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01
jul
13

A crônica de Guto Piccinini: Ela

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Ela, por Guto Piccinini

 

Ela está sentada em uma mesa. Com as pernas cruzadas, observa distante a vista da janela, que oferece um esquadro da rua principal da cidade. Toma um cafezinho com açúcar (ela gosta de pequenas aventuras) e fuma um toco de cigarro com desleixo, na medida em que corre os olhos no agito de vida em sua volta. Aquele fim de tarde lhe surpreende e vagarosamente vai tecendo as cores de toda a cena em seu fluxo associativo. Ela está cansada. Atormentada por uma simples, mas insistente ideia: um reencontro dos takes tragicômicos, com seus contornos bourgeois e permeados por ruidosos fracassos e arrependimentos. Uma longa tragada ressuscita a chama desta trilha refinadamente otimista. “Morre-se pela boca”, pensa, e dela vem a dança que encontra entre a fumaça e a leve briza que por ali pede passagem. Está atormentada pela passagem do tempo, como um peso que cresce indiscreto e que demanda um sutil esforço. Ela está cansada. Uma vez mais se vê impelida na busca por algum sentido, por algum substrato mínimo que sustente um pouco mais desta cadeia contínua e mortificante. Oferece a si uma última tragada, num visível encadeamento de pouco caso, e descobre um fio alegre no amargo do café que acaba, resiste e ressoa. A idade não lhe cai bem. A constatação lhe desse garganta abaixo embalada no vazio repentino e imperioso da xícara em suas mãos e do resto de amargura que há poucos instantes servia-lhe de alento.

Ela arrebanha suas coisas da mesa, faz menção de sair o mais rápido possível pela rua. Testemunha de relance em um futuro próximo sua pele enrugada exposta ao sol, os cabelos curtos massageados pelo tímido vento (tão raro nestes dias!). Consegue sentir suas pernas levemente revigoradas pelo prazer da suposta caminhada. Tão logo esta chama lhe percorre o corpo, sente a preguiça triunfar sobre o entusiasmo do instante. Tentativa vã, deixa-se cair com o mesmo peso que antes abraçava pensativa. Peso de uma vida. Titubeia, mas impulsiona uma outra tentativa. Estática, permanece. Fecha os olhos, e contempla alguns instantes a mais o seu fracasso.

De um súbito, sente uma intensidade amealhar o instante. Algo muda a sua volta de forma inexplicável. Ela abre os olhos e, assustada, não reconhece o novo enquadre de sua vista. Aquilo que antes testemunhara como um corpo urbano a respirar em polvorosa, passa agora a ser uma grande visão aberta, permeada por pequenos vultos que saltitam alegremente. A virada lhe tonteia. Tenta manter o equilíbrio como se estivesse no auge de uma embriaguez, e mal consegue ver tamanha a turbidez da visão. O corpo lhe escapa, é tomado pela briza que agora varre o abatimento de outrora. Perde-se nas próprias mãos, cobertas de juventude, perde-se nas novas roupas que lhe mascaram. Progressivamente recupera a consciência. Passa a escutar com clareza a confusão de vozes que se misturam à risadas e gracejos infantis. Olha para os lados e se vê sentada em um banco junto a duas pequenas garotas sorridentes e conversantes. Percebe que está em um local estranhamente familiar, o pátio, as cores, um som e um cheiro característicos. Entende, então, que ao seu lado estavam duas grandes amigas de seu passado. Ambas a olham com certo espanto. Não entendem o que ela faz ali, perdida em sua temporalidade. Não soube como reagir ao reencontro. Levanta rapidamente e se põe a correr como há muito não corria. Segue para um antigo banheiro, que em momentos de angústia de sua juventude, servia de um íntimo companheiro. Porta adentro, detém-se ofegante em frente ao espelho. Na medida em que desacelera o ritmo atabalhoado do tórax, depara-se cada vez mais com uma estranha. Sorri, curiosa com o antigo penteado, com a pele novamente lisa, com traços há muito esquecidos. Algo desta velha/nova composição lhe incomoda. Está feliz, não nos enganemos, mas de um modo intensiva pela loucura de estar diante de si, como outra, e que ali, parada diante deste reflexo, lhe interpela. O tempo passa. Ela está cansada. Segue com o olhar fixo no espelho. Tateando, insistindo, confabulando. Vê um rosto que lhe diz algo que não sabe por onde, que não entende. Ao mesmo tempo, aprecia a intensidade de outrora se extinguindo. As pernas doem. Na medida do tempo o peso retorna. Ela compreende. Levanta, junta suas coisas, paga o café e sai.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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