Posts Tagged ‘Ernesto Sábato

16
nov
13

A crônica de Lilian Velleda Soares: Escrever

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Escrever, por Lilian Velleda Soares

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Diz-me por que escreves, pediu a minha querida Hilda Simões Lopes. Não hoje, nem agora. Mas quero partilhar o motivo. Um dia encontrei Ernesto Sabato. Ele cochichou no meu ouvido haver “provavelmente, duas atitudes básicas que dão origem aos dois tipos fundamentais de ficção: ou se escreve de brincadeira, para entretenimento próprio e dos leitores, para passar e fazer passar o tempo, para distrair ou procurar alguns momentos de evasão agradável; ou se escreve para investigar a condição humana, empresa que não serve de passatempo nem é uma brincadeira nem é agradável”. Eu li e reli, alternando dias e meses, esta passagem de O Escritor e Seus Fantasmas. E a pergunta feita se insinuou em mim entre um escrito e outro. Ela me pertubou por agulhar a necessidade de uma resposta – se eu escrevia para satisfazer minha vaidade, ou por necessidade. Eu fugi da resposta, descobrir-me incapaz de contar histórias desconcertava. Dor doida.  Aos poucos descobri que a escrita provedora da vaidade não resiste ao tempo, não suporta a crítica, não enxerga seus limites. Narcísica, é incapaz de ver beleza e verdade na escrita alheia – sim, o narcisista desqualifica o que não é seu, por ser incapaz de compreender. Acalmei minhas dores ao perceber que sempre se rediz o já dito, cada escritor com uma resposta para  essa indagação. E que escrever é difícil, um auto-imolamento. Eu me imolo nas canetas e papéis que diante de mim vou amontoando, no pensamento que persigo durante o dia e enquanto durmo em sono profundo. Eu me rasgo nesse ato simples e rotineiro de dizer.  Escrevo atrás de significado para a vida minha e de outros Eus, para repousar os ossos dos dias e entender a calmaria ou o furacão do infinito de dentro. Mergulho nessas letras todas, acolherando signos (resiste à tentação de amontoar palavras, adverte-me o escritor!).  Eles falam de mim e do mundo, e então sinto uma coceira desde os pés até o olho, e vou me entregando endemoniada ao branco da página em branco diante dos olhos turvos pela urgência de dizer. O fato é que às vezes sei o início, geralmente sei o fim, busco um meio de caminho, uma ponte que reinstale a minha inteireza e me dê um pouco de paz pelo menos até o próximo rebento. Sim, são meus filhos os meus escritos, eles re-significam a vida. Talvez eu não deva, talvez não tenha nada a dizer ao Outro. Mas se eu disser apenas para mim (também outro um instante depois), está bom. Posso, pela escrita, me salvar.

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lilian velleda soaresLilian Velleda Soares

Pelotas/RS

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17
mar
10

A crônica de Jaime Medeiros Jr.: Tênues transfigurações


A partir desta data, o escritor e médico Jaime Medeiros Jr. passa colaborar quinzenalmente com o blog da Palavraria, falando sobre os temas do nosso tempo.

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Tênues transfigurações, por Jaime Medeiros Jr.

Já há um tempinho procuro uma forma eficaz de misturar boa disposição de espírito com o fazer boa literatura. Acho difícil, tendo naturalmente a tristeza e a descrença nas macroestruturas nascidas das mãos e da mente dos homens. Mas de outro lado, sou conduzido a crer que o mundo pode se tornar um tanto melhor se dedicarmos mais atenção às coisas belas e boas da vida. Então, acaba sempre a mim se impondo a pergunta, será que o que escrevo pode dar algo de bom a quem o lê? Será que é pertinente buscá-lo? O texto seguinte de Ernesto Sábato, me fez apostar na viabilidade de se unir aquelas duas coisas, o que se tem mantido como um desafio para mim:

“O homem é feito não apenas de desesperança, mas também, e fundamentalmente, de fé e esperança; não somente de morte, mas também de ânsias de vida; tampouco unicamente de solidão, mas também de comunhão e amor. A obra de Saint-Exupéry mostra como a literatura pode ser profunda e, não obstante, estar impregnada de cálidos sentimentos positivos. Disse Nietzsche que um pessimista é um idealista ressentido. Se modificarmos levemente o aforismo, dizendo que é um idealista desiludido, daí poderíamos passar a sustentar que é um homem que não termina jamais de se desiludir, pois há na condição psicológica do idealista uma espécie de ingenuidade inesgotável. E assim como a desilusão nasce da ilusão, a desesperança surge da esperança; mas uma e outra, desilusão e desesperança, são curiosamente o signo da profunda e generosa fé no homem. (…) Destruiu-se demais. E quando o real é a destruição, o romanesco só pode ser a construção de alguma outra fé.

Se esta tese esta correta, não  é arriscado supor que nos próximos anos o romance que mais ressonância terá no coração dos homens será aquele que, de alguma maneira, seja capaz de suscitar uma nova mas genuína esperança.” (de O escritor e seu fantasmas)

Onde encontrar o belo em meio a este grande caos do qual nos fala Sábato? Neste agora em que vivemos, me parece termos muito pouco a fazer senão nos imiscuirmos nas coisas que nada querem dizer, e que contudo belas são, nas coisas efêmeras, nas coisas perdidas que se acham novamente, no inopinado. E esquecer um pouco o programático. Esquecer os índices, as prescrições e saber apenas estar e testemunhar. Neste mundo que se anuncia nada se exclui, registra-se o que se dá. E como no mundo das fadas, sempre há de existir bruxas, e como onde temos vida, sempre haverá de existir morte, olhemos também a figura a se desfigurar, mas com este algo de esperança que não vê só o que passa, mas também aquilo que há de se transfigurar, e sempre emerge a cada renovo de nosso tempo-espaço.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Um dos produtores do Portopoesia. Colabora no blog Filhos de Orfeu – http://filhosdeorfeu.blogspot.com/

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