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22
set
11

A crônica de Ademir Furtado: Currente calamo

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Currente Calamo, por Ademir Furtado

A maior pedra no sapato de qualquer escritor é o clichê, essa faca que de tão usada já não corta, ainda que a língua esteja bem afiada.  Um amante das letras trabalha com afinco para lançar nova luz sobre uma passagem e quando se dá conta, lá está aquela frase feita, aquela idéia pronta. E aí não adianta querer tapar o sol com uma peneira, porque a verdade salta aos olhos, e para um bom leitor, meio clichê basta para estragar um texto.

Falar de clichê é chover no molhado, porque desde que o mundo é mundo que o ser humano opta comodamente pela lei do menor esforço. Por isso, carrega sempre no bolso meia dúzia de idéias prontas e frases feitas, que usa e abusa, a torto e a direito. Pensar é chato, cansativo, dá trabalho, e ser original exige responsabilidade e um pouco de ousadia.  Além do mais, a todo instante há a necessidade de uma comunicação rápida e eficiente, e o clichê já possui um significado consolidado, ao alcance de todos os viventes.

Por isso, é difícil abster-se de beber na fonte das idéias prontas e das imagens surradas, e pode atirar a primeira pedra quem nunca lançou mão das sentenças do senso comum para dar o seu recado. Esse hábito é tão antigo quando caminhar pra frente. Tanto é assim, que existem livros que tratam do assunto. No âmbito nacional temos o Pai dos Burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck, uma coleção de clichês pinçados em órgãos da imprensa. Mas a leitura mais deliciosa nesse sentido é o Dicionário das Idéias Feitas, de Gustav Flaubert, um opúsculo cheio de ironias, em que o grande romancista deita e rola em cima da boçalidade dos franceses oitocentistas. Flaubert dispensa apresentações. Um renomado escritor que atingiu os píncaros da glória com uma obra literária muito original, e saiu a campo, em altos brados, contra o currente calamo, que não é nada mais do que preguiça mental disfarçada de sabedoria popular.

Agora, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Por que será que esse assunto dá tanto pano pra manga? É de bom alvitre que o escritor dê asas à imaginação na hora de traçar as suas linhas, mas se ele não tiver bala na agulha fica à beira de um ataque de nervos diante de cada frase lançada no papel.

É bem verdade que muitos beletristas gostam de praticar seu ofício ao correr da pena, e não estão nem aí para originalidade de estilo. Mas felizmente, há aqueles, como Flaubert, que se proclamam inimigo público das simplificações retóricas e não medem esforços para dar uma injeção de vitalidade na linguagem. Criadores que não se curvam ao peso do hábito e não se protegem com desculpas esfarrapadas do tipo: “não existe mais nada original para ser dito”, ou: “a vida é cheia de clichês”. Mesmo que seja para dar murro em ponta de faca, eles avançam a passos largos, de cabeça erguida, força hercúlea e idealismo quixotesco. A esses, temos obrigação de tirar o chapéu e aplaudir em alto e bom som, pois são eles que dão um passo à frente no progresso da arte literária. Uma história bem contada, novinha em folha, é tudo de bom. Por outro lado, ler um texto cheio de clichês – vamos combinar – ninguém merece.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

A crônica de Ademir Furtado é publicada neste blog na quarta quinta-feira do mês.

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