Posts Tagged ‘Cartas à Palavraria

29
jun
12

Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: O diga xis da questão

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O diga xis da questão, por Reginaldo Pujol Filho

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Mesmo com 40 graus, com um livro que aparece no estoque, mas que a Carla pegou pra ler e não avisou e com dois clientes pagando café com uma nota de 100 (cada um deles), sempre que eu entrava na Palavraria e dizia “bom dia, Seu Carlos” – nos melhores dias, nem precisava eu dizer isso – o Carlos esticava a mão pra mim. Se não houvesse ninguém por ali e as coisas tivessem bem, já comentaria um livro de algum autor português ou moçambicano ou me avisaria que o pessoal já tinha subido pra aula. Lembrei disso porque fui duas vezes ao Porto e não deixei de visitar duas vezes uma das livrarias mais lindas do mundo, segundo rankings que pipocam de tempos em tempos na internet: a Lello. E a Lello não deixa por menos. Toda a equipe também tem um padrão pra receber os clientes. Não é o bom dia. Não é nenhum cumprimento típico do norte português. Basta pisar nesse templo livresco, não precisa nem abrir a boca, que tu já vai ser recebido com um No Photo!. Assim, em inglês, nível internacional. E, como um souvenir da casa, eles vão te distribuindo no photo, no photo, no photo, a cada, no photo, passo, no photo, que, no photo, tu, no photo, der. No photo.

A Lello que, pelo nome, eu imaginava ser de um velhinho simpático, ou de um velhinho rabugento (mas por isso simpático), o Seu Lello, acabou me fazendo pensar no Vinícius, “senão é como amar uma mulher só linda, e daí? Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”. E uma livraria também. E daí que a Lello é a terceira, a segunda livraria mais bonita do mundo, rapaz? Inevitável comparar com outra livraria mega ponto-turístico, a Shakespeare and Company, que tem orgulho de quem frequenta a casa, tem orgulho dos livros que estão lá e, bem, te convida pra dormir. Ou mesmo a Ateneo de Buenos Aires, que é mais grandalhota e tem acervo de megastore, mas tem camarotes pra gente ler. Nos sentimos bem-vindos nesses espaços. Aliás, vivem reclamando que livro não vende e, quando a gente entra na livraria, em vez de dizer, opa, chega mais, se o sujeito para pra olhar uma lombada, é: no photo. A Lello parece uma daquelas mulheres tão bonitonas e tão entusiasmadas com tudo isso que só vão a motel porque tem espelho no teto. Agem como se fossem a Monalisa – embora todos os japoneses tenham uma foto dela. Fico me perguntando, o que eles pensam? Que, se eu tirar uma foto, vou reproduzir uma Lello em Porto Alegre? Em Capão da Canoa, é isso? E se eu copiar a linda escada deles, que é linda mesmo, o que acontece? Acaba a Lello? Bom, lembrem do Vinícius, uma livraria tem que ter qualquer coisa além da beleza. Livros, por exemplo. Gente que goste de livros também. Isso faz muitas livrarias no mundo parecerem lindas pra frequentadores fieis. E a Lello, a impressão que fica, é que, de tanto se preocupar com No photo, no photo, não se preocupa com livros. Os livros meio jogados. Perguntei a uma vendedora onde ficava a sessão de literatura portuguesa e ela disse Nós não (No Photo, pra uma senhora) separamos assim (no photo, pra um grupo), estão (no photo pra mim que olhei pro lado) por ordem alfabética (no photo, prum nenê num carrinho). Achei esquisito, dei toda a volta na livraria, pra descobrir, sim, uma sessão de literatura portuguesa quase do lado do balcão onde a moça continuava roboticamente bipando no photo, no photo, no photo. No understand qualé o negócio deles. Porque eu fiquei sem vontade de olhar mais livros, de comprar livro, de ficar por ali. Querem ser monumento turístico, botem uma catraca, cobrem ingresso e vendam os livros na lojinha de souvenir na saída. E aí acho que eles vão conseguir o que querem: só turistas e não leitores visitando a casa. Porque é a impressão que dá, de que, reforçando a cada olhar esse mítico no photo, eles reforçam o tesão fotográfico do cara que só quer photo. E as pessoas continuam indo lá só pela beleza e pela photo. E daí?

E daí, lembro que, se eu botar Lello no Google, já tem photos lá. Lembro que na Palavraria a Carla tira photos da gente. E lembro que eu quero ir mais uma vez na Lello. Pra ir na sessão dos livros de arte, abrir um livro do Cartier-Bresson, do Robert Capa, do Sebastião Salgado e, quando me disserem  No photo, vou mostrar o livro e rá: Yes photo. A lot.

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

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15
abr
12

Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: I work for café, pão de queijo e cerveja

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I work for café, pão de queijo e cerveja, por Reginaldo Pujol Filho

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Carla,

Andei por Paris. E voltei de lá com uma ideia. E pra te explicar, vamos dar uma voltinha pela Palavraria? Assim, quando a gente entra na livraria, além de dar oi pro Carlos, pode caminhar reto uns 10 passos e aí chega na escada. Daí a gente pega e sobe a escada, esses degraus que tantas vezes fiz de arquibancada, tantas vezes subi pras aulas do Kiefer, bom, tá. Degraus subidos, no segundo andar, 3 opções: a sala grande, onde são/eram as aulas do Charles; a salinha do computador de onde de vez em quando vocês ouviam as leituras das aulas (pensa que eu não sei?); e, mais no fundo desse mini-corredor, aquela outra sala, menos utilizada, mas que tem até um banheiro. É isso, né? Pois era aí que eu queria chegar. Nessa sala. É que pensei assim: quando eu e a Jajá voltarmos pra Porto Alegre, onde é que a gente vai dormir? Daí tive a ideia: Carla, e se a gente fizesse um quarto com banheiro ali? Pronto, posso passar um tempo na Palavraria, por que não?  Tem pão de queijo, café, cerveja e os livros. Feito o carreto. Durante o dia, até dá-se uma força na livraria; quando não tiver movimento, posso escrever, ler um pouco. Não parece uma boa ideia?

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Em Paris é. A Shakespeare and Company que eu (e mais um bilhão de pessoas) fui visitar, além dos personagens míticos que faziam de lá ponto de encontro, tem essa história de até hoje albergar uns escritores. Dá espaço e livro pra eles escreverem, eles trabalham um tempo na livraria e a loja continua sendo uma das tantas atrações turísticas da cidade luz. Talvez hoje ela viva mais até de ser ponto turístico do que de ser livraria, difícil saber. Mas, apesar de ter que pedir licença pras pessoas (tirando fotos, mais do que lendo) pra andar lá dentro, não tem como negar que, mesmo com o verniz do turismo, por baixo dele ainda tem aura. Falo isso, porque dá pra pensar se é possível ainda hoje uma livraria construir essa fortaleza moral, ter tanto significado quanto os livros lá dentro, atrair gente do mundo inteiro pra conhecer o espaço ou pra fazer dela casa, escritório e inspiração. Pois torço pra que sim, sabe? A Shakespeare and Company é daquelas coisas que faz lembrar da importância da livraria como templo de escritores e leitores e de todo mundo que se relaciona com o livro e a literatura. É necessário que isso exista e que surja mais – embora o movimento nos dias de hoje seja justamente o contrário. Mais do que lugares pra encontrar livros, que as livrarias sejam o mundo, a pista de pouso, do mundo dos livros. É importante ter esse lugar pra encontrar o lançamento, o autor preferido, mas também os amigos, os conhecidos e os desconhecidos.  Digamos assim: eu não vou marcar um encontro com o Pena e o Rosp na Amazon. Não tem como. É preciso esses endereços onde a gente possa jogar um pouco de utopia fora. Afinal, mesmo os ideias e as manifestações e os movimentos nascidos na internet nos últimos tempos, no final das contas, precisam de gente tudo junto reunida pra acontecer de fato. E a livraria (digo livraria, não supermercado de livros) é essa praça, essa frente de palácio de governo, onde podem – e devem se reunir – todos esses que acreditam nessa utopia que é a literatura.

E claro que eu não sou o Hemingway nem o Sartre, mas também, vamos combinar, o nosso Monumento ao Expedicionário não é o Arco do Triufo e o Parcão não é bem o Jardim de Luxemburgo. Portanto, Carla, se quiser ajudar a montar esse quartinho aí, quem sabe? Eu trabalho por pão de queijo, café e cerveja.

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

25
fev
12

Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: abaixo os smurfs

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Abaixo os Smurfs, por Reginaldo Pujol Filho

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O lado bom de mandar cartas é que dá pra falar de coisas que aconteceram há mais tempo. Não o hoje, o nesse minuto. Em cartas, pelo menos do que eu lembro, se falava da semana, do mês passado, do ano passado. Pues, feita essa brilhante reflexão missivista, começo dizendo que existem muitos culpados por eu estar nesse momento em Portugal. Em primeiro lugar, empatados, claro, eu e a Jajá, que inventamos e abraçamos essa história. Mas, entre tantos que me empurraram pra cá, que me motivaram, é claro que aparece a Carla. Como não? Veja só, foi a Carla que, no longínquo ano de dois mil e internet discada, recomendou pra minha amiga Ana Marson que me desse de amigo secreto o livro Senhor Henri, do Gonçalo M. Tavares. Dizem, as duas, que a Carla teria dito que achava a minha cara. Não sei se pelas quantidades de absinto que o personagem bebe, mas, se não foi por isso, até hoje acho esse um dos melhores elogios que já recebi. Porque, pelo menos como leitor, sim, o Senhor Henri era e é a minha cara. Fiquei fissurado naquele livrinho por muito tempo e, quando vi, já tinha comprado Senhor Valéry, Senhor Brecht, tudo o que saía do Gonçalo M. Tavares e, bem, virei um fã incondicional do sujeito e dos seus livros a ponto de estar aqui, em Lisboa, a dois dias de começar a ter aulas com ele. Então, me parece lógico, que, se a Carla (via Ana), inoculou esse vírus em mim, tem sua parcela de culpa por minha estada lisboeta. No que lhe sou muito grato, Carla.

Mas, se há males que vem pro bem, há bens que vem pro mal?

É que, Carla, por causa desse vício de leitura que tu me ajudou e estimulou a desenvolver, como qualquer viciado hard, acabo fazendo bobagens. Coisas feias. Não, ainda não vendi controle remoto pra comprar livro – o que não seria má ideia se não passasse Simpsons na TV. Mas, um tempinho atrás, descobri por esses lados de cá do oceano que o Gonçalo não ia lançar um, mas dois livros. Numa tacada só. Short Movies, pela Caminho e Canções Mexicanas, pela Relógio d’Água. Me cocei todo. Fui na Pó dos Livros na semana prevista pro lançamento e não tinha ainda. Ia chegar. Fui em outras livrarias e nada. Pesquisei e descobri. Tinha acabado de chegar naquele sábado. Na FNAC.

Pois, senhores e senhoras, com Pó dos Livros, com Ler Devagar, com muitas outras livrarias bacanas a descobrir por aqui, fui parar num shopping, numa FNAC pra saciar minha vontade de comprar os livros no dia em que eles chegassem na loja. Numa FNAC. Nem precisa apresentar essa livraria (entre-aspas) pra ninguém aqui. Todo mundo sabe como é. É um BIG que, por acaso, em vez de costela minga, tá vendendo Gonçalo Tavares. E ainda era época próxima de Natal, com promoções mil não só de livros, mas de TV LCD, notebook, fone de ouvido. A vontade era de entrar, catar os Gonçalos e sair. Mas, pombas, já que tava no inferno, tinha que abraçar o diabo. Pelo menos, os caras têm muitos descontos, então é um pouco difícil de resistir a folhear uns livros em promoção, com preços convidativos, quem sabe fazer uma descoberta? Ah, tente fazer isso com umas quatro TVs divulgando o DVD dos Smurfs. Descobri que é impossível prestar atenção na primeira página de qualquer livro com a trilha sonora do menu do DVD dos Smurfs rolando em looping eterno. E o seguinte: não sei por que, mas essas TVs estavam estrategicamente posicionadas do lado das prateleiras de promoção. Sei lá, talvez fosse pra entrar na mente dos pais que procuravam livros, um compre-batom, compre-batom, compre-batom. Não sei. Enlouquecedor. Acabei descobrindo que eles até tem uma sala anti-smurf, uma sala de leitura, mas parece que o negócio dos caras não é mesmo ver gente lendo. É que a tal sala, que eu olhei rapidinho, era um meio termo entre uma sala de espera de dentista, e um fumódromo. Asséptico, impessoal, uns bancos ao longo da parede, nenhum sex ou read appeal. E aí que eu pensei: como esse tipo de coisa faz mal pro mundo dos livros, eu acho. Pensa bem:

Se a única vantagem que a FNAC e outras hiperultragigamegastore têm é preços imbatíveis, e, se isso a gente encontra na internet também, no conforto do lar-doce-lar e sem música dos Smurfs (a não ser que o cara curta a trilha dos Smurfs e ouça no computador), mas se é só isso que eles oferecem a nós, leitores, me pergunto, por que é que nós, leitores, vamos levantar a bunda da cadeira e ir tomar ombrada dos compradores de câmera digital, depilador elétrico e leite longa vida (entrou por engano na livraria achando que era o hipermercado)? Me parece que, quando se cria essa imagem sem graça, corrida, hora-do-rush do lugar onde se compra livro, ninguém vai ter mais prazer de ir nesse lugar. Praticidade por praticidade, fica-se em casa. E cria-se o hábito de comprar em casa. E não se entra mais em livrarias de bairro, como a Palavraria, a Pó dos Livros, a Bamboletras e deixa acontecer coisas como, além do livro que se quer comprar, folhear um desconhecido e descobrir um autor por acaso e conversar com um livreiro-de-carteirinha, ou um outro leitor mesmo, sobre esses e outros livros. Não. Fica-se em casa, digita na comparação de preços o livro, compra exatamente o livro e deixa a livraria da esquina ser comprada pela Igreja Universal.

Que que eu vou dizer?

Se o Gonçalo lançar mais um livro, espero um diazinho a mais pra comprar. Ou, abaixo os Smurfs.

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

29
dez
11

Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: o pão de queijo metafórico

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O pão de queijo metafórico, por Reginaldo Pujol Filho

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Então um dia eu falei por e-mail pra Carla que tava com saudade do pão de queijo (me senti um pouco imigrante de Varginha com essa). Ela me perguntou se não tinha aqui. E isso me lembrou de quando, bem gauchito orgulhoso barbaridade, perguntei pra Miranda (uma guria da Nova Zelândia que fez intercâmbio no meu colégio) se ela já tinha comido churrasco. Ela me respondeu que sim, e eu perguntei qual carne ela tinha gostado mais. Ela me perguntou Carne? Eu respondi Ué, sim, carne. Ela retrucou Mas churrasco não é desculpa pra tomar cerveja? O churrasco metafórico, o pão de queijo metafórico. Pois é, Carla, saudade do pão-de-queijo-desculpa-pra-ir-na-palavraria, era isso que eu tava dizendo.

Pois sigo investigando essa metáfora por aqui. Não, não dispensei a simpática Pó dos Livros, pelo contrário. Comprei lá presente de Natal pro filho de um amigo e também ganhei presente de lá.

Mas é essas coisas estar no exterior, ávido por descobertas. Pois assim fui parar na Ler Devagar. Já simpatizei com o nome por afinidade. E com a livraria pelo que a internet me dizia dela, o dono não queria vender best sellers e coisa assim. Ah, vamos ver qualé. Fomos lá eu e a Jajá, que ir na Ler Devagar é uma coisa até turisticamente bacana de fazer. Ela fica no LX Factory que é uma coisa daquelas que Porto Alegre vive prometendo fazer no Cais, no Navegantes, onde quer que haja coisa velha na cidade. Pois o LX é sim uma antiga área fabril, embaixo dum viaduto gigantesco, que não foi recuperada, restaurada, foi simplesmente tomada. Os espaços são cedidos a preço de bacalhau – banana é caro aqui – pra sujeitos com propostas legais pro espaço. Então tem restaurante, ateliers, lojas, empresas de arquitetura e a Ler Devagar.

Porque a Ler é um espaço legal. Aliás, parece ser um DOS lugares legais no momento em Lisboa. Um pé direito enormesíssimo, um bar de vinhos no meio da loja, instalações com bicicletas voadoras no teto, a tal máquina tipográfica jurássica que já estava lá (e todo mundo acha o máximo), é (infelizmente) permitido fumar – o que deixa o lugar intelecool e tem eventos, shows, lançamentos do Valter Hugo Mãe e vamo que vamo. Pois repararam que eu falei, falei, falei e não falei exatamente de livros. É que a Ler Devagar me parece um lugar legal. Que vende livros. Não exatamente livraria. Claro que tem coisas boas a preços bons (vi muitos livros de autores brasileiros por preços fantásticos, como o Voo da Madrugada do Sérgio Sant’Anna por 3 euros). Mas é até um tanto bagunçada a distribuição dos livros, fui duas vezes lá e ainda não entendi muito bem como achar. Como se os livros não fossem exatamente o esquema por ali. Isso dá até uma aura meio blasé. Uma coisa tipo Livros? Vender? Ah, sim, pois é, vendemos. Vejo mais pessoas lá sentadas tomando um vinho, fumando um cigarro, discutindo pós-estruturalismo em tempos líquidos, do que folheando um livro e perguntando o preço. Peraí, calma lá: claro que eu gosto, e mais do que isso, adoro livraria-buteco. Estamos no blogue da Palavraria, gente. Acho inclusive importante as livrarias terem esse tipo de estrutura, criarem essa aura, é um jeito de fortalecer o mundo e o imaginário ao redor do livro e da literatura. Fazer da livraria um lugar legal, sem carranca, sem cara de aula de literatura e leitura obrigatória pro vestibular. Um lugar onde estão os amigos, se conhece gente, acontecem coisas legais e se encontra livro e a turma que gosta de livro.

Mas, sei lá, parece que a Ler Devagar foi um pouco adiante, que, se precisar botar mais mesas pra bombar, até tiram uns livros dali. Chego a pensar que não seja um descarinho pelos livros. Pode ser é um sintoma. De que é tamanho o esforço necessário pra convencer as pessoas hoje em dia a irem numa livraria, que dá pra perder a medida. É tanto atrativo, tanta parafernália, tanto auê pra motivar a turma, que as pessoas acabam querendo só auê. A parafernália toma conta. Ainda gosto mais das livrarias com bar onde a gente pede o pão de queijo (metafórico ou não) e a Carla pergunta se eu li o último Gonçalo Tavares. Ou, na hora em que vou pagar a cerveja, o Carlos me pergunta se eu já li Francisco José Viegas (ainda não, Carlos). Livraria com bar. E não bar-point-hype com uns livros ao redor. Nunca tinha pensado nisso. Mas acabei de pensar. Esse é o pão de queijo da questão.

Ah, mas vale o passeio pra conhecer.

Livros comprados na Ler Devagar: O Voo da Madrugada (Sérgio Sant’Anna) e uma Revista LER


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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

14
dez
11

Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho

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Carta pra Carla: tá tudo bem aqui, por Reginaldo Pujol Filho

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A última vez que eu fui na Palavraria, depois de uns abraços na turma, etecétera e tal, aconteceu assim: a Carla me olhou tentando sorrir e perguntou E aí, e as livrarias lá? Na hora não me caiu a ficha, mas agora, sempre que lembro da Carla perguntando e aí, e as livrarias lá, tenho a impressão de ver uma mãe perguntando pro filho que saiu de casa, tentando demonstrar interesse e felicidade pro filho que saiu de casa, alguma coisa como E aí, tá te alimentando direito? Ou, se o filho saiu de casa pra morar com aquela outra que ele insiste em chamar de esposa, a mãe perguntaria E aí, quem tá lavando tuas roupas? Isso aí do lado do bolso da camisa é uma mancha que não saiu? Aquele jeito de mãe de dizer que tá com saudade, que tá preocupada e que não entende porque que tu foi buscar tão longe, entre estranhos, tudo o que tu já tinha em casa, no teu quarto, entre as figurinhas do campeonato brasileiro e os cartuchos de Atari que ela ainda guarda pra ti.

Pois bem, dona Carla, resolvi te contar se tão me alimentando direito, se a minha roupa tá bem passada e por que livrarias tenho andado e vou andar aqui em Lisboa nesse ano longe de casa.  Espécie de cartinhas pra mãe (e quem sabe dicas pra quem vier a Lisboa e tiver uma síndrome de abstinência de livrarias).

A primeira livraria com que eu simpatizei por aqui se chama Pó dos Livros.

 Vai saber se é uma coisa edipiana de buscar uma projeção da Palavraria por aqui, mas é uma loja de bairro, tem muita coisa de editoras pequenas e independentes, realiza eventos e lançamentos (ainda não fui, mas tem) e, principalmente, tem um bar (ou café pra quem quiser assim). É claro que não tem assim, de repente, uma turma do Charles Kiefer descendo a escada e, de uma hora pra outra, lotando a livraria onde só tu estava até então. Nem o Pena chegando e perguntando se tem cerveja nesse buteco, ou o Rosp correndo com uma caixa de livros e, defeito gravíssimo, os donos não sabem que eu não preciso de copo quando peço uma long neck.

Tudo bem, acho que aos poucos vou me convencendo que vai ser preciso que eu frequente durante quase dez anos uma livraria, que os donos tenham a impressão de que me pegaram no colo, pra que eu encontre tudo isso em alguma outra.

Mas, vá lá, vou ter que achar a minha livraria por aqui.

E a Pó dos Livros pode ser. Porque além do bar, da simpatia do ambiente, tem o fundamental: um bom acervo de livros (com direito a um mini sebinho – ou alfarrabista, como eles dizem – na entrada), e gente que gosta de livros. Muitas vezes nem consultam o sistema pra pegar o livro que tu pediu. E, quando não sabem que título é esse que tu tá pedindo, em vez de dar uma meia dúzia de digitadas e te responder com uma voz de phone bank que dá pra encomendar, te perguntam Mas que livro é esse, pesquisam mais sobre ele, querem saber que diacho de livro é esse que eles, livreiros, não conhecem e, claro, depois encomendam. Porque, afinal de contas, é um pouco isso que faz a gente ir numa livraria, não é? É mais do que encontrar um livro, é estar em contato com o mundo desse e de todos os livros. E pra esse mundo ser completo, é preciso que quem está ali do outro lado do balcão não seja alguém que venda tão bem Camus quanto venderia rebimboca da parafuseta recondicionada pro teu Voyage. É saber que pode receber uma recomendação e uma dica bem mais preciosa do que Quem comprou este livro também comprou esse. É esse um dos motivos pelos quais eu procuro e gosto de ir em livraria. Claro, também pra encontrar uma dona que tenha a mania de fazer cócegas na gente. Mas isso eu acho que os portugueses são um pouco sérios demais pra fazer.

O que eu comprei na Pó dos Livros: Crítica e Clínica (Gilles Deleuze), Perder Teorias (Enrique Vila Matas) e Tree of Codes (Johnatan Safran Foer – encomendado, ainda não chegou)

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.




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