Posts Tagged ‘Crianças: caso sério de poesia

08
nov
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Um pouco mais do mesmo – A crônica de Roberto Medina

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Crianças: caso sério de poesia, por Roberto Medina

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E não é que Drummond tinha razão? Lembra da história do filho de Dona Coló? Aquele que via dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas?  Ou o dia em que as borboletas do mundo todo formaram um imenso tapete, querendo levá-lo ao sétimo? Ou o pedaço da lua que caiu cheia de buraquinhos, feito queijo, depois de provar, ele atesta ser de queijo mesmo… Com castigos e reprimendas, o menino persistia nesses desatinos; inconformada, a mãe leva-o ao Doutor Epaminondas, recebendo do médico a resposta de que não havia nada a fazer, o menino era caso sério de poesia.

***

O respeitável público

Era do banheiro que vinha aquela cantoria entusiasmada do pequeno Pedro. Seria ele um Pavarotti de calças curtas aos 5 aninhos? Prossigamos! Pai e mãe, reunidos na sala, preocupam-se com os 60 minutos já gastos de água que escorria ininterruptamente, bem como com o cantor lírico que variava os allegros e piano e pianíssimo e solfejos.

Aberta a porta pelo pai, notou que Pedrinho mantinha-se ainda enrolado na toalha, sem uma gota d´àgua no corpo. Nota também uma traça aos pés do cantor. Em menos de um segundo, o bichinho vira uma massa disforme debaixo do chinelo do pai.

A gritaria e desespero de Pedrinho conduzem a mãe e metade da vizinhança para o recinto. Angustiada, pergunta:

–  O que foi meu, filhinho do céu?

Ele soluça e diz, olhando feio para o pai: –  Eu ´tava cantando pra ela!!!!!!!!!!!!!!!!

E o choro, bom, vocês sabem…

***

Invasão americana

Em Uruguaiana, o pai passeia de carro com o filho e um amiguinho. O filho, que aportara antes na cidade, com peito estufado, explicava ao recém chegado as belezas do local. Indicava lugares e ruas. Sonhava o que não sabia. O pai apenas cuidava o trânsito enquanto o nosso guia improvisado indicava lugares e nomes.

Próximo à entrada do município, por onde passeavam, o filho destaca um local, considerado um santuário. Local, dizia ele, onde cuidam dos bichinhos. Eles chegam doentes: patas quebradas, algum ferimento causado por caçadores… entre os animais: onças, pacas, tatus, jaguares e toda sorte de aves.

Porém, sempre tem um porém, o hospital de bichos havia se tornado muito pequeno e caro. Já não possuíam verbas o bastante para manter o hospital-santuário.

O visitante questiona o guia-mirim:

– É… e por que tá tudo vazio? Tu tá mentindo – desafiou.

Triste, contra-ataca:

– Mentindo nada. É que o OBAMA passou aqui e levou todos  – informou.

***

Terra levada

Quem mora no centro do RS gasta um longo tempo de carro até a praia.

No percurso, os três filhos pequenos pedem aos pais para fazer xixi. Então, estacionam o veículo no acostamento. A estrada, neste ponto, está entre paredões de terra, como salsicha no meio do cachorro-quente.

O mais novo dos filhos agora urina, chora e aponta para os sulcos na terra, lembrança de quando as escavadeiras abriram o caminho.

O choro triste do filho desperta a atenção da família inteira. Ele apontava compulsivamente o buraco no paredão.

–  Que que é, filho? Que houve?

–  Mãeee, ´tão roubando o mundo – disse ressentido.

***

Noite duvidosa

São 3 horas da manhã. Jerson olha para a esposa ao lado na cama, ressonando. Ele se preocupa com o choramingo no meio da madrugada. Choramingo de filho. Eles têm o Racine, 7, e Rael, 5 aninhos.

O choro angustiado  driblava a escuridão e acordava o pai naquela hora.

Firme, de sua cama, pesquisou os filhos:

– Racine?!

Apenas silêncio.

O choro tinha, com certeza, outro dono.

– Rael?!

Veio a resposta lacrimosa:

– Quê, pai?!!!!

– Que houve, filho?

Seguro no socorro da voz paterna, chora de fato, sem travas.

Insiste o pai:

– Que é, menino?

Rael chora mais e desabafa:

– Pai, melancia é com “C” ou com “S”? – aproveita e encomprida as lágrimas.

O pequeno se ressentia na entrega do tema na escola na manhã vindoura.

– É com “C” – ouviu o pequeno.

Depois da certeza, o nó do peito se afrouxou, e Rael sentiu a calma dos anjos do sono na alma: uma leveza boa.

***

Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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