Posts Tagged ‘Crônicas da Palavraria

24
fev
14

A crônica de João Pedro Wappler: Não como nossos pais

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Não como nossos pais, por João Pedro Wapler

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Ouço muito pelos bares da vida sobre a dispersão cognitiva da minha geração. Como sou filho dela me sinto atingido pelas críticas. Minha mania de perseguição me faz revidar aos chato de plantão: “Nós não somos só um bando de idiotas viciados em Facebook!” Muitos dizem que somos hiperconectados mas pouco aprofundados. Isso faz todo sentido. Assino embaixo. Mas o que eu acho que faz falta para os especialistas em matéria de vida é captar a difusa e fragmentada linguagem de hoje. Será que esses críticos dos tempos vigentes não são simplesmente saudosistas perdidos na maré de informação?

Paradoxalmente, muitos dos ditos mais velhos se dão muito bem na nossa pós-modernidade cada vez mais atomizada. São jovens de cabeça. Apesar de muita gente madura de idade se sentir hostilizada no mundo virtual, não é tão difícil assim aderir a ele. Depois de algumas horas na frente do PC, qualquer tecnófobo aprende o bê-á-bá da web. O fato é que quem não navega na internet hoje acaba sendo convidado para um cruzeiro marítimo nas águas tecnológicas. Mesmo quem odeia a web não pode mais evitá-la. Só por curiosidade: você conhece alguém que não tenha celular? Pois é, muita gente odiava esses aparelhinhos e hoje é quase impossível viver sem um.

O grande barato de hoje não é propriamente a profundidade intelectual e o fanatismo por ideologias, características típicas de décadas antecessoras. O grande esquema do novo milênio é o acesso quase universal à informação. Essa é a revolução que foi forjada pela tecnologia. O que falta provavelmente é tempo para os filhos do novo milênio digerirem tudo o que cai no prato cultural deles.

Vejamos só o caso do cinema. Há algum tempo atrás para ver filmes antigos o cara precisaria gastar uma grana na locadora ou esperar que por sorte algum clássico passasse na tv a cabo. Fora isso muitos filmes nunca foram lançados em cópias para serem assistidos em casa. Com a internet o sujeito pode achar praticamente todos os filmes da história do cinema de graça. Isso é absolutamente revolucionário e faz um bem extraordinário para o novo público.

Por incrível que pareça para muitos críticos dos jovens “alienados de hoje”, nunca foram assistidos tantos filmes clássicos pelos mais imaturos em matéria de cultura. Num final de cinema, uma adolescente pode fazer download e ver todos os filmes do Truffaut.

Isso gera uma nova geração de cinéfilos. Estão por aí se proliferando amostras de cinema, que são possibilitadas por esse acesso irrestrito a filmes. Antes a batalha era complicada. O programador buscaria VHS’s em cópias esdrúxulas ou gastaria uma fortuna para importar películas.

Nossa geração do novo milênio é altamente retrô. Ela ama o antigo. Ele é referência pra ela. Nunca a nouvelle vague foi tão assistida como é hoje.

O que mais atrapalha a rapaziada de hoje é a falta de foco. Com uma filmografia imensa na palma da mão, não sabemos que filme ver primeiro e antes de ver algum título já se está pensando no próximo. Outro dado é a doentia falta de paciência da moçada. Quantos conseguem ver um filme inteiro hoje sem nunca pausar?

A recepção da arte mudou completamente. Ela é entrecortada, impaciente, exigente, sedenta por estímulos e mais estímulos, até ficar saciada. Diretores como Tarantino captaram genialmente o Zeitgest dessa geração e se tornaram ícones incontestes da pós-modernidade.

Será que alguém aguenta hoje um Antonioni? A globalização massificou muito a cultura mas paradoxalmente deixou ela muito variada também. Há público pra tudo.

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João Pedro Wapler. Ator e escritor. Assina o blog de poesia Poesia Imoral (http://poesiaimoral.blogspot.com) e o de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com) . É colunista de literatura do site O Café (http://ocafe.com.br). 

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20
jan
14

A crônica de Gustavo Lagranha: Fleet Foxes: Música transcendente

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Fleet Foxes: Música transcendente, por Gustavo Lagranha

album_fleet_foxes

Quando criança, eu me entretinha com um certo brinquedo de montar imaginando castelos, reis e lutas entre cavaleiros. Meu filme predileto, ao qual devo ter assistido no mínimo cento e cinquenta vezes, era a Espada Era a Lei, da Disney, uma versão infantil para a lenda do Rei Artur.

Não saberia explicar a razão de haver em meu violento imaginário de guri um espaço tão especial para a Idade Média. Não sou dos mais crentes em vidas pretéritas, logo me afasto de tal linha de raciocínio. Sei que em seguida me demorei no feudalismo, ao estudar História, bem como nas músicas do Led Zeppellin que evocavam raízes célticas[1].

Ano passado quando, tanto por curiosidade como por atração, comecei a estudar os músicos folk americanos e ingleses, recebi a sugestão de um amigo: escute Fleet Foxes. Foi uma estupefação à primeira audição e também um estranhamento. As vozes limpas e melódicas, as harmonias simples e inusitadas estavam impregnadas daquele acento medieval tão caro à minha imaginação.

Ouvi, ouvi de novo e de novo. Li críticas, a maioria favorável, tentando entender a natureza da fascinação que o grupo de Seattle me provocou. Como gostos são normalmente inexplicáveis, segui no simples escutar o EP e os dois álbuns da banda.

Há um problema no compartilhamento massivo de músicas pela world wide web. Consiste em que já se torna raro termos acesso ao objeto CD, DVD ou vinil. Com os Fleet Foxes foi assim, não o nego: entrei num software de downloads, baixei os discos da banda e os passei para o pen drive que utilizo no carro. Nada do álbum, com capinha, letras e créditos. Apenas arquivos de música transitando por diversos tipos de mídia.

Pois aí me escapou a chave que integraria as referências. Eis que a capa do primeiro álbum do grupo, o epônimo Fleet Foxes[2], é a reprodução de uma pintura de Pieter Bruegel, o Velho, representando uma tumultuada cena camponesa da Alta Idade Média. Claramente sob a influência de Hyeronimus Bosch, referência primária para mim, o “Peasant Bruegel” está retratando a decadência do feudalismo.

Então se revelou por que a música dos americanos e seu tom reminiscente me fazem tão bem: num mundo em que assistimos à decadência de um sistema antigo de viver – que em minha pequena cidade muito corresponde ao modo feudal – devemos, como o fizeram Joyce, Eliot e outros grandes, procurar no caos de nosso tempo o homem universal, de valores universais. Foi sempre esta minha crença, e me satisfaço muito em encontrar uma música que embale minhas esperanças de que tal feito seja possível.


[1] Escute Friends, do álbum Led Zeppellin III, e The Battle of Evermore, do Led Zeppelin IV, ambos da Atlantic Records

[2] Onde se encontra minha faixa predileta da banda: Tiger Mountain Peasant Song.

gustavo lagranhaGustavo Lagranha é bancário e estudante de Direito. Mora em Vacaria, cidade dos campos de cima da serra onde nasceu, longe dos estertores da capital. Morou em POA por cinco anos, onde virou fã, frequentador e amigo da Palavraria, tendo publicado nessa época contos nas antologias 103 que Contam e Novos Contos Imperdíveis, ambas organizadas por Charles Kiefer.

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20
jan
14

A crônica de Lilian Velleda Soares: Dá para inverter?

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Dá para inverter?, por Lilian Velleda Soares

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Abro o livro e a afirmação pula para dentro dos meus olhos. Provocação à minha dificuldade de lidar com um mundo gaveta-escaninho, ouso a discórdia, maravilha de pretensão. Mas vamos lá. Descartes firmou a dúvida como prova da existência – penso, logo existo, escreveu o filósofo. Divórcio entre razão e sentidos, sobre este apartamento ergueu-se o conhecimento nos últimos dois séculos. A razão deu-se por capaz de explicar a vida e suas circunstâncias, submetendo-a ao método: o que não cabe em medidas, não está no mundo. E o dogma, por sê-lo, afastou ainda mais o homem de si, lançando-o numa jornada de perene angústia, sob o império da técnica e do desprezo pelas manifestações do sensível. E, ai de nós, também a arte, buscou a razão enquadrá-la, o artista como reprodutor do visível.  Mas razão e sua filha, a técnica, não podem (ou talvez possam?), por assim dizer, amparar o homem em sua trajetória finita. Não acalmam seu coração, não o reconectam como ser-no-mundo. Este dar-se-conta-de-si, quem o torna possível é a arte. A arte como mergulho nas profundezas da alma, a extrair de cada um o que de mais humano neste um existe. È neste abismo, lá onde estão depositados os frutos-sementes da experiência vivida, que se pode, seja por meio de uma explosão de cores, de sons, ou da pá-que-lavra,  buscar matéria para fazer falar ao coração.

È preciso existir para pensar.

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lilian velleda soaresLilian Velleda Soares

Pelotas/RS

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13
dez
13

A crônica de João Pedro Wapler: Panis et circenses no novo milênio

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Panis et circenses no novo milênio, Por João Pedro Wapler

Ano que vem é ano de Eleições. Quase todo mundo odeia essa época e com toda a razão. Rios de dinheiro serão drenados para propagar candidatos cada vez mais despreparados e inescrupulosos. Seremos obrigados a conviver com jingles retardados, sorrisos maquiavélicos e debates completamente inócuos. Mas quem gosta de eleição exceto as siglas partidárias, não? Eleição não é a festa da democracia e sim a farra da plutocracia.

Depois do pequeno desabafo, vou iniciar de outra maneira meu texto, quiçá pior que a anterior: entraremos agora no ano da Copa do Mundo. O curioso é que justamente no “país do futebol”, “na pátria de chuteiras” (dentre outras expressões chatas que sempre ouvimos por aí nos noticiários vagabundos) surgiram diversas desconfianças acerca do evento. Logo aqui onde quase tudo gira em torno do círculo central do gramado. Muitos achavam que a festança seria saudada pelo povo e que todos bateriam palmas como macacos. O pão e o circo futebolístico dopariam definitivamente os nativos, numa versão pós-moderna do mito romano. Todos acreditariam de pés juntos que vivem num país abençoado e “bonito por natureza” e se convenceriam de que Deus é de fato brasileiro registrado em cartório. Aconteceu o contrário, graças a Deus! Foi comprovado que não estamos no Planeta dos Macacos.

Os únicos que parecem saudar com os dentes (brancos e bem alinhados) da boca o evento são os governantes, as empresas de refrigerante e as grandes construtoras. As manifestações que tomaram conta do país em 2013 endossaram o que já era sabido: a população acha vergonhoso torrar em estádios o que poderia ser investido em escolas. O pessoal acha estúpido ocupar espaços públicos com monumentos à FIFA ao invés de reforma-los para a utilidade pública. Os eleitores não são tão otários assim como dantes.

Mas é claro que não somos uma nação que sataniza qualquer competição. O ano de Copa sempre foi e sempre será um momento de catarse, altamente divertido e saudável. O brasileiro é apaixonado por futebol, sendo esse desporto, como dizem os mais velhos amantes da bola, não apenas uma atividade física mas um símbolo nacional indiscutível, como o samba, a bossa nova, a telenovela e o Carnaval. Se houve uma Copa em países onde mal se joga futebol (África do Sul, EUA) por que não haver uma no Brasil? Segundo a nova política da FIFA, a mandatária suprema nas quatro linhas, as sedes dos Mundiais devem se espalhar pelos continentes num mundo globalizado e não apenas se centrar nas grandes potências. É um grande negócio para os organizadores do evento e um “marketing” para os países-sedes. Dentro dessa lógica uma Copa num país do futuro faz todo o sentido. Mas pra quem faz sentido?

Uma coisa é a galera curtir o evento sabendo que ele está sendo financiado com dinheiro da Alemanha, da Coreia do Sul ou da África de Mandela, outra é tomar uma cerveja com plena consciência que nossos impostos estão pagando o aço dum estádio no meio da floresta que depois da Copa virará sei lá o que.

A última Copa por aqui foi em 1950. Desde lá tivemos duas Copas no México, outro representante do Terceiro Mundo. Os outros países sedes sempre foram grandes potências. Pra quem é a Copa? Ou melhor, quem sai ganhando verdadeiramente com o megaevento? Os primeiros beneficiados da Copa são as grandes empresas que bancam ela com a parceria confusa e suja com os governos. Uma elite está rindo à custa do povo, superfaturando obras e etc e tal. Outros favorecidos são a alta casta que pagará preços estapafúrdios para assistir às partidas. A grande massa acompanhará a Copa da mesma maneira que acompanharia se ela fosse realizada no Uzbequistão: sentado na poltrona ou num bar.

O pior da Copa é aguentar à enxurrada de publicidade e de matérias jornalísticas ufanistas, saudando o evento como a coisa mais maravilhosa já feita no Brasil, como a “festa do povo”. Tudo isso é um grande engodo. Querem vender a ideia de que todos “ganharão com a Copa”, mas o outro lado desse discurso populista é outro: o que se forma nesses megaeventos são cartéis que comandam tudo e se autobeneficiam dessa sensação de alegria que muitos entram só por estarmos “em mês de Copa do Mundo”. As escolas e faculdades ficarão vazias só por que uma seleção europeia vai jogar uma partida na cidade. Existe algo mais patético que isso? Parece que estamos escancarando nossos traços de colonizados com essa postura.

Espero que a Copa não seja nada demais e que as pessoas lembrem mais das Eleições do que da Copa, mesmo que isso seja chato. O Brasil tem um grave problema em idolatrar o divertimento e deixar que nosso futuro seja decidido em bancas de negócios escusos.

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joão pedro waplerJoão Pedro Wapler é ator e escritor. Mantém o blog de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com).

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06
dez
13

A crônica de Gabriela Silva: A literatura e o amor a compartilhar

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A literatura e o amor a compartilhar, por Gabriela Silva

“Escolhi dar-te meu coração”. Eu poderia começar meu texto assim. Apenas falando isso. E explicaria tudo. Mas como gosto muito de explicar as coisas, resolvi escrever sobre o que dizer isso significa. Literatura.

Oferecer meu coração a alguém é mostrar o que de melhor há em mim: palavras, poesias, livros. Construí minha identidade assim. Desde a infância andei entre deuses e homens e aprendi muito. Sempre digo que não sei amar, acho que não sei mesmo. Amar me exige muito, amar me afasta de todas as coisas que prezo: liberdade, segurança e independência. Fujo do amor. Mas caso ele me encontre (o que raras vezes acontece, pois me escondo muito bem) transformo-o em literatura.

Daí, leitor você se pergunta, como eu faço isso…abandono a pessoa e escrevo poesias tristes e viro um fantasma como os poetas românticos faziam? Ou fico embaixo da janela do ser amado e me declaro até os sabiás começarem a cantar e eu ter que partir com o nascer do sol?

Nada disso, eu tento mostrar à pessoa como o mundo da literatura é fascinante. Tento mostrar a ela como funciona o meu universo particular e que todas essas coisas que eu acho realmente tão importantes.

Na minha suposição de felicidade, amor é compartilhar e eu não saberia não compartilhar literatura. Antoine Compagnon diz em um de seus livros que “a literatura é um exercício de pensamento, a leitura, uma experimentação dos possíveis”. E é isso que eu tento mostrar a quem amo, que a literatura é uma forma de ver o mundo, como toda a arte. Que mesmo que ela fale das coisas mais terríveis, ainda sim, ainda na dor ou na morte, ela é uma arte tremendamente interessante. Não por que imita a vida, ou por que consegue copiar o mundo real de uma forma tão coerente que a gente acaba achando que é verdade.

A literatura é amor, por que nos permite ver o quanto somos humanos. Ela não profana ou copia as relações humanas, mas se serve delas para engendrar um universo de semelhanças. Nessas semelhanças é que encontramos nossa humanidade. Roland Barthes em Fragmentos do discurso amoroso, comenta que escrevemos para alguém, precisamos do outro, do amor a ser dedicado para que o texto seja produzido. O outro é a nossa festa, nossa inspiração. E vejo isso na literatura, quem amo, me inspira a ler mais, pois terei o que contar, terei uma infinidade de histórias para não ser monótona. Serei sempre Sherazade, prolongando meu amor por mais um livro.

“A arte é inútil” diz Oscar Wilde. E é. Totalmente. O que importa é a vida, a falta de razão, o choro, a gargalhada mais alta e sincera. Esses encontros e desencontros que fazem nossos corações pulsarem tão forte. E é por isso que falo da literatura para quem amo. Por que somente para essa pessoa eu quero mostrar que meu coração é bonito e tem muitas histórias nele.

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Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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24
nov
13

A crônica de Emir Ross: Coisas que odeio

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Coisas que odeio, por Emir Ross 

 

A segunda coisa que mais odeio na vida é ser escritor. A primeira é não ter leitores. Ser escritor é passar o dia sozinho frente a um papel mudo. E passar a noite mudo frente a mulheres que esperam a gente dizer alguma coisa.

Não ter leitores é ainda pior. É ter a certeza que você deixou de comer gostosas durante meses a troco de nada.

Eu não entendo muito de troco. Talvez, se entendesse, minha conta bancária permitiria pagar as gostosas ao invés de perdê-las por falta de assunto.

Este é um dos maiores paradoxos da minha limitada galáxia. Se tenho tanto assunto para encher folhas inúteis, por que não tenho uma linha sequer para despir uma peça de roupa de uma pseudo-modelo.

Não entendo os paradoxos. Por vezes, acho que são iguais aos meus leitores: não existem. Por vezes, penso que são uma teoria da conspiração: estão em todos os lugares, menos onde deveriam.

Mas o dever nada mais é do que algo que inventaram para ser burlado.

Eu, como não tenho deveres, vivo inventando regras. Afinal, só é possível de se quebrar uma regra depois dela existir. Talvez essa venha a ser a quarta coisa que eu mais odeie na vida. A terceira, com certeza, serão as pessoas que conseguem quebrar regras sem ter que inventá-las.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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20
nov
13

A crônica de João Pedro Wapler: 2001: uma odisseia sonora

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2001: uma odisseia sonora, por João Pedro Wapler

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Posso estar sendo meio atrasado fazendo só agora um balanço da década iniciática do novo milênio, mas creio que só agora sinto-me municiado para escrever sobre ela. Essa década será lembrada para sempre, eu acho. Os números não mentem. O início de um novo milênio é um fato astrológico e histórico por si só, mesmo que não ocorra nada de excepcional durante esse período do calendário.

Não vou fazer revelações estrondosas aqui, não sou o Bauman, o Lipovetsky ou algum participante do Fronteiras do Pensamento, mas acho que tenho o direito de falar algumas coisas que para muitos soarão óbvias. É para isso que servem crônicas, não? Pois vamos lá! De volta ao passado recente…

No ano 2000 eu estava no apogeu da adolescência e isso coincidiu com o grande boom da internet. Pela primeira vez na história a facilidade de fazer downloads de músicas atingiu seu ponto nevrálgico com os primeiros programas de compartilhamento. Lembram do famoso Napster que foi processado logo depois de seu auge pela banda Metallica? Imagina hoje como o Metallica faria para processar quem compartilha suas músicas…

Enfim, eu lembro que na pré-história do compartilhamento, o mais comum era baixar músicas separadamente e não em álbuns. Como um ávido colecionador de discos e pouco afeito a engenhocas tecnológicas, nunca fui um grande usuário de mp3. Mas lembro de como era sensacional e mágico poder ter a qualquer instante ao seu alcance tal música dos Stones ou do Rauzito. Hoje todo mundo acha isso a coisa mais banal do mundo, mas já não foi tão facilzinho assim.

Antes da internet para ouvir alguma música eu gravava ela do rádio numa fita cassete. Parece papo de titio, mas eu não sou um cara velho, vejam só! Outro divertimento meu era ir até a uma loja de discos perto da minha casa e pedir para escutar algum disco. Isso soa tão antiquado hoje, mas não faz tanto tempo assim. Só uma passagem engraçada da vida: um amigo meu até hoje não tem toca cd no carro, pois ele diz que o cd “pula”. Por isso ele gasta R$4 numa fita cassete e grava seu jazz pra ouvir no seu fusca.

Durante a primeira década do novo milênio vivemos um dos momentos mais interessantes da música brasileira. Nunca surgiram tantas novas bandas, cantores e cantoras. Antes conhecíamos só o que saía no rádio ou em disco e passamos a descobrir novas sonoridades crocantes graças à Madame Internet. Isso foi revolucionário e resultou num novo paradigma cultural. Os artistas deixaram de ser medidos somente pelo número de discos que vendiam e passaram a focar em outras formas de divulgação do seu trabalho, buscando inclusive um contato mais próximo com seus fãs.

Os sites, blogs e páginas em redes sociais tornaram nossos deuses do Olimpo musical mais humanamente acessíveis. Os números de shows e de downloads também aumentaram a facilidade de conhecer a obra de um artista. Se antes era preciso desembolsar uma grana e garimpar álbuns antigos, com o tempo e alguns cliques, o sujeito toma conhecimento de toda uma carreira.

Parece que quem não gostou dessa história toda foram as gravadoras e os grandes grupos de mídia que antes monopolizavam a imagem dos artistas e mediavam a interação deles com os fãs. O combate inútil à pirataria e ao mp3 de graça foi uma das causas perdidas dessas grandes corporações que antes de compromisso com a arte têm preocupação com o próprio bolso.

Hoje um artista não sobrevive vendendo discos e sim com uma miríade de opções. Ele não depende mais de uma gravadora pra ser feliz. O cara pode gravar em casa, divulgar na internet e daí por diante. Por um lado essa facilidade fez com que grande parte das bandas e cantores primassem mais pela divulgação do que propriamente pelo aprumo sonoro. O delírio da rapidez com que se divulga pode eclipsar o processo criativo e tornar os artistas deslumbrados facilmente.

Pois bem, o grande barato da nossa era é produzir com facilidade, o que gera muita coisa boa e muito lixo eletrônico, essa é a verdade. Não temos mais grandes bandas como Beatles, Stones, Led e The Doors e sim diversas bandas boas e algumas muito boas. Essa é a marca do início do novo milênio. A facilidade de se expressar nos deixa mais preguiçosos, mas quem dirá que na década de oitenta era melhor? Por que era melhor, cara?

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joão pedro waplerJoão Pedro Wapler é ator e escritor. Mantém o blog de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com).

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16
nov
13

A crônica de Lilian Velleda Soares: Escrever

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Escrever, por Lilian Velleda Soares

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Diz-me por que escreves, pediu a minha querida Hilda Simões Lopes. Não hoje, nem agora. Mas quero partilhar o motivo. Um dia encontrei Ernesto Sabato. Ele cochichou no meu ouvido haver “provavelmente, duas atitudes básicas que dão origem aos dois tipos fundamentais de ficção: ou se escreve de brincadeira, para entretenimento próprio e dos leitores, para passar e fazer passar o tempo, para distrair ou procurar alguns momentos de evasão agradável; ou se escreve para investigar a condição humana, empresa que não serve de passatempo nem é uma brincadeira nem é agradável”. Eu li e reli, alternando dias e meses, esta passagem de O Escritor e Seus Fantasmas. E a pergunta feita se insinuou em mim entre um escrito e outro. Ela me pertubou por agulhar a necessidade de uma resposta – se eu escrevia para satisfazer minha vaidade, ou por necessidade. Eu fugi da resposta, descobrir-me incapaz de contar histórias desconcertava. Dor doida.  Aos poucos descobri que a escrita provedora da vaidade não resiste ao tempo, não suporta a crítica, não enxerga seus limites. Narcísica, é incapaz de ver beleza e verdade na escrita alheia – sim, o narcisista desqualifica o que não é seu, por ser incapaz de compreender. Acalmei minhas dores ao perceber que sempre se rediz o já dito, cada escritor com uma resposta para  essa indagação. E que escrever é difícil, um auto-imolamento. Eu me imolo nas canetas e papéis que diante de mim vou amontoando, no pensamento que persigo durante o dia e enquanto durmo em sono profundo. Eu me rasgo nesse ato simples e rotineiro de dizer.  Escrevo atrás de significado para a vida minha e de outros Eus, para repousar os ossos dos dias e entender a calmaria ou o furacão do infinito de dentro. Mergulho nessas letras todas, acolherando signos (resiste à tentação de amontoar palavras, adverte-me o escritor!).  Eles falam de mim e do mundo, e então sinto uma coceira desde os pés até o olho, e vou me entregando endemoniada ao branco da página em branco diante dos olhos turvos pela urgência de dizer. O fato é que às vezes sei o início, geralmente sei o fim, busco um meio de caminho, uma ponte que reinstale a minha inteireza e me dê um pouco de paz pelo menos até o próximo rebento. Sim, são meus filhos os meus escritos, eles re-significam a vida. Talvez eu não deva, talvez não tenha nada a dizer ao Outro. Mas se eu disser apenas para mim (também outro um instante depois), está bom. Posso, pela escrita, me salvar.

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lilian velleda soaresLilian Velleda Soares

Pelotas/RS

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10
nov
13

A crônica de Emir Ross: Sedentário funcional

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Sedentário funcional, por Emir Ross 

 

Sou sedentário funcional. Minhas células absorvem o exercício, mas não interpretam. Seria o mesmo que ter horas de voo e não saber pilotar. Ou ter o diploma do ensino médio e não saber o significado desse parágrafo. O que não seria novidade.

Antigamente, recebia diploma quem exercitava a massa cinzenta. Porém, pelas mudanças estatais, hoje é mais interessante se ter escolas que não ensinam. Ou ter pedreiros que não sabem fazer uma argamassa. Ou funcionários públicos que, bom, deixa pra lá.

Somos o país do deixa pra lá.

Já fomos o país do café, o país do futuro, o país do futebol. Hoje somos o país do deixa pra lá. Dos analfabetos funcionais, dos sedentários funcionais. Dos políticos funcionais. Aqui, só não é funcional o jeitinho. Todos têm o seu.

O tupiniquim tem jeito pra tudo.

Pra acordar mais tarde sem ser notado.

Pra servir-se mais no buffet à quilo pagando o mesmo.

Pra passar no vestibular sem saber patavinas.

Patavinas, por contraponto, é uma das palavras mais injustiçadas do dicionário. Aí vocês perguntam: Mas patavinas existe no Michaelis?

Não.

Não existe. Temos um dicionário funcional.

É claro que ele não é tão funcional quanto as escolas dos sonhos dos governantes. Mas tem lá seu valor na nossa escola dos deixa pra lá.

O que eu acho disso tudo?

Que sou um sedentário funcional. Um pagador de impostos funcional. E tenho um saco funcional. Afinal, pra aguentar tanto finge que faça que eu finjo que acredito, só tendo mesmo as bolas murchas. Ou uma conta nas Ilhas Patavinas.

 

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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28
out
13

A crônica de Jeferson Tenório: Nem se o Antônio Candido dissesse

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Nem se o Antônio Candido dissesse, por Jeferson Tenório

A sensação de quando entregamos um texto nosso para alguém ler, pelo menos para mim, é quase a mesma de um pai ou uma mãe quando vai deixar seu filho aos cuidados de uma pessoa.  Na ausência dele, nos tornamos ansiosos e pensamos como ele deve estar e o que ele anda aprontando. E quando voltamos para buscá-lo, assim como um filho, que passou horas ou dias longe de nós, queremos saber como ele se portou. Se pudéssemos, gostaríamos de acompanhar fisionomia desse leitor e cada frase, a cada palavra e contaríamos quantas vezes ele levantou a cabeça para refletir sobre aquilo criamos.

Tudo isso é muito bonito, mas na verdade ninguém acredita muito num aspirante a escritor. Quando você diz que escreve, ou que terminou um livro, as pessoas te olham com estranheza e desconfiança. No inicio, por outro lado, quando entregamos um original para alguém, queremos no fundo que essa pessoa nos encha de elogios e nos dê motivos para prosseguirmos. E, talvez, este seja o momento mais frágil de quem começa a escrever, porque pode ser que o escritor iniciante não esteja preparado para as críticas. Pode ser que ao escutar que seu texto é ruim possa levá-lo a desistir de tudo.

Acho que tive a sorte de encontrar pessoas sérias que leram meus textos com atenção e foram duras comigo. Duras, mas honestas. Entretanto, isso não significa que quando um original é devolvido temos de aceitar tudo com resignação.  Aí entra uma certa maturidade literária aliada a uma intuição estética entre aquilo que de fato está ruim e aquilo que você julga estar bom.

Um escritor não nasce quando seu livro é publicado. Um escritor nasce quando assume o risco de expor sua escrita para si mesmo com toda a honestidade possível. No entanto, quando você apresenta um texto para alguém, você está expondo aquilo que você julgou ser o máximo que conseguiu alcançar. E isto é tão poderoso e ao mesmo tempo tão frágil.

O problema é que nem sempre as pessoas estão dispostas a ler um original. Algumas pessoas para quem passei meus primeiros escritos não deram muito importância para mim, no máximo um tapinha nas costas e um consolador “vou ler, depois te digo”. Acontece que algumas vezes esse “depois” nunca chegava.

Mas isso faz parte de todo o processo, porque quando um sujeito decide gastar a vida escrevendo, ele não pararia nem mesmo se o Antônio Candido chegasse e dissesse; “filho, pare com isso, vá fazer outra coisa, a escrita não é pra você”, nem mesmo assim o faria parar. Quero dizer com isso que quem decide levar a escrita a sério, aguenta o tranco. Aguenta narizes torcidos, aguenta os olhares desconfiados, aguenta por anos a fio a vida solitária e anônima. Aceita que por anos a criação será isto: o escritor e sua obra. Nada mais. Por anos, ninguém saberá dessa guerra interior travada dentro de quem escreve. Ninguém mais que escritor saberá o quanto lhe custou levar isto adiante. É preciso um certo fanatismo, como disse Ernesto Sábato, em “Os escritores e seus fantasmas”. Sem fanatismo não se faz literatura.

E o mais comovente disso tudo: alguém poderá gastar a vida nisso, sem garantia nenhuma de que vai dar certo, e mesmo assim ele vai continuar. A literatura é feita mais de erros do que de acertos. Sem quixotismo também não se faz literatura. Quando um escritor senta na frente de uma tela, ele precisa criar um moinho por dia, acreditar que daquela tela fria sairá um mundo, mesmo sabendo que o mundo é um moinho e pode triturar nossas ilusões, como diria Cartola.

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 Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS. Acaba de lançar pela Sulina o romance O beijo na parede.

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