Posts Tagged ‘crônica

29
fev
16

Vem aí, na Palavraria, a partir de 7 de março, Oficina de Crônicas, com Pedro Gonzaga

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Cursos oficinas 2016

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Oficina de Crônicas

com Pedro Gonzaga

A partir de 7 de março das 19 às 21h
sempre às segundas-feiras

INSCRIÇÕES ABERTAS

na Palavraria

pedro oficina de crônica 16-1

Investimento: R$ 270,00 – quatro encontros

 

Informações e inscrições: Palavraria Livros & Cafés
Rua Vasco da Gama, 165 – Telefone 32684260 – palavraria@palavraria.com.br

 

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Palavraria - livros a.

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23
nov
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Vai rolar na Palavraria, nesta segunda, 25, Vereda Literária: A vida é uma ficção? Com Cláudia Tajes, Mariana Kalil e Lu Thomé.

program sem

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25, segunda, das 19h30 às 21h: A vida é uma ficção? Cláudia Tajes e Mariana Kalil  conversam com Lu Thomé sobre seus livros e processo criativo.

Claudia_TAJESClaudia Tajes nasceu em Porto Alegre em 1963. Redatora publicitária, estreou na literatura com Dez (Quase) Amores (L&PM Editores, 2000). Seguiram-se As Pernas de Úrsula & Outras Possibilidades (L&PM Editores, 2001) e o romance Dores, Amores & Assemelhados (L&PM Editores, 2002), A vida sexual da mulher feia (2005), Louca por homem(L&PM 2011), Vida dura (L&PM POCKET, 2008) e Só as mulheres e as baratas sobreviverão (L&PM Editores, 2009), Por isso eu sou vingativa (2011) e Sangue quente (2013).  Além de escritora, Claudia Tajes é roteirista da Globo e em 2011 teve seu livro  Louca por homemadaptado para uma série no canal HBO chamado Mulher de fases.

mariana-kalilMariana Kalil é jornalista, editora do caderno Donna, suplemento dominical do jornal Zero Hora. Trabalhou nas redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil, e foi correspondente da BBC Brasil na Espanha, onde fez pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagem y Diseño de Barcelona. È autora dos livros Peregrina de araque: uma jornada de fé e ataque de nervos no Oriente Médio e Vida peregrina: uma jornada de desequilíbrios, tropeços e aprendizado, ambos pela editora Dublinense.

LU THOMÉLu Thomé é jornalista e coordena projetos de assessoria de imprensa no Estúdio de Conteúdo, atendendo autores e editoras como Não Editora e Dublinense. Participou das antologias Ficção de Polpa – Volumes 1, 2 e 3 (Não Editora).

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4ª VEREDA LITERÁRIA

vereda literária 2013

A VEREDA LITERÁRIA é um evento anual, próximo ao período da Feira do Livro de POA, mas fora das mediações da Praça da Alfândega (não com o propósito de oposição, mas com o de adição: propor mais um caminho, ou mais uma vereda, que fomente novas discussões literárias). A realização do evento não tem fins comerciais e não conta com patrocínio. Por isso, essa Vereda é fruto do trabalho e doação dos seus idealizadores, da parceria de amigos ligados a área da literatura e cultura, e, é claro, da boa vontade dos participantes das ‘mesas’A proposta inicial são encontros entre autores novos ou mais experientes, com temas ligados ao fazer literário.  Convocamos todos que, como nós, são apaixonados por literatura para participar e construir essa nova Vereda.

Curadoria:
Leila  da Silva Teixeira

Idealização:
Cris MoreiraDaniela Langer e Leila  da Silva Teixeira

Organização:
Daniela Langer e Leila  da Silva Teixeira

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12
jun
12

Sidnei Schneider, relendo Drummond

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Relendo Drummond

Convidados pela Palavraria a escrever sobre Carlos Drummond de Andrade, escritores amigos da casa ensaiam dizeres sobre a obra do escritor mineiro. Sidnei Schneider apresenta sua releitura.

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Acessando Drummond, por Sidnei Schneider

Os poetas brasileiros que primeiro me interessaram, pela ordem, foram Ferreira Gullar, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Cheguei a Carlos Drummond de Andrade meio de atravessado, pelo livro Boitempo I (1968), de importância lateral, embora tenha retido poemas como “Negra” e “Copo d’água no sereno”, e gostasse de “O homem; as viagens”, de As impurezas do branco (1973), presente num livro escolar. O poeta mineiro, àquele leitor iniciante, parecia verborrágico e com predileção por temas nostálgicos, diante da secura e da contemporaneidade de Gullar e Cabral.

Hoje, quando penso em Drummond, volto aos livros que inicialmente me seduziram, e marcaram. Primeiro, A rosa do povo (1945), com aquela quantidade impressionante de poemas estelares, um fenômeno da poesia brasileira: “Procura da poesia”, “A flor e a náusea”, “Carrego comigo”, “Nosso tempo”, “Áporo”; os narrativos “Caso do vestido” e “Morte do leiteiro”; a série que trata do terrível momento pelo qual atravessava o mundo de então, formada por “Carta a Stalingrado”, “Telegrama de Moscou”, “Visão 1944”, “Com o russo em Berlim”, revelando também uma espetacular confiança no futuro desde “Mas viveremos”, que deseja-e-prevê um “avião sem bombas entre Natal e China/ petróleo, flores, crianças estudando,/ beijo de moça, trigo e sol nascendo”. Depois, Claro enigma (1951), com o muitas vezes relido “Máquina do mundo”, que por si vale um livro completo, e o agridoce “Amar”, derivado provavelmente de “Amo, amas”, do modernista nicaraguense Rubén Darío. Que essa minha predileção de leitor iniciante tenha coincidido com a posição de boa parte da crítica, foi uma surpresa que só mais tarde eu constataria. Anterior a estes, Sentimento do mundo (1940) introduziria o ponto de vista que redundaria em A rosa do povo, através de poemas como “Mãos dadas” e “Mundo grande”. Drummond, evidentemente, tem muitíssimo mais do que comporta esse pequeno texto.

Recordo a crítica de João Cabral de Melo Neto, talvez ainda parte de um processo de desvencilhamento daquele que foi seu grande mestre, dizendo que Drummond se excedia e publicava demais. Impossível discordar completamente, para quem leu os livros Boitempo I, II e III (1968, 1973 e 1979), repletos de recordações que já apareciam de algum modo no inicial Alguma poesia (1930). O fato é que Drummond sentiu necessidade de revisitar o passado, não se lhe nega esse direito, um poeta escreve sobre o que bem entender, mas a pergunta, se realmente deveria publicar toda essa investida, fica suspensa igual a espada de Dâmocles. Claro, podemos ler só o que mais apreciamos; acontece que essas questões preocupam os poetas, pois eles se colocam o problema de o que publicar continuamente.

Drummond, com sua poesia de faca de ponta (diferente da de Cabral, que parece afiar sua só lâmina na pedra enquanto se ausenta do poema, mas não de sua planejada eficácia), vai escarafunchando as nódoas da sociedade e da civilização, mas antes escarafuncha as que carrega, como se, fazendo-o, colocasse o seu “eu poético” no lugar de todos. Embora tenha escrito excelentes poemas nas mais diversas formas, tradicionais e inovadoras, há nele uma forte dicção logopeica, afeita a extrair a credulidade das estratégias que encobrem os fatos e as relações humanas, sem se preocupar centralmente, nessas ocasiões, em reproduzir uma musiquinha ou mesmo dar a ver imagens com o seu poema. É essa escrita fria, perfurante, não-melódica no sentido tradicional, crítica e autocrítica ao extremo que melhor o caracteriza: vê-se logo quando o poema é dele. Escrever poesia numa língua que produziu poetas como Drummond é uma dádiva e uma responsabilidade. Sua obra, sim, temos que disseminar por aqui e exportar cada vez mais, para que os raimundos de todo o lugar o possam ler.

09-05-2012

Sidnei Schneider é poeta, tradutor e contista. Autor dos livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999) e tradutor de Versos Singelos/José Martí (SBS, 1997). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional/MinC, 2001), Antologia do Sul (Assembléia Legislativa, 2001), O Melhor da Festa 1 e 2 (Nova Roma, 2009; Casa Verde, 2010) e de outras dez publicações. 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS, 2003 e 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM, 1995, de um total de treze premiações. Publicou artigos, poemas, contos e traduções de poesia em jornais e revistas. Participa do projeto ArteSesc e é membro da Associação Gaúcha de Escritores.

09
jun
12

A crônica de Rônei Rocha: Atados

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Atados, por Rônei Rocha

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Pelos velórios da vida, numa cidade pequena onde fui o único psiquiatra por um tempo, compareci à despedida do pai de um conhecido meu. Como o falecido era uma pessoa bem relacionada, o evento estava bastante concorrido. Em pouco tempo de solenidade, pude constatar que, de todos os presentes, só quem não havia passado pelo meu consultório, seja como paciente ou acompanhante, era o morto. Talvez imbuído de suas responsabilidades formais; talvez já desfrutando de privilégios de outro estado de espírito, foi ele, o defunto, o único que não me virou a cara.

Ainda hoje, mesmo numa cidade progressista como a nossa Uruguaiana, muitos fogem do psiquiatra como guri foge de banho, afinal, nós seríamos médicos de loucos. Com essa fama, não é à toa que uma das perguntas que mais escuto é como fazer para conseguir levar uma pessoa até o meu consultório. Infelizmente, são muito comuns os casos em que a família sequer avisa o paciente que ele irá consultar, criando verdadeiras artimanhas para enganá-lo e chegar, pelo menos, até a sala de espera.

Existem outras explicações para toda essa resistência a uma mísera consulta — além da que ninguém a encara dessa forma, e sim como um julgamento no qual o veredito será “louco” ou “normal”. Ocorre que, neste caso, quem desdenha é quem menos quer comprar, pois quem ataca a “esses psiquiatras” é quem mais precisa de ajuda.

É a doença, em suas diversas formas, quem buzina o ataque no ouvido da vítima, como o diabinho do desenho animado faz de cima do ombro do personagem: “Não vai lá, são uns mercenários”; “só querem saber de dar remédio e te deixar abobado”; “depois nunca mais te dão alta”.

Caso o paciente reaja mal à proposta de ir a um psiquiatra, e pergunte se acham que ele está ficando louco, o alvoroço é geral; ninguém quer melindrá-lo, e saltam com um festival de “capaz”, “que é isso!”, “de maneira nenhuma”, “é só que poderia ser bom”, e por aí vai. Então, afinal, como convencer alguém a consultar?

Fale português, seja claro e não enrole. Isso pode tranquilizar o paciente, por perceber que não estão escondendo nada, mas somente cuidando dele. Caso esteja muito perturbado ou paranóico, o ideal é montar uma equipe para fazer a proposta, pois se todos disserem a mesma coisa, são maiores as chances de vencer a resistência que a doença opõe. Em último caso, quando o paciente representa algum risco a si próprio ou aos demais, é preciso, para o bem de todos, recorrer à Saúde Pública, à justiça e até à Brigada Militar. Não tem outro remédio; é obrigação da família tomar essas providências quando o doente está fora da realidade.

Bastante raras são as crises agudas; geralmente, os sinais eram visíveis há tempos e a família ficou negando o problema, até que chegou a esse ponto lastimável. Já quando se trata de um reles marido que resiste a ir consultar, é bem mais simples. Vale tudo! Desde a esposa exigir um regime de sexo três vezes por dia — a maioria não suporta o pesadelo de ter sua pretensão atendida —, até desaparecer de casa e só voltar quando receber um telefonema do psiquiatra dizendo a senha: “Ele está aqui!”.

Rônei Rocha é escritor e médico psiquiatra de Uruguaiana – RS. Publicou Umas e outras (2011) e A pau e corda (2012), ambos pela Editora Proa.

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13
maio
12

A crônica de Rônei Rocha: Pasárgada

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Pasárgada, por Rônei Rocha

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Japão foi a minha Pasárgada enquanto eu ia entrando na adolescência. Assustado com o homem, eu acreditava que aquela pequena ilha era a prova de que o mundo podia ser melhor.

O leitor talvez imagine que eu fosse como costumam ser os adolescentes apaixonados, um profundo e tendencioso conhecedor do objeto de sua paixão. Pois apesar de ser um gordo rato de biblioteca que traçava o que aparecesse, sobre o Japão, estranhamente, não lia nem uma vírgula.

Eu tinha a minha fantasia, e era o que bastava. Lá os políticos se suicidavam de vergonha pela honra maculada? Era disso que precisávamos no Brasil, nos envergonhar e suicidar os nossos políticos.

Fiquei revoltado e até me sentindo traído quando descobri que eles não eram assim tão diferentes de nós, ocidentais. Mas depois fui amadurecendo e superando o rancor, tanto que recentemente até desisti de construir uma máquina do tempo para poder matar japoneses em Iwo Jima.

Lembro disso com frequência quando atendo pais que vem me consultar antes de trazer os seus filhos. Num exemplo fictício bastante comum, eles suspeitam que o filho seja um psicopata, um bon-vivant, pois não assume nenhuma responsabilidade, não quer saber de estudar nem de trabalhar. Aguardam apenas um sinal meu para ministrarem a tal da surra que fará com que se endireite, ou irão desistir dele. Fico preparado para atender um lobo mau, e eis que surge um porquinho assustado, com uma depressão crônica encravada até o último fio de cabelo.

Em outra situação típica, recebo uma família que chora por estar perdendo o seu filho para, por certo, uma depressão, que o levou a procurar refúgio nas drogas. Quanto às escorregadas na conduta (mentiras, furtos, violência), os pais não tem dúvida: “São as más companhias, doutor. Ele é um bom rapaz, só que se perdeu. O senhor vai ver quando ele vier consultar!”. Ele vem e eu vejo, como já suspeitava, que a péssima companhia é ele, e acho que quem está perdido sou eu. Lembro que posso invocar a São Lucas, o santo padroeiro dos médicos, mas penso melhor e resolvo encaminhá-lo para um especialista em pacientes assim, o Dr. Nascimento (que por ser Capitão tem o estofo que se requer nesses casos).

Mas o que leva uma família a escolher entre um diagnóstico ou outro? Não se trata de qual é o menos grave; a questão é fugir para uma fantasia, por isso essas famílias não buscam informações sobre sociopatia ou depressão. Na fantasia dos primeiros, ser um psicopata é algo menos grave, coisa que uns croques ou palmadas irão resolver. Assim tentam negar a depressão, que, como um buraco negro, suga energia de todos os que estão a sua volta. Já a segunda família se refugia da culpa e do medo responsabilizando a terceiros e fantasiando que um antidepressivo-poção mágica vai dar um novo (e, desta vez, bom) caráter ao filho.

Às vezes, fantasias são muito saudáveis, e até um Japão pode ajudar a salvar a nossa pele. O que não pode acontecer é ficarmos prisioneiros, morando num cubículo de fantasia, onde não é raro pagarmos um aluguel de resort, em troca de uma nada doce ilusão.

Rônei Rocha é escritor e médico psiquiatra de Uruguaiana – RS. Publicou Umas e outras (2011) e A pau e corda (2012), ambos pela Editora Proa.

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06
maio
12

A crônica de Rônei Rocha: Auto-ajuda

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Auto-ajuda, por Rônei Rocha

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Até hoje, eu nunca atendi um apaixonado. Pelo menos não um que esteja sendo correspondido em sua paixão. E não é um fenômeno restrito a saúde mental; clínicos gerais também notam essa estranha ausência nos seus consultórios. Pode-se ponderar que pessoas felizes adoecem menos, mas eu não estou dizendo que apaixonados sejam felizes, tampouco mais saudáveis que o restante da população.

Quando nos apaixonamos, somos atropelados e vencidos por nossos sentimentos, ganhando assim aquela razão de viver, a desculpa para tudo, um combustível invejável e o perdão de nós mesmos.

Quem precisa de um médico?

Um estado de espírito tão especial, que só Chicos e Nerudas conseguem descrever plenamente, mas que a enxerida da medicina, como de costume, tinha que meter o bedelho e dissecar.

Lá estão as nossas paixões, numa minguada e fria classificação, catalogadas como stress. O pior é que, por mais estraga prazer que possa ser, não há como contrapor, pois qualquer mudança que altere o nosso funcionamento habitual, não importando se para melhor ou para pior, exigindo de nós uma nova adaptação, caracteriza o stress.

A fina ironia é que a mesma capacidade impressionante de adaptação, salvadora e vital em tantas situações difíceis que precisamos enfrentar, é, também, o carrasco da paixão. Ela é capaz de fazer, não só com que eu me acostume com um câncer, como, em pouco tempo, nos torna íntimos; e é meu câncer isso, meu câncer aquilo, o meu é maior que o teu, etc.

Não por coincidência, todas as pesquisas que já foram feitas a respeito de mudanças estressantes na nossa vida e o tempo que se leva para acostumar-se com elas, apontam para o mesmo prazo: dois anos. Tanto para nos ambientarmos a uma nova cidade, um novo peso, uma nova condição (paternidade, viuvez, riqueza) como para que se apaguem as chamas de uma paixão; lá estão os tais dois anos.

Quer dizer então que estamos condenados à triste sina de buscar eternamente novos objetos de paixão? Um novo hobby, um novo trabalho, um novo corpo mais novo, pois todos virão com o prazo de validade estampado em uma lápide? Não! Existe uma saída. Foi descoberta por cientistas da Groenlândia enquanto analisavam o comportamento de pinguins felizes; é muito complicada, antinatural, extremamente trabalhosa, mas de resultados comprovadamente não garantidos.

Consiste em fugir da sua zona de conforto e entregar-se à caça do stress, buscando mudanças dentro do mesmo; sentindo sempre algo novo, de preferência que faça a adrenalina ferver, nós conseguimos ressuscitar a paixão. Então mexa-se. Adote um pitbull para fazer companhia ao seu poodle; diga não a sua sogra; esqueça os bicos de papagaio, dispense o peão e dome você mesmo os seus potros; ande de táxi em Porto Alegre; seja voluntário num asilo; declare ao seu amigo que você ama ele e a sua mulher tudo o que você realmente pensa sobre ela; comece a escrever a sua biografia — a verdadeira. Não há nada que se compare; sentir o sangue quente correndo em nossas veias, ou fora delas, uma paixão não tem preço.

Rônei Rocha é médico psiquiatra de Uruguaiana – RS.

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04
maio
12

Fragmentos da eternidade, por Leila de Souza Teixeira: Alguns aspectos do conto

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 Alguns aspectos do conto, por Leila de Souza Teixeira

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Júlio Cortázar, no capítulo “Alguns aspectos do conto”, do livro “Valise de Cronópio”, afirma que se dedica à elaboração de contos chamados fantásticos, mas que pode apontar elementos que são comuns a todo bom conto e que concedem a este o caráter de obra de arte.

Ao tentar demonstrar a peculiaridade do conto enquanto gênero literário, compara-o ao romance. Este seria como um filme, uma ordem aberta. Aquele seria como uma fotografia, uma ordem fechada, na qual o contista (fotógrafo) deve escolher um acontecimento (imagem) significativo, que funcione como uma espécie de abertura, um fermento que leva o leitor (espectador) para muito além do argumento do conto (fotografia). Menciona outro escritor argentino e, ainda comparando o conto ao romance, diz que se entendermos o embate do texto com o leitor como uma luta de boxe, o romance ganha o leitor por pontos, e o conto ganha por knock out.

Quando Cortázar faz analogia do conto com a fotografia, pode estar adiantando seu entendimento sobre a importância do TEMA para um bom conto. Já quando relaciona o conto ao knock out, talvez, esteja antecipando outros dois elementos que considera imprescindíveis para o bom conto: a INTENSIDADE e a TENSÃO.

No que diz respeito ao tema, Cortázar afirma que um tema é significativo quando possibilita a abertura do individual e do circunscrito para a essência da natureza humana. O conto perdurável carrega a semente de uma árvore gigantesca: a árvore crescerá dentro do autor e do leitor e deixará sua marca na memória de ambos. Entretanto, Cortázar realiza duas ressalvas à expressão “tema significativo”. Em primeiro lugar, lembra que não existem temas absolutamente significativos, nem absolutamente insignificantes. Um tema que pode arrebatar um autor, pode ser indiferente para outro. O mesmo ocorre com os leitores: determinado tema de um conto pode significar muito para um, e nada para outro leitor. Em segundo lugar, defende que não há temas bons ou ruins, mas, sim, tratamento adequado ou inadequado do tema.

Para que seja dado o tratamento adequado ao tema, para que o conto consiga funcionar como uma ponte entre o significado que o autor visualizou e a importância que o leitor dará a tal significado, Cortázar entende imprescindível o ofício de escritor. Por meio do ofício do escritor, o autor capturará o leitor com o conto, deixará o leitor alheio a tudo que o cerca durante o tempo do conto e, depois, colocará o leitor em contato com o ambiente de uma maneira nova, mais profunda e mais bela. O “sequestro”do leitor só será efetivado mediante um estilo baseado na intensidade e na tensão.

Cortázar define a intensidade como a eliminação de todas as ideias e a substração de todos os recheios, que o romance suporta e até necessita. A eliminação de todas as fases de transição próprias do romance. A tensão seria uma variante da intensidade, que ocorre na maneira pela qual o autor leva o leitor aproximando este lentamente ao que conta.

Trabalhando com um campo reduzido, com espaço e tempo comprimidos, e eliminando tudo o que fosse supérfluo, o autor escreveria um bom conto e venceria o leitor por knock out.

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Leila de Souza Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.

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