Posts Tagged ‘Cinema



12
out
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Uma dica, no más

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Uma dica, no más, por Jaime Medeiros Júnior

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Fui ver Medianeras. Argentinos e cinema parecem combinar. Também parecem não se importar de apenas contar uma história. E contam-na, no mais das vezes, muito bem. Pra além de ser uma história de amor, o filme nos mostra uma Buenos Aires sufocante e algo inóspita para com a parelha de nossos solitários protagonistas. Protagonistas que estão a se buscar incessantemente. Mariana e Martín. Eis a parelha.

Mas aqui tomo dois sustos bons de se tomar. Um, aquele em que Mariana tece uma versão bem moderninha do paradoxo do Ménon sobre a  pesquisa e a busca. Como eu que não consigo encontrar sequer o Wally, que bem conheço, na página do meu livro, posso mesmo assim esperar encontrar aquele a quem nunca vi e não conheço?

Noutro ponto, que creio um pouco anterior, é novamente Mariana, que, ao não conseguir se colocar como arquiteta, se põe a arranjar, criar vitrines, comenta: vitrines são este espaço estático entre [dentro e fora, as minhas expectativas e o objeto] em que tudo se configura aparato do ilusório, da promessa. Talvez, aqui pudéssemos nos arriscar um pouco mais, e pensar a ilusão de profundidade e vida que a luz que transpassa a película de nosso filme [pelo menos assim o era, antes de querermos sacrificar todas as nossas esperanças aos Dáctilos, estes pequenos deuses da era digital] faz borrar sobre a superfície da tela, que parece ser um outro grande entre no qual talvez se possa abrir também uma pequena janela entre o mito e o nosso grande mundo daqui. De resto vale dizer: vá ver Medianeras.

 
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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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04
out
11

A crônica de Tiago Cardoso: Aires e Calvero

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Aires e Calvero: dois narradores maduros, por Tiago Cardoso

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Foto Tiago Cardoso

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Pensei que seria interessante criar uma aproximação entre a perspectiva de duas narrativas, protagonizadas, uma, pelo diário do conselheiro Aires, imortalizado por Machado de Assis em “Memorial de Aires”; outra, pela figura do comediante Calvero, criada e interpretada por Charlie Chaplin em “Luzes da Ribalta”. O olhar dos citados protagonistas a respeito do tempo da vida, especialmente naquilo que confronta algo como o romantismo da juventude e o ceticismo da maturidade, é o ponto de aproximação que identifiquei entre essas duas obras, e sobre o que, brevemente, farei alguns comentários.

O último romance machadiano apresenta um enredo a que temos acesso a partir do diário de um diplomata aposentado: o conselheiro Aires. Trata-se de um homem de sessenta anos de idade, viúvo, que nos idos do ano de 1888 voltava ao Rio de Janeiro, sua terra natal, para gozar da aposentadoria. Um pouco por conta do acaso e talvez mais por conta das relações de sua irmã, Rita, trava conhecimento com uma linda jovem e atraente viúva, enquanto esta ainda encenava os últimos movimentos do luto. Era Fidélia. Por seu turno, a história do último filme produzido por Chaplin nos Estados Unidos, e que havia sido pensado como a última obra da extensa carreira do cineasta britânico, é ambientada em Londres, igualmente no final do século XIX, e narra o encontro entre o também sexagenário Calvero e a jovem bailarina Thereza (Terry). Temos assim, duas narrativas elaboradas a partir da perspectiva de dois protagonistas homens, que têm por volta de sessenta anos de idade, ambientadas em circunstâncias históricas quase idênticas. No centro dos enredos, vemos contrastadas maturidade e juventude. A maturidade, simbolizada na perspectiva preponderantemente cética a respeito da existência, presente nas personagens do conselheiro Aires e do comediante Calvero. Aquele, um homem que tem em vista exclusivamente a fruição da aposentadoria, depois de anos dedicados à atividade diplomática. Este outro vive um longo ostracismo cênico, por conta do absoluto esquecimento e desinteresse do público e dos produtores em relação às suas performances. Já a juventude está materializada na figura das duas atraentes moças, aparentemente indefesas e inseguras quanto ao futuro: Fidélia, pela viuvez precoce, pela aparente tristeza do luto, e pelo rompimento com a figura paterna; Terry, porque desde muito cedo teve de enfrentar a vida de forma solitária, tendo sido obrigada a abandonar o sonho profissional de ser bailarina por conta de um estranho incidente de paralisia. Não obstante, estas moças pareciam ter, ao contrário daqueles protagonistas, “tudo pela frente”.

Tanto o romance quanto o filme desvelam uma visão benevolente e bondosamente interessada, com a qual os maduros protagonistas (Aires e Calvero) observam os movimentos das duas jovens. Isso não impede, ainda que de maneira velada, que reste insinuada uma fugaz pretensão de envolvimento amoroso entre os dois sexagenários e suas heroínas. A diferença de idade entre os possíveis amantes, no entanto, parece erguer um obstáculo indigno de superação. O que talvez diferencie Aires de Calvero, neste caso, é a constância. Calvero parece mais convicto com relação à sua (im)possibilidade como par romântico de Terry. Por outro lado, como nos adverte John Gledson, durante todo o curso da narrativa, o conselheiro Aires mostra-se “mutável e contraditório”, com relação à natureza da atração que nutre pela viúva. Essas impressões talvez sejam mais perceptíveis em Machado porque ao leitor é franqueado acesso, de forma minuciosa, aos pensamentos do conselheiro. Afinal, lemos seu diário. Já na narrativa fílmica, podemos notar muito rapidamente e de forma indireta aquilo que o inconsciente de Calvero revela, graças à cena em que um sonho do comediante é dramatizado. Talvez seja a única informação, no curso do filme, da qual possamos inferir que Calvero estivesse apaixonado pela jovem bailarina.

A resignação destes dois homens – e no caso de Calvero, abnegação, pois ele mesmo nega as súplicas apaixonadas de Terry que, modernizando os usos, pede-o em casamento –, parece dar a estas duas narrativas um mesmo tom: há que fenecer o velho para que o novo possa florescer. E é curioso notar que tanto Machado quanto Chaplin também experimentavam, à época da realização destas duas obras, a maturidade enquanto homens e enquanto autores. As figuras masculinas de seus protagonistas parecem realizar ora um ato de esforço, ora um ato de fuga, a fim de preservarem um distanciamento que tem por finalidade favorecer os desígnios naturais da vida, segundo os quais a juventude e a renovação devem vicejar.

 

Tiago Cardoso é frequentador da Palavraria, graduado em direito e mestre em filosofia pela UNISINOS.

 

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25
ago
11

Vai rolar na Palavraria, nesta sexta, 26/08: lançamento da revista Teorema 18

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26, sexta, 19h: Lançamento da revista Teorema 18.

A edição 18 marca a passagem para a maioridade e traz um panorama cinematográfico do primeiro semestre de 2011:

  • Ivonete Pinto fala de cinema sul-coreano e Poesia;
  • Enéas de Souza flana em Meia Noite em Paris;
  • Marcelo Miranda defende John Carpenter e Aterrorizada;
  • Paulo Henrique Silva esquadrinha Bróder;
  • Jean-Claude Bernardet e Marcelo Pedroso debatem Pacific;
  • Marcus Mello esmiúça Trabalhar Cansa;
  • Fernando Kinas ataca Homens e Deuses;
  • Fabiano de Souza anima Turnê, de Mathieu Amalric;
  • Milton do Prado explica a figura e o cinema de Claire Denis.

O que: Lançamento Teorema 18

Quando: Dia 26/08, sexta-feira, a partir das 19h

Onde: PALAVRARIA – R. Vasco da Gama, 165

Fone : 51 32684260 – Porto Alegre

QUANTO: R$ 10,00

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28
abr
11

Vai rolar na Usina do Gasômetro, nesta sexta, 29: Lançamento do livro Ensaios no real

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29, sexta, 20h30 – NA USINA DO GASÔMETRO – 3º ANDAR: Lançamento do livro Ensaios no real, de Cezar Miglione (Org.). Na programação do festival CINEESQUEMANOVO 2011.

Reunião de textos sobre a recente produção documentarista no Brasil, contendo análises detalhadas que vão delineando um universo de crenças no documentário e no real. . .

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16
nov
10

Vai rolar na Palavraria: 17/11: Cinema, literatura e condição humana – Encontros sobre arte, cultura e saúde

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17, quarta, 19h: Cinema, literatura e condição humana, palestra e debate com Maria Helena Martins, Guilherme Castro e Cristina Macedo. Encontros sobre Arte, Cultura e Saúde, promoção do CELPCYRO na Palavraria.

Neste encontro, sob a coordenação da professora Maria Helena Martins, o cineasta Guilherme Castro apresenta seu curta-metragem Terra prometida e a escritora Cristina Macedo lê seus contos, obras que serão abordadas a partir do mote A arte imita a vida ou a vida inspira a arte, por mais absurda e irreal que esta possa parecer?

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Filha do escritor e médico psiquiatra e psicanalista Cyro Martins, Maria Helena de Sousa Martins nasceu em Porto Alegre. Criou o CELP Cyro Martins – CELPCYRO, em 1997 e, desde então, é sua Diretora-presidente, coordena seus projetos de pesquisa, eventos, cursos, publicações e o conteúdo deste site. Lecionou na UFRGS e na USP, na qual se tornou Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada (FFLCH). Além de docência e pesquisa universitárias, sempre gostou do convívio com saberes e fazeres extra acadêmicos. Daí sua participação em projetos como o PROLER, percorrendo o Brasil pela formação de leitores. Também vem desse gosto sua consultoria para as Secretarias de Educação e de Cultura do Município e do Estado de São Paulo, e para o Instituto Itaú Cultural. A interação de linguagens verbais e não verbais, assim como tensões, provocações e iluminação mútua entre diferentes áreas do conhecimento e artes povoam suas conjeturas e questionamentos. Cursos, seminários e oficinas que ministra são especialmente voltados para a relação do leitor com a obra, o processo de atribuição de significados ao que lê, influenciado por vivências e expectativas suas. Tudo isso tem sido carreado para o maior dos desafios de sua atividade profissional, que é dar vida e consistência aos trabalhos no CELPCYRO.

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Cristina Macedo, professora de inglês, escritora e tradutora, nasceu em Santa Maria e vive em Porto Alegre. É mestre em Literaturas de Língua Portuguesa, pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), com a dissertação A Mulher em O Tempo e o Vento. Traduziu Ariel, de Sylvia Plath, juntamente com o poeta Rodrigo Garcia Lopes (Editora Verus, em 2007). Publicou contos na antologia Ponto de Partilha I, organizada pelos escritores Valesca de Assis e Rubem Penz (Editora Kalligraphos, 2008) e na coletânea de poesia, ensaios e contos Arca de Impurezas (Território das Artes Editora). Criou em 2008 o Sarau Literário Zona Sul, que apresenta uma vez por mês em bares e restaurantes da zona sul da cidade, divulgando a obra de poetas e escritores.

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Guilherme Castro é cineasta, atuando como diretor e roteirista, além de professor universitário. Entre os filmes que realizou, estão Terra Prometida (Kikitos de melhor direção, filme e atriz, e Kandango de melhor filme); Transversais, documentário da série Fronteiras do Pensamento; Becos, documentário em 35 mm. Para a RBS TV: roteiro do especial Mario Quintana Sou Eu Mesmo; roteiro e direção do especial Garibaldi, herói de dois mundos; os episódios O Massacre dos Bugres e Mariazinha, da série Histórias Extraordinárias; Fazenda Itu, da série Estâncias e Fazendas. Para a TVE RS: coordenador do projeto de teledramaturgia Histórias do Sul, em 5 episódios de 30 minutos cada, com adaptações de obras literárias para a televisão; os programas de televisão TV CINE e Crônicas do Tempo; coordenador do projeto Sul Sem Fronteiras: 14 documentários para a televisão; o documentário ‘Êxodos’, com pronunciamentos e fotos de Sebastião Salgado; idealizador e editor-chefe do programa de telejornalismo Jornal da Cidadania, 01 hora, diário (Prêmio Direitos Humanos/Conselho Britânico/UNESCO). Presidiu a Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos e o Conselho Estadual de Cultura RS, é vice-presidente da FUNDACINE RS. Graduado em Jornalismo e Direito pela UFRGS, é professor de Cinema na UNISINOS e na ULBRA, e mestrando em Comunicação no PPGCOM/UFRGS. Atualmente realiza o LM documentário Chocolatão – O Filme e o longa metragem de ficção Porteira Fechada, baseado na obra homônima de Cyro Martins.

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junho 2019
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