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ago
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A crônica de Ademir Furtado: Antigualhas

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Antigualhas, por Ademir Furtado

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O livro Antigualhas, de Antônio Álvares Pereira, mais conhecido como professor Coruja, é uma relíquia, tanto no sentido literário quanto histórico, porque é uma espécie de registro de nascimento da cidade de Porto Alegre. A introdução de Sérgio da Costa Franco, na edição ERUS, nos apresenta um pouco da biografia do autor. Nasceu no ano de 1806, quando Porto Alegre ainda se limitava ao estatuto de Freguesia. Tornou-se um homem letrado, e foi um dos primeiros professores da comunidade. Já adulto, tomou partido no entrevero dos Farrapos, acabou perseguido, fugiu, e foi se esconder no Rio de Janeiro, onde residiu até a morte. Na Corte, teve atuação constante no meio intelectual. Mas nunca esqueceu suas origens. Tanto que, na década de 80, já no final da vida, se pôs a rememorar a província, através de crônicas publicadas em jornal local. E essas lembranças vieram a constituir o Antigualhas..

Mas a Porto Alegre representada nas crônicas transformou-se numa cidade singular, construída por um saudosismo criativo. E o bom humor com que descreve o cotidiano dos porto-alegrenses é o estado de espírito dessa volta ao passado. O caráter de vila fica mais evidente no hábito popular de dar nome à ruas, que na época não passavam de becos ou trilhas. O nome oficial era, em geral, trocado pela alcunha do morador mais ilustre, ou mais conhecido. É o caso do Beco do Fanha, atual Caldas Júnior, assim chamada porque ali morava um sujeito com dificuldades na fala.  A Rua do Arroio, hoje Bento Martins, recebia duas denominações. Numa ponta, Beco dos Nabos, referência a um morador que vendia nabos; e na outra ponta, Beco dos Pecados Mortais, uma alusão à conduta moral dos moradores. Na subida de uma determinada ladeira, encontrava-se, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre à janela, “a individua mais notável do bairro”. Essa “individua” era tal que “para falar pelos cotovelos não precisava arregaçar as mangas” uma vez que usava roupas que deixavam não só os cotovelos à mostra. E mais ainda, “era conhecida pelo nome de não sei que de bronze, mas por conveniência de pessoas sérias a chamavam simplesmente a Bronze”. E assim se justifica que um canto do centro da capital se chama até hoje de Alto da Bronze.

Outro detalhe importante é o tom afetuoso com que a cidade é retratada. Considerando-se que as crônicas foram escritas após meio século de afastamento, é certo que Porto Alegre se manteve viva na memória afetiva do expatriado. Conclui-se daí, que essa mania de levar Porto Alegre a qualquer lugar que se vai é uma extravagância muito antiga. Não sei se nessa época o chimarrão já era um hábito urbano, mas vale o exercício de imaginar o professor Coruja passeando pelas praias cariocas com uma cuia na mão e uma chaleira de água quente na outra; ou, ao final da tarde, com os olhos perdidos no horizonte, à procura de um pôr do sol igual àquele do Guaíba, que os habitantes de Porto Alegre até hoje insistem em acreditar que é o mais lindo do mundo. Um século antes do surgimento dos dois maiores símbolos dos gaúchos, o Grêmio e o Internacional, a maneira mais eficaz de dizer “ah, eu sou gaúcho”, foi fazer a recriação literária de uma Porto Alegre que não existia mais de fato, mas continuava bem viva no coração do cronista.

Parece que o gaúcho em geral, e o porto-alegrense em particular, sofre até hoje desse dualismo. Por um lado, um desejo de aderir ao movimento global da modernização, viajar, falar língua estrangeira, e de outro, esse enraizamento meio caipira ao local de origem. Sem recorrer a teorias antropológicas, razões metafísicas e condicionamentos históricos, tão ao gosto de elucubrações acadêmicas, o certo é que o habitante de Porto Alegre gosta mesmo é de permanecer na cidade, mesmo que esteja fora.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

A crônica de Ademir Furtado é publicada neste blog na quarta quinta-feira do mês.

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