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31
mar
13

A crônica de Emir Ross: Cabeças cortadas

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Cabeças cortadas, por Emir Ross

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Eu não sei porque, mas o cabeleireiros estão me lembrando cada vez mais uma profissão que nunca faz o que a gente espera deles: os políticos.

Eu ainda não consegui descobrir porque os cabeleireiros perguntam como queremos o corte. Afinal, depois de sentarmos naquela cadeira, que mais parece uma cadeira de força ou uma cadeira elétrica beirando para uma cadeira dos horrores, eles fazem o que bem entendem da nossa cabeça. Houve um, em Sevilla, que fazia lingüiça.

Os cortes de cabelo nunca são o que a gente espera. Um dos motivos, claro, é o nosso cabelo. No Brasil, é comum mulatas podres de fashion mega produzidas, embaladas e aromatizadas chegarem ao cabeleireiro não menos bem empacotado, com uma revista mega-tendência última-moda ultra-moderna com cortes hiper-descolados vindos lá do Japão. Depois de trocarem idéias, fofocas, beijinhos e elogios é hora de conferir as tesouradas e sair com cara de nojo porque o cabelo pixaim ficou diferente do cabelo espetado da mulata made in japan da revista.

Voltando aos políticos. Pra começar, político não é profissão, embora a grande maioria no Brasil se denomina político profissional. Político é um cargo. Público. E profissão é algo exercido por profissionais. Mas tendo em vista a grande trama que rola pelos poderes, tiro o meu chapéu para esses profissionais.

Eles são sensacionais. Na verdade, se todos os profissionais brasileiros levassem à risca sua profissão como os políticos seríamos o país número um em Nobels. Os políticos têm carreira. Sim: carreira política. Isso significa que você começa por baixo, faz estágios, aprende a discursar, leia-se mentir, faz alianças, leia-se quadrilhas e destina as verbas para as necessidades da população, leia-se necessidades políticas.

Tirando os políticos, as mulatas e os cortes japoneses que nem japoneses são, o que me faz ficar mais puto que o cabeleireiro é o ego desses tesoureiros. Esses dias cheguei ao salão para reduzir um pouco o volume de minha juba. “Um pouco”, fiz questão de mencionar. Mas biba quando se empolga é pior que o Edmundo. Fominha ao extremo. Não larga a tesoura. É navalhada e cabelo voando e caindo e chiando por todo lado. Até parece político cortando verba da merenda escolar. Taí outra coisa em comum entre cabeleireiros e políticos: ambos estão sempre a par da tesouraria.

Resultado: fiquei com corte de milico de Segunda Guerra Mundial.

Eu não entendo essa fixação em acabar com a cabeça dos outros.

Eu não entendo esse desejo insaciável de inventar moda nos cabelos alheios.

Eu não entendo, finalmente, porque perguntam “O que vamos fazer nesse cabelo sem vida?”

Talvez a resposta esteja nos caixas secretos do Senado. Mas o que quero realmente salientar é que sem vida é o que o próximo cabeleireiro que não seguir minhas instruções vai ficar. Da próxima vez, chegarei dizendo: “meu cabelo tá sem vida, mas presta atenção, faz o que eu quero senão tu vai é ficar igual a ele.”

Essa é uma boa frase para se dizer a um político em véspera de eleição, quando este prometer dar mais vida à população.

Invejo meu pai, que não pegou essa onda de cortes. Lembro dele saindo todo sábado após a sesta. Ia para o barbeiro. Chegava em casa ao anoitecer com os bolsos repletos de balas, com a barba feita e o cabelo aparado. Todos os sábados. Com o cabelo do jeito que ele queria. E com os bolsos cheios.

Isso que é ser moderno-tendência-últimamoda-fashion: é ir ao barbeiro e este fazer exatamente o que a gente quer. É eleger um político para um cargo e ele defender nossos interesses.

Esse pessoal que insiste em fazer nossa cabeça, seja em Brasília ou no Salão do Shopping, não tá com nada. Está, no máximo, com os dias contados pelas lâminas de uma tesouraria bem afiada.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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