Posts Tagged ‘Contrastes

05
set
12

A crônica de Guto Piccinini: Contrastes

.

.

Contrastes, por Guto Piccinini

.

O tempo é curto, e ele sabe. Talvez não teria outra oportunidade: segundos antes do disparo, olha para o animal que, tomado pelo pré golpe, sussurra nele o âmago do inevitável. “Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, se não terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro”¹. Ele  escuta atentamente. Ele dispara. Pelas 17h de um inverno rigoroso, ele segue pela primeira vez ao banheiro da rodoviária de sua cidade. Um senhor de idade avançada, aparentemente o zelador do local, conversa animadamente com outro senhor que acabara de fazer suas necessidades. Ele escuta a conversa de ambos atentamente, surpreendido com a vivacidade do encontro, ao mesmo tempo em que alivia sua angústia biológica. Fecha as calças, lava as mãos e segue para a saída. Ao passo dos passos lhe irrompe um comentário maroto e jovial, inspirado pelo momento cênico que lhe afeta. Na pausa do instante, o senhor, lacônico, responde no olhar intrigado de um pequeno sorriso amarelo “ou um real, ou cai fora”. Sentado de frente para os pais, com os braços cruzados, ele escuta. Pouco atento às palavras a ele dirigidas, mas preso ao ar afoito dos pais por passarem a nobreza do trabalho e da superação em um passado distante. Impaciente, ele aguarda a saída e o desfrute que lhe proporcionará a mesada, religiosamente repassada, em lanches e pequenos objetos de plástico colorido. Todos os dias ele andarilha pelo campo e pela rede de ruelas de chão batido que compõe a geografia da região. Vagar sereno e descompromissado. De viagem à capital, engolido pelo diferente relevo, por pouco não é atravessado pela manada de carros ao supor a gentileza da passagem corriqueira em seu universo simbólico. Na Buenos Aires do século XIX, ele dança com outro homem, ambos vestidos ao rigor do momento e embalados por um clima de perfume melancólico que paira e permanece. Os olhares se esforçam para um não encontro, mesmo que sorrateiro, enquanto a plateia observa sem nenhuma reação aparente. Ele, encorpado em sua farda militar, olha do alto do palácio real a cidade em seu comando. Toda a ordem e o respeito solene conquistados preenchendo avenidas e vielas, cujas mãos alcançam até os pequenos cantos inimagináveis. Retorna ao interior do palácio, e já em seu quarto beija sua mulher carinhosamente, que lhe sorri. Apagam as luzes e deitam-se na cama com os lençóis manchados de sangue. Frente à imagem especular, ele inveja os grandes peitos que chamam sua atenção na passarela da vida. Após os anos e as dores da operação, sente o peso em suas costas e da conclusão: “desejamos um estranho próximo”. Ele se olha maravilhado com a beleza de seus braços e peitorais definidos, as linhas que desenham os contornos e sutilezas do corpo. Do outro lado da cidade, ele lê um livro e toma um café, maravilhado com as definições abstratas do conceito e os contornos e sutilezas da cena. Deitado no divã, ele fala ininterruptamente a preencher o espaço que cobre o espelho. Sentado na poltrona ao lado, ele se olha, respira sonolento e pede misericórdia a Cronos. Ele se dirige ao sagrado mestre e pergunta sobre o grande segredo da revelação e sentido da vida. Imediatamente o mestre lhe responde, desferindo em um movimento ágil com sua bengala uma porrada na boca do discípulo curioso. Com a boca vermelha do sangue que escorre, ele compreende. Ele escreve. A palavra sutilmente se destaca do grafite incrustado no papel, na performance que toma conta do cenário e da performance. Ele em si se desdobra invaginante. Ele em si. Eu.

1. Do livro “O ateliê de Giacometti”, de Jean Genet

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.




junho 2020
S T Q Q S S D
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930  

Categorias

Blog Stats

  • 742.113 hits
Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com

%d blogueiros gostam disto: