo, Petrovic corre para abraçar seu amigo Divac. Durante a comemoração alguns torcedores, com bandeiras da Croácia, entram na quadra e se aproximam dos atletas. O sérvio Divac, então, comete o grande erro de sua vida, arranca a bandeira croata das mãos do torcedor e a joga longe, dizendo que ali eram todos iuguslavos. O croata Petrovic observa sua atitude, como que desapontado. A partir dali a amizade entre os dois não existiria mais. A imprensa croata transformou Divac em um grande vilão. Não muito depois iniciaram-se os conflitos armados entre os dois povos, com atrocidades de ambas as partes.

E o que a amizade entre Vlade Divac e Drazen Petrovic tem a ver com a literatura? Diretamente, nada. Indiretamente, tudo a ver com o romance “O pintor de batalhas”, de Arturo Pérez-Reverte (Companhia das Letras; 2008). O livro conta a história do fotógrafo correspondente de guerra Andrés Faulques, que depois de trinta anos vivenciando diversos conflitos em todos os continentes, adquire um velho castelo na Espanha, sua terra natal, e decide criar um mural com algumas das principais batalhas, que passaram por suas lentes e continuam a acontecer em sua memória. Como ele dizia, pretendia pintar a essência da guerra.

É um livro com ingredientes para agradar a diversos gostos. Em primeiro lugar, uma trama muito boa. Afinal, por que Andrés, um fotógrafo com grande reconhecimento e prestígio pelo seu trabalho, decide levar uma vida de reclusão enquanto trabalha em seu mural? Quem é e qual o propósito de Ivo Markovic, que visita o pintor em seu castelo e com quem trava longas e instigantes conversas?

Para apreciadores das artes plásticas, vale para conhecer ou recordar os quadros que inspiraram o protagonista (graças à internet, santo Google, conheci diversos quadros que o inspiraram e pude constatar o quanto estão relacionados às batalhas vivenciadas pelo fotógrafo). Aos apreciadores de fotografia interessa pela apresentação das técnicas empregadas nas diversas situações de combate (o que nos permite enxergar a cena e os efeitos fotográficos obtidos).

Gosto muito do Arturo Pérez-Reverte e recomendo seus livros (leiam também “O mestre de esgrima” e “O clube Dumas”, entre outros, também da Companhia das Letras). Desconhecia, a seu respeito, que ele próprio foi um fotógrafo de guerras. Assim, muito do que é retratado neste livro vem de sua experiência pessoal. É um romance de ficção, mas com fortes elementos autobiográficos. Para o meu gosto foi o seu melhor livro escrito até hoje.

Observação: vale a pena, também, assistir o documentário “Once brothers – A história de Vlade Divac e Drazen Petrovic” (produção da ESPN).

Abraço,

Nelson Safi

Nelson Safi

Nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer

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24
dez
10

A quase crônica de Nelson Safi: Mario Vargas Llosa

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Mario Vargas Llosa, por Nelson Safi

É a primeira vez que acontece, ter opinião formada sobre o ganhador do Nobel de literatura. O inédito, neste caso,  é esse ganhador ser um escritor de quem já li quase toda obra antes do prêmio. Pelo que lembro, todos os outros ganhadores só fui ler depois de serem agraciados, até mesmo o Gabriel Garcia Márquez e o José  Saramago. Poderia simplesmente dizer que o prêmio fez justiça e encerrar por aqui, já que o Nobel, sozinho, é referência suficiente. Mas este é apenas o primeiro parágrafo, tenho umas linhas a mais para argumentar.

Primeiramente o óbvio, o prêmio chegou a um autor que há muito deveria ter sido contemplado. Acredito que ninguém achou o resultado injusto. Ultimamente a “acadimia” sueca vinha premiando autores que, na minha opinião de consumidor de livros, não mostraram a que vieram. Mas não estou aqui para discutir critérios de premiações, e esse assunto foi bem divulgado à época do Prêmio Jabuti. Gosto muito dos escritores latino-americanos, dele em especial, por retratarem nosso continente e história. E a identificação é fácil, nossos cotidianos foram muito semelhantes.

Mas qual seria a razão por eu gostar tanto do que ele escreve? Não vou repetir aqui o que muitos críticos (comentadores?) literários já devem ter feito, dissertar sobre os recursos estilísticos do autor (e com mais competência do que eu teria feito). O que posso dizer é que o escrevinhador é um grande contador de histórias. E tanto faz se são narradas na primeira ou na terceira pessoa, sempre sou envolvido por elas. O que as faz tão boas é a sempre competente construção dos personagens. Nenhum é caricato, todos têm a sua importância e, o principal, é impossível ficarmos alheios às suas existências (aliás, são tão reais quanto nós mesmos, talvez até mais).

Para encerrar, é claro que alguns romances são melhores que outros, tenho os meus preferidos. Entre eles está A Guerra do Fim do Mundo. Quem poderia acreditar que fosse um peruano o responsável pelo melhor romance que já se publicou sobre a Guerra de Canudos. Transcrevo o primeiro parágrafo do livro:

“O homem era alto e tão magro que parecia sempre de perfil. Sua pele era escura, seus ossos proeminentes e seus olhos ardiam com fogo perpétuo. Calçava sandálias de pastor e a túnica azulão que lhe caía sobre o corpo lembrava o hábito desses missionários que, de quando em quando, visitavam os povoados do sertão batizando multidões de crianças e casando os amancebados. Era impossível saber a sua idade, sua procedência, sua história, mas algo havia em seu aspecto tranquilo, em seus costumes frugais, em sua imperturbável seriedade que, mesmo antes de dar conselhos, atraía as pessoas.”

Abraço,

Nelson Safi

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Nelson Safi nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer. Por enquanto era isso.

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Nelson Safi passa publica no blog da Palavraria mensalmente, na terceira sexta-feira do mês.

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19
nov
10

A quase crônica de Nelson Safi: Os lusíadas; e os lusófonos também

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Os lusíadas; e os lusófonos também, por Nelson Safi

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Uma das grandes vantagens de escritores lusófonos é a de ler o texto em seu original, sem a interferência de um tradutor. Nada contra tradutores, graças ao seu ofício consigo ler escritores estrangeiros. Fazem um trabalho hercúleo, mas, é inegável, eventualmente não captam o que o autor realmente quis dizer. Enfim, com os lusófonos podemos constatar a beleza da nossa língua.

De início, para quem gosta de fazer um test drive, uma boa pedida é a antologia de contos “Desacordo ortográfico” (Não Editora), organizada pelo meu amigo Reginaldo Pujol Filho. Ali pode-se encontrar portugueses, obviamente, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos e, de quebra, brasileiros. Começa com um conto do L. F. Verissimo, “Mais palavreado”, uma ótima brincadeira com o vocabulário. Tem também o Ondjaki (não me perguntem como se pronuncia esse nome), com “O cheiro do mundo”; sobre o primeiro dia de um menino na escola. Isso é só uma amostra de um monte de coisas boas (o conto “Amor aos pedaços”, do Reginaldo, é um dos meus favoritos). É agradável constatar que a prosa portuguesa, que soa muito bem aos ouvidos, ganhou um colorido especial por terras africanas.

Bom, peguei alguns livros, que gosto bué, como diriam os angolanos, para comentar. Começo pelo “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto” (Cia. das Letras), do Mário de Carvalho. O livro é de um sarcasmo corrosivo, narra “a comédia de toda geração portuguesa – aquela que chegou à vida adulta durante a redemocratização de Portugal, a partir da revolução de 25 de abril de 1974. O protagonista, um burocrata cinquentão, vê seus projetos de vida fracassarem um por um. Relegado na empresa, que passa por um processo de modernização, toma a primeira decisão drástica da sua vida: entrar para o Partido Comunista”. Difícil tentar convencer alguém de que um livro é bom, apenas transcrevendo um pedacinho de sua orelha. Mas podem crer, vale a pena. O Mário de Carvalho sabe escrever com humor e tem uma maneira peculiar de conversar com o leitor (ficou ruim essa rima).

“Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” (Cia. das Letras) foi o primeiro romance que li do escritor moçambicano Mia Couto. Apesar do título, que me pareceu pretensioso, aceitei a dica da Carla (a meiga), e o levei para casa. Depois deste enfileirei mais três, pois achei a sua escrita mágica. Se antes falei que a prosa portuguesa soa bem aos ouvidos, a dele, além disso, adiciona cores e sabores. Grande parte de seus romances e contos retrata um conflito bastante presente na África, o passado colonial e a reconstrução pós-revolucionária (não pensem, com isso, que encontrarão ali uma literatura panfletária ou um ranço terceiro-mundista, no entanto, essa vivência agrega em sua literatura). Depois dessa quase imersão, busquei em minha biblioteca uma velha antologia de contos moçambicanos que herdei do meu pai. A seleção foi realizada pelo Ricardo Ramos, filho do Graciliano. E lá estava ele, Mia Couto, um iniciante, e eram dele os melhores contos da antologia. Agora ele já é conhecido e badalado pela crítica, é até fácil elogiar; foi bom tê-lo conhecido antes de ficar famoso.

Pertinho dali, em Angola, temos o escritor Ondjaki, de quem tive o prazer de ler “Avó dezanove e o segredo do soviético” (Cia. das Letras), também uma sugestão da Carla, mencionada antes. A história, narrada por uma criança, passa-se em Luanda, logo após a revolução, e conta a construção do mausoléu para o falecido presidente Agostinho Neto (o qual ficou conhecido como Foguetão; o mausoléu, não o Agostinho Neto). Um trecho da orelha:

“Em Luanda, depois da independência de Angola, mas ainda com a presença de estrangeiros tão diferentes entre si – como portugueses, cubanos e soviéticos –, moradores de um pequeno bairro se veem em meio ao turbilhão da história. A fantasia da infância e a crueza da política se cruzam nesta narrativa em que a imaginação de um menino consegue, ao menos no plano da fabulação, vencer a avalanche da realidade”. Este livro foi um dos concorrentes ao prêmio Portugal Telecom de Literatura.

Estou quase no fim, então não posso deixar de mencionar o angolano José Eduardo Agualusa, do qual terminei há pouco um romance (e também já li alguns contos excelentes), “As mulheres do meu pai”, uma espécie de road movie (road book, existe isso?).

Poderia dizer que deixei o melhor para o final, mas tudo é uma questão de gosto. Ele ficou para o fim por ser o mais famoso. Já devem ter reparado, deixei para o final o Saramago, recentemente falecido. Redundância dizer que ele é bom. Para quem nunca o leu, para uma aproximação, recomendo um contato mais ameno. Sugiro o “Conto da ilha desconhecida”, uma história breve, cerca de quatro horas de leitura, se tanto. Por aí tem-se uma ideia de sua prosa pouco usual, de parágrafos enormes, e também da fineza de sua ironia. Depois, mantendo a linha irônica, mas “adensando” um pouquinho, “As intermitências da morte” (a história de um país onde as pessoas param de morrer; mais não digo para não perder a graça). Pronto para ir adiante? Experimente “História do cerco de Lisboa”; um revisor de uma editora retira, propositalmente, a palavra “não” do livro de história em que está trabalhando (a do cerco de Lisboa, pelos mouros). A simples supressão da palavra altera o rumo dos acontecimentos. Convidado pelo editor, aceita o desafio de reescrever o livro conforme o resultado de sua ação. Ficaram curiosos? Ele não recebeu o Nobel por acaso (por sinal, seu discurso em Estocolmo, quando recebeu o prêmio, é emocionante, se alguém se interessar devo ter o arquivo guardado, algures no HD do meu “tip-top”). Exceto o “Memorial do convento” (excelente romance, um dos meus preferidos), todos os livros do Saramago foram editados pela Cia. das Letras (mas posso estar enganado, é claro).

É evidente que deixei de mencionar muita gente boa. Os clássicos são os clássicos, nem é preciso que se diga coisa alguma sobre eles. Dos contemporâneos, grande parte ainda não li (o Lobo Antunes, por exemplo, de vasta bibliografia, ainda não me caiu nas mãos). Quem sabe não serão assunto daqui a alguns meses?

Abraço,

Nelson Safi

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Nelson Safi

Nasceu em Porto Alegre faz tempo. Iniciou na literatura em 2002 ingressando na Oficina de Contos de Charles Kiefer. Ganhou uns prêmios por aí. Em 2004 lançou seu primeiro livro de contos (por enquanto o único), Balas de coco e outras histórias amargas, e ainda participou da antologia 101 que contam, organizada por Charles Kiefer. Em 2005 participou das antologias brevíssimos! e Histórias de quinta, organização de Charles Kiefer. Em 2006 participou das antologias Contos do novo milênio, editada pelo IEL – Instituto Estadual do Livro, e 103 que contam, ambas organizadas por Charles Kiefer. Por enquanto era isso.

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