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07
ago
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A crônica de Guto Piccinini: Em trânsito

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Em trânsito, por Guto Piccinini

 

 

Toda a semana pego o mesmo ônibus para minha “quase cidade natal”, como um ritual cumprido a risca. Passos por uma longa distância percorrida amigavelmente com o mundo, acompanhados pelos ruídos de um mp3 já tão prematuramente antigo, e que me sibilam versos ao pé do ouvido. A cada nota um rico diálogo tecido no inesperado. Um fio quase invisível que atravessa a rua e agrega num contínuo retilíneo o emaranhado de vida que nestes dias convergem para um mesmo e tão festejado ponto. “Meu reino por uma poltrona confortável!”, reivindica raivosamente meu ímpeto sonolento enquanto separo cuidadosamente os trocados que garantem meu lugar ao céu. Nenhum cobrador um dia saberá o esforço que dispendo ao guardar os míseros centavos que garantem o troco preciso. É preciso, isto lhes digo, mas isto nunca hei de confessar a estes que invariavelmente caem nesta rede de pensamentos sem desconfiar um pingo disto que os envolve. Afinal, a trama segue sua linha, salvo pequenas interferências de desejo: dessas nunca estaremos salvos. Jornal? Pastel? Quem sabe uma bala pelos centavos, agora inexistentes, para adoçar a vida? Um mundo gira insistentemente nestes dez minutos que antecedem a partida. Estaria mentindo descaradamente se não confessasse nestas meias palavras minha simpatia por estes momentos ínfimos: a chegada em meio a um turbilhão de pessoas que vagam aliviadas pela chegada ao destino esperado; uma multidão de olhares apreensivos por ainda terem de enfrentar um longo e árduo caminho; mas há também aqueles que pouco se importam com qualquer movimento, seja pelas estradas da vida, seja de qualquer átomo que se move ao lado. Em pleno gozo de minhas faculdades afetivas, tomo a fila que me separa temporariamente de minha própria empreitada. É preciso desesperadamente aliviar o peso da espera, dizem as televisões do espaço. Eu, de um universo distante, sinto-me um tanto alheio. Dói um tanto pensar as coisas de tão longe. Esquálido pela palidez momentânea, visto Fiona Apple e seu polvo gigante como um chapéu a rodear a cidade sem saber ao certo o que fazer consigo neste vão entre a pele e os ossos. Minúsculos são os detalhes recolhidos tão carinhosamente sem sentido. I just wanna feel everything, insisto. Troca efetuada, com o papel em mãos os passos seguem soltos e independentes. Já os holofotes me acompanham ouriçados! Ainda tomado pela viscosidade que escorre da cabeça, corro desconfiado para as últimas poltronas do ônibus que, eventualmente, já está ao meu aguardo. Acomodo meus pensamentos sem pressa ao conforto possível, e retomo a atenção ao famigerado aparelho que segue agarrado aos meus ouvidos e firme em seu esforço de alheiamento e delírio produtivo. É preciso sim agarrar os sonetos com uma gana sem fim! De minha parte, somados os esforços, durmo. Assim sigo abraçado em meus sonhos.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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