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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Da criação

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Da criação, por Jaime Medeiros Júnior

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Depois da nossa última prosa me tomei de ânimo de abrir nova frente de leitura. Releio a Bíblia. Sigo ao ritmo desordenado das disponibilidades de tempo e gosto. Escolhi duas versões, ricas em notas e comentários: a Bíblia de Jerusalém [BJ] e a Nova Versão Internacional [NVI] [versão que vim a conhecer após o comentário a nossa última prosa feito pela minha amiga Ana Cristina Aço].

Leio em Gênesis [Bereshit] o relato da criação. Em um determinado ponto me defronto na NVI com uma nota ao versículo 2 do primeiro capítulo, que quer chamar a atenção para os paralelismos com que foi construído o relato: terra. O centro deste relato. sem forma e vazia. Essa locução, que só ocorre depois em Jr 4.23, dá estrutura ao restante do capítulo. O “separar” e o “ajuntar” que Deus realizou do primeiro ao terceiro dia produziu a forma; o “fazer” e o “encher” do quarto ao sexto dia eliminaram o vazio. A BJ por sua vez traz a seguinte nota a mesma locução: em hebraico: tohû e bohû, “o deserto e o vazio”, expressão que se tornou proverbial para toda a falta de ordem.[…]. Este versículo descreve a situação de caos que precede a criação. Notas que se completam com o seguinte quadro que nos demonstra a ordem vertical e o horizontal dos dias no primeiro capítulo do Gênesis [NVI]:

 

Dias de formação

Dias de preenchimento

  1º dia – “luz”   4ºdia – luminares
  2º dia – “aguas […] abaixo do   firmamento das que ficaram por cima”   5ºdia – “seres vivos que povoam as águas […] todas as aves”
  3º dia –A: a parte seca   6º dia-A1: “rebanhos domésticos, animais selvagens e os demais seres vivos da terra”A2: o homem
  B: “vegetação”   B: todos os vegetais como alimento

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Lido isto, me ocorre a lembrança de Mircea Eliade falando a respeito dos mitos, histórias exemplares que devem, de certa forma, ser recordadas e imitadas. E quanto aos mitos cosmogônicos afirma que toda história das origens, de certa forma, repete a história da criação. De certa forma, todo ato criativo quer repetir a criação.

Isto posto, pensei que talvez fosse possível perceber algo do processo de criação naquele relato do Gênesis. E aquele era a terra sem formas e vazia certamente anuncia o quanto a matéria inicial é incapaz de se apresentar senão como uma rude esperança da coisa que se há de fazer. Mas aqui parece importante assinalar que não se põe o espírito sobre o nada. Mas sim sobre águas primordiais – a que tendo nomear sempre por mar de saudadesejo. E a luz posta com intenção sobre a coisa há de alumiar e discernir nomes, e há de poder separar o que é noite e escuridão [que convida ao repouso e ao simples estar em si, que é como um fechar olhos para o mundo e um pôr ouvidos ao tempo] daquilo que é dia e claridade [que convida à ação e a estar no mundo das coisas e de suas visões] e também de separar o que está em cima [céu] do que está embaixo [terra], e contudo não só pela separação, mas também pelo discernimento da matéria que une este par de opostos é que há de se pôr curso a obra. Por certo aqui nos defrontamos com subidas ideias, mas também com os ditames materiais e comezinhos do fazer.

Depois de tanto separar é preciso também juntar. Juntando o úmido [água] em um grande mar sobra uma parte seca. E depois há se fixar sobre o seco nova luz em forma de flora, mãe dos frutos e das sementes que em promessa prefiguram toda forma viva.

Agora há de se pintar o recheio dos contornos. E neste ponto já conhecemos muito da nossa obra, já temos olhos com que ver durante o dia [o sol] e com que ver à noite [a lua]. Aqui somos já capazes de ler o mundo no que tem de explícito e no que tem de subposto. Agora já se é capaz de se conhecer o que há de vivo nas profundezas do mar e o que há de vivo nas alturas do céu, já se emprestou fôlego ao que pensa e sente em nós. Depois ainda haverá de se pôr ali, naquela parte seca, uma casa, donde tudo se admira. Agora já se tem um cercado [paradeisos, παράδεισος], que determina o que é de casa [animais domésticos] e o que é de fora [besta fera]. E, por fim, ainda há de se ver um rosto [um outro em que se espelhar]. E assim talvez se consiga abençoar esta obra, e fazer dela um território de paz, onde bestas feras se alimentem junto com os animais da casa, só de vegetais.

Por certo esta é a história da obra divina, a qual deveríamos recordar e se possível imitar, mas contudo nem sempre a obra se faz a contento. E muitas vezes acontece de que quem faz acaba por se perder em algum desses passos e toma o mesmo infeliz destino do que aquela galinha, que se pôs a chocar ovos de serpente, que por ventura couberam de cair em seu ninho.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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