Posts Tagged ‘Emir Ross

20
jul
13

A crônica de Emir Ross: Nuvens, A gata, Desculpa e Obrigado

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Nuvens, A gata, Desculpa e Obrigado, por Emir Ross

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Nuvens

Você me disse que a nuvem grande era eu e que a pequena era você.

E que, naquela tarde, se fizéssemos tudo que as nuvens fariam, seríamos felizes para sempre.

Quando as nuvens se tocaram, eu senti que o que você dizia podia ser verdade.

E quando a nuvem grande fechou os olhos, percebi que o céu era o limite para nossa felicidade.

Acho que você estava certa quanto às nuvens. O que faltou foi me dizer o que aconteceria depois que o vento soprasse forte e levasse as nuvens para onde nossos olhos não podem ver.

– * –

A gata

A gata deveria ser adotada.
Mas como? Uma gata adulta. A gata tinha listras. E não tinha bebês.
No escuro, eram dois faróis. Na claridade, uma gata.
Joguei-a janela afora. E, lá embaixo, ela caiu de pé. Era tão alta minha janela que seus quatro pés cravaram-se no solo.

Meu quintal ganhou uma gata de jardim e, meu gnomo, uma namorada. Mas só de dia; de noite, eram dois faróis luminosos que ninguém queria adotar.

– * –

Desculpa e obrigado

Ontem à noite você me trouxe as palavras desculpa e obrigado.

Depois foi embora.

Quando vovô chegou perguntando quem tinha feito aquela bagunça toda, eu disse:

Desculpa.

Fiquei até a hora do almoço trancado aqui. E, enquanto ninguém aparecia, eu entendi que aquela palavra significava ficar sozinho.

Então, quando mamãe apareceu e abriu a porta, agarrei sua saia e disse:

Obrigado.

Ela me pegou no colo, me deu um beijo e depois me serviu uma coxinha.

Por isso, hoje quando você entrar de novo por aquela janela me trazendo uma estrela, já sei a palavra que devo dizer.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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23
jun
13

A crônica de Emir Ross: Turistas Japoneses no País do Carnaval

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Turistas Japoneses no País do Carnaval, por Emir Ross

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SONY DSC.

Sempre que posso, observo os turistas japoneses. Praticamente os sigo. Eles são a espécie mais engraçada que os japoneses inventaram.

Quando eu era criança, e lá se vai muito tempo, queria ser japonês. Mas não turista. Talvez porque os japoneses não param de inventar coisas. E os turistas japoneses vêem o mundo através de uma Sony. Por isso eu queria ter cabelos negros e lisos; olhos esticados; e usar quimono. E, claro, quebrar tábuas com golpes de caratê.

Os golpes de caratê são a forma mais perfeita do autoconhecimento, que, devido a minha intimidade comigo mesmo, prefiro chamar de auto-conhecimento. Dá-se um golpe e pronto. Acabou o lero-lero.

Ando pensando em sugerir um projeto de lei para meus queridos amigos deputados:

Faixa preta em caratê ser pré-requisito para candidaturas à Assembléia e aos diplomas de engenharia.

Afinal, o que tem-se visto de obras públicas in-acabadas, mal-acabadas ou in-operantes daria para se encher um dojô do tamanho do Japão.

Viadutos e estradas são os campeões.

Quando os políticos não sabem para onde direcionar certas verbas, decidem construir um viaduto. O objetivo não interessa. O que vale é fincar placa, tirar foto e preparar discurso. Político tira mais foto ao lado de placa que patricinha ao lado de ator global. A inauguração de obras é o facebook do mandato. É tanto golpe sem direção que o seu Miyagi mandaria esses cidadãos lava-carro, pinta-parede, lixa-chão por meses a fio.

Eu, como leigo cidadão, escritor sem leitores, que nada entende de engenharia ou cálculos, posso enganar-me facilmente. Mais, inclusive, que falar bobagem.

Mas tenho plena convicção que não é necessário construir um viaduto para ligar o nada ao lugar nenhum.

Assim como tenho a santa compreensão de que as coisas mudam e não podemos construir uma rodovia cujo projeto foi elaborado há quinze anos, depois levou uma eternidade para ser aprovado e acaba obsoleto antes mesmo de entregue à população.

Outro ensinamento do Sr Miyagi: antecipe-se aos golpes.

Mas nossos queridos apenas armam a defesa quando já foram atingidos e o estrago está feito.

Tenho a impressão de que os turistas japoneses não entendem muito de caratê. Mas há algo em seu DNA. Eles estão sempre preparados com as câmeras a postos. Principalmente quando visitam o Brasil:

registram as favelas, obras-primas da arquitetura.

os mendigos, fazendo estupendos monólogos com suas roupas características.

Somos um país com atrativos sem igual. Mas eles registram, principalmente, grandes obras de arte feitas a base de ferro e cimento, espalhadas pelo país. Algumas são cortadas ao meio. Outras, parecem estradas para o céu. Ao final de tudo, talhados à Hollywood, esses turistas japoneses vão para suas casas. Assistem com os amigos e tentam desvendar o que os sensíveis artistas queriam expressar com estas intrigantes instalações espalhadas pelo País do Carnaval.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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17
mar
13

A crônica de Emir Ross: Sobre o nada

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Sobre o nada, por Emir Ross

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Nada tenho a falar sobre Machado de Assis. Mas sinto uma necessidade enorme de escrever algo. Sem importar o quê. Tem tanta gente falando nada sobre coisa alguma. Decidi falar nada sobre Machado.

Passado mais de um século, as pessoas ainda não perceberam o essencial no fundador da academia. Ainda discutem se Capitu deu ou não deu para Escobar. Acho que os discutidores do assunto não leram o livro. Ou ela fez inseminação artificial ou abriu as pernas para o amigo do marido. O fato do filho do casal ter o a cara e os trejeitos de Escobar não podem ser apenas obra de um narrador inconfiável.

Para mim, inconfiáveis são essas discussões. Machado não é uma discussão. É um estado de espírito. No fim, acho que ainda não aprendemos a ler. O que importa não é a traição. A importância está na necessidade que o autor nos provoca. A necessidade de falar sobre o assunto. Mesmo que nada haja a ser dito.

Em tempos de Big Brother (não falo do George Orwell, falo do Pedro Bial), o nada parece mesmo ser a tônica da cultura nacional. Parece que estamos meditando vinte e quatro horas por dia. Ou seja, com a mente vazia.

Nos anos dois mil, o que parecia impossível tornou-se lugar comum. Se antes precisava-se de anos para esvaziar a mente para conseguirmos meditar, agora faz-se num simples toque no power. Tudo bem que não se medita, mas com a mente vazia já é meio caminho andado.

Talvez esse seja o caminho para a paz em nosso país: a meditação. Nunca pensei que Pedro Bial tivesse esse poder.

Aposto que o próprio Bhuda está fascinado com essa descoberta. Assim como Machado de Assis está se revirando no caixão pelas notícias e repercussão sobre sua obra que os vermes lhe trazem.

O que os vermes não devem comunicar são as atividades da Academia Brasileira de Letras. Nem os nomes de seus integrantes. Se a importância que a fugidinha de Capitu alcançou o faz revirar-se no caixão, imaginem se ele soubesse que o José Sarney faz parte da casa que ele fundou para abrigar a nata dos escribas tupiniquins.

Acho que devo assistir mais o plim-plim. Estou começando a gostar dessa história de falar sobre o nada. Depois do meu aperfeiçoamento, talvez eu já consiga falar nada sobre futebol, sobre o aquecimento global e, chegarei ao auge, falando nada sobre a política.

Mas, antes, preciso acompanhar muito o programa do Bial. Ouvi dizer que até pay-per-view tem. Vinte e quatro horas por dia. Vou assinar.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.terra.com.br.

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Emir Roos publica neste blog na primeira e terceira segunda-feira do mês.

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03
mar
13

A crônica de Emir Ross: Bento XVI: coragem ou covardia

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Bento XVI: coragem ou covardia, por Emir Ross

 

Ano de 2013. Véspera de Carnaval. Pela internet, rádio, aparelhos de televisão, o assunto não é a roupa das destaques no desfile das escolas de samba, ou a falta dela; o assunto é um tanto mais inusitado. Mas não menos pornográfico. O delírio místico da carne no Carnaval 2013 deixou o Brasil de lado. Veio do Vaticano. Protegidos pelos mistérios da fé e dos muros da Igreja, escondido a sete chaves feito a construção de um carro abre-alas, os foliões responsáveis pela igreja anunciam a renúncia de Bento XVI.

O clérigo canta o samba-enredo: um ato de coragem extrema. O anúncio mexe com a mídia mundial. No lugar das bundas nas caras dos foliões, aparece uma cara sem ânimo, talvez sem expectativas.

As perguntas que se seguem: Estava ele sem fé na humanidade, por isso renunciou? Estava ele com fé de menos em si, por isso renunciou?

A coragem e a covardia são tênues linhas que se confundem. Interagem da mesma forma que o piegas e o emotivo.

Ser líder e porta-voz de uma nação tão grande quanto a católica exige estar pleno de todas as funções físicas e mentais. Alguns acham que é preciso ter bem mais que isso. Para outros, tal cargo exige a falta delas.

Entender uma renúncia, seja ela qual for, compreende investigar o princípio. A operação Muros do Catolicismo tem exibido o protecionismo e as leis próprias que regem a instituição. Leis discutíveis num plano ético, moral e legal. Bento XVI teve que lidar, acima de qualquer outro pontífice, com tais questões. Conseguiu lidar com esse problema à sua maneira. Certo ou errado? Há gente que acredita que os fins justificam os meios. Há gente que não.

As regras do Vaticano, as quais o atual-ex-pontífice seguia, e regia, tinham por base a não-comunicação. O que se faz dentro das paredes sagradas é resolvido dentro das mesmas. Bento XVI foi um árduo defensor da hierarquia, do conservadorismo, do fechismo. Poderíamos dizer que eles vivem um carnaval à parte.

O debate quanto à renúncia, a primeira desde a Idade Média, quando as coisas eram resolvidas à base da espada e da forca, é o mesmo que discute o que é um ato de coragem e o que é um ato de covardia.

O herói é o que morre para salvar o que acredita?

O herói é o que consegue se salvar?

O covarde é aquele que se rende para preservar vidas?

O covarde é aquele que prefere morrer para preservar sua opinião?

No princípio, Joseph Ratzinger era um cardeal chegado no antigo Papa. Era seu consultor. Ou tentava ser. Digamos que um puxava o samba e o outro era mestre de bateria. Joseph Ratzinger virou Bento XVI. Primeiro optou por alterar a direção de abertura da Igreja Católica, pela qual João Paulo II estava trabalhando, por um posicionamento conservador. Digamos que o carro abre-alas mudou.

A pedofilia dos padres católicos não existia antes?

A fé das pessoas diminuiu?

Aumentaram as manifestações, as aglomerações, alguns aceitaram as máscaras impostas. Nunca foram tantos contra as posições da Igreja. Nunca foram tantos a desacreditar na instituição. Mas a Igreja Católica já foi mais fechada e nem por isso esteve tão em baixa. Seria isso tudo culpa de um só homem?

A coragem e a covardia estão presentes em todos os seres humanos. Nasce com a gente. Desenvolve-se conforme a necessidade. Ou a indignação.

Seria um pouco de megalomania acusar um único indivíduo por todos os podres ou louros do mundo. Assim como seria hipócrita afirmar que alguém, com tamanha importância feito um Papa, não tem poderes para tomar decisões que mudariam o rumo da instituição, da política e da fé. A força do Papa não está no homem que ele é. Está na função que exerce. As decisões de um homem enquanto Papa não são dele, são da sua representação.

Joseph Ratzinger tem o direito de ser covarde. Tem todo o direito de não suportar as pressões dentro dos muros do Vaticano e, principalmente, de fora. Tem todo potencial para tornar-se um mito pela coragem de um ato em si.  João Paulo II, seu antecessor, é conclamado santo. E então, o que fazer depois de um santo? A questão aqui não é se Joseph Ratzinger foi corajoso ou covarde. Neste carnaval que é o Vaticano, Joseph Ratzinger não é Joseph Ratzinger. Neste carnaval, ele é o Papa. E, segundo as regras fechadas que só ao Vaticano cabe ditar, este cargo é vitalício.

Vitalício.

Em resumidas contas, cada um reza para o santo em que acredita. Ou desfila com a fantasia que lhe couber.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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08
out
12

A crônica de Emir Ross: Negócio de confiança

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Negócio de Confiança, por Emir Ross

Ser político é uma tarefa árdua. Principalmente no Brasil. E perigosa, por conseqüência. É sempre um tiroteio. Também gosto de atirar. Mas meus tiros não têm acertado muito os alvos e geralmente são dados em baladas.

Político também atira em baladas. Mas sua munição mais pesada é gasta em outras batalhas. Por isso, sempre que eleitos, cercam-se de pessoas confiáveis. Eles precisam de escudos. Nada mais justo. Escudo costuma ser blindado. Por isso recebe generosas quantias. Também se cansa rápido. Precisa de muitas folgas e licenças.

É preciso confiar em nossos escudos. É o que eu sempre digo. Por certo, as pessoas que todo bom político mais confia são seus familiares. Há familiares tão de confiança que, um ano antes das eleições, já saem de seus empregos. Estão pensando em nosso futuro. Querem dedicar-se a nossas cidades e Estados. O cidadão de bem agradece.

O Brasil é um dos únicos países do mundo em que político não é cargo público. É profissão. Agora, criamos uma nova categoria para isso: familiar de político.

Em breve, teremos o sindicado do político. Eu apóio, a categoria precisa se unir. Tiros vêm de onde menos se espera. Mas, com os sindicatos, todos se protegem: você contrata meu filho e dou um CC para sua nora. Está na lei. É legal.

O que não é legal é a crise. Ela exige criatividade. Mas ninguém mais criativo que o tupiniquim. Principalmente na hora de criar empregos. Ou profissões.

Eu sou um homem de visão. Assim, acredito que logo aparecerão agências de RH especializadas nesse assunto. Os setores precisam se especializar. O mercado exige. Vou criar a minha. Também tenho de pagar as contas. Vou focar minha empresa em cargos de confiança. Ela funcionará ano-sim, ano-não. No ano-não, descansarei na minha casa de campo em Monte Carlo. Se você for familiar de político, aproveite para mandar seu currículo. Assim que seu pai, tio ou sogro for eleito, encaminharemos você para uma prefeitura ou assembléia próxima a sua casa. Para seu cargo ser efetivado, basta que seu familiar eleito também contrate uma contraparte. É simples, rápido e seguro. Negócio de confiança. Assim como na política.

Nada mais justo.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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04
jun
12

A crônica de Emir Ross: Defeitos

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Defeitos, por Emir Ross

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É praticamente impossível alguém botar defeito em mim. Não há espaço.

Eu já tenho todos.

Defeito duplo não conta.

Todo dia, passo algumas horas a procurar novos defeitos para meu acervo. Confesso: no meu estágio evolutivo, é difícil encontrar novos. Quando acontece de eu não me deparar com um, trato de aprimorar os existentes. Com minha experiência adquirida por anos de empenho, isso é barbada.

O aprimoramento de um defeito consiste em observar alguém que tenha o mesmo defeito que o seu, mas o exerce de forma muito mais profissional.

Por exemplo: quando preciso aprender a mentir melhor, acompanho uma semana na vida de um político. Nesse caso, as semanas são um pouco mais curtas: mais precisamente, duram dois dias: de terça a quarta. Talvez por isso os políticos nunca tenham espaço na agenda. Com minha capacidade de aprendizado, em poucas lições já saio convencendo padre a abençoar cachorro.

Eu já sou um péssimo escritor: escrevo tão mal que minha única leitora manda cartas e cartas para que eu comece a escrever em braile. Mesmo assim, tento aprimorar-me. Afinal, sempre pode-se escrever pior. Nestes casos, leio muito. O meu favorito é Martha Medeiros. Mas também leio alguns gaúchos que ainda não são escritores e se acham talentosos e futuros saramagos. Depois, tento imitá-los. Confesso que tenho conseguido escrever textos tão ruins, mas tão ruins, que não consigo sequer chegar ao final. Daqui a pouco chegará alguém e dirá que é literatura pós-moderna e que poderei ganhar milhões editando na França. Mas não cederei, direi que é literatura ruim mesmo. Ruim que nem caralho lê.

Sou um infame, sei. Mas não me elogie assim. É gostoso ser chamado de infame. Você diz IN-FA-ME e as letras vêm de forma arredondada. Sexy. Eu sou mais infame que um dicionário jogado na sarjeta. Ali, todas as palavras são sujas. Eu espirro lama por todos os lados.

Mas, como digo, nada que não possa ser piorado. Quando quero enfeiar minha cara horrenda, faço a barba. Fico com aquele rostinho bunda de neném guchi-guchi. Ninguém resiste à vontade de cuspir em alguém perfeitamente barbeado. Delicio-me com as flechas cortando o ar em minha direção:

DEPRAVADO

BO-ÇAL

EGO-ÍS-TA

FANRA-RRRÃOOOOOO

DETESTEI

E, a minha preferida:

CRE-TIIIIIIIIIIIIIIII-NO

Essa última é a mais excitante.

Mas o que mais gosto é que as pessoas, após falarem deliciosamente com a boca mais cheia de saliva que dentes para saborear ao máximo o defeito, é vê-las sorrir de canto de boca, principalmente as mulheres.

As mulheres deleitam-se com o defeito. Falam pausadamente. Engolem devagar. Depois, aquele sorrisinho disfarçado e uma piscadela para o lado.

Nessa hora, já sei o que devo fazer.

Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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14
maio
12

A crônica de Emir Ross: O maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos

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O maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos, por Emir Ross

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Um amigo me disse que não se faz literatura sem público, pois a literatura só é literatura quando dialoga com os leitores.

Eu sou o maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos. Depois explico.

Estive em Buenos Aires para a Feira do Livro. De Buenos Aires, no caso. Jurei que não iria para comprar livros e sim para freqüentar as mesas de debates. Enganei-me, comprei alguns. Mas participei das conversas. Em meio a tanta programação que brotava de salas e palcos e esquinas, parei no Diálogo de Escritores Latinoamericanos. Vários dias e várias mesas discutindo o que se fazia no continente de língua espanhola. Eles têm maior facilidade de diálogo e troca de experiências. Assim como troca de obras. A língua aproxima. Mas, para os autores brasileiros, é uma barreira. A mesma que surge entre eu e minhas publicações.

Os debates desse Diálogo giravam em torno dos novos. E a base para se saber quem são os novos eram os nomes que a Revista Granta publicava cada vez em quando. A Granta recebe inscrições e depois elege os vinte ou trinta futuros grandes escritores em cada língua. Também fizeram a versão portuguesa. A partir de então, a lista entra nos catálogos de mais procurados e por aí vai.

Não me inscrevi. É uma das razões pelas quais continuarei um escritor sem obra.

Meu primeiro prêmio literário veio em 1993. Eu tinha dezessete anos. De lá pra cá, recebi praticamente todos os importantes prêmios literários nacionais. Para escritores sem obra. Para aqueles que devem inscrever-se sob pseudônimo. Até 2009 eu contabilizava cerca de vinte prêmios. Parei de contar após esse número. Certamente hoje passa dos trinta. Repito, são prêmios importantes, reconhecidos e muito disputados.

Ao chegar da Feira de Buenos Aires, uma notícia no meu email.

Fui o primeiro colocado no Prêmio Cataratas de Contos, de Foz do Iguaçu. Era um dos poucos que eu não havia recebido ainda.

Mas não escrevo aqui para mostrar como sou foda. Escrevo para dizer que não me inscrevi na escolha da Revista Granta. Escrevo para dizer que editora alguma ainda aceitou me publicar. Embora eu tenha mandado originais para diversas. Embora os críticos tenham me conferido cerca de trinta importantes premiações. Claro, eu inscrevia-me sob pseudônimo. Eu sou um escritor sem leitores. Um escritor sem obra.

Daqui a cem anos serei motivo de estudo. Algum historiador descobrirá meus originais em arquivos perdidos e fará o que fizeram com Qorpo Santo.

O título: o maior escritor brasileiro sem obra de todos os tempos.

Serei eu.

Espero que editor algum leia este texto. Ele pode acabar com o meu futuro. Assim como acabaria com a grande descoberta de um anônimo e louco historiador do século XXII.

Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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