Posts Tagged ‘Bíblia

25
fev
13

Vai rolar na Palavraria, nesta sexta, 01/03, lançamento do livro A Bíblia segundo Beliel – Da criação ao fim do mundo, de Flávio Aguiar

program sem

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01, sexta, 19h: Lançamento do livro A Bíblia segundo Beliel – Da criação ao fim do mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer, de Flávio Aguiar. Bate-papo do autor com o escritor e tradutor Paulo Neves.

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a-biblia-segundo-beliel_capaUm anjo desgarrado decide reunir narrativas bíblicas perdidas. Mas os narradores são, na maioria, como ele: desgarrados. São os coadjuvantes da história, como a pomba que Noé soltou da arca para ver se as águas do dilúvio tinham baixado; ou o demônio Misgodeu, que trabalha como porteiro do Inferno, um faz-tudo que toca os mecanismos daquele fim de mundo, sem o qual nada funciona no reino de Lúcifer; ou ainda o escravo de Jó, que assiste, completamente surpreso, à desgraça e às tentações de seu amo.

Lemos também sobre a luxúria e a hecatombe de Sodoma e Gomorra contada por um dos anjos enviados para averiguar o que por lá se passava (e como se passavam coisas!). Assim como fala do passado, a narrativa de Beliel, ele mesmo um faz-tudo nos céus, se dirige ao futuro, nos levando a uma versão absolutamente fantástica do fim dos tempos e do destino da Criação.

A Bíblia segundo Beliel glosa as teorias e previsões sobre a proximidade do fim do mundo, como acontece no Apocalipse de São João Evangelista. Só que com alguns detalhes que São João não previu nem talvez pudesse prever. Afinal, o autor leva uma vantagem: está quase dois mil anos mais perto do fim do mundo do que ele estava. No livro, Flávio traça não apenas as previsões de origem religiosa, mas também aquelas de natureza científica ou histórica. Sua geração cresceu sob o temor de que a Guerra Fria – depois das hecatombes da Segunda e da Primeira Guerra Mundial – os levasse diretamente ao fim do mundo. O risco de uma catástrofe atômica diminuiu, mas não está descartado. Agora se fala também no aquecimento global, no efeito estufa, e vive-se em meio a furacões tropicais que invadem as regiões mais temperadas. A Bíblia segundo Beliel, portanto, é um livro perfeitamente realista: uma leitura do nosso tempo.

Em tom de paródia, mas solidamente ancorada nas tradições bíblicas – que Flávio Aguiar, pesquisador e professor de literatura da USP, conhece como poucos –, A Bíblia segundo Beliel combina a leveza da chanchada com reflexões profundas e ousadas sobre temas como a religião, o fanatismo, a crença e a descrença, a opressão e a liberdade, a desigualdade e a justiça e, last but not least, o amor, como objetivo e possibilidade de redenção da humanidade.

Sobre o surgimento do livro, o escritor é enfático: “Foi uma possessão. Passei muitos anos estudando as Bíblias como fontes literárias e das demais artes. Mais da metade das literaturas e das artes que estudamos e curtimos são incompreensíveis sem um conhecimento mínimo das diversas Bíblias. Até um autor declaradamente ateu, como Machado de Assis, é profundamente bíblico. Acho que de repente isso se materializou numa reescritura do que eu lera e me inspirara na minha vida de professor e crítico literário. Como se todo esse mundo acumulado pegasse um desvio da linha e saísse em busca de um caminho próprio. Por isso não consigo dizer, por exemplo, que o livro é meu. Ele é mesmo do Beliel, esse anjo torto que se materializou em mim. Eu fui apenas seu porta-voz”.

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flavio aguiarFlávio Aguiar nasceu em Porto Alegre, em 1947. É professor aposentado de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/ USP), na qual fundou e dirigiu o Centro Ángel Rama. Atualmente, é pesquisador do programa de pós-graduação em Literatura Brasileira da mesma instituição. Orientou mais de quarenta teses e dissertações de doutorado e mestrado. Foi professor convidado e conferencista em universidades no Brasil, Uruguai, Argentina, Canadá, Alemanha, Costa do Marfim e Cuba. Tem mais de trinta livros publicados, entre os de autoria própria, organizados, editados ou antologias. São obras de crítica literária, ficção e poesia. Participou de várias antologias de poemas e contos no Brasil e no exterior (França, Itália e Canadá). Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro: em 1984, na categoria “Ensaio”, com sua tese de doutorado A comédia nacional no teatro de José de Alencar (Ática, 1984); em 2000, com o romance Anita (Boitempo, 1999); e, em 2007, coletivamente, como responsável pela área de literatura da Latinoamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Boitempo, 2006), na categoria “Ciências Humanas” e também como “Livro do Ano de Não Ficção”. Reside atualmente em Berlim, na Alemanha, onde é correspondente para publicações brasileiras.

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paulo nevesPaulo Neves nasceu e vive atualmente em Porto Alegre. Morou durante vários anos em São Paulo, onde trabalhou como jornalista. Em 1985 publicou o pequeno ensaio Mixagem, o ouvido musical do Brasil (Editora Max Limonad). É reconhecido pela versão de textos difíceis em áreas como Filosofia, História e Psicanálise. Na sua lista de traduções para o português, constam títulos como Saudades do Brasil, de Claude Lévi-Strauss, ou a biografia de Jacques Lacan por Elisabeth Roudinesco. Também são conhecidas suas versões para clássicos da literatura, como O Vermelho e o Negro, de Stendhal, e A Mulher de Trinta Anos, de Balzac, ou textos mais recentes, como O Convidado Surpresa, de Grégoire Bouillier, e o recentemente festejado Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de Stieg Larsson. É também parceiro de José Miguel Wisnik em canções como Pérolas aos Poucos, Pesar do Mundo e Saudade da Saudade. Em 2006, lançou Viagem, espera (Companhia das Letras, 128 páginas, R$ 32), reunião de 40 poemas e 32 crônicas curtas.

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15
ago
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Da criação

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Da criação, por Jaime Medeiros Júnior

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Depois da nossa última prosa me tomei de ânimo de abrir nova frente de leitura. Releio a Bíblia. Sigo ao ritmo desordenado das disponibilidades de tempo e gosto. Escolhi duas versões, ricas em notas e comentários: a Bíblia de Jerusalém [BJ] e a Nova Versão Internacional [NVI] [versão que vim a conhecer após o comentário a nossa última prosa feito pela minha amiga Ana Cristina Aço].

Leio em Gênesis [Bereshit] o relato da criação. Em um determinado ponto me defronto na NVI com uma nota ao versículo 2 do primeiro capítulo, que quer chamar a atenção para os paralelismos com que foi construído o relato: terra. O centro deste relato. sem forma e vazia. Essa locução, que só ocorre depois em Jr 4.23, dá estrutura ao restante do capítulo. O “separar” e o “ajuntar” que Deus realizou do primeiro ao terceiro dia produziu a forma; o “fazer” e o “encher” do quarto ao sexto dia eliminaram o vazio. A BJ por sua vez traz a seguinte nota a mesma locução: em hebraico: tohû e bohû, “o deserto e o vazio”, expressão que se tornou proverbial para toda a falta de ordem.[…]. Este versículo descreve a situação de caos que precede a criação. Notas que se completam com o seguinte quadro que nos demonstra a ordem vertical e o horizontal dos dias no primeiro capítulo do Gênesis [NVI]:

 

Dias de formação

Dias de preenchimento

  1º dia – “luz”   4ºdia – luminares
  2º dia – “aguas […] abaixo do   firmamento das que ficaram por cima”   5ºdia – “seres vivos que povoam as águas […] todas as aves”
  3º dia –A: a parte seca   6º dia-A1: “rebanhos domésticos, animais selvagens e os demais seres vivos da terra”A2: o homem
  B: “vegetação”   B: todos os vegetais como alimento

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Lido isto, me ocorre a lembrança de Mircea Eliade falando a respeito dos mitos, histórias exemplares que devem, de certa forma, ser recordadas e imitadas. E quanto aos mitos cosmogônicos afirma que toda história das origens, de certa forma, repete a história da criação. De certa forma, todo ato criativo quer repetir a criação.

Isto posto, pensei que talvez fosse possível perceber algo do processo de criação naquele relato do Gênesis. E aquele era a terra sem formas e vazia certamente anuncia o quanto a matéria inicial é incapaz de se apresentar senão como uma rude esperança da coisa que se há de fazer. Mas aqui parece importante assinalar que não se põe o espírito sobre o nada. Mas sim sobre águas primordiais – a que tendo nomear sempre por mar de saudadesejo. E a luz posta com intenção sobre a coisa há de alumiar e discernir nomes, e há de poder separar o que é noite e escuridão [que convida ao repouso e ao simples estar em si, que é como um fechar olhos para o mundo e um pôr ouvidos ao tempo] daquilo que é dia e claridade [que convida à ação e a estar no mundo das coisas e de suas visões] e também de separar o que está em cima [céu] do que está embaixo [terra], e contudo não só pela separação, mas também pelo discernimento da matéria que une este par de opostos é que há de se pôr curso a obra. Por certo aqui nos defrontamos com subidas ideias, mas também com os ditames materiais e comezinhos do fazer.

Depois de tanto separar é preciso também juntar. Juntando o úmido [água] em um grande mar sobra uma parte seca. E depois há se fixar sobre o seco nova luz em forma de flora, mãe dos frutos e das sementes que em promessa prefiguram toda forma viva.

Agora há de se pintar o recheio dos contornos. E neste ponto já conhecemos muito da nossa obra, já temos olhos com que ver durante o dia [o sol] e com que ver à noite [a lua]. Aqui somos já capazes de ler o mundo no que tem de explícito e no que tem de subposto. Agora já se é capaz de se conhecer o que há de vivo nas profundezas do mar e o que há de vivo nas alturas do céu, já se emprestou fôlego ao que pensa e sente em nós. Depois ainda haverá de se pôr ali, naquela parte seca, uma casa, donde tudo se admira. Agora já se tem um cercado [paradeisos, παράδεισος], que determina o que é de casa [animais domésticos] e o que é de fora [besta fera]. E, por fim, ainda há de se ver um rosto [um outro em que se espelhar]. E assim talvez se consiga abençoar esta obra, e fazer dela um território de paz, onde bestas feras se alimentem junto com os animais da casa, só de vegetais.

Por certo esta é a história da obra divina, a qual deveríamos recordar e se possível imitar, mas contudo nem sempre a obra se faz a contento. E muitas vezes acontece de que quem faz acaba por se perder em algum desses passos e toma o mesmo infeliz destino do que aquela galinha, que se pôs a chocar ovos de serpente, que por ventura couberam de cair em seu ninho.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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01
ago
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das muitas vozes do Espírito [outro labirinto]

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Das muitas vozes do Espírito [outro labirinto], por Jaime Medeiros Júnior

Faz muito não que tudo começou. O início, uma conversa com o amigo Heron, que me conta ter andado atrás de um texto bíblico, a modo de rememorá-lo. Encontrou. Pô-se a lê-lo. Mas qual a surpresa!? O texto já não coincidia com aquele que ecoava em sua memória.

Esta semana, dia do amigo, aniversário de minha prima, fui a Santa Maria. Resolvi pôr na bagagem um exemplar da TEB [tradução ecumênica da Bíblia, que segue o modelo da TOB francesa]. O exemplar em capa dura, tamanho de bolso, estava à mão e parecia ser mais fácil convidá-lo a adentrar a bolsa que eu estava a preparar para a viagem.

A viagem: algum cansaço a pôr ainda mais peso no corpo da gente. Sono que se recusava, assim tão facilmente, a resolver-se. Chego a Santa Maria. Conversa vai, conversa vem. Felicito minha prima. Entrego o presente. Em algum momento tento confundir o cansaço, descansando. Fui parcialmente bem sucedido. Durmo, não muito, depois acordo. Abro a bagagem. Topo com a TEB a um canto. Abro e caio no salmo 19. Leio os versículos de 2 a 5, que dizem:

2- Os céus narram a glória de Deus, o firmamento proclama a obra de suas mãos.

3- o dia transmite a mensagem ao dia, e a noite a faz conhecer à noite.

4- Não é um discurso, não há palavras, não se lhes ouve a voz.

5- sua harmonia se estende sobre toda a terra, e sua linguagem até as extremidades do mundo.

Tomo um susto, pois, apesar de simpático, o texto parecia participar mais de nosso espírito moderno. Aqui os céus narram, o dia transmite a mensagem [um salmo apropriado a era da informação?], e, por fim, se estende a sua linguagem até as extremidades do mundo. De outra parte, algo em mim também desconfiava de tudo aquilo. Pois aquela não era voz que estava acostumado a escutar na palavra do senhor.

Aqui adianto as minhas escusas a todos os sábios tradutores. Não escolhi falar a partir da perspectiva do especialista, pois não o sou, mas sim, a partir do que me suscitam enquanto leitor desarmado, mas não desalmado, de grandes recursos.

Abro novamente ao acaso a TEB. Caio em Gálatas 3 [versículos 1 e 3]. Leio Paulo a admoestar:

1 Ó gálatas estúpidos, quem os seduziu; depois que, aos vossos olhos, foi exposto Jesus Cristo crucificado?

3- Sois a tal ponto estúpidos? Vós que a princípio começastes pelo espírito será agora a carne que vos leva a perfeição?

Que susto grande! Era a primeira vez que lia no texto bíblico a palavra estúpido, que a mim parece tão inapropriada à admoestação de quem quer que seja, e sim, mais própria ao xingamento.

Resolvo então consultar as bíblias da casa. A de minha avó que hoje encontra-se aos cuidados de minha tia e a que minha prima recém comprara, em letras grandes. Ambas publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil e que contemplam a mesma tradução de João Ferreira de Almeida na sua versão Revista e Atualizada, versão que lia na igreja metodista, nos tempos de minha fé adolescente e militante, que nos apresenta o Salmo 19: 1-4:

1- Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos

2- Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite

3- Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se houve nenhum som;

4- No entanto, por toda terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo.

Quando chego em Porto Alegre busco a bíblia que ganhei de meu avô. Uma João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida, na grafia simplificada, onde se trata o mesmo texto desta forma:

1- Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos

2- Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.

3- Sem linguagem, sem fala, ouvem-se suas vozes

4- Em toda a extensão da terra, e suas palavras até o fim do mundo

Conheci também mais tarde, à época do segundo grau a Bíblia de Jerusalém, era o tempo de uma igreja Metodista que ainda participava do movimento ecumênico das igrejas cristãs. Quando acabei o segundo grau no Colégio Centenário de Santa Maria [colégio metodista] ganhei, bem como todos os meus colegas, o novo testamento, exemplar em capa dura, desta edição da bíblia fruto das pesquisas da École biblique de Jérusalem, que congrega pesquisadores que não se filiam a uma denominação específica. Bíblia que no Brasil era editada pelas Paulinas [hoje pela Paulus, editoras católicas], mas que em alguns países é editada por editoras protestantes. Onde assim se nos apresenta o mesmo salmo:

2-Os Céus contam a glória de Deus,

e o firmamento proclama a obra de suas mãos

3-O dia entrega a mensagem a outro dia

e a noite a faz conhecer a outra noite

 

4-Não há termos, não há palavras,

nenhuma voz que deles se ouçad,

5-e por toda a terra sua linha aparece

e até os confins do mundo sua linguagem

Edição que se acompanha de notas como aquela d aposta ao versículo 4: as versões compreendem o contrário: “dos quais não se ouve o som”, mas a sequência faz alusão ao tema assírio-babilônico dos astros, silenciosa “escritura dos céus”.

Quando fiz a minha profissão de fé na igreja metodista com a idade de treze anos, recebi um novo testamento da Bíblia na linguagem de hoje. Uma das fortes tendências de tradução do texto bíblico desde então, onde assim encontramos os primeiros versículos do salmo 19:

1- Os céus falam da glória de Deus e anunciam o que ele tem feito!

2- Um dia fala dessa Glória ao dia seguinte, e uma noite repete isso à outra noite.

3- Não há discurso nem palavras, e não se ouve nenhum som.

4- No entanto a voz do céu se espalha pelo mundo inteiro, e as suas palavras alcançam a terra toda.

Resolvi, por fim, sair em busca de alguma outra tradução. Encontrei a Bíblia Sagrada Edição Pastoral [Paulinas], que faz assim o Salmo 19, a qual me pareceu algo singela e simpática nas suas escolhas para a tradução do mesmo salmo:

2- O céu manifesta a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos,

3- o dia passa a mensagem a outro dia, a noite sussurra para a outra noite

4- Sem fala e sem palavras, sem que sua voz seja ouvida,

5- a toda terra chega o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem

Terminada essa pequena viagem pelas traduções do Salmo 19, faço então percurso semelhante pelas traduções dos versículos 1 e 3 de Gálatas 3. A maioria, em discordância com a TEB, preferem o termo insensatos, ao invés de estúpidos. Já A Bíblia na linguagem de hoje o primeiro versículo traz tolos e o terceiro sem juízo ao invés dos estúpidos escolhidos pela TEB.

Néscios, como muitas vezes nos tornamos, certamente poderíamos prolongar indefinidamente a nossa busca. Empilhando aqui ainda outras tantas traduções, tanto católicas quanto protestantes. Mas acreditamos já ter demonstrado suficientemente a profusão labiríntica das traduções do texto bíblico no Brasil.

Retomando. Na mesma viagem a Santa Maria releio Borges [Borges Oral – o Livro] que comenta, referindo-se ao espirituoso Shaw: uma vez perguntaram a Bernard Shaw se ele acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: “todo livro que vale a pena reler foi escrito pelo Espírito”.

Talvez, no entanto, você possa crer que o Espírito escreva apenas em Hebraico, Grego ou talvez em Sânscrito ou Pali. Mas talvez possamos nos abrir a uma outra possibilidade, a de que o único livro o qual devamos realmente reler seja aquele em que não há termos, não há palavras e que por toda a terra a sua linha aparece, e até os confins do mundo sua linguagem. Onde estará este livro? Senão em todo o lugar onde o Espírito está. E onde ele haveria de não estar? Isto talvez confira muito mais importância a quem lê, que para encontrar o Espírito no texto-fonte, certamente há também de precisar ler com Espírito. E, por fim, incidentalmente, me ocorre, ler com espírito talvez seja, fundamentalmente, reler.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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