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30
ago
12

Dicas de leitura, por Álvaro Marins: Museu Desmiolado e Circo Mágico, de Alexandre Brito

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Visitar o Museu Desmiolado depois de uma noite no Circo Mágico, por Alvaro Marins

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O Museu desmiolado não é a primeira incursão de Alexandre Brito no universo da poesia para crianças. Ou, como ele informa na capa de seu livro anterior, o Circo mágico, são poemas para “gente pequena, média e grande”.

Neste primeiro livro, destinado a esse público tão especial, encontramos o poeta de Visagens, Zeros e O fundo do ar e outros poemas retrabalhando, na chave do imaginário infantil, procedimentos muito comuns em seus poemas dirigidos, sobretudo, para a gente grande.

O poeta porto-alegrense é, em sua poética como um todo, um exímio esgrimista das palavras. Autor de belos haikais em Visagens, onde os recursos deste tipo poema são usados com maestria, Brito, neste livro da juventude, utilizava trocadilhos, aliterações e insights poéticos, que criavam imagens de rara beleza, encontráveis somente nos cultores brasileiros mais conhecidos desse gênero de poesia japonesa — Paulo Leminski, Olga Savary e Alice Ruiz, para ficarmos apenas nesses três.

O haicai exige grande domínio no uso desses procedimentos, mas eles precisam também ser utilizados com leveza e humor. E os livros de Brito focados nesse público de “gente pequena” são plenos dessa leveza e desse humor. Trabalhando esses elementos com fina harmonia, os seus poemas para crianças alcançam aquilo que poderíamos chamar de simplicidade inteligente. Que eu tenho certeza de que as crianças adoram. As crianças reconhecem suas próprias capacidades e ficam felizes quando adultos também reconhecem-nas.

A recusa em enxergar seus leitores menores como seres infantilizados contribuiu muito para o resultado que o poeta obtém nos poemas de Museu desmiolado. Entretanto, é preciso dizer que nesta segunda incursão de Brito na poesia para crianças seus poemas ganham um contorno diferente em seu conjunto temático.

Se em Circo mágico a graça dos poemas estava em tratar de personagens que existem na tradição circense mundial, no Museu desmiolado, Brito imagina poeticamente museus inexistentes.

No livro anterior todos os poemas tratam de personagens que podem ser encontrados em qualquer circo do mundo, do menor ao maior: o malabarista, o palhaço, o equilibrista, a mulher que engole fogo, o domador, o mágico, entre outros. Cada um deles ganhou um poema. O da mulher-borracha, por exemplo, começa assim:

a mulher-borracha
é que tem jogo de cintura

parece de látex
retorce pra lá, retorce pra cá
vira do avesso
se estica toda
que nem cobra, lombriga, minhoca
(…)

É curiosa a brincadeira que o poeta adota para a maioria desses poemas. Pode-se dizer que neles Brito brinca com as metáforas, mas, curiosamente, “desmetaforizandoas” de forma muito divertida. Explico melhor: a expressão ter jogo de cintura é uma metáfora utilizada para pessoas pouco rígidas, que são mais flexíveis, principalmente diante de situações difíceis da vida. Entretanto, no caso da mulher-borracha, isso não é uma metáfora e sim uma realidade física, corporal, visível. A mulher-borracha não é nem um pouco rígida, pelo contrário, é capaz de alcançar o máximo de flexibilidade. Nesse processo, a figura de linguagem deixa de ser retórica para ser o significante objetivo da coisa significada.

O curioso é que fazendo uso de um procedimento que, a princípio, seria despoetizante, paradoxalmente, esses poemas ganham uma inesperada e bem-humorada carga poética em virtude mesmo do jogo de palavras criado por Brito, cujos versos são de uma simplicidade quase atrevida. Vejam que o procedimento se consolida ao final do poema, quando ele fornece a seguinte informação para o leitor:

(…)
mas o namorado largou dela
diz que é muito enrolada

O mesmo recurso é utilizado em vários poemas do Circo. Reparem nesse, dedicado ao equilibrista da corda bamba. Ele começa assim:

O equilibrista
É o passista da corda bamba

E termina assim:

(…)
no carnaval
ele relaxa geral
sai na imperadores do samba
e todo mundo diz:
esse é bamba!

Para não nos alongarmos nas citações, finalizo com este pequeno poema que fala da mulher do atirador de facas, que recupera para o leitor em chave poética a atmosfera tensa desse famoso número circense:

a mulher do atirador de facas
confia no marido de olhos fechados

errar é humano
mas ela nem desconfia

Cito esses exemplos porque eles ilustram bem o procedimento poético de desmetaforização do qual falamos acima e porque eles percorrem estruturalmente todo o corpo daquele livro. Embora os recursos utilizados por Brito não se restrinjam a esse, trata-se de um aspecto interessante da obra porque, ao longo de sua leitura, o leitor aprende a regra do jogo poético proposto pelo poeta e, por conta disso, desfruta com mais prazer dos seus poemas.

O Museu desmiolado tem uma estrutura diferente. Como já dissemos antes, os poemas deste livro tratam de museus inexistentes. Dois recursos básicos sustentam a poética desse livro fascinante: o ritmo e a própria imaginação. Se fôssemos colocar em termos poundianos, sua ênfase se apoiaria nos efeitos da melopéia e da fanopéia.

Um outro detalhe interessante, que ajuda a dar consistência aos museus imaginários do poeta, é que eles são cheios de coisas. E como nos museus, as coisas adquirem uma aura de encantamento que fixa nossa atenção e dita o ritmo dos versos. No “Museu do botão”, segundo o poeta,

(…)
tem botão de camisa, de saia, de calça
de bolso, de bolsa, de gola, de gala, de alça
botão que disfarça e botão que realça

fixo, elástico, natural, poroso, reciclado
fino, chato, oval, redondo, quadrado
de tudo quanto é estilo e formato
(…)

No incrível “Museu do vento”, o procedimento é semelhante.

no museu do vento
o vento venta por todo lado
não tem como não ficar
descabelado
(…)

vento que leva, vento que trás
vento que fica e vento que indica
vento é como água da bica
depois que passa não volta mais
(…)

Como nas estantes, paredes e vitrines de um museu real, o “Museu das palavras esquecidas” apresenta-as em estrofes que guardam uma semelhança meio cômica com a literatura de cordel.

(…)
zambaio, cacófato, furibundo
umbela, gabara, monoico
ibiboca, jaguacinim, ladário
lequéssia, macanjice, uliginário

Chega a ser hilário
Pacholice, rebimboca, pachouchada
Quadrarão, iluminância, tabicada
Saçanga, talisca, patuscada
Vacatura, zafimeiro, tachonada

O poeta diverte-se junto com seus leitores, sejam eles grandes ou pequenos. E não é para menos. Nesta coletânea de poemas e museus, a imaginação corre solta e robusta, penetrando nas galerias dos mais variados tipos de museu: o “Museu do assobio”, o “Museu invertido”, o “Museu dos palíndromos”. Fico a imaginar quem irá visitar o talvez definitivo “Museu do fim do mundo”…

O escritor francês André Malraux disse em um livro chamado O museu imaginário que “O museu é um confronto de metamorfoses”. Sabemos também que a palavra museu deriva do grego e que designava o templo das musas — divindades que inspiravam a poesia, a música, a oratória, a história, a tragédia, a comédia, a dança e a astronomia. Acredito, pois, que foi a união tradicionalmente divina, que transforma a imaginação em poesia, que inspirou a criação de tantos museus imaginários neste desmiolado museu do Alexandre Brito.

Um último aspecto a ser ressaltado é que os dois livros, o Circo… e o Museu…, apresentam um projeto gráfico muito bonito e atraente, cujas ilustrações do primeiro ficaram a cargo de Eduardo Vieira da Cunha, e as do segundo contaram com o talento de Graça Lima. Nos dois casos o poema e a imagem criada pelos ilustradores compõem um harmonioso diálogo de formas, cores, significados, símbolos e versos, que resultam numa leitura muito gratificante a cada página.

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Álvaro Marins é doutor em Teoria Literária pela UFRJ e coordenador de pesquisa e inovação museal do IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus.

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Alexandre Brito nasceu em Porto Alegre. É poeta, músico e letrista. Cursou filosofia em Florianópolis e estudou música em Belo Horizonte. De volta ao Rio Grande do Sul, passa a atuar na Capital organizando eventos (Poetar – 2ª Mostra de Poesia de Porto Alegre e a 1ª Semana da Fotografia de Porto Alegre), coordenando como editor a Coleção Petit-Poa para a SMC/PMPA, e participando da Roda de Poesia no Bric da Redenção. Ainda nos anos 90 participa da Banda Os Três Poetas, e de 2002 pra cá, da Banda os poETs, que já está no seu segundo CD e prepara seu primeiro DVD. Nos anos 80, em São Paulo, é parceiro de Fred Maia na Edições Nomades. Em Porto Alegre, cria a AMEOP – ameopoema editora, com Ricardo Silvestrin, e, desde 2011, participa da Coleção Intante Estante, de Sandra Santos, como escritor e editor em língua portuguesa. Nos últimos anos, paralelamente ao trabalho adulto, vem escrevendo para crianças. Seu primeiro livro, Circo Mágico, foi selecionado pelo PNBE-MEC e adotado pela Rede de Escolas Municipais de Belo Horizonte, e Museu Desmiolado foi selecionado para o Catálogo Brasileiro da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha –Bologna Children’s Book Fair 2012e recebeu o prêmio Prêmio Os 30 Melhores Livros Infantis do Ano – Revista Crescer – 2012. Uakti, lançado em 2011 na 57ª Feira do Livro de Porto Alegre, divide com Uiara, de Sandra Santos, a publicação vira-vira/dois-em-um da Coleção PoeMitos/Casa Verde Editora. Livros publicados: Visagens, Zeros, O fundo do ar e outros poemas, Circo Mágico (infantil), Met@língua, Museu Desmiolado (infantil), A Poesia de Alexandre Brito (e-book), Uakti (infantil).

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Os livros comentados nesta coluna podem ser adquiridos na Palavraria. Faça o seu pedido:

Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim
90420-111 – Porto Alegre – RS
Telefone 51 3268 4260
palavraria@palavraria.com.br


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15
jan
12

Dicas de leitura, por Roberto Medina: Orhan Pamuk

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Orhan Pamuk: três livros – uma poética para o romance e para a leitura, por Roberto Medina

Há diferentes vias para adentrar no universo criativo de um escritor: os livros escritos, as leituras e as entrevistas.

Melhor ainda quando temos os três modos conjugados. Assim, aconteceu perceber a gênese dos romances de Orhan Pamuk – incansável leitor… e dos bons!

“A partir dos 22 anos, quando comecei a escrever romances, nunca fui capaz de separar minha vida e a dos meus romances. Acho que os livros que ainda escreverei serão pensados mais como entretenimento e mais importantes do que minha própria vida. Com isso, quero dizer que a pessoa deve olhar em frente para o momento de sua morte, que se deve resignar. Apesar disso, ainda parece que há muito tempo para usufruir.”

De sua terra turca, bebeu todos os autores do ocidente e refez o trajeto para casa: o oriente.

Istambul é o caminho percorrido e reconhecido, dos conflitos internos, das pessoas e suas vidas latentes, das suas interrogações políticas, bem como as existências, o autor de “Neve” aguçou todos os seus dotes artísticos, sensibilizando-se pelas artes plásticas até os 22 anos, momento em que se defronta com a necessidade de escrever, optando a partir daí pela escrita.

Antes de escrever os romances que pululam pelos quatro cantos do mundo, Pamuk iniciou-se na leitura. Na verdade, todo escritor e antes de tudo um leitor crítico, acredito que um leitor ideal. Aquele que observa a arquitetura dos clássicos, olha de soslaio seus contemporâneos.

Um escritor faz o trajeto leitor como qualquer outro ser normal: a primeira leitura é por puro prazer, depois virão as outras cirúrgicas, potentes, investigativas.

A leitura de desmontagem das belezas aparentes. O leitor é que sinta, disse Pessoa.

Com O romancista ingênuo e sentimental, Pamuk expõe um pensamento claro sobre os caminhos e descaminhos de sua formação, assim como os autores que lhe marcaram desde sempre, como Tolstói, Proust, Mann, Woolf entres outros de igual calibre. Para ele, vale o retrato da natureza humana: “o centro de um romance é uma profunda opinião ou insight sobre a vida, um ponto de mistério, real ou imaginado, profundamente entranhado.” Em momento algum, descura do estudo técnico e teórico que envolve a arte literária, pois discute as questões arguidas por E. M. Forster (Aspectos do Romance) e por Lukcás (A teoria do Romance): pontos concordantes e discordantes. Percebe-se claramente que se houver uma musa, a dele é muda: trabalha com esforço e afinco. Planeja seus romances, estuda planos, diálogos, objetos, palavras. Pretende-se como um escritor desafiador.

“Quando olho a minha vida passada da idade que estou, vejo uma pessoa que tem trabalhado longas horas na mesa com alegria e miséria. Escrevo meus livros com carinho, paciência e boas intenções, crendo em cada um deles. Sucesso, fama, alegria profissional… coisas que nunca vieram para mim com facilidade.”

Quando Orhan Pamuk, na cerimônia de entrega do prêmio Nobel de Literatura, em 2006, discursa, reforça sua trajetória de leitura, a experiência veio dos recantos da biblioteca de seu pai, como na telemaquia, o resgate pela memória transformada em texto não alivia fantasmas, mas os acomoda.

O caminho de formação está no livro A maleta de meu pai. Leio na figura do pai outros pais e mães – do porte literário, obviamente.

“Para mim, um dia bom é como qualquer outro, quando escrevo uma página bem. Exceto pelas horas que gasto escrevendo, a vida parece ser falha, deficiente e sem sentido.”

“Escrevo livros que eu mesmo gostaria de ler. E às vezes me apego a isso para acreditar que o mundo compartilha dos meus sentimentos.”

Ampliando suas formas de expressão e pensar, Pamuk reúne ensaios e conto na obra Outras cores,neste apanhado vemos um autor que mantém o propósito de dialogar com o leitor de maneira singular, descartando trejeitos acadêmicos, apesar de ser professor na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Fornece-nos um panorama de reminiscências íntimas, entrevista reveladora do pensamento percorrido na concepção de um romance.

Em uma entrevista para uma revista brasileira, Orahn Pamuk fala sobre o papel da literatura, respondendo que é “Comunicação. Olhar para o coração humano. Ver humanidade em todas as culturas, em todas as situações, em todas as classes, cores, raças, sexos. Ver a vida claramente. Para me perguntar a mim mesmo coisas como “por que vivemos, quais são nossos valores na vida, quais são os valores que devemos respeitar, que tipo de vida devemos viver”. Questões que as pessoas esperam da religião, da filosofia, eu espero de romances, de literatura.”

Lança luzes sobre a condição de escritor, “Ser um escritor é como ser um corredor de maratonas. É preciso ter força. A força de um romancista não é apenas sua criatividade, mas sua persistência e determinação. Há dias bons e dias ruins, você precisa seguir como um trem.”

Secção especial sobre a literatura brasileira, Pamuk ressalta: “Eu vinha de um país em que não havia traduções e fiquei com inveja. Publicaram também Machado de Assis nos Estados Unidos. Ele é muito criativo, vanguardista e pós-moderno. Meu editor inglês também me apresentou a Clarice Lispector. Ele me deu seus livros. Essa foi minha iniciação. Jorge Amado, com seus livros realistas, também é popular na Turquia.”

Pequena biografia:

Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Principal romancista turco da atualidade, já foi traduzido para mais de quarenta idiomas e ganhou prêmio Nobel de literatura em 2006. Publicou pela Companhia das Letras O castelo branco, Istambul, O livro negro, A maleta do meu pai, Meu nome é vermelho, O museu da inocência, Neve, O romancista ingênuo e sentimental e Outras cores.
 

Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC – Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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Os livros comentados nesta coluna podem ser adquiridos na Palavraria. Faça o seu pedido:

Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim
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01
out
10

A crônica do Ademir Furtado: Laranja Mecânica

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Nota da Administração: A partir desta data, Ademir Furtado – por motivos alheios à sua e à nossa vontade – deixa de comparecer regularmente no blog da Palavraria. Promete-nos voltar em outra oportunidade. Como última colaboração, enviou-nos o divertido texto abaixo, mais uma dica de leitura do que propriamente uma crônica. Deixamos aqui registrado nossos agradecimentos ao Ademir por sua colaboração e o convite para que volte.

LH

Laranja mecânica, por Ademir Furtado

Quem estiver interessovatado em ler uma razkaz diferente, eu recomendo uma leitura. É a história do Alex, um nadsat e sua grupa de druguis, todos molodoi, que passam a notchi itiando pela rua, sob o efeito de altas doses de drencrom, dratando com outras bandas, lubilubilando no vinte-contra-um, assaltando domis e bares, à procura da tia pecúnia e de diversão. Alex é um tchelovek bolnói, de uma família bugati. Seus pais robotam honestamente, possuem denji para kupetar o que ele quiser, mas krastar e skivatar é mais divertido.

Um dia, porém, Alex é lovetado pelos miliquinhas e aí a jizna dele se transforma num inferno. Ah, meus irmãozinhos, nas rukas da repressão estatal Alex vai ponear bonitinho o que é a ultraviolência.

Quem estiver quebrando a gúliver para kopatar direito esse texto, trata-se de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, aquele que virou filme do Satanley Kubrick. Uma obra starre, mas pouco conhecida fora do cine-cìnico. Mas vou skazatar uma veshka, meus irmãozinhos: é um livro muito horrorshow.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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Um pouquinho mais sobre Laranja Mecânica

Narrada pelo protagonista, o adolescente Alex, esta brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma reposta igualmente agressiva de um governo totalitário. A estranha linguagem utilizada por Alex – soberbamente engendrada pelo autor – empresta uma dimensão quase lírica ao texto. Ao lado de “1984”, de George Orwell, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, “Laranja Mecânica” é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século XX. Adaptado com maestria para o cinema em 1972 por Stanley Kubrick, é uma obra marcante: depois da sua leitura, você jamais será o mesmo.

Anthony Burgess nasceu em Manchester em 1917. Formou-se em Inglês pela Universidade de Manchester, serviu no Exército e, entre 1954 e 1960, trabalhou como professor junto ao Serviço Colonial britânico na Malásia. Foi neste período que começou sua carreira literária, escrevendo os livros Time for a Tiger, The Enemy in the Blanket e Beds in the East, que compões o ciclo The Malayan Trilogy. Ao retornar à Inglaterra, recebeu a notícia de que tinha um tumor no cérebro: os médicos lhe deram no máximo um ano de vida. Mudou-se para a cidade costeira de Hove, no sul da Inglaterra, com a intenção de escrever vários livros para que os direitos autorais pudessem ajudar no sustento de sua esposa depois de sua morte. Um desses livros era Laranja Mecânica, uma extrapolação para o futuro das brigas de gangues que ele presenciou em sua terra natal ao voltar da Ásia. Mas o diagnóstico estava errado, e Burgess viveu até os 76 anos. Ao morrer, em 1993, deixou uma grande obra em quantidade e qualidade, entre romances, peças de teatro (inclusive uma adaptação de Laranja Mecânica em versão musical), roteiros de cinema e TV e biografias.

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29
set
10

Precisamos falar sobre o Kevin, dica de leitura de Daniela Langer

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Precisamos falar sobre o Kevin, por Dani Langer

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Autora: Lionel Shriver
Editora: Intrínseca, 2007
464 páginas

Ser ou não ser mãe? Foi a pergunta que fez Lionel Schriver escrever o romace “Precisamos falar sobre O Kevin”, publicado no Brasil em 2007 pela editora Intrínseca, e vencedor do Orange 2005, premiação inglesa de melhor romance do ano.

Para a autora, escrever é buscar respostas: “Uso meus romances para resolver questões que não entendo e causam algum tipo de conflito. Sei que encontrei o mote da história quando me vejo em uma situação que tem dois lados e não sei para qual deles devo seguir”.

“Precisamos falar sobre O Kevin” conta a história de um adolescente que, antes de completar 16 anos, comete uma chacina no ginásio de seu colégio nos subúrbios de Nova York. O crime surpreende a comunidade: Kevin é um garoto bonito, inteligente, mimado pelo pai e admirado pelos professores.

O romance é narrado em primeira pessoa por Eva, a mãe de Kevin. Torturada pela brutalidade dos fatos, ela escreve cartas ao marido ausente, revendo e esmiuçando cada cena dos últimos 16 anos de sua vida a procura de um motivo para o comportamento do filho.

O livro discute, em primeira análise, as chacinas cometidas por adolescentes nos Estados Unidos. A lucidez e imparcialidade com que o tema é tratado bastaria para fazer de “Precisamos falar sobre O Kevin” um bom livro. Ao lado de Eva, ansiamos por encontrar uma resposta que nos faça entender o porquê da gratuidade da violência em toda uma geração. Além disso, o romance apresenta um excelente painel cultural dos Estados Unidos. Entramos na intimidade de Eva. Lemos as cartas que Eva escreve para o marido, primeiro como intrusos de sua intimidade. Quando nos damos conta, já somos destinatários, e como os personagens, ansiamos por uma explicação que nos satisfaça, seja ela verdadeira ou não.

Porém, a força de um romance não se mede pela escolha do tema, mas no resultado entre conteúdo e forma. Em “Precisamos falar sobre O Kevin”, a forma funciona como um motor, a força que nos impulsiona para a reflexão. Para Lionel, a violência não é uma linguagem articulada. Portanto, as tentativas de racionalizar o pensamento e o comportamento de Kevin serão sempre inférteis. “Acho que ele próprio não entende o que o levou a cometer o crime”, diz a autora.

Ao optar por contar a história através de cartas, Lionel deixa a narrativa livre de qualquer racionalização. Por um lado, as cartas de Eva criam empatia entre, fazendo com que compartilhemos do seu sofrimento. Porém, esse mesmo artifício cria um filtro entre o adolescente e o leitor. Nas mesmas cartas que nos aproximam de Eva, temos material suficiente para questionar: a personalidade do adolescente, construída pela mãe, é confiável?

Kevin, o filho não muito desejado, é percebido pela mãe como uma criança que já nasceu perversa. Em sua apresentação na FLIP 2010, a autora sugere a questão: “o quanto de maldade uma criança muito pequena pode ter?”.

Lionel Schriver diz que o livro a ajudou a optar entre ter ou não filhos. Nem por isso, “Precisamos falar sobre O Kevin” apontar uma resposta para os temas que propõe. Pelo contrário, ao fechar o livro, podemos fazer uma lista com muitas outras perguntas sugeridas pela narrativa.

Daniela Langer é designer. Também estuda o que lhe causa espanto na literatura e é aluna da Oficina Charles Kiefer desde 2005. Foi premiada no Concurso Osman Lins de Contos 2005. Tem textos publicados em em antologias, entre elas Inventário das delicadezas (Nova Prova, 2007) e Novos Contos Imperdíveis (Nova Prova, 2007) e Outras Mulheres (Dublinense, 2010). Escreve nos blogs Ordinariedades e Outras Mulheres.

Lionel Shriver nasceu Margaret Ann Shriver (1957, Carolina do Norte, Estados Unidos) e aos 15 anos mudou de nome. Formada e pós-graduada pela Universidade de Columbia e pelo Barnard College, nos Estados Unidos, viveu em Nairóbi (Quênia), Bangkok (Tailândia) e Belfast (Irlanda). Precisamos falar sobre o Kevin, seu oitavo romance, foi recusado por agentes literários e mais de 30 editoras, mas em 2005 ganhou o prêmio Orange, na Grã-Bretanha. Publicou ainda The female of the species, Checker and the Derailleurs, Ordinary decent criminals, Game control, A perfectly good family e O mundo pós-aniversário. Seu mais recente livro, So much for that, foi lançado em março deste ano. Vive em Londres e contribui para os jornais The Guardian, New York Times, Wall Street Journal, Financial Times e para o semanário Economist.

Veja mais sobre Lionel Shriver em ordinariedades.blogspot.com.

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03
jun
10

Dicas de leitura, por Reginaldo Pujol Filho

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Dicas de leitura, por Reginaldo Pujol Filho

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Bem, prazer, eu me chamo Reginaldo (Pujol Filho) e entre outras coisas, organizei e lancei, pela Não Editora no ano passado, e pela Livro do Dia de Portugal  neste ano, a antologia Desacordo ortográfico. É uma reunião de textos, como tá lá no prefácio do livro, de autores que, em vez do bom português, optaram por escrever num diferente, ótimo, estranho, maravilhoso português. O Desacordo reúne, assim, 20 autores de 5 países (Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe) onde o português é falado.

Pois bem, por isso, e acho que também por nossas conversas sobre o livro do Gonçalo Tavares que acabou de chegar, o livro de poesia do Mia Couto (que o Carlos só empresta, mas não vende), o Carlos da Palavraria um dia me pediu o seguinte:

– Tu não faria uma listinha de autores de língua portuguesa africanos publicados no Brasil, tirando o Pepetela, o Mia Couto, o Agualusa, que esses aí todo mundo conhece?

Topei o pedido do Carlos e fiz a listinha. Lógico que está incompleta, mas já tem uns bons meses de leitura aqui embaixo:

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Angola

Luuanda, de José Luandino Vieira – Cia das Letras. As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos – os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. Essas histórias curtas buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.

A cidade e a infância, de José Luandino Vieira – Cia das Letras. Os contos de ‘A cidade e a infância’ anunciam algumas das características que se tornariam marcas do escritor – a paisagem urbana e o contexto de pobreza e marginalidade de Luanda; a oralidade pronunciada da narrativa; o convívio e a tensão entre negros, brancos e mulatos; a crítica da modernização excludente. Engajado e radicalmente inovador, Luandino ajudou a consolidar a literatura angolana no período de luta contra a colonização portuguesa, criando uma dicção literária única (sua prosa madura é comparada à de Guimarães Rosa). O livro traz dez narrativas breves, inspiradas na infância do próprio autor, vivida nos bairros pobres de Luanda, em companhia de meninos negros e mestiços. O volume inclui algumas das ‘estórias’ (como o próprio Luandino as chama) mais conhecidas do autor – ‘Companheiros’; ‘O nascer do sol’; ‘A cidade e a infância’ e ‘A fronteira de asfalto’. Este último conto narra a história de duas crianças, um menino negro e uma garota branca, que são proibidos de se encontrar – são apartados por iniciativa da família dela, mas também pela ‘fronteira de asfalto’

Os da Minha Rua, de Ondjaki – Língua Geral. Se é certo que as crianças crescem em segredo, como diz Ana Paula Tavares, de vez em quando se comprova que esse segredo espera uns anos para se desvendar amadurecido em literatura. Assim é o livro de estórias do jovem poeta e ficcionista angolano Ondjaki. Em ‘Os da minha rua’ o autor reedifica os da sua casa – da memória, do afecto, da identidade.

Avodezanove e o Segredo do Soviético, de Ondjaki – Cia das Letras. A PraiaDoBispo é um bairro tranquilo de Luanda – o VelhoPescador cuida de sua rede, o VendedorDeGasolina espera um cliente que nunca chega, AvóAgnette e AvóCatarina conversam com a vizinha e ralham com os miúdos. As obras de um mausoléu, porém, transformam e ameaçam o cotidiano – soldados soviéticos comandam os trabalhos de construção do monumento, e o projeto de revitalização do local ameaça desalojar os moradores. As crianças da PraiaDoBispo assistem a tudo com seus olhos inocentes mas agudos, e divertem-se com as brincadeiras de rua e com a presença extravagante dos estrangeiros. Elas começam a desconfiar que os ‘lagostas azuis’, como chamam os soviéticos, podem estar tramando algo confidencial. Mas o segredo do soviético pode ter a ver com outras coisas – a enorme quantidade de sal grosso encontrada no depósito da construção, os pássaros de plumagens coloridas mantidos presos em gaiolas ou a dinamite estocada nos barracões do canteiro das obras.

Bom Dia, Camaradas, de Ondjaki – Cia das Letras. O menino, filho de um alto funcionário do governo, tem um pajem – o ‘camarada António’, cozinheiro e voz de uma certa camada popular -, estuda numa boa escola, que tem professores cubanos, e desfruta de algumas benesses, como pegar ‘boleia’ (carona) no carro do Ministério e contar com telefone e ‘geleira’ (geladeira) em casa.

Filhos da Pátria, de João Melo – Record. Este livro apresenta personagens que se movem entre uma realidade extremamente dura e os sonhos sempre adiados face à severidade do dia-a-dia, num movimento que se torna muitas vezes alucinante. Uma reflexão sobre os filhos do território angolano e seus complexos destinos é o ponto central de cada um dos dez contos de ‘Filhos da pátria’.

Quem me Dera Ser Onda, de Manuel Rui – Ed. Gryphus. O pai dos meninos Ruca e Zeca leva um porco para engordar no apartamento em que a família mora em Luanda. Os meninos passam a inventar artimanhas para que os vizinhos – funcionários públicos, oficiais, vendedores, membros do partido, não percebam a presença do porco e também passam a ser responsáveis por alimentá-lo com restos colhidos pela cidade, principalmente dos fundos de um hotel. Ao mesmo tempo, articulam possíveis formas para evitar a morte de “Carnaval da Vitória”, nome dado ao porco como referência à data marcada pelo pai dos meninos para seu abate; coincidentemente, no feriado cívico angolano com o mesmo nome.

Os Papéis do Inglês, de Ruy Duarte de Carvalho (português naturalizado angolano) – Cia das Letras. Numa história de ganância, violência e paixão, na Angola do fim do século XX, um professor universitário decide fazer uma viagem de busca no coração das trevas africano para investigar o suicídio de um caçador de elefantes, ocorrido em 1923.

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Cabo Verde

Lisbon Blues (poesia), de José Luis Tavares – Escrituras. A Lisboa vivida pelo poeta em seus trajetos diurnos e noturnos, as expectativas e decepções resultantes dessas investidas… A Lisboa imaginada das leituras que o poeta faz de Cesário Verde, Vitorino Nemésio, Fernando Pessoa… A memória transpessoal do Tejo, dos monumentos, das tabernas, dos cafés, dos jardins e das praças – geografia que condiciona o encontro e o desencontro das comunidades múltiplas. Diferentes cidades confrontadas na linguagem cujo resultado poético maior é o da emergência da consciência crioula.

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Guiné-Bissau

Admirável Diamante Bruto e Outros Contos, de Waldir Araújo – Ed. Thesaurus. Primeiro livro de Waldir Araújo, é um conjunto de quatorze contos onde as personagens vivem acontecimentos às vezes fantásticos, às vezes reais, contados por um narrador desencantado com uma certa urbanidade e que recuperam o imaginário da Guiné-Bissau, de onde o autor emigrou para Portugal em 1985. A propósito do livro, diz o autor: “A motivação para a escrita vem da realidade do meu país. Do meio onde cresci, onde qualquer história singular tem sempre algo de mágico, de fora de comum. Lembro-me que cresci num meio rodeado de figuras que davam interessantes personagens de livros. Situações de vida que, com uma pequena dose de criatividade, tornam-se em ficções memoráveis. A realidade guineense é rica em fantasia e eu costumo apontar no meu caderninho situações aparentemente banais nos quais trabalho depois.”

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Macau

Amor e Dedinhos de Pé, de Henrique de Senna Madureira – Ed. Gryphus. Ambientado no início do século XX em Macau, ‘Amor e dedinhos do pé’ conta a história de Chico Frontaria, um dos últimos remanescentes da família de origem portuguesa que construiu fortuna e boa reputação no tráfico de mercadorias e no combate à pirataria nos portos do sul da China. A linhagem prosperou no negócio e ergueu robusto patrimônio. A decadência veio com a Guerra do Ópio, a fundação de Hong Kong e os avanços da presença inglesa na China. Os membros da família se dispersaram por outros portos chineses, onde também havia famílias portuguesas estabelecidas. Senna Fernandes teve dois dos seus livros transpostos para a tela: “A Trança Feiticeira” e “Amor e dedinhos de pé”.

A Trança Feiticeira, romance de Henrique de Senna Madureira – Ed. Gryphus. A mulher – e as suas múltiplas facetas – é o tema central da obra de Henrique de Senna Fernandes, e o amor, a sua natural consequência, envolvendo com frequência “uma moça chinesa e um rapaz macaense”. De alguma forma, há, nos seus livros, referências autobiográficas. Também ele, o orgulho de uma família tradicional macaense, amou e casou-se com uma bela mulher chinesa, desafiando as convenções de uma cidade pequena e conservadora.

Nan Van – Contos de Macau, de Henrique de Senna Madureira – Ed. Gryphus.

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Moçambique

Rio dos Bons Sinais, de Nelson Saute – Língua Geral. Este é um livro de ausências. Sem grandes gestos, grandes batalhas, grandes epopéias, sem grandiloqüências ou arroubos filosóficos. Os personagens soltos deste árido rio, ainda assim de bons sinais, caminham no dia-a-dia olhando para os próprios pés, contados em fragmentos de um cotidiano que nos chega amarelado, quem sabe pelo sol, pelo pó, talvez mais pelo tempo vivido e a viver. (…) E, obsessiva – enterro após enterro, e mais um e ainda outro –, constante, vagarosa, quase preguiçosa, sem fazer espetáculo de si mesma, a morte. Como fato da vida, pronta, diria amiga. Com quem, de viés, se dialoga e nos ajuda a compreender o que somos. (…) “Rio dos Bons Sinais” é o encontro com Eufrigino dos Ídolos, o homem do luto perpétuo, vovó Mafaduco, a menina dos Prazos, viúva imaculada, e outras gentes, de outras terras, outra maneira de juntar as mesmas palavras, outro mar. (Ruy Guerra)

Niketche – Uma História da Poligamia, de Paulina Chiziane – Cia das Letras. Casada com Tony há vinte anos, Rami descobre que o marido tem várias mulheres em outras regiões de Moçambique. Paulina Chiziane, primeira moçambicana a publicar um romance, combina humor e lirismo neste retrato da cultura moçambicana tradicional e das relações entre homem e mulher num país em que a poligamia é um costume arraigado.

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Timor-Leste

Réquiem Para o Navegador Solitário, de Luis Cardoso – Língua Geral. Na obra ‘Requiem para o Navegador Solitário’ o autor traz como destaque – O Timor-Leste, pequena ilha do Pacífico repleta de conflitos étnicos e políticos, e Catarina, uma jovem inocente que traz na mala, além da roupa, um exemplar de ‘À la Porsuite du Soleil’, relato de viagem de circum-navegação do autor Alain Gerbault. Porém ela ainda traz algo a mais – o sonho de viver uma grande história de amor. De um lado, o Timor-Leste, dominado pelos portugueses em 1512, e que três dias após sua independência, em 1975, foi invadido pela Indonésia; de outro, Catarina, que se dedica à recuperação da fazenda Sacromonte enquanto aguarda, na varanda atapetada de buganvílias de sua casa, a chegada do navegador solitário.

Infantis

O Leão e o Coelho Saltitão, conto de Ondjaki (Angola) – Lingua Geral. Coleção Mama África. A coleção apresenta ao público infanto-juvenil as lendas africanas, através de contos e poemas. Este livro narra a origem do desentendimento entre o Leão, o rei da selva, e o Coelho, o animal mais esperto da floresta. Neste livro, a Floresta Grande atravessa um momento de crise – devido a inundações e incêndios, faltam alimentos para os animais, que então se veem obrigados a comer raízes e frutos secos. Um dia, o Leão, rei da floresta, sedento por carne fresca e abundante, pede conselhos a seu amigo, o Coelho Saltitão. O Coelho, com muitas ideias astutas, arma um plano para acabar com a fome do Leão, mas sobretudo com a sua própria.

Debaixo do Arco-íris Não Passa Ninguém, poemas de Zetho Cunha Gonçalves (Angola) – Língua Geral. Coleção Mama África. Zetho Cunha Gonçalves, poeta angolano, criou seus versos mediante diálogos com a tradição oral dos povos nganguela, tchokwé e bosquímano, que habitam a província do Cuando Cubango, no Sudeste de Angola. As ilustrações de Roberto Chichorro, um dos principais artistas plásticos de Moçambique, revelam a vivacidade deste poemas.

O Beijo da Palavrinha, conto de Mia Couto (Moçambique) – Língua Geral. Coleção Mama África.

O Homem Que Não Podia Olhar Para Trás, de Nélson Saúte (Moçambique) – Língua Geral. Coleção Mama África.

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Reginaldo Pujol Filho é redator publicitário e um dos primeiros autores da Não Editora. Azar do Personagem é seu livro de estréia. Antes disso, publicou contos nas antologias 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), no Armazém Literário e também no Janelas, projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck. É o organizador da recentemente publicada antologia Desacordo ortográfico.

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08
mar
10

Dica de leitura, por Ademir Furtado

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Dica de Leitura por Ademir Furtado

Obra: O Relógio de Belisário
Autor:  José J. Veiga.
Editora:  Bertrand Brasil, 1999

Uma família de classe média alta, a vida bucólica nos limites de um sítio, os agregados e serviçais. Tudo em perfeita harmonia. Até que o patriarca chega de viagem, carregando uma relíquia para complementar a decoração do lar: um relógio raro, adquirido em leilão de antiguidades. Acomodado na sala entre os móveis, o novo enfeite passa a despertar uma curiosidade fora do normal, a ponto de alterar a rotina da família. Uma sensação desconcertante se instala na casa a cada vez que o relógio bate as horas. E quem mais sofre com as batidas é Belisário, um menino de origem desconhecida, que vive como criado na propriedade, e dorme no porão, justamente em baixo da sala. Num clima de espanto e desconfiança chega-se à descoberta de que o relógio possui poderes estranhos. Ele fala. Mas não para qualquer um. Apenas para quem tem ouvidos para ouvir e entender relógios. E esse alguém é Belisário. Então, a família se reúne em volta do objeto misterioso para ouvir o que ele tem a contar. A partir daí a narrativa envereda pelo universo da fantasia, misturando realidade e ficção. Figuras reais da história do Brasil entram em cena, em arranjos improváveis, com personagens famosos da literatura universal.  Uma obra rica de intertextualidades, com boas doses de humor e ironia. Assim é O Relógio de Belisário, de José J. Veiga. Uma leitura tão prazerosa que a gente nem vê o tempo passar.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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Um pouco mais sobre José J. Veiga

José Jacinto Pereira Veiga, conhecido como José J. Veiga, (Corumbá de Goiás, 1915Rio de Janeiro, 1999)  é considerado um dos maiores autores em língua portuguesa do realismo fantástico. Estreou na literatura um pouco tarde, aos 44 anos de idade, com o livro ganhador do prêmio Fábio Prado em 1959, Os cavalinhos de Platiplanto, contendo doze contos. Teve seus livros publicados nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal. Ganhou, pelo conjunto de sua obra, a versão 1997 do Prêmio Machado de Assis, outorgado pela Academia Brasileira de Letras. Hoje, a rodovia GO-225, que liga sua cidade natal à capital goiana, tem seu nome. Faleceu de câncer no pâncreas e complicações causadas por uma anemia.

Obras publicadas

  • Os Cavalinhos de Platiplanto (1959);
  • A hora dos Ruminantes (1966);
  • A Estranha Máquina Extraviada (1967);
  • Sombras de Reis Barbudos (1972);
  • Os Pecados da Tribo (1976);
  • O Professor Burim e as Quatro Calamidades (1978);
  • De Jogos e Festas (1980);
  • Aquele Mundo de Vasabarros (1982);
  • Torvelinho Dia e Noite (1985);
  • A Casca da Serpente (1989);
  • Os melhores contos de J. J. Veiga (1989);
  • O Risonho Cavalo do Príncipe (1993);
  • O Relógio Belizário (1995);
  • Tajá e Sua Gente (1997);
  • Objetos Turbulentos (1997).

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27
dez
09

Dica de leitura, por Jaime Medeiros Jr.

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O poeta e médico pediatra Jaime Medeiros Jr. comenta O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e O pequeno príncipe, de Antoyne de Saint Exupery.

Ontem terminei de ler O Menino do Dedo Verde, havia escutado muitas pessoas elogiar o livro. É indiscutivelmente um belo livro. Também havia escutado muitas vezes repetirem uma comparação comPequeno Príncipe, no Brasil acho que ainda mais reforçada; pois D. Marcos Barbosa fez a tradução de ambos. Ambos falam de um menino. De sua descoberta do mundo. E de flores. Ambos são profundamente metafóricos. Mas me parece que devemos aprofundar um pouco mais a nossa comparação. Descobrindo não somente semelhanças, mas também suas diferenças.

De um lado temos o principezinho que deixa a sua casa (asteróide), na qual cuida de uma rosa frágil, que necessita de seus cuidados para continuar a viver. A flor aqui se revela como símbolo de fragilidade. De outro lado Tistu não está preocupado em não ferir quem o cerca, mas sim em mudar o mundo, fazendo vingar flores e plantas de qualquer substrato que se lhe apresente. Pois qualquer coisa carrega em si sementes de flores. Aqui, portanto, as flores não significam o frágil, mas sim a força e o vigor de quem é capaz de mudar tudo. As flores aqui mais contestam do que testemunham as coisas do mundo.

Acho que como toda boa história, ambos nos levam a confrontar a morte. Mas o que nos diz um e outro sobre este mesmo tema. O principezinho morre, pois se entrega a picada de uma serpente que é capaz de lhe levar de novo a sua casa. Onde encontrará a rosa que ele deixou, e a quem ama. Já Tistu constrói uma escada que o leva ao céu. Para um a morte é um remédio, que nos leva a origem. Para outro, como nos diz Ginástico, a morte é o único mal contra o qual as flores nada podem.

O que nos leva o concluir de certa forma que ambos são diametralmente opostos. E neste caso, complementares. Um é o que poderíamos rotular como um livro de sabedoria. O outro como um livro de esperança (ilusão). Ambos infinitamente belos.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas  Na ante-sala. Um dos produtores do Portopoesia.
filhosdeorfeu@blogspot.com

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Um pouco mais sobre Maurice Druon

Escritor e político francês de origem russa (Paris, 1918-2009), Maurice Druon tinha também ascendência brasileira – seu bisavô era o jornalista e político maranhense Odorico Mendes, famoso pelas traduções das obras literárias clássicas de Homero e Virgílio.
Druon combateu no início da Segunda Guerra Mundial. Em 1942, deixou a França para trabalhar em Londres, ao lado do general Charles de Gaulle nos serviços de informação da “França Livre”. Foi nesse período que ele compôs, junto com Joseph Kessel, o “Canto dos Partidários”, que se tornou o hino-símbolo do movimento de resistência francesa.
No âmbito literário, em 1948, Druon recebeu Prêmio Goncourt por seu romance “As Grandes Famílias”. Entre 1955 e 1960, ele criou a série “Os Reis Malditos”, traduzida para vários idiomas. Mas o escritor tornou-se mundialmente célebre por sua única obra infanto-juvenil “O menino do dedo verde”, publicada em 1957. Vários prêmios para o conjunto de sua obra e ainda outras condecorações também já foram concedidos ao escritor.
Maurice Druon foi eleito em 1966 titular da Academia Francesa de Letras e ocupou o cargo de secretário perpétuo dessa instituição de 1985 a 1999. Foi também Ministro da Cultura durante o governo do presidente Georges Pompidou, de 1973 a 1974.  (Fonte: Radio France Internationale – http://www.rfi.fr/actubr/articles/112/article_13916.asp)

Um pouco mais sobre Antoine de Saint Exupéry

Apaixonado desde a infância pela mecânica, estudou a princípio no colégio jesuíta de Notre-Dame de Saint-Croix, em Mans, de 1909 a 1914. Neste ano da Primeira Guerra Mundial, juntamente com seu irmão François, transfere-se para o colégio dos Maristas, em Friburgo, na Suíça, onde permanece até 1917. Quatro anos mais tarde, em abril de 1921, Antoine inicia o serviço militar no 2º Regimento de Aviação deEstrasburgo, depois de reprovado nos exames para admissão da Escola Naval.

A 17 de junho, obtém em Rabat, para onde fora mandado, o brevê de piloto civil. No ano seguinte, 1922, já é piloto militar brevetado, com o posto de subtenente da reserva. Em 1926, recomendado por amigo, o Abade Sudour, é admitido na Sociedade Latécoère de Aviação, onde começa então sua carreira como piloto de linha, voando entre ToulouseCasablancaDacar, na mesma equipe dos pioneirosVacherMermozGuillaumet e outros. Foi por essa época, quando chefiou o posto de Cap Juby, que os mouros lhe deram o cognome de senhor das areias[carece de fontes].

Faleceu durante uma missão de reconhecimento sobre GrenobleAnnecy. Recentemente, o alemão Horst Rippert assumiu ser o autor dos tiros responsáveis pela queda do avião e disse ter lamentado a morte de Saint-Exupéry[1]. Em 3 de novembro, em homenagem póstuma, recebeu as maiores honras do exército. Em 2004, os destroços do avião que pilotava foram achados a poucos quilômetros da costa de Marselha. Seu corpo jamais foi encontrado.

(Fonte: Wikipédia – http://pt.wikipedia.org/wiki/Antoine_de_Saint-Exupéry)

Obras

L’Aviateur (O aviador) – 1926
Courrier sud (Correio do Sul) – 1929
Vol de nuit (Vôo Noturno) – 1931
Terre des hommes (Terra dos Homens) – 1939
Pilote de guerre (Piloto de Guerra) – 1942
Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe ou O Principezinho) – 1943
Lettre à un otage
– 1943/1944

Póstumos

Citadelle – 1948
Lettres de jeunesse – 1953
Carnets
– 1953
Lettres à sa mère – 1955
Écrits de guerre – 1982
Manon, danseuse
– 2007
(Fonte: Wikipédia – http://pt.wikipedia.org/wiki/Antoine_de_Saint-Exupéry)




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