Posts Tagged ‘Conversas na Biblioteca

11
jul
12

Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Arrumação da Biblioteca, a saga

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Arrumação da Biblioteca, a saga – por Carla Osório

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Confesso que ainda não arrumei minha biblioteca. Os dias quentes do verão porto-alegrense e desse inverno que não me deixam sentir frio me dão um desânimo de dar dó.

Mas aconteceram coisas interessantes. Procurava um livro já há algum tempo, Medo dos Espelhos, do Tariq Ali, e de repente ele resolveu dar as caras. Sem mais nem menos era o primeiro livro da primeira pilha e eu nem tinha reparado.

Esse fato me lembrou uma animação que está na internet, cujo nome é The Joy of Books, e começa quando o livreiro fecha a porta da livraria e os livros ganham vida, passeiam pelas estantes, mudam diversas vezes de lugar, dançam e quando amanhece o dia voltam a normalidade com que nós, humanos, estamos habituados. Desconfio que alguns livros se apaixonam e ou tornam-se amigos e, por isso, não voltam ao lugar onde o livreiro os deixou. Como já encontrei Crime e Castigo na estante de História, imagino que Dostoiévski ou Raskolnikolv tenham tido uma certa curiosidade histórica.

Aqueles que pensam que os livros são meros objetos inanimados, tenho que dizer que se enganam redondamente. Livros são encontrados quando não os estamos buscando e teimam em se esconder quando os queremos obsessivamente. Suspeito que tenham um prazer em nos ver procurando-os, pensando que nunca mais iremos vê-los, desesperados porque aquela edição é especial (afetiva ou materialmente) para logo em seguida se apresentarem, quase com um sorriso na capa, dizendo: estou aqui e não te abandonei.

Costumo dizer para alguém que entra na Palavraria para dar uma “olhadinha”, que são os livros que nos escolhem e não o contrário. Quem de nós não chegou cheio de razão para comprar um determinado livro e de repente, por um motivo inexplicável, leva outro, que sequer fazia parte da eterna lista que todos nós leitores temos, na mente ou no papel.

No Cemitério dos Livros Esquecidos (lugar situado em Barcelona nos romances A Sombra do Vento e Jogo do Anjo, de Zafón) o leitor iniciado pelo livreiro Sempere caminha por estantes intermináveis até que um livro o escolha, e este livro o leitor se compromete a não deixar que seja destruído. Um dos aspectos interessantes nesses dois livros é que o leitor se perde no labirinto de estantes, encantado com as milhares de possibilidades e leva um só livro. Com os amigos e os amantes também acontece o mesmo. Quantas pessoas conhecemos todos os dias e por quantas nos apaixonamos? Quem escolhe quem e por que critrérios?

Por que escolhemos um livro em uma estante e não outro? Quem escolhe quem? 

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Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

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30
mar
12

Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Estantes

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Estantes, por Carla Osório

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Pois muito bem, resolvi passar um anti-cupim em uma das minhas estantes, logo aquela da sala. Tirei todos os livros, empilhei em vários lugares e agora olho para eles e me dá uma agonia, aquela bagunça toda me deixa angustiada: será que Borges está ao lado ou sobre Sábato; Vargas Llosa ao lado de Garcia Marquez? Esses equívocos seriam imperdoáveis, eles se rebelariam contra a ordem estabelecida autoritariamente ou me desprezariam por colocá-los juntos em posição tão incômoda, ou ainda pior: ordenariam um ataque de cupins e traças a todos os livros!

Preciso arrumar a estante e resolver essas pendências, deixá-los (os livros) tranquilamente intranquilos. É algo como organizar  os pensamentos depois de um susto ou um trauma qualquer. Preciso de ordem e método, como diria Poirot. Mas também me pergunto se as estantes do detetive Espinoza (personagem das novelas policias de Garcia-Roza) não seria um modo mais prático de resolver esse assunto (o das estantes e seus respectivos cupins).

Espinoza faz estantes com os próprios livros: primeiro na vertical, depois na horizontal, depois novamente na vertical e assim por diante. Seria uma forma interessante, consigo imaginá-la até com uma certa graça. Mas e se eu resolvesse reler um livro que está na horizontal, como ficariam todos os de  cima? Caíriam? Certamente sim, talvez fizessem uma ou duas concessões pra mim e durante um certo tempo. Mas no final das contas acabariam  por me deixar com uma pilha desarrumada e provavelmente machucada. E alguns machucados de quedas são irreversíveis, principalmente quando se trata daquelas brochuras mais antigas, ou pior daquela nova edição de Guerra e Paz (belíssima, objeto de desejo e puro fetiche publicado pela Cosac Naify).

Pronto: problema resolvido, as estantes do Espinoza não são pra mim, portanto voltarei àquela questão que não quer calar: ao trabalho e arrumar essa biblioteca!

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Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

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25
nov
11

Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Hercule Poirot: um repouso

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Hercule Poirot: um repouso, por Carla Osório

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Em dias de virose, alergia, ansiedade, sinusite, gripe  e enxaqueca, somente Hercule Poirot me faz ler. Preciso de conforto e ele está lá, a minha espera, com suas células cinzentas, seus sapatos de verniz, seu bigode indescritível (não consigo sequer imaginá-lo e nos filmes ou seriados eles sempre me parecem falsos: não são os bigodes dele).

Descobri Agatha Christie com um presente que me foi dado ao acaso, acaso porque eu não lia romances policiais na época. A Editora Record havia lançado em papel jornal a coleção completa de suas novelas policiais, se não me falha a memória nos anos oitenta, e era vendida em bancas de revista. Depois de ler o primeiro, passei a comparecer quinzenalmente  na minha banca de revistas preferida, na Venâncio Aires, na frente do HPS (ainda existe até hoje) e comprava aqueles livrinhos que me acompanham até hoje. Já pensei em substituí-los por edições mais bonitas,  já que os utilizo tanto, mas estes são meus companheiros de anos e gosto de olhar aquelas capas amareladas, marcadas até por papéis que deixava por descuido dentro dos livros. Enfim, as marcas do tempo e dos meus descuidos estão nesses livros como em tantos outros.

Releio todas aventuras de Hercule Poirot e tão somente as dele, os demais personagens, inclusive Miss Marple, não me são tão próximos.

Mas que tem Poirot de tão interessante e por que me acompanha há tanto tempo?

Sabem aqueles amigos chatos, que todos nós temos, mas de quem gostamos muito e cujas esquisitices  suportamos por simples afeto? Pois assim é Hercule Poirot para mim.

Para quem não o conhece, Poirot é um detetive belga um tanto excêntrico, afetado, orgulhoso de si próprio (e de suas células cinzentas), mas divertido. Ele foi criado em 1916 (quando Agatha Christie escreveu o primeiro romance O Misterioso caso Styles) e quando morreu (porque Agatha Christie o matou e esse livro JAMAIS vou reler) recebeu um obituário primeira página do The New York Times .

Ele gosta de coisas de uma forma ordenada (ou seja, livros arrumados em uma prateleira de acordo com a altura) e aprova de simetria em todos os lugares (Whitehaven Mansions, o edifício onde reside, foi escolhido devido à sua simetria). Para solucionar um crime utiliza somente as famosas células cinzentas, além da ordem e do método. Ele afirma que qualquer crime pode ser resolvido com a simples colocação das peças do quebra-cabeças corretamente.

As aventuras de Poirot iniciam-se em 1916  e sua morte se dá em 1975. Dessa forma toda a história dos costumes ingleses passa pelos seus livros. Esse é um fato pouco levado em consideração quando se lê a obra de Agatha Christie, porque mesmo não sendo essa a sua intenção, acredito, suas novelas descrevem muito bem a época em que foram escritas: desde a aristocracia falida, sem condições de manter as belas mansões que se transforam em hotéis, até o surgimento do movimento hippie (momento em as mulheres se enfeiam, segundo Poirot,  e os homens deixam o cabelo crescer).

O conservadorismo, a xenofobia, o anti-semitismo e o culto à aristocracia  são algumas das características s que deveriam me afastar das novelas de Agatha Christie.  Mas essas características parecem não se impregnar em Poirot. Ele fica imune à minha crítica, talvez porque as novelas sejam narradas na terceira pessoa, talvez por ele ser um estrangeiro consciente de viver em uma Inglaterra que não aceita a diferença, talvez por seus maneirismos e extravagâncias em um país onde a discrição é a tônica (salvo em relação aos chapéus) e talvez porque ele tenha orgulho dessa distinção.

Poirot paira por uma Inglaterra em decadência (a Inglaterra dos condes, dos nobres e das mansões em estilo georgiano ou vitoriano), assinalada pelas transformações do pós-guerra, pela ascensão do Partido Trabalhista, pelo desaparecimento dos serviçais leais (mordomos, governantas, jardineiros).

Mas é porque eu conheço muito bem Poirot é que posso falar dele (e de suas Inglaterras) dessa forma. Quem o conhece pouco somente verá o jogo estabelecido por Agatha Christie entre o detetive e o leitor para a solução do caso.

Quando voltar a época de resfriados, angústia, rinite… voltarei a conversar com Poirot, como sempre.

Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

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19
ago
11

Conversas na Biblioteca, com Carla Osório: Nada é o que parece ser

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Nada é o que parece ser (Notas sobre Kurt Wallander), por Carla Osório

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Estava procurando um filme para ver no final de semana e me deparei com uma série sobre Kurt Wallander, dirigida e protagonizada por Kenneth Branagh.   Ops, pensei, já faz muito tempo que não leio nada desse cara. Levei o DVD para casa e me deliciei! E de quebra ainda tinha uma entrevista com Henning Mankell (autor das novelas policiais em que Wallander é protagonista), o que me instigou ainda mais a reler os livros que tinha em casa e buscar outros mais.

Nessas noites em que Wallander e eu mal dormimos, encontrei um interlocutor  que não tem respostas, não é cético e nem é cínico. Converso com sua angústia e perplexidade ante um mundo em transformação, o qual não reconhecemos e do qual sentimos não mais fazermos parte.

Não há humor em Wallander,  somente esse sentimento que cresce a cada livro e a cada caso que busca solucionar. É com dor que ele enfrenta o mundo, suas alegrias são fugazes, sua depressão quase o esmaga, mas ele sobrevive, como nós.

A Suécia, onde se passam as histórias de Wallander, foi um dos países que o Estado de Bem Estar social mais vingou. Disparidades sociais existiam, mas a dignidade humana era preservada. Lembro de uma passagem específica em que Wallander entra em um prédio maltratado e sujo e não somente se surpreende com o lugar, como pensa que a forma como as pessoas ali viviam era inconstitucional (Pasmem! Repito: inconstitucional). Em outros momentos reflete sobre uma geração que viveu buscando uma sociedade mais igualitária e se depara (ou se incorpora) com corrupção, com grandes monopólios, com concentração de renda, com empobrecimento de parte da população e por aí afora. Mas isso é outra história (ou é a História).

E como tudo que é sólido desmancha no ar, nas relações pessoais a instabilidade  é a tônica, seja com o pai, com a filha ou seus amores. Tudo é antigo e novo  simultaneamente,  nada é o que parece ser.

Antes de mais nada, ou antes de tudo, o que se nota em Wallander/Mankell é uma profunda preocupação com o ser humano, seja na Suécia, na Letônia ou na África.

Se efetivamente Mankell escreve novelas policiais eu já não sei…

 

Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

As Conversas na Biblioteca, de Carla Osório, são publicadas neste blog na terceira sexta-feira de cada mês.

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17
jun
11

Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Pepe Carvalho (I)

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Pepe Carvalho: Um caso não solucionado – Tomo I, por Carla Osório

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Escrever sobre Pepe Carvalho é o exercício das contradições. Conheci-o há alguns anos e ele me intrigou tanto que passei a procurá-lo nas livrarias de todas as cidades. Como não o conheci desde o nascimento, ele foi me surpreendendo através de suas memórias.

Claro que Pepe Carvalho não é um autor (se bem que poderia ter sido), mas sim um personagem das novelas policiais de Manuel Vasquez Montalban.

Pepe é um detetive particular, ex-comunista, que mora em Barcelona, culto, irônico, ex-agente da CIA e QUEIMA livros.

Resumi a contradição?

Não, claro que não. Ela é estampada em cada livro, em cada dúvida, em cada solução de caso. Ele assume o desencanto e nos mostra uma Espanha em transição. Mas não somente a Espanha, o mundo que vivemos, a América Latina pós-ditaduras, o leste europeu pós União Soviética, e também nos traz uma ternura pelos vários lugares por onde Pepe (ou Montalban) passou, pelas cidades, pelos restaurantes, pelos bares, e principalmente pela comida. São tantas as peles que ele já vestiu que um desavisado poderia considerá-lo uma miscelânia, comparado a Poirot, por exemplo, que foi sempre Poirot em todas as circunstâncias. Mas Pepe muda, desiste, insiste, cansa e retorna faminto.

Aliás, a gastronomia, além do passado de ativista de esquerda, une Pepe Carvalho a Salvo Montalbano (personagem das novelas policiais de Andrea Camilleri). Ambos são capazes de percorrer quilômetros somente para apreciar um determinado prato em um restaurante que poucos conhecem, mas cujo cozinheiro ou cozinheira são excelentes. As receitas transcritas nos livros de Montalban foram editadas em um livro que infelizmente não foi publicado no Brasil.

A surpresa de Pepe ter trabalhado para a CIA, sendo quem é, foi difícil de digerir, ainda mais considerando o autor do personagem. Essa é uma história que precisa ser contada – Companhia das Letras, por favor, publique os romances mais antigos do Montalban. Afinal, precisamos saber as motivações que o levaram a trabalhar com a CIA.

Sei que liberado da CIA e voltando para a Espanha começa a queimar livros, os primeiros são España como problema, de Laín Entralgo, y el Quijote (cruzes!!!). O que significa queimar livros? Seria uma metáfora para a libertação dos antigos mestres ou simplesmente ignorar o conhecimento acumulado pela humanidade. A queima de livros foi sempre uma forma do povo dominador reprimir a história do dominado. O Index (livros proibidos) do cristianismo é um exemplo desse fato, a história está recheada desse comportamento.

Qual o significado para Pepe Carvalho queimar seus livros eu ainda não descobri, mas é um fato que me incomoda e intuo que Montalban via com desconfiança esse ato.
A criatura terá dominado o criador?

 

Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

A partir desta data, as Conversas na Biblioteca, de Carla Osório, passam a ser publicadas neste blog na terceira sexta-feira de cada mês.

14
jan
11

Conversas na biblioteca, com Carla Osório: Pepe Carvalho, um caso não solucionado

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Pepe Carvalho: Um caso não solucionado – Tomo I, por Carla Osório

Escrever sobre Pepe Carvalho é o exercício das contradições. Conheci-o há alguns anos e ele me intrigou tanto que passei a procurá-lo nas livrarias de todas as cidades. Como não o conheci desde o nascimento, ele foi me surpreendendo através de suas memórias.

Claro que Pepe Carvalho não é um autor (se bem que poderia ter sido), mas sim um personagem das novelas policiais de Manuel Vasquez Montalban.

Pepe é um detetive particular, ex-comunista, que mora em Barcelona, culto, irônico, ex-agente da CIA e QUEIMA livros.

Resumi a contradição?

Não, claro que não. Ela é estampada em cada livro, em cada dúvida, em cada solução de caso. Ele assume o desencanto e nos mostra uma Espanha em transição. Mas não somente a Espanha, o mundo que vivemos, a América Latina pós-ditaduras, o leste europeu pós União Soviética, e também nos traz uma ternura pelos vários lugares por onde Pepe (ou Montalban) passou, pelas cidades, pelos restaurantes, pelos bares, e principalmente pela comida. São tantas as peles que ele já vestiu que um desavisado poderia considerá-lo uma miscelânia, comparado a Poirot, por exemplo, que foi sempre Poirot em todas as circunstâncias. Mas Pepe muda, desiste, insiste, cansa e retorna faminto.

Aliás, a gastronomia, além do passado de ativista de esquerda, une Pepe Carvalho a Salvo Montalbano (personagem das novelas policiais de Andrea Camilleri). Ambos são capazes de percorrer quilômetros somente para apreciar um determinado prato em um restaurante que poucos conhecem, mas cujo cozinheiro ou cozinheira são excelentes. As receitas transcritas nos livros de Montalban foram editadas em um livro que infelizmente não foi publicado no Brasil.

A surpresa de Pepe ter trabalhado para a CIA, sendo quem é, foi difícil de digerir, ainda mais considerando o autor do personagem, que por seu lado é inclusive personagem de um livro de Juan Taibo II e do Comandante Marcos (Mortos Incômodos, publicado pela Editora Planeta). Essa é uma história que precisa ser contada – Companhia das Letras, por favor, publique os romances mais antigos do Montalban. Afinal, precisamos saber as motivações que o levaram a trabalhar com a CIA.

Sei que liberado da CIA e voltando para a Espanha começa a queimar livros, os primeiros são España como problema, de Laín Entralgo, y el Quijote (cruzes!!!). O que significa queimar livros? Seria uma metáfora para a libertação dos antigos mestres ou simplesmente ignorar o conhecimento acumulado pela humanidade. A queima de livros foi sempre uma forma do povo dominador reprimir a história do dominado. O Index (livros proibidos) do cristianismo é um exemplo desse fato, a história está recheada desse comportamento.

Qual o significado para Pepe Carvalho queimar seus livros eu ainda não descobri, mas é um fato que me incomoda e desconfio que Montalban via com desconfiança esse ato.

A criatura terá dominado o criador?

Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

As Conversas na Biblioteca, de Carla Osório, são publicadas neste blog na segunda sexta-feira de cada mês.

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10
dez
10

Conversas na Biblioteca, por Carla Osório: Enquanto Veneza se afoga

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Enquanto Veneza se afoga, por Carla Osório

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Guido Brunetti pretende chegar mais cedo em casa, já que é um dia especial, pois seus sogros estão proporcionando uma festa, à qual ele não pode deixar de ir. Pelo menos dessa vez terá que comparecer, juntamente com sua mulher Paola e os filhos Chiara e Raffi. Não há escapatória. Sai à rua melancólica, pensando na noite que o espera e procura o transporte público, um vaporetto que o levará ao seu apartamento, no quarto andar de um palazzo original do século 15, entre a estação San Silvestro e o Campo San Paolo.

Pois é. Guido Brunetti mora em Veneza, na encantadora e romântica cidade, que nos lembra passeios de gôndola, palácios e obras de arte. Mas os problemas de Guido são os de qualquer humano, os conflitos familiares, problemas com os filhos e com o sogro que jamais aceitou o casamento dele com Paola.

Então o que torna Guido especial? Pasmem: Guido é o personagem dos romances policiais de Donna Leon, mas tem família, não é um lobo solitário, não tem problemas com álcool. É um cidadão comum, com as angústias e desejos de um cidadão comum e por isso ele é especial.

O cotidiano e os conflitos familiares se entrelaçam com a investigação de crimes na alagada Veneza. Na Veneza que se afoga lentamente, que está do mesmo jeito desde o século 15, recebendo cada vez mais turistas, para desespero de Guido. É fácil se perder no labirinto formado por ruas estreitas e quase 200 canais, mas apaixonado pela cidade ele se revela um ótimo guia.

Ser veneziano não é fácil, seja pelo alagamento, seja pela dificuldade em encontrar um local para morar, seja pela acqua alta ou simplesmente pela certeza do fim de uma cidade.

Como disse um personagem: “Era destino dos venezianos ser expulsos da cidade pelos aluguéis e pelos preços exorbitantes. “É difícil conseguir morar na terra da gente, comissário.” (pág. 124, Vestido para Morrer, Companhia das Letras).

O comissário Guido Brunetti desvenda crimes em e nos arredores de Veneza. Cada caso é uma oportunidade para que se revele algum aspecto da sociedade veneziana. O fato de Brunetti não poder combater fortemente a endêmica corrupção do sistema o deixa um tanto quanto cínico, o que não o impede de continuar.

Guido encontra solidariedade na sua esposa Paola, uma condessa nascida de uma das antigas famílias de Veneza. Paola ensina literatura inglesa no sistema público e tem o espírito dos anos 68. O mundo familiar de Brunetti contrasta com a corrupção e crueldade que ele encontra no trabalho. Brunetti tem outra boa aliada no comissariado, a secretária do Vice-questore Patta, a senhorita Elettra, que consegue informações consideradas inacessíveis.

Por isso já bastaria ler as desventuras de Guido, mas a personalidade dele é mais atraente, com picos de ingenuidade, principalmente em sua vida pessoal, e teimosia, que o impede de aceitar uma solução singela para um crime que investiga.

Guido é interessante porque tem as nossas angústias e a nossa perplexidade em relação a um mundo ao mesmo tempo conhecido e desconhecido. Esse paradoxo que nos atinge diariamente, em cada opção que fazemos, em cada pré-conceito que externamos e em cada vislumbre de uma nova organização social que se avizinha.

Mas a vida continua, mesmo em uma cidade que afunda com a especulação imobiliária, corrupção, preconceitos, conflitos sociais e políticos e… crimes, é claro.

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Carla Osório é sócia-proprietária da Palavraria.

As Conversas na Biblioteca, de Carla Osório, são publicadas neste blog na segunda sexta-feira de cada mês.

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