Posts Tagged ‘Ademir Furtado



19
abr
12

A crônica de Ademir Furtado: A era do spam

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A era do spam, por Ademir Furtado

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No cruzamento da Borges de Medeiros com a Rua da Praia, em Porto Alegre, um homem enfiado numa roupa escura, com uma Bíblia na mão, proclama, veemente, o fim dos tempos, e a necessidade de remissão de todos os pecadores.  Os passantes, no entanto, prosseguem seus rumos, impassíveis frente à iminência apocalíptica.

Rivalizando com o pregador, um menino entrega prospectos anunciando empréstimo fácil, sem comprovação de renda, com juros baixos. Num espaço limitado pela torrente de pedestres aglomera-se uma turma de oferentes com notícias de boas novas, uma solução para algum problema. Uma mulher veste um cartaz indicando a compra de ouro; o cego com bilhetes da Mega Sena já preenchidos. É uma lista interminável de dádivas tentadoras, ofertas imperdíveis. Esses arautos da sorte cumprem como autômatos uma tarefa, indiferentes à indiferença dos outros. Não se preocupam muito que suas palavras ou folhetos sejam levados pelo vento, ou jogados na lixeira logo adiante.

A esquina é democrática, aceita, resignada, variadas manifestações e promessas de salvação, seja do espírito, ou da conta bancária.  Mas também permite que se passe insensível a tudo isso. Então, um fenômeno torna-se evidente: há um excesso de mensagens no ar e uma carência gritante de respostas. É provável que aqueles transeuntes da Rua da Praia tenham outros motivos de pressa, outros valores a serem resguardados, e por isso não se deixam cair nas tentações da esquina. Sim, eles também estão correndo em direção a um público, a quem vão fazer um comunicado surpreendente. Não importa que suas vozes também se percam na balbúrdia. Palavras berradas ao vento, em lugares públicos, no meio da multidão, hão de atingir ouvidos dispersos.

Os personagens da esquina ainda praticam a técnica rudimentar, quase abandonada hoje em dia, de enfrentar cara a cara seus alvos, talvez pela convicção de que o benefício que trazem é vital.  Mas a necessidade mais premente do indivíduo contemporâneo é mandar seu recado. E a tecnologia, que não é mais do que uma resposta às ansiedades humanas, evoluiu bastante para simplificar a vida e evitar esforços dispensáveis. Basta ter em casa um computador com acesso à internet para se economizar tempo e as cordas vocais, emitindo mensagens aos milhares, entupindo as caixas de entradas de correios eletrônicos, mundo afora.  E ainda se poupa do cansaço que o contato mais íntimo eventualmente exige. Desnecessário empenhar-se no sucesso das mensagens enviadas.  Sempre haverá um receptor ocioso. Resposta? Não carece. O importante é projetar-se, fazer barulho, registrar uma existência, ainda que ínfima. A conquista de um espaço no mundo passa pela manifestação de algo original, mesmo que a originalidade tenha virado uma obsessão coletiva, e se tornado um clichê. E mesmo que a excentricidade não chame mais a atenção de ninguém, afinal de contas, os outros também estão ocupados com sua própria singularidade. As conquistas na área de valores sociais proporcionaram a cada cidadão o direito de falar o que bem entende, mas também o de ouvir apenas o que interessa. Os canais de emissão se multiplicam, mas os de recepção estão bloqueados. Ou, no máximo, permitem comentários com moderação. O spam é o modelo da comunicação na sociedade atual. E o que mais caracteriza as vivências interpessoais é essa gritaria sem fim nas esquinas democráticas.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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15
mar
12

A crônica de Ademir Furtado: Herrar é umano

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Herrar é umano, por Ademir Furtado

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Se a gente considerar que é o leitor que constrói o significado do texto, pode-se dizer que qualquer leitura vale a pena. Essa premissa, no entanto, pressupõe um leitor habilidoso, que estabelece uma relação de empatia e ao mesmo tempo desconfiança com o que lê. Esse preâmbulo é para contar que há poucos dias ocupei algumas horas com mais um capítulo da literatura gaúcha, uma dessas obras que a gente aprecia mais pelo valor histórico do que pelas qualidades estéticas.

Nessa nova empreitada, a narrativa conta a história de uma família, e em algum momento, perto do desfecho, todos os personagens importantes da trama se encontram, numa espécie de acerto de contas. A cena é muito tensa, dramas familiares, muita choradeira, fortes emoções. Até que o narrador assume o controle e estanca aquele fluxo de lágrimas com a seguinte frase:

‘HOUVERAM alguns momentos de silêncio”.

A primeira impressão foi de engano de leitura. Reli a frase e aquele HOUVERAM continuava lá, firme. Então voltei ao início do trecho para ver se havia alguma explicação. Não havia explicações. A data de publicação do livro poderia ser um álibi. Quem sabe naquele longínquo ano de 1851 algumas liberdades gramaticais não eram permitidas, sobretudo aos escritores, tão raros que eram na rústica província de São Pedro? Mas não tive ânimo para investigar essa hipótese.

Depois, cogitei na responsabilidade da editora, falha de revisão, e por fim, concluí que o melhor a fazer era saber logo se o velho e severo pai ia dar a mão da filha ao mocinho pobre mas inebriado dos mais altos valores morais, ou ao moço rico com passado nebuloso. E cheguei ao fim da leitura sem que aquele detalhe gramatical comprometesse o efeito geral do texto.

Mas a memória é uma trocista incansável e passou a me cutucar com outros exemplos semelhantes. Um deles, o de uma celebridade das letras nacionais, que numa colaboração para um jornal, numa quarta-feira de cinzas, escreveu que desde sua infância até os dias presentes “HOUVERAM muitos carnavais muito legais”.  E não satisfeita com isso, minha memória foi buscar outro caso da mesma natureza. Na descrição de uma festa de gente fina e elegante na casa da estilista Coco Chanel, alguns animadores ENTRETERAM muito bem os convidados. Esse, pelo menos, era uma tradução, o que isenta o escritor, mas deixa a editora na obrigação de voltar às aulas de português.

Quem costuma navegar pelos blogs e páginas na internet, sobretudo aquelas de crônicas do cotidiano com pretensões literárias, já deve andar anestesiado pelos efeitos de algumas liberdades gramaticais. Construções do tipo “há anos atrás“ e “a muito tempo” já adquiriram uma certa normalidade pela persistência, feito aquele zumbido no ouvido que, por não ter cura, deixou de  incomodar. Sem falar no rapaz que perdeu a namorada no primeiro parágrafo e saiu desesperado em busCA DELA. Parece que, quando está em jogo a genialidade e o poder de expressão, não há que se perder tempo com questões de regras e convenções. Muito menos com vagas questões de estilo. Vivemos a época da supervalorização da personalidade individual e o que conta é se manifestar, ter a existência reconhecida.

Não saberia dizer com certeza, até que ponto essas idiossincrasias são conseqüência direta da atuação de alguns pedagogos que, em décadas anteriores, houveram por bem sair a campo para defender a supremacia do conteúdo da mensagem, em detrimento de regras formais, tidas como discriminatórias. Sei é que houve alguns apressados que confundiram proficiência com opressão, e temo que a literatura hoje esteja sendo oprimida por tais pedagogias. Para os escritores de internet, o problema é de difícil solução, pois há muito improviso, e muita pose. Mas, para as obras impressas em editoras, eu penso em parodiar o Paulinho da Viola e dizer: tá legal, tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere a gramática tanto assim, olha que algumas dessas relíquias vão ser adotadas por escolas, ou cair nas mãos de algum leitor em formação, que ainda vê o livro como uma autoridade incontestável.

E talvez para amenizar a situação com o recurso do humor, lembrei de uma pichação de muro que li certa vez: HERRAR É UMANO. Assim mesmo, transcrita de maneira incorreta para justificar o conteúdo. Mas é possível divagar em outra direção: o autor da brincadeira recorreu a uma sentença popular para se redimir das dificuldades com a ortografia. De qualquer maneira, com a grafia certa ou errada, essa epígrafe pode servir muito bem de subterfúgio para algum colegial preguiçoso, com deficiência na gramática, mas não tem o poder da generalização. Pois creio que existe uma grande diferença entre o erro e o desprezo pelo acerto. É uma questão de escolha. Se os latinos tinham o seu errare humanum est há que se ter em mente o complemento: perseverare autem diabolicum.

Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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26
fev
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A crônica de Ademir Furtado: Literatura real

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Literatura real, por Ademir Furtado

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As relações entre literatura e realidade são tão antigas quanto a arte de narrar. Para uma corrente dos estudos literários influenciada pela poética clássica, o objeto privilegiado da literatura é a realidade. A literatura, portanto, seria uma imitação do mundo real. Depois, com o desenvolvimento dos estudos sobre a linguagem, o conceito de real foi questionado e denunciado como mera representação que depende do ponto de vista, uma construção retórica com muita influência da subjetividade. Entretanto, a desconfiança do status de real não destruiu de maneira definitiva alguns elementos fundamentais da arte literária, entre eles o personagem. E a menos que se trate de alguma experimentação bizarra, o personagem será sempre um ser humano.  O problema é que um ser humano não vive sozinho no planeta. Ele precisa de interação com outros da mesma espécie, o que resulta na existência de conflitos, outro elemento que nem as experiências mais extravagantes da literatura moderna conseguiram abolir. Acrescente-se que os conflitos se estabelecem porque as pessoas precisam agir para se manterem vivas. Então, existe um objeto que pode ser definido, sem nenhuma hesitação, como real: as ações humanas. Motivos e significações de uma atitude podem ser questionados, mas não há como duvidar do caráter real de uma ação ocorrida num determinado local e num momento do tempo. Já é um começo.

E aqui retornamos ao princípio de tudo. Aristóteles, na Poética, afirma que as ações humanas são o objeto privilegiado da narrativa, pois é pela ação, e não pelo caráter, que o indivíduo determina sua boa ou má sorte. Ora, uma ação humana sempre produz uma conseqüência, que gera um acontecimento, que vira história.

Tantas divagações com pretensão de filosofia surgiram com a leitura do livro Habitante irreal, de Paulo Scott. Obra publicada no final de 2011, já teve resenha no Caderno Cultura da Zero Hora, na revista Bravo, e foi matéria de capa do jornal Rascunho, só para citar os que eu li. Essa grande divulgação na imprensa já demonstrou o valor da obra e ressaltou suas principais características, o que me isenta de discorrer sobre detalhes da narrativa. Minha intenção é apenas assinalar um aspecto que, na minha opinião, constitui um dos maiores méritos do livro – não o único, com certeza.  O fato de abordar a história recente do Brasil. Não sei porquê, –  e isso é algo que merece uma investigação mais profunda, –  a literatura brasileira, e principalmente a do Rio Grande do Sul, não se ocupa muito da história atual do Brasil. Com a ressalva de que eu posso estar desatualizado, um caso raro nos últimos anos aqui nos pampas é o romance Quem faz gemer a terra, de Charles Kiefer, que a partir de um episódio policial ocorrido em Porto Alegre, mostrou sua visão do Movimento dos Sem Terra. No mais das vezes, a história só aparece na literatura como um passado distante, sem nenhuma ligação com o presente, um recorte isolado numa linha de tempo, esterilizado por convenções literárias, um passado sobre o qual é muito fácil se posicionar, pois já teve sua dimensão definida e consolidada pelo mundo acadêmico.

Nesse contexto, o livro de Paulo Scott aparece como uma provocação. Se é verdade que a arte re-apresenta a realidade, quantos brasileiros desiludidos com antigas utopias não encontram no Paulo-personagem o eco da própria decepção? E quantos não verão em Donato uma cópia da geração de jovens contemporâneos carentes de representação legal, abandonados por lideranças políticas de outrora, hoje tão ocupadas nas disputas de cargos e poder.

Há quem diga que a literatura possui um conhecimento próprio, que só ela consegue transmitir. E aqui voltamos mais uma vez a Aristóteles quando ele afirma que “nós contemplamos com prazer as imagens mais exatas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância”. Talvez a realidade atual seja por demais complexa, cruel e cansativa para ser enfrentada sem temores. Por isso, a importância de escritores que, como alternativa ao mero entretenimento livresco, ousam abordar as trajetórias humanas assim como elas ocorrem na vida das pessoas reais do presente. A literatura assim é mais viva, mais real.

Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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26
jan
12

A crônica de Ademir Furtado: Manias de riqueza

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Manias de riqueza, por Ademir Furtado

 

Na virada do ano, todo mundo inventa que vai melhorar a vida, se dedicar a novos projetos, mudar um pouco de rumo. As pessoas mais sensatas dimensionam os novos propósitos com base numa revisão do ano anterior, que serve para avaliar anseios e capacidades, e assim se resguardarem de frustrações desnecessárias.  Foi o que eu fiz no final de 2011, quando comecei a rabiscar as minhas metas para os próximos doze meses. E eis que me vi numa tremenda confusão, causada pela melhor notícia de todos os tempos: o Brasil despontou como potência econômica, à frente, inclusive, da Inglaterra. É uma mudança dramática para quem vivia acostumado a planos de pobre, tais como economizar o salário pra comprar um carrinho usado, financiado em trinta e seis vezes; passar um réveillon em Florianópolis, numa casa alugada com a turma de amigos; quem sabe até guardar o décimo terceiro de uma década para realizar um sonhado intercâmbio cultural. De repente, tudo mudou, somos um país rico, com promessas de termos um padrão de vida europeu em menos de vinte anos. Logo agora que um dos objetivos que tracei para este ano era justamente visitar a Inglaterra, fazer um novo contato com a civilização. Na verdade, o intuito de viajar não sofreu alteração. O que tem me inquietado são algumas dúvidas quanto ao meu novo status. Será que os ingleses vão me receber com aquele deslumbramento típico com que os nativos de países pobres bajulam os habitantes de nações abastadas? Precisarei melhorar meu inglês, ou posso chegar lá com aquela convicção de que o português é a língua natural dos seres humanos e, portanto, entendido por todos os falantes do planeta? Sem falar na necessidade de aprender a me comportar como se vivesse no primeiro mundo, coisa que os argentinos já nascem sabendo.

 

O Brasil (quem diria?) virou notícia mundo afora, e não pelas jogadas fenomenais dos grandes astros de futebol, nem pelas bundas mulatas em desfile nas praias cariocas, muito menos pelo turismo sexual dos europeus no nordeste, e sim porque se tornou a terra prometida para muita gente, inclusive haitianos e bolivianos. Ainda não se sabe de nenhuma inglesa que tenha desistido da universidade de Oxford ou Cambridge para tentar a sorte como doméstica na Barra da Tijuca e no Morumbi, ou correr atrás de uma gravidez brasileira para conseguir cidadania, mas já temos casos comprovados de executivos americanos que deixaram para trás a incerteza enervante de Wall Street para se instalar no sossego promissor de São Paulo. E desceram em Cumbica com tudo prontinho, sala montada na Avenida Paulista, documentação em ordem. Nem precisaram se esgueirar pelos becos sinuosos da fronteira boliviana para chegar até aqui.

 

Mas, o mundo é cheio de gente maldosa, e a inveja é uma das muitas chagas que resistem a qualquer evidência de progresso. Tem gente por aí dizendo que essa riqueza é apenas pra inglês ver, pois foi uma instituição britânica que anunciou a boa nova. E o empenho em destruir as conquistas alheias é tão grande, que alguns agourentos foram até buscar dados estatísticos para justificar a falta de entusiasmo. Um dos argumentos que os negativistas apresentaram é de que essa camada da população que o IBGE chama de classe C realmente está ganhando mais, mas não conseguiu acesso àqueles benefícios que caracterizam a ascensão social, tais como curso superior, assistência médica qualificada, e até uma viagem ao exterior de vez em quando. Eles espalharam boatos de que os emergentes da Era Lula ganharam maior poder de consumo, e vão poder trocar a tevê de 14 polegadas por uma de 42, digital, tela LCD, mas vão continuar consultando pelo SUS, e o divertimento preferido continuará sendo a novela das 8, que aliás começa às 9, o fantástico mundo da informação inútil, e a mesma bestialidade boçal brasileira, que a cada começo de ano estupra mentes vazias e sonolentas de milhões de brasileiros.

 

Mas a vida clama por otimismos, e como diz a sabedoria popular, sorte tem quem acredita nela. Por isso, não convém estragar a euforia de um começo de ano com questões complicadas de estatísticas e avaliações morais. Eu apenas gostaria de pedir aos nossos governantes que, para este ano que começou há quase um mês, procurem entender a diferença que existe entre ser rico, e ser um pobre com dinheiro no bolso. Talvez essa não seja uma questão importante para as faculdades de Economia, mas com certeza é uma preocupação muito grande para aquelas pessoas que, mesmo que tenham três neurônios ativos, gostam de ligar a televisão no horário nobre.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

 

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22
dez
11

A crônica de Ademir Furtado: Realidade fictícia

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Realidade fictícia, por Ademir Furtado

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Um assunto que tem me fascinado bastante há alguns anos é a relação entre história e literatura. Há muita coisa escrita sobre o tema.

Por um lado temos a realidade histórica como matéria prima para a ficção. Aqui está implícito uma concepção de arte como representação da realidade. A maioria dos seres viventes se contenta com as manifestações imediatas do mundo. Mas alguns indivíduos, privilegiados por uma sensibilidade mais aguçada, são tocados também pelas nuances mais sutis do vivido. Como habitantes da caverna platônica que conseguiram chegar ao lado de fora, eles recriam essa experiência através de narrativas fictícias, a fim de mostrar aos seus semelhantes a complexidade da vida e denunciar a falsidade das aparências projetadas nas sombras. É a história como fio condutor da ficção

Por outro lado, o historiador sempre recorre a um pouco de ficção para preencher o espaço entre os dados colhidos na pesquisa, por mais séria que ela seja. Um texto historiográfico também precisa de um ponto de vista, um recorte no tempo e no espaço, e isso não deixa de ser uma construção a priori do conteúdo descrito. Em outras palavras, um recurso às técnicas de ficção, usada como instrumento para contar a história real.

Lembro de uma biografia de Dostoievski em que o autor relata o deslumbramento de Ana Grigorievna ao ser pedida em casamento por aquele que ela admirava como escritor e já amava como homem. É verossímil que a então estenógrafa tenha se sentido feliz, pois, afinal de contas, ela aceitou o pedido sem vacilar, e, ao que consta, foi a grande companheira do escritor até o final da vida. Mas a descrição do estado de espírito da futura esposa, ainda que tenha se baseado em diários da própria Ana, faz parte do propósito do autor de mostrar que Dostoievski teve uma vida menos atribulada na velhice do que na juventude. A imaginação preencheu, com certa dose de honestidade, o vazio entre os registros concretos, e isso não diminui em nada o aspecto de verdade histórica.

Um livro no qual essas duas dimensões da narrativa, a real e a fictícia, se entrelaçam numa teia de significados é Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. A autora se empenhou por vários anos num imenso trabalho de pesquisa para recriar com fidelidade os meandros do então mais influente centro de poder do planeta.  Mas não se limitou a uma descrição realista da biografia de um homem poderoso. Ela vasculhou os labirintos de uma cultura prestes a desaparecer e com o mesmo assombro de quem viu as legiões de bárbaros diante dos muros de Roma, ela sentiu os temores da decadência iminente. Não por acaso, o Adriano de Marguerite Yourcenar ocupa seus últimos dias de vida para relatar suas aventuras a um jovem Marco Aurélio, futuro herdeiro, de alma e de trono.

Segundo declarações da própria autora, ela se beneficiou das liberdades de ficcionista para a construção do seu personagem, sobretudo ao atribuir a ele certo poder de clarividência, ou concepções de mundo que só viriam a ser desenvolvidas nos séculos seguintes. Mas essas características estariam de acordo com a personalidade do imperador, vislumbrada através de reformas que ele patrocinou no campo da economia e do direito, transformando o império romano naquilo que para Marguerite seria um exemplo ideal de civilização clássica.

Mesmo assim, não se pode classificar essa obra como romance histórico, naquele sentido tradicional em que o escritor apenas se transforma num historiador liberado da rigidez das regras acadêmicas. Aqui a escritora se apropriou de um personagem real, cuja biografia continha os elementos que ela procurava para compor sua própria visão de mundo. A história real já estava pronta, ela só precisava selecionar os acontecimentos vividos pelo personagem, para construir uma unidade de sentido ficcional. E com isso, ela antecipou o que Paul Veyne diria algumas décadas mais tarde: a história é um romance verdadeiro.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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09
dez
11

Aconteceu na Palavraria, nesta quinta, 08/12: Lançamento do livro “Se eu olhar para trás”, de Ademir Furtado

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Aconteceu na Palavraria, nesta quinta, 08/12: Lançamento do livro Se eu olhar para trás, de Ademir Furtado. Fotos do evento.

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06
dez
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Vai rolar na Palavraria, nesta quinta, 08/12: Lançamento do livro Se eu olhar para trás, de Ademir Furtado

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08, quinta, 19h: Lançamento do livro Se eu olhar para trás, de Ademir Furtado (Dublinense)

Estreia literária de Ademir Furtado vai e volta no tempo, usando a história e a ditadura para mostrar como o presente é formado por resíduos do passado

Logo na primeira cena descrita em Se eu olhar pra trás, o carro do protagonista, Edimar, adentra a cidade – e nós vamos com ele. A partir daí, ingressamos na trama intensamente urbana criada por Ademir Furtado, escorada em pontos-chave de Porto Alegre e Santa Maria, que recria o clima opressivo da ditadura militar, de apreensões e prisões repentinas. Edimar é impelido, às vésperas da aposentadoria, a buscar documentos do falecido pai, professor de história. Essa busca irá arremessá-lo em seu próprio passado, obrigando-o a repensar sua vida, tão frustrada, tão norteada pela inércia. O livro se estrutura num vaivém temporal constante, guiado por rememorações, e apresenta um texto movimentado, ágil. Os tais documentos são como as madeleines proustianas, desencadeadoras de um devassamento da vida pregressa, como já é explicitado no próprio título. A política também aparece com força, pontuando a trama temporalmente, e os anos de chumbo da ditadura militar são essenciais aqui. A história do país mistura-se à história das pessoas e suas vidas cotidianas. O ontem lança sua luz sobre o hoje, determinando-o – é o que sempre parece ser dito no volume, ocupando linhas e entrelinhas. Como bem diz um personagem a certa altura: “Assim como o deus Jano, que vês aqui nesta estátua, tenho uma face voltada para o passado, para poder organizar o futuro. Um é reflexo do outro”.

Ademir Furtado nasceu em Canguçu (RS), mas é cidadão porto-alegrense, por opção, desde 1981. Formou-se em Letras – licenciatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas não quis ser professor. Ganha a vida como funcionário público na Justiça Federal.

Editora – A Dublinense foi criada em 2009 com o objetivo de formar um catálogo eclético. Isso significa receber os jovens e criativos autores, mas também os escritores maduros e já consagrados. Os valores que norteiam a editora são o apuro com a palavra e o cuidado gráfico. A linha editorial da Dublinense está direcionada principalmente para os gêneros tradicionais da literatura de ficção, mas compreende também livros de negócios, ensaios, relatos e esportes. Seus sócios e idealizadores são Gustavo Faraon e Rodrigo Rosp.
A lista completa de pontos de venda da Dublinense pode ser consultada no site www.dublinense.com.br.

LANÇAMENTO DE SE EU OLHAR PRA TRÁS, com sessão de autógrafos do autor.
Preço: R$ 32,00 (exemplar) / Formato: 14 x 21 cm / 192 páginas

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