Posts Tagged ‘Ademir Furtado

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out
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A crônica de Ademir Furtado: A condição indestrutível de ter lido um bom livro

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A condição indestrutível de ter lido um bom livro, por Ademir Furtado

a condição indestrutível

Há uma crença antiga entre alguns literatos de que literatura se faz com palavras, não com ideias. Essa máxima é válida com uma condição: a de que as palavras tenham força e vigor, e sejam pronunciadas com a potencialidade de fecundar a página onde penetram. E aí já caímos num paradoxo, porque a palavra fecundante já não é uma simples palavra, é um fluxo semântico capaz de alterar a significação de qualquer enunciado.

Recentemente li um livro que me fez refletir sobre essa questão. Trata-se de A Condição indestrutível de ter sido, de Helena Terra, publicado pela Dublinense em 2013. É o tipo de obra em que a linguagem é o personagem mais importante. A fabulação é simples. Uma mulher jovem cria um blog coletivo e lá conhece um homem e se apaixona por ele. Ou melhor, pelas palavras dele, pois o relacionamento, de início, é apenas virtual. Mais adiante, as palavras adquirem corpo e o homem se materializa num quarto de hotel. Impossível não fazer aqui uma associação com o poder de criação pela palavra. A mulher disse: faça-se o homem da minha vida, e o homem se fez. E a mulher viu que isso era bom e correu ao encontro dele.  Mas, passados poucos dias, viu que o homem era Mau e não hesitou em evocar outras palavras pronunciadas em outro quarto de hotel.

As leituras possíveis são várias. Uma delas, a personagem seria uma espécie de Pigmalião feminino da era da internet. Mas a minha preferida é a que dá à palavra o poder de despertar uma realidade que está potencializada num corpo ainda não fecundado. Porque o estado emocional da personagem é dado em algum momento. Ela vive um relacionamento real que é mais virtual do que aquele iniciado pelo computador, uma situação evidente de privação afetiva. A percepção da própria carência é a circunstância determinante do desejo por algo mais intenso. Porém, esse desejo á apenas latente, porque não tem um objeto em que se projetar. É alguma palavra lançada na tela do computador, que traz o significado de um homem dotado de poderes mágicos, que vai canalizar toda a ânsia por uma vida mais satisfatória. A partir daí, cada palavra desse homem vai se somar à primeira e construir na imaginação dessa mulher um texto que só ela lê. O próprio homem, aliás, cheio de reticências, um sinal muito eloquente da linguagem, parece não corroborar a leitura que ela faz do texto dele. Mas, para ela isso não importa. O texto que ela passa a recitar já estava ovulado, e só precisava do sêmen da palavra para germinar.

Se essa minha leitura tiver algum fundamento, aquela máxima do início desta resenha fica comprometida. E não seria pra menos, pois as palavras com esse poder de criação não andam jogadas ao vento como uma folha de papel em branco. Elas carregam o peso das ideias que transmitem e são certeiras, sempre visam um alvo determinado. A palavra que não tem o poder de transmissão de um pensamento é apenas um ruído para quem ouve, e uma mancha no papel para quem lê.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011).  As crônicas aqui publicadas aparecem no sítio Ademir Furtado.

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04
jun
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A crônica de Ademir Furtado – Recados de Londres: Um país que anda

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Um país que anda, por Ademir Furtado

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bus-london.

Coisa que não me parece muito inteligente é fazer comparações entre países ou culturas. Isso é avaliar um pelas medidas do outro, o que resulta sempre numa visão de hierarquia do tipo um é melhor ou pior que o outro. Creio que as comunidades se organizam de acordo com suas necessidades e potencialidades, que são, por sua vez, determinados por uma série de fatores intrínsecos.

No entanto, algumas diferenças são por demais gritantes porque dependem das escolhas das prioridades na condução dos assuntos públicos. E aí, entra a questão do bem comum social, preocupação que acompanha a humanidade pelo menos desde os gregos.

E, em se tratando de bem comum, se há algo de que os ingleses podem se orgulhar, pelo menos em relação aos brasileiros, é o transporte público. Andar de ônibus aqui, aqui em Londres, pode não ser o passeio ideal para um turista, mas certamente não é o suplício que se vive nas cidades brasileiras. Veículos em bom estado de conservação, conduzidos com a educação e o respeito de quem sabe que está carregando seres humanos. E com a periodicidade e precisão de deixar com inveja alguém que já esperou quarenta minutos numa para de ônibus no Brasil. Nem falo do metrô, por ser um transporte que não uso no meu cotidiano brasileiro. Limito-me à tranquilidade que se tem de saber quanto tempo se deve esperar numa parada. Como aconteceu num domingo, quando decidi aproveitar uma rara manhã de sol e passear num parque, acompanhado de um colega. Algumas linhas não funcionam domingo, e estávamos em dúvida, por não entender bem os códigos dos cartazes com informações sobre os horários. Então, meu colega sacou do bolso uma daquelas engenhoquinhas fantásticas, digitou meia dúzia de teclinhas e enunciou triunfante: “falta 1 minuto”. E foi só o tempo de guardar a maquininha de volta e o ônibus apareceu na outra quadra. Desse nível de eficiência resulta um trânsito civilizado, que flui com regularidade, com poucas ocorrências de congestionamentos. É um país que anda.

Numa hora dessas, mesmo correndo o risco de parecer superficial, é difícil fugir das comparações. Ou, por outro lado, é bom exercício mental fazer uma avaliação das escolhas das prioridades em nosso país. Quando se percebe que a medida de bem estar de um povo é a sua capacidade de consumo, é sinal de que alguma coisa está errada. Só mesmo uma mente distorcida poderia abandonar as preocupações com o transporte público e promover incentivo para compra de carro que vai ficar trancado no congestionamento, ou andar sacolejando em estradas cheias de buracos. .

Seria bem proveitoso, para o bem estar do povo brasileiro, se os nossos governantes mudassem o foco em suas concepções e entendessem que a riqueza de um país não é medida pelo número de carros que cada família tem na garagem, e sim, pela qualidade dos serviços e bens públicos que o povo tem para usufruir.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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24
maio
13

A crônica de Ademir Furtado – Recados de Londres: A pátria dos expatriados

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A pátria dos expatriadospor Ademir Furtado

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Pink Street Photography - London England - Graffiti
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Uma das coisas mais fascinantes numa viagem é a necessidade que a gente tem de se livrar dos referenciais do cotidiano e se reestruturar no novo espaço. É uma maneira de descobrir os aspectos que são realmente importantes da nossa personalidade, e os que a gente deveria abandonar, ou pelos menos trabalhar um pouco sobre eles. Nesse processo, a gente pode descobrir novas perspectivas, ou desenvolver potencialidades que ficaram adormecidas ao longo da nossa formação. Como a sociabilidade, por exemplo.  Eis uma qualidade que muita gente não desenvolve porque não precisa dela. Mas ser sociável num pais estrangeiro, onde não se conhece ninguém e não se domina o idioma, é quase uma questão de sobrevivência.

Pois tenho notado aqui em Londres, de parte dos imigrantes, uma receptividade que me surpreendeu. Minha experiência anterior na Europa foi na Alemanha, um pais que se mostrou muito carente desse sentimento de aceitação do outro. Mesmo para mim, com uma evidente descendência, e que cheguei lá com um conhecimento razoável de alemão. Mas lá os estrangeiros sempre foram vistos com muita desconfiança, quando não com aversão explícita.

Aqui em Londres, parece que os estrangeiros vivem num estado de espírito mais tranquilo, o que os torna mais simpáticos. É claro que se trata de impressões de terceira semana de viagem, de alguém que não está disputando espaço com ninguém. O que importa é que a sensação é boa. Não há aqui aquela tensão vivida na Alemanha nos momentos em que a comunicação se tornava difícil. Basta se mostrar um viajante que a curiosidade é imediata. E, por incrível que pareça, eles, em geral, gostam do Brasil, o que me dá um pouco de crédito para um bate-papo. Como o caso do garçom que, ao perceber meu inglês forçado, quis saber minha procedência. Era um português, e não precisou mais nada para desandar a falar de si. Casado com uma brasileira, tinha morado em São Paulo e exibia um inconfundível sotaque paulistano. Ou, ainda, o barbeiro libanês, o único que encontrei domingo de manhã. Foi só saber da minha origem para se pôr a falar de futebol e carnaval, provavelmente as únicas coisas que conhecia do Brasil. No final, nos despedimos com abraços e saí com a promessa de retornar em duas semanas, que é o tempo que minha barba leva para me deixar com cara de homeless.

Uma das hipóteses que desenvolvi é que a condição de estrangeiro deixa as pessoas mais tolerantes e receptivas. Como se fosse uma necessidade de encontrar o outro numa comunidade de exilados. Naturalmente que os ingleses nativos estão longe de parecerem pessoas antipáticas. Pelo menos aqueles com quem tive algum contato. Daí, eu fiquei divagando a respeito do sentimento deles sobre o lugar que ocupam nesta cidade. Considerando-se a quantia de imigrantes que se vê nas ruas, não seria de estranhar que os autênticos londrinos se sintam expatriados. Ou talvez, em tempos de globalização, o conceito de pátria precise de uma revisão. Um caminho que parece viável é que as fronteiras não sejam mais geográficas e sim espirituais, definidas apenas por esse desejo de ir ao encontro do outro.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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16
maio
13

A crônica de Ademir Furtado – Recados de Londres: Senso de localização

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Senso de localização, por Ademir Furtado

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London Eye
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Finalmente, estou em Londres. Uma viagem há algum tempo planejada, e várias vezes adiada. Como tenho aversão a roteiros turísticos, resolvi me lançar numa aventura de imersão cultural, e entrei num curso, para aprimorar o inglês e ter oportunidade de viver experiências mais gratificantes do que o deslumbramento de turista. Somente após cinco dias na cidade é que saí para ver alguns dos pontos que atraem milhões de pessoas do mundo inteiro para cá. E o primeiro que vi foi um relógio grande, fixado lá no alto da parede de um prédio antigo. E lá embaixo, milhares de seres embasbacados, com suas câmeras fotográficas apontadas, ou em poses gargarejantes. Não estava preocupado em saber as horas, segui adiante, atravessei uma ponte e, numa das margens do Tamisa, dei de cara com uma roda gigante que tem, no lugar das tradicionais cadeirinhas, umas cabines parecidas com elevador panorâmico. A vista lá de cima até deve ser legal, mas só de pensar em encarar aquela imensa fila que reproduz a Torre de Babel, já me senti cansado. Melhor mesmo é entrar num pub, tomar uma cerveja, e ir pra casa dormir.

Minha primeira experiência na cidade foi viver na prática a diferença estabelecida por Michel Onfray entre turista e viajante. (A Leila de Souza Teixeira já escreveu sobre isso, aqui) Não tenho a menor dúvida de que não sou, e acho que jamais serei, um turista típico. Minha incapacidade de deslumbramento chega a ser patológica. E minha câmera fotográfica continua guardada numa gaveta, e só vai sair para registrar alguma coisa que mereça ser revista no futuro.

Mas o que marcou mais profundamente meus primeiros dias aqui foi a constatação do meu senso de localização. Ou, melhor dizendo, as ferramentas que estou usando para me localizar em Londres. Ou talvez, no mundo. Ainda sou do tempo em que, ao chegar numa cidade estranha, a primeira providência era comprar um mapa e passar um dia inteiro estudando locais mais importantes. E fiquei meio surpreso ao perceber que esse comportamento parece bizarro para os meus colegas de curso, todos eles equipados com todos os tipos de aparelhos, com as mais incríveis tecnologias para localização: GPS, mapa do metrô de Londres, mapa de rua, tudo na palma da mão, acessado com um clic. Maquininhas estranhas demais para mim, que não uso sequer um celular. Aliás, a pergunta que mais ouço quando digo que não tenho celular é “how can you live?”, sempre acompanhada de uma cara de espanto. Ninguém mais precisa pedir informação na rua, ninguém mais se perde. Quer dizer, ninguém a não ser eu, é claro, pois na minha primeira viagem sozinho peguei o trem errado e fui parar não sei onde. Mas aí usei a única ferramenta que sei usar, pedi informação a um oficial da estação, que me ajudou com a presteza britânica, e voltei pra casa em paz e a tempo de pegar a janta.

No final das contas a gente sempre se acha, consegue encontrar o rumo e chegar aonde quer. Mas fica uma sensação de estranheza, de andar sozinho. E uma desconfiança de estar usando os instrumentos inadequados para se localizar no mundo. Acho que preciso me adaptar. Vou ficar um mês e meio por aqui e tentar desenvolver métodos mais modernos de localização.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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12
abr
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A crônica de Ademir Furtado: Vinho e conhecimento

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Vinho e conhecimento, por Ademir Furtado

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vinhos de boutique
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Eu me embriaguei pelo mundo dos vinhos há pouco menos de vinte anos. Daí em diante, comecei, não apenas a beber com um pouco mais de método, mas também, estudar o assunto. E para a felicidade de um enófilo, o mercado editorial está inundado de publicações sobre enologia, para quem quiser tomar um pileque de conhecimentos.  Seja o enfoque: histórico, filosófico e até literário. E uma das curiosidades encontradas é que o primeiro crítico de vinhos se chamava George Saintsbury, que viveu em Londres no começo do século XX, e tinha por ofício a crítica literária. Imagina-se que ele acalentava as horas de trabalho com algumas taças de algum Borgonha, que parece ter sido a região de sua preferência.

E estudar vinho é uma atividade mais ampla do que apenas ler compêndios e manuais, relatórios de safras, dados ampelográficos, e mapas de regiões produtoras. É tudo isso, mas também degustar com certa convicção. Eu diria até, uma visão de mundo. Alguns filósofos e poetas, não sei se por reflexões objetivas ou por efeito da bebida, afirmam que o vinho serve como meio para se adquirir sabedoria. Assim como um texto impresso nos informa dados sobre a cultura de um povo, uma taça de vinho, através dos sabores e aromas, nos transporta para o solo onde a bebida foi produzida. Isso, é claro, para quem bebe vinhos genuínos, aqueles que nascem sob a orientação do conceito de terroir.

E ao chegar nesse ponto, uma triste descoberta quase me fez desistir da empreitada. A sensação de ter chegado atrasado na festa. Porque, se há uma opinião unânime entre os amantes dos vinhos nobres é que, sobre os vinhedos do mundo inteiro, se alastrou uma nova praga, tão devastadora quanto a filoxera do século XIX.  E não se trata de mero saudosismo, ou pose de pedantes. Como todos as esferas da sociedade nos últimos tempos, o vinho também foi contaminado pela inescrupulosa ideologia do mercado, que nivelou tudo ao gosto do grande público. Assim como no cinema, na música e na literatura, no mundo dos vinhos também existe os best sellers, aquele feito para satisfazer as expectativas do maior número possível de consumidores. E tal qual um romance recheado de clichês, imagens pobres e frases óbvias, esses vinhos são impregnados de aroma de madeira e frutas, alto teor alcoólico e, quase sempre, com um final meio adocicado, destinados a agradar papilas gustativas acostumadas com coca-cola, que são os analfabetos funcionais do paladar.

Mas nem tudo está perdido. Não é o caso de chorar, porque o vinho não foi todo derramado. Ainda existe gente para quem o momento de empunhar uma taça de vinho é um ato de celebração à Natureza.  E um desses sobreviventes da tragédia se chama Neal Rosenthal, um mercador de vinhos de Nova York. Apesar de ser um comerciante, Rosenthal entende o vinho como o resultado de uma relação espiritual do Homem com a Terra. Orientado por essa concepção, ele dedicou décadas de vida a garimpar vinhos autênticos, para oferecer a uma clientela restrita, mas fiel. E registrou toda a experiência no livro Reflections of a Wine Merchant, lançado no Brasil pela Larousse Publicações, com o título de Vinhos de Butique: artesanais, raros e tradicionais.

O relato das aventuras pelas vinícolas do mundo, os relacionamentos, amizades e decepções com os vinicultores, são enriquecidas com observações sobre as práticas de cada produtor, as qualidades específicas de cada vinho. Mas também uma descrição de como o mundo dos vinhos foi se transformando nos últimos trinta anos, ao ser invadido por empresários de outras áreas, que nunca tiveram relação com a terra, para quem uma garrafa de vinho é apenas mais um número numa caixa registradora.

Para quem gosta de se perder no universo das narrativas, reais ou ficcionais, acompanhado apenas de uma taça de um vinho nobre, é aconselhável ter à mão um exemplar dessa obra. Também é bom fazer uma lista dos vinhos indicados e, em alguma viagem pelo mundo, tentar a sorte em alguma adega. Conhecer a complexidade da enologia através do próprio vinho pode ser um processo mas difícil e mais oneroso, mas com certeza, um complemento indispensável para o conhecimento mais profundo da mais fascinante das bebidas.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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08
mar
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A crônica de Ademir Furtado: Sobre um escritor

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Sobre um escritor, por Ademir Furtado

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um grande garoto - capa.

 

Gosto de pensar a literatura como uma re-apresentação da vida real. Não uma cópia fiel, como pretendiam os realistas do século XIX. E não descuido das controvérsias sobre o conceito de Realidade.  Mas a literatura é uma via de reconstrução, cuja matéria prima é a condição humana. Justamente por não se tratar de um relato jornalístico ela tem esse poder de apresentar alternativas ao cotidiano vivido. Para isso, ela penetra nos vazios entre os fatos concretos e traz à luz novos ângulos de abordagens.

É óbvio que há o perigo de acontecer o contrário. Em vez de investigar outras possibilidades existenciais, a ficção pode se contentar com a camada externa dos fenômenos. E nesse caso, não importa muito se é para condenar ou reafirmar, pois o resultado é sempre uma constatação de que não há nada mais a conhecer. Mas isso é uma opção do escritor condicionado pela sua capacidade de percepção e interpretação do real, e não uma característica da literatura.

Foi com essas divagações que concluí a leitura de About a Boy, de Nick Hornby, romance editado no Brasil com o título de Um Grande Garoto, e transformado em filme de sucesso, com o galã Hugh Grant. Vale mencionar, só por curiosidade, que em Portugal a tradução foi batizada de Era uma vez um rapaz.

E o rapaz em questão se chama Will. Tem 36 anos, único herdeiro de um casal já falecido. Mas antes de morrer, o pai garantiu ao filho as regalias do ócio, graças aos direitos autorais de uma canção de natal. E para completar o modelo de homem dos sonhos de qualquer mulher em busca de casamento, ele é bonito, educado, simpático, e muito charmoso. Mas, para não competir com a perfeição, há uma mácula nesse quadro: Will é um mulherengo incorrigível. É aquele tipo que as mulheres chamam de cafajeste, um homem para quem uma mulher só existe como uma conquista em potencial. Se uma fêmea à sua frente não tiver a medida certa para completar a cama, será ignorada. Preencher os dias não é tarefa penosa para Will: em casa, assistir televisão e ouvir Nirvana; na rua, correr atrás de mulheres. E, acima de tudo, evitar qualquer coisa que possa perturbar esse interminável sossego.

Esse perfil de Peter Pan moderno com que o personagem é posto em destaque tem uma explicação. Ele nunca precisou crescer. Os traços mais salientes da personalidade de Will são o narcisismo, a preocupação exclusiva com o próprio bem estar, e a incapacidade de manifestar a outra pessoa qualquer interesse que não seja sexual. Até aí, nada demais, se não houvesse, no contexto geral, uma conexão muito sólida entre todos esses itens. Ao chegar ao ponto final, o leitor é conduzido a um juízo implícito: um homem adulto que não consegue se envolver afetivamente com uma única mulher é um imaturo.

Eis aí o perigo de se manter na superfície do já conhecido. Essa avaliação psicológica dos misógamos é um dos grandes clichês do senso comum, propagado, inclusive, por alguns catecismos com pretensões científicas.  As culturas consolidadas se apoiam em conceitos definidores de valores morais, e esses valores são reproduzidos em rituais de passagem que o indivíduo deve vivenciar, sob pena de ficar à margem da sociedade. Assim, um homem de 36 anos que não se estabeleceu numa carreira, não casou, não construiu uma família, e, para quem o substantivo mulher só existe no plural, é uma eterna criança malograda na tarefa de se tornar adulto. Não há na obra analisada, um único vestígio de desconfiança sobre o status sacralizado de um desses rituais de passagem.

O tom conservador ainda é observado na composição do personagem. Will é um admirador convicto da banda Nirvana, e principalmente do vocalista Kurt Cobain, ídolo da juventude revoltada dos anos 90. Não por acaso, uma das canções do grupo se chama About a Girl. Mas essa admiração é mostrada como uma pose cool, uma performance executada apenas para seguir a tendência da época, sem maiores consequências. Afinal, que motivos teria Will para se revoltar?

É evidente que o livro não se resume a esse moralismo simplório. Há pelo menos dois aspectos que compensam a leitura. O primeiro, a verve humorística que pinta os quadros mais coloridos ao longo das quase trezentas páginas. Em segundo, a habilidade com que o autor evitou o maniqueísmo vulgar, tão comum nesse nível de abordagem. É indisfarçável a compaixão que o criador nutre pelas limitações humanas de suas criaturas. Apesar de refugiado numa eterna infância, Will é um sujeito bom caráter, pintado como vítima de uma sensibilidade reprimida  que, no final, apesar de tudo, vai conduzi-lo à tão difícil maturidade. Pelo menos àquilo que Nick Hornby e o senso comum entendem como maturidade.

E o momento inicial dessa jornada é o encontro com outra personagem, um garoto de 12 anos, o oposto de Will. Marcus é um exemplo comum de criança-problema. Também filho único de pais separados, solitário, deslocado na escola, ridicularizado pelos colegas, debate-se num constante desespero para crescer e fugir de uma desconfortável infância controlada por uma mãe sobrevivente a uma tentativa de suicídio. É justamente quando os caminhos de Will e Marcus se cruzam que a dupla vive as peripécias mais excitantes dessa aventura. A partir daí, o narrador negligencia os demais personagens e se dedica a vigiar os dois garotos pelas ruas da cidade, uma amizade narrada com muito humor, ironia, e uma sutil crítica moralista aos costumes da Londres dos anos 90

Não acho que a posição do autor em relação ao tema abordado seja determinante de sua importância literária. Também não devoto minha atenção  apenas a textos que reafirmem minhas próprias crenças. Creio apenas que num caso como esse, em que a narrativa flutua na simplificação das ideias comuns, a literatura deixa de atualizar uma das suas mais importantes e ricas potencialidades.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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24
maio
12

A crônica de Ademir Furtado: Um caso de idolatria

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Um caso de idolatria, por Ademir Furtado

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Eu era um garoto que não amava os Beatles e mal conhecia os Rolling Stones.  Elvis Presley não passava de um nome que o rádio anunciava de vez em quando, e um ator de filmes de matinê. Uma infância imune à influência dos ídolos daquela época. Até que um dia, no ano de 1972, eu desperdiçava o tempo na frente de um aparelho de televisão, entre os adultos que assistiam a um festival de música popular brasileira. A programação, sem muita graça para um impúbere, prendia apenas pelo hábito de esperar o sono diante de um totem que ainda simulava um pouco de magia. Mas, uma voz que soava onipresente anunciou o próximo participante. E um magricelo saltou no palco, com um microfone na mão. Vestido de preto, calça e jaqueta de couro, a gola levantada, e um topete atrevido avançava por cima da testa. O visual lembrava muito bem aquele galã que cantava e rebolava, e fazia as vezes de herói no cinema das tardes de domingo. Uma apresentação bem diferente dos demais artistas que se uniformizavam dentro de calças de boca larga e cabeleira caída sobre os ombros. Mas não só a roupa. A música era diferente. Os primeiros versos da letra, num inglês impostado, pareciam delírio de um doido a repetir incansável uma súplica diante da platéia. E o corpo todo se contorcia ao compasso da música, à semelhança de Elvis Presley nos filmes da sessão da tarde. Em seguida da introdução, emendava um trecho em português, num outro ritmo marcado por uma sanfona nordestina, que eu conhecia muito bem de tanto ouvir as melodias de Luiz Gonzaga. E o topetudo afirmava, como um pedido de desculpas, que não queria provar nada, não tinha nada pra dizer, também. Ele só queria cantar um rockzinho antigo, que não tinha perigo de assustar ninguém. Anos mais tarde, gaguejando algumas palavras de inglês, aprendi a cantar o refrão:

let me sing, let me sing,

let me sing my rock’n roll,

let me sing, let me sing,

let me sing my blues and go.

Na inocência de pré-adolescente, eu não atinava no significado daquela mistura de rock com baião. E também nem desconfiei que começava ali naquele momento o meu primeiro, e quase único, caso de idolatria.

E foi com um sentimento de reverência e passadismo que quebrei um jejum cinematográfico de vários meses para assistir ao filme Raul – o início, o fim, e o meio. Desnecessário dizer que não dei a mínima importância para questões formais da obra. Não sei avaliar se o filme é bom ou ruim do ponto de vista estético. E não só pelo fato de não ser um crítico de cinema. É que para um fã saudosista a figura de Raul Seixas transcende qualquer pretensão racional. Como um devoto fascinado, prostrei-me mais uma vez diante de uma tela para reverenciar um ídolo que virou mito e deixou sua marca de carimbador maluco na música brasileira.

Com a sucessão dos quatros eu voltei aos meus 13 anos, quando, em nova aparição na TV, Raul executava uma performance debochada. Dessa vez, um personagem, entediado com a vida de classe média, ironizava o coro dos deslumbrados com a ilusão de progresso do regime militar. Já morava em Ipanema, tinha comprado um Corcel 73, e pelas graças do Senhor podia desfrutar do domingo para ir com a família ao jardim zoológico dar pipoca aos macacos. Era o ouro dos tolos do milagre brasileiro.  Mas uma metamorfose ambulante, que sabia ser a mosca na sopa de muita gente, não podia parar na pista, pois sabia o perigo de ser atropelado. E numa sociedade alternativa com o futuro mago Paulo Coelho mergulhou nas drogas e na cultura indiana; andou pelos quatro cantos do mundo anunciando a chegada do Novo Aeon, e se tornou a luz das estrelas, o início o fim e o meio para uma geração. Durante um breve período, Raul Seixas brilhou incontestável como a vela que acende e a força da imaginação da música brasileira. Mas toda fonte luminosa um dia se apaga.

Aqui, mais uma vez, a trajetória do maluco beleza se aproxima da do pai do Rock, que ele tentava imitar no início da carreira. Um dos momentos mais impressionantes do documentário é a projeção de uma cena de Balada Sangrenta, estrelado por Esvis Presley, numa montagem em que as imagens dos dois roqueiros se confundem na parede de um edifício.

Nos anos 80, uma nova realidade brasileira demandava outras maluquices, e o cowboy fora da lei, com a saúde debilitada pelas drogas e pela bebida, foi jogado pra fora do trem. No final da década, por iniciativa de um novo amigo, Marcelo Nova, tentou outra vez retomar a missão de carpinteiro do universo. Mas era tarde. Apenas um disco gravado e alguns shows pelo Brasil serviram para antecipar o que os médicos já haviam diagnosticado poucos anos antes: o fim estava chamando o princípio pra poderem se encontrar.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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