Posts Tagged ‘Dicas de Leitura

30
ago
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Dicas de leitura, por Álvaro Marins: Museu Desmiolado e Circo Mágico, de Alexandre Brito

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Visitar o Museu Desmiolado depois de uma noite no Circo Mágico, por Alvaro Marins

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O Museu desmiolado não é a primeira incursão de Alexandre Brito no universo da poesia para crianças. Ou, como ele informa na capa de seu livro anterior, o Circo mágico, são poemas para “gente pequena, média e grande”.

Neste primeiro livro, destinado a esse público tão especial, encontramos o poeta de Visagens, Zeros e O fundo do ar e outros poemas retrabalhando, na chave do imaginário infantil, procedimentos muito comuns em seus poemas dirigidos, sobretudo, para a gente grande.

O poeta porto-alegrense é, em sua poética como um todo, um exímio esgrimista das palavras. Autor de belos haikais em Visagens, onde os recursos deste tipo poema são usados com maestria, Brito, neste livro da juventude, utilizava trocadilhos, aliterações e insights poéticos, que criavam imagens de rara beleza, encontráveis somente nos cultores brasileiros mais conhecidos desse gênero de poesia japonesa — Paulo Leminski, Olga Savary e Alice Ruiz, para ficarmos apenas nesses três.

O haicai exige grande domínio no uso desses procedimentos, mas eles precisam também ser utilizados com leveza e humor. E os livros de Brito focados nesse público de “gente pequena” são plenos dessa leveza e desse humor. Trabalhando esses elementos com fina harmonia, os seus poemas para crianças alcançam aquilo que poderíamos chamar de simplicidade inteligente. Que eu tenho certeza de que as crianças adoram. As crianças reconhecem suas próprias capacidades e ficam felizes quando adultos também reconhecem-nas.

A recusa em enxergar seus leitores menores como seres infantilizados contribuiu muito para o resultado que o poeta obtém nos poemas de Museu desmiolado. Entretanto, é preciso dizer que nesta segunda incursão de Brito na poesia para crianças seus poemas ganham um contorno diferente em seu conjunto temático.

Se em Circo mágico a graça dos poemas estava em tratar de personagens que existem na tradição circense mundial, no Museu desmiolado, Brito imagina poeticamente museus inexistentes.

No livro anterior todos os poemas tratam de personagens que podem ser encontrados em qualquer circo do mundo, do menor ao maior: o malabarista, o palhaço, o equilibrista, a mulher que engole fogo, o domador, o mágico, entre outros. Cada um deles ganhou um poema. O da mulher-borracha, por exemplo, começa assim:

a mulher-borracha
é que tem jogo de cintura

parece de látex
retorce pra lá, retorce pra cá
vira do avesso
se estica toda
que nem cobra, lombriga, minhoca
(…)

É curiosa a brincadeira que o poeta adota para a maioria desses poemas. Pode-se dizer que neles Brito brinca com as metáforas, mas, curiosamente, “desmetaforizandoas” de forma muito divertida. Explico melhor: a expressão ter jogo de cintura é uma metáfora utilizada para pessoas pouco rígidas, que são mais flexíveis, principalmente diante de situações difíceis da vida. Entretanto, no caso da mulher-borracha, isso não é uma metáfora e sim uma realidade física, corporal, visível. A mulher-borracha não é nem um pouco rígida, pelo contrário, é capaz de alcançar o máximo de flexibilidade. Nesse processo, a figura de linguagem deixa de ser retórica para ser o significante objetivo da coisa significada.

O curioso é que fazendo uso de um procedimento que, a princípio, seria despoetizante, paradoxalmente, esses poemas ganham uma inesperada e bem-humorada carga poética em virtude mesmo do jogo de palavras criado por Brito, cujos versos são de uma simplicidade quase atrevida. Vejam que o procedimento se consolida ao final do poema, quando ele fornece a seguinte informação para o leitor:

(…)
mas o namorado largou dela
diz que é muito enrolada

O mesmo recurso é utilizado em vários poemas do Circo. Reparem nesse, dedicado ao equilibrista da corda bamba. Ele começa assim:

O equilibrista
É o passista da corda bamba

E termina assim:

(…)
no carnaval
ele relaxa geral
sai na imperadores do samba
e todo mundo diz:
esse é bamba!

Para não nos alongarmos nas citações, finalizo com este pequeno poema que fala da mulher do atirador de facas, que recupera para o leitor em chave poética a atmosfera tensa desse famoso número circense:

a mulher do atirador de facas
confia no marido de olhos fechados

errar é humano
mas ela nem desconfia

Cito esses exemplos porque eles ilustram bem o procedimento poético de desmetaforização do qual falamos acima e porque eles percorrem estruturalmente todo o corpo daquele livro. Embora os recursos utilizados por Brito não se restrinjam a esse, trata-se de um aspecto interessante da obra porque, ao longo de sua leitura, o leitor aprende a regra do jogo poético proposto pelo poeta e, por conta disso, desfruta com mais prazer dos seus poemas.

O Museu desmiolado tem uma estrutura diferente. Como já dissemos antes, os poemas deste livro tratam de museus inexistentes. Dois recursos básicos sustentam a poética desse livro fascinante: o ritmo e a própria imaginação. Se fôssemos colocar em termos poundianos, sua ênfase se apoiaria nos efeitos da melopéia e da fanopéia.

Um outro detalhe interessante, que ajuda a dar consistência aos museus imaginários do poeta, é que eles são cheios de coisas. E como nos museus, as coisas adquirem uma aura de encantamento que fixa nossa atenção e dita o ritmo dos versos. No “Museu do botão”, segundo o poeta,

(…)
tem botão de camisa, de saia, de calça
de bolso, de bolsa, de gola, de gala, de alça
botão que disfarça e botão que realça

fixo, elástico, natural, poroso, reciclado
fino, chato, oval, redondo, quadrado
de tudo quanto é estilo e formato
(…)

No incrível “Museu do vento”, o procedimento é semelhante.

no museu do vento
o vento venta por todo lado
não tem como não ficar
descabelado
(…)

vento que leva, vento que trás
vento que fica e vento que indica
vento é como água da bica
depois que passa não volta mais
(…)

Como nas estantes, paredes e vitrines de um museu real, o “Museu das palavras esquecidas” apresenta-as em estrofes que guardam uma semelhança meio cômica com a literatura de cordel.

(…)
zambaio, cacófato, furibundo
umbela, gabara, monoico
ibiboca, jaguacinim, ladário
lequéssia, macanjice, uliginário

Chega a ser hilário
Pacholice, rebimboca, pachouchada
Quadrarão, iluminância, tabicada
Saçanga, talisca, patuscada
Vacatura, zafimeiro, tachonada

O poeta diverte-se junto com seus leitores, sejam eles grandes ou pequenos. E não é para menos. Nesta coletânea de poemas e museus, a imaginação corre solta e robusta, penetrando nas galerias dos mais variados tipos de museu: o “Museu do assobio”, o “Museu invertido”, o “Museu dos palíndromos”. Fico a imaginar quem irá visitar o talvez definitivo “Museu do fim do mundo”…

O escritor francês André Malraux disse em um livro chamado O museu imaginário que “O museu é um confronto de metamorfoses”. Sabemos também que a palavra museu deriva do grego e que designava o templo das musas — divindades que inspiravam a poesia, a música, a oratória, a história, a tragédia, a comédia, a dança e a astronomia. Acredito, pois, que foi a união tradicionalmente divina, que transforma a imaginação em poesia, que inspirou a criação de tantos museus imaginários neste desmiolado museu do Alexandre Brito.

Um último aspecto a ser ressaltado é que os dois livros, o Circo… e o Museu…, apresentam um projeto gráfico muito bonito e atraente, cujas ilustrações do primeiro ficaram a cargo de Eduardo Vieira da Cunha, e as do segundo contaram com o talento de Graça Lima. Nos dois casos o poema e a imagem criada pelos ilustradores compõem um harmonioso diálogo de formas, cores, significados, símbolos e versos, que resultam numa leitura muito gratificante a cada página.

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Álvaro Marins é doutor em Teoria Literária pela UFRJ e coordenador de pesquisa e inovação museal do IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus.

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Alexandre Brito nasceu em Porto Alegre. É poeta, músico e letrista. Cursou filosofia em Florianópolis e estudou música em Belo Horizonte. De volta ao Rio Grande do Sul, passa a atuar na Capital organizando eventos (Poetar – 2ª Mostra de Poesia de Porto Alegre e a 1ª Semana da Fotografia de Porto Alegre), coordenando como editor a Coleção Petit-Poa para a SMC/PMPA, e participando da Roda de Poesia no Bric da Redenção. Ainda nos anos 90 participa da Banda Os Três Poetas, e de 2002 pra cá, da Banda os poETs, que já está no seu segundo CD e prepara seu primeiro DVD. Nos anos 80, em São Paulo, é parceiro de Fred Maia na Edições Nomades. Em Porto Alegre, cria a AMEOP – ameopoema editora, com Ricardo Silvestrin, e, desde 2011, participa da Coleção Intante Estante, de Sandra Santos, como escritor e editor em língua portuguesa. Nos últimos anos, paralelamente ao trabalho adulto, vem escrevendo para crianças. Seu primeiro livro, Circo Mágico, foi selecionado pelo PNBE-MEC e adotado pela Rede de Escolas Municipais de Belo Horizonte, e Museu Desmiolado foi selecionado para o Catálogo Brasileiro da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha –Bologna Children’s Book Fair 2012e recebeu o prêmio Prêmio Os 30 Melhores Livros Infantis do Ano – Revista Crescer – 2012. Uakti, lançado em 2011 na 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, divide com Uiara, de Sandra Santos, a publicação vira-vira/dois-em-um da Coleção PoeMitos/Casa Verde Editora. Livros publicados: Visagens, Zeros, O fundo do ar e outros poemas, Circo Mágico (infantil), Met@língua, Museu Desmiolado (infantil), A Poesia de Alexandre Brito (e-book), Uakti (infantil).

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Os livros comentados nesta coluna podem ser adquiridos na Palavraria. Faça o seu pedido:

Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim
90420-111 – Porto Alegre – RS
Telefone 51 3268 4260
palavraria@palavraria.com.br


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15
jan
12

Dicas de leitura, por Roberto Medina: Orhan Pamuk

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Orhan Pamuk: três livros – uma poética para o romance e para a leitura, por Roberto Medina

Há diferentes vias para adentrar no universo criativo de um escritor: os livros escritos, as leituras e as entrevistas.

Melhor ainda quando temos os três modos conjugados. Assim, aconteceu perceber a gênese dos romances de Orhan Pamuk – incansável leitor… e dos bons!

“A partir dos 22 anos, quando comecei a escrever romances, nunca fui capaz de separar minha vida e a dos meus romances. Acho que os livros que ainda escreverei serão pensados mais como entretenimento e mais importantes do que minha própria vida. Com isso, quero dizer que a pessoa deve olhar em frente para o momento de sua morte, que se deve resignar. Apesar disso, ainda parece que há muito tempo para usufruir.”

De sua terra turca, bebeu todos os autores do ocidente e refez o trajeto para casa: o oriente.

Istambul é o caminho percorrido e reconhecido, dos conflitos internos, das pessoas e suas vidas latentes, das suas interrogações políticas, bem como as existências, o autor de “Neve” aguçou todos os seus dotes artísticos, sensibilizando-se pelas artes plásticas até os 22 anos, momento em que se defronta com a necessidade de escrever, optando a partir daí pela escrita.

Antes de escrever os romances que pululam pelos quatro cantos do mundo, Pamuk iniciou-se na leitura. Na verdade, todo escritor e antes de tudo um leitor crítico, acredito que um leitor ideal. Aquele que observa a arquitetura dos clássicos, olha de soslaio seus contemporâneos.

Um escritor faz o trajeto leitor como qualquer outro ser normal: a primeira leitura é por puro prazer, depois virão as outras cirúrgicas, potentes, investigativas.

A leitura de desmontagem das belezas aparentes. O leitor é que sinta, disse Pessoa.

Com O romancista ingênuo e sentimental, Pamuk expõe um pensamento claro sobre os caminhos e descaminhos de sua formação, assim como os autores que lhe marcaram desde sempre, como Tolstói, Proust, Mann, Woolf entres outros de igual calibre. Para ele, vale o retrato da natureza humana: “o centro de um romance é uma profunda opinião ou insight sobre a vida, um ponto de mistério, real ou imaginado, profundamente entranhado.” Em momento algum, descura do estudo técnico e teórico que envolve a arte literária, pois discute as questões arguidas por E. M. Forster (Aspectos do Romance) e por Lukcás (A teoria do Romance): pontos concordantes e discordantes. Percebe-se claramente que se houver uma musa, a dele é muda: trabalha com esforço e afinco. Planeja seus romances, estuda planos, diálogos, objetos, palavras. Pretende-se como um escritor desafiador.

“Quando olho a minha vida passada da idade que estou, vejo uma pessoa que tem trabalhado longas horas na mesa com alegria e miséria. Escrevo meus livros com carinho, paciência e boas intenções, crendo em cada um deles. Sucesso, fama, alegria profissional… coisas que nunca vieram para mim com facilidade.”

Quando Orhan Pamuk, na cerimônia de entrega do prêmio Nobel de Literatura, em 2006, discursa, reforça sua trajetória de leitura, a experiência veio dos recantos da biblioteca de seu pai, como na telemaquia, o resgate pela memória transformada em texto não alivia fantasmas, mas os acomoda.

O caminho de formação está no livro A maleta de meu pai. Leio na figura do pai outros pais e mães – do porte literário, obviamente.

“Para mim, um dia bom é como qualquer outro, quando escrevo uma página bem. Exceto pelas horas que gasto escrevendo, a vida parece ser falha, deficiente e sem sentido.”

“Escrevo livros que eu mesmo gostaria de ler. E às vezes me apego a isso para acreditar que o mundo compartilha dos meus sentimentos.”

Ampliando suas formas de expressão e pensar, Pamuk reúne ensaios e conto na obra Outras cores,neste apanhado vemos um autor que mantém o propósito de dialogar com o leitor de maneira singular, descartando trejeitos acadêmicos, apesar de ser professor na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Fornece-nos um panorama de reminiscências íntimas, entrevista reveladora do pensamento percorrido na concepção de um romance.

Em uma entrevista para uma revista brasileira, Orahn Pamuk fala sobre o papel da literatura, respondendo que é “Comunicação. Olhar para o coração humano. Ver humanidade em todas as culturas, em todas as situações, em todas as classes, cores, raças, sexos. Ver a vida claramente. Para me perguntar a mim mesmo coisas como “por que vivemos, quais são nossos valores na vida, quais são os valores que devemos respeitar, que tipo de vida devemos viver”. Questões que as pessoas esperam da religião, da filosofia, eu espero de romances, de literatura.”

Lança luzes sobre a condição de escritor, “Ser um escritor é como ser um corredor de maratonas. É preciso ter força. A força de um romancista não é apenas sua criatividade, mas sua persistência e determinação. Há dias bons e dias ruins, você precisa seguir como um trem.”

Secção especial sobre a literatura brasileira, Pamuk ressalta: “Eu vinha de um país em que não havia traduções e fiquei com inveja. Publicaram também Machado de Assis nos Estados Unidos. Ele é muito criativo, vanguardista e pós-moderno. Meu editor inglês também me apresentou a Clarice Lispector. Ele me deu seus livros. Essa foi minha iniciação. Jorge Amado, com seus livros realistas, também é popular na Turquia.”

Pequena biografia:

Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Principal romancista turco da atualidade, já foi traduzido para mais de quarenta idiomas e ganhou prêmio Nobel de literatura em 2006. Publicou pela Companhia das Letras O castelo branco, Istambul, O livro negro, A maleta do meu pai, Meu nome é vermelho, O museu da inocência, Neve, O romancista ingênuo e sentimental e Outras cores.
 

Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC – Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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Os livros comentados nesta coluna podem ser adquiridos na Palavraria. Faça o seu pedido:

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29
set
10

Precisamos falar sobre o Kevin, dica de leitura de Daniela Langer

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Precisamos falar sobre o Kevin, por Dani Langer

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Autora: Lionel Shriver
Editora: Intrínseca, 2007
464 páginas

Ser ou não ser mãe? Foi a pergunta que fez Lionel Schriver escrever o romace “Precisamos falar sobre O Kevin”, publicado no Brasil em 2007 pela editora Intrínseca, e vencedor do Orange 2005, premiação inglesa de melhor romance do ano.

Para a autora, escrever é buscar respostas: “Uso meus romances para resolver questões que não entendo e causam algum tipo de conflito. Sei que encontrei o mote da história quando me vejo em uma situação que tem dois lados e não sei para qual deles devo seguir”.

“Precisamos falar sobre O Kevin” conta a história de um adolescente que, antes de completar 16 anos, comete uma chacina no ginásio de seu colégio nos subúrbios de Nova York. O crime surpreende a comunidade: Kevin é um garoto bonito, inteligente, mimado pelo pai e admirado pelos professores.

O romance é narrado em primeira pessoa por Eva, a mãe de Kevin. Torturada pela brutalidade dos fatos, ela escreve cartas ao marido ausente, revendo e esmiuçando cada cena dos últimos 16 anos de sua vida a procura de um motivo para o comportamento do filho.

O livro discute, em primeira análise, as chacinas cometidas por adolescentes nos Estados Unidos. A lucidez e imparcialidade com que o tema é tratado bastaria para fazer de “Precisamos falar sobre O Kevin” um bom livro. Ao lado de Eva, ansiamos por encontrar uma resposta que nos faça entender o porquê da gratuidade da violência em toda uma geração. Além disso, o romance apresenta um excelente painel cultural dos Estados Unidos. Entramos na intimidade de Eva. Lemos as cartas que Eva escreve para o marido, primeiro como intrusos de sua intimidade. Quando nos damos conta, já somos destinatários, e como os personagens, ansiamos por uma explicação que nos satisfaça, seja ela verdadeira ou não.

Porém, a força de um romance não se mede pela escolha do tema, mas no resultado entre conteúdo e forma. Em “Precisamos falar sobre O Kevin”, a forma funciona como um motor, a força que nos impulsiona para a reflexão. Para Lionel, a violência não é uma linguagem articulada. Portanto, as tentativas de racionalizar o pensamento e o comportamento de Kevin serão sempre inférteis. “Acho que ele próprio não entende o que o levou a cometer o crime”, diz a autora.

Ao optar por contar a história através de cartas, Lionel deixa a narrativa livre de qualquer racionalização. Por um lado, as cartas de Eva criam empatia entre, fazendo com que compartilhemos do seu sofrimento. Porém, esse mesmo artifício cria um filtro entre o adolescente e o leitor. Nas mesmas cartas que nos aproximam de Eva, temos material suficiente para questionar: a personalidade do adolescente, construída pela mãe, é confiável?

Kevin, o filho não muito desejado, é percebido pela mãe como uma criança que já nasceu perversa. Em sua apresentação na FLIP 2010, a autora sugere a questão: “o quanto de maldade uma criança muito pequena pode ter?”.

Lionel Schriver diz que o livro a ajudou a optar entre ter ou não filhos. Nem por isso, “Precisamos falar sobre O Kevin” apontar uma resposta para os temas que propõe. Pelo contrário, ao fechar o livro, podemos fazer uma lista com muitas outras perguntas sugeridas pela narrativa.

Daniela Langer é designer. Também estuda o que lhe causa espanto na literatura e é aluna da Oficina Charles Kiefer desde 2005. Foi premiada no Concurso Osman Lins de Contos 2005. Tem textos publicados em em antologias, entre elas Inventário das delicadezas (Nova Prova, 2007) e Novos Contos Imperdíveis (Nova Prova, 2007) e Outras Mulheres (Dublinense, 2010). Escreve nos blogs Ordinariedades e Outras Mulheres.

Lionel Shriver nasceu Margaret Ann Shriver (1957, Carolina do Norte, Estados Unidos) e aos 15 anos mudou de nome. Formada e pós-graduada pela Universidade de Columbia e pelo Barnard College, nos Estados Unidos, viveu em Nairóbi (Quênia), Bangkok (Tailândia) e Belfast (Irlanda). Precisamos falar sobre o Kevin, seu oitavo romance, foi recusado por agentes literários e mais de 30 editoras, mas em 2005 ganhou o prêmio Orange, na Grã-Bretanha. Publicou ainda The female of the species, Checker and the Derailleurs, Ordinary decent criminals, Game control, A perfectly good family e O mundo pós-aniversário. Seu mais recente livro, So much for that, foi lançado em março deste ano. Vive em Londres e contribui para os jornais The Guardian, New York Times, Wall Street Journal, Financial Times e para o semanário Economist.

Veja mais sobre Lionel Shriver em ordinariedades.blogspot.com.

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