Posts Tagged ‘Fernando Ramos



10
maio
11

A pandorga que entortou o vento, por Reginaldo Pujol Filho

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A pandorga que entortou o vento
por Reginaldo Pujol Filho

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Liz Calder de cavanhaque? Rogério Pereira dos pampas? A FestiPoa Literária, cuja quarta edição termina amanhã e que já foi responsável por trazer à Capital Laerte, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira em eventos com entrada franca, é fruto da mente e do esforço dele

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Comparar é um bom jeito de explicar alguma coisa. Fernando Ramos, criador da Festa Literária de Porto Alegre poderia ser o Marcelino Freire do Bom Fim.

Não, tem uma diferença.

– Não escrevo, não tenho necessidade, seria forçado – diz Fernando.

Quem sabe Liz Calder de cavanhaque? Também não. Criadora da Flip, Calder foi editora na Inglaterra, vem do mundo dos livros. Fernando, 36 anos, trabalha no TRT “desde os 19, hoje no administrativo” e, a não ser que enveredasse pelo mercado editorial na adolescência – mas nessa época queria ser jogador, “era fanático, pensava na linguagem do futebol –, não é Liz Calder. Que tal Rogério Pereira dos pampas, já que, como o editor do Rascunho, há 11 anos Fernando faz um jornal literário, o Vaia? Mas Fernando não é jornalista. É formado em História, começou o Vaia de brincadeira e só seguiu porque a turma que iniciou o projeto saiu fora. Fernando não tem similar, difícil descrever. Tanto que Fabrício Carpinejar, perguntado “quem é Fernando Ramos?”, optou pela poesia “Uma pandorga que entortou o vento”.

Pandorga ou não, ele mesmo não sabe se dizer muito bem. Pergunte se é o Dono do Vaia, pai do jornal que já trouxe poesia, conto, entrevista de centenas de autores ilustres como Ferreira Gullar, ou gente sem livro publicado. “É, mas se o Vaia acabasse, não sei se faria diferença”, dirá. Cheio de indefinições, o perfil do sujeito que há quatro anos realiza a FestiPoa Literária virou investigação: quem diachos é Fernando Ramos? Quem tira dinheiro do bolso pra distribuir literatura na forma de jornais e eventos, sem receber tostão ou holofote por isso? Marcelino Freire acha que “é um teimoso, obstinado, apaixonado”. Pode ser, apaixonado por livros, embora diga que “não sou o clássico leitor, que lê desde pequeno”. Não? Como, se aos 10 anos gostou de Drummond em um jogral? Ou, adolescente, de mal com o mundo, leu um livro inteiro numa tarde?

– Foi genial, pensei “isso é interessante de fazer nos momentos ruins, de indignação, recolhimento”.

Fernando é um baita leitor. Depois do primeiro livro que “não lembro o título, não era Coleção Vagalume… era policial” e da série Para Gostar de Ler, não parou. Se entrega a João Gilberto Noll com o mesmo carinho com que lê menos famosos como o radicado no Espírito Santo, Reinaldo Menezes. A devoção à leitura – que poderia explicar – explica menos ainda a gana de estar na rua, fazendo festas literárias e saraus. Com emprego público fixo, “todos que trabalham comigo têm carro, apartamento, casa na praia”, poderia investir numa boa biblioteca e no fim do dia, pés pra cima, ler livros como Vi uma Foto de Anna Akhmátova, pro qual anda sem tempo, “leio uma página, duas, paro… a leitura tá paradassa”.

Vai demorar pra adquirir casa na praia. Ano a ano investe o imóvel na realização da FestiPoa e no jornal.

– No Vaia vai pouco, mas ano passado foram uns R$ 2 mil no evento. Este ano vai isso de novo.

Isso que a FestiPoa foi premiada no Fato Literário 2010, deixando o orçamento da festa um pouco menos simbólico em 2011. Porque se alguém pensa que ele se remunerou com os R$ 10 mil do prêmio, saibam que “Ih, já foi tudo na festa, pena não ter mais, traria mais gente”. Acreditem nele, palavra de Ricardo Silvestrin, diretor do IEL, “topa todas e não pede nada. Não quer aplauso, créditos. E realiza”.

Topa todas por quê? Editor e escritor, Rodrigo Rosp diz que “não faz por mim, por você, muito menos por ele. Faz por ela: a literatura”. Talvez sim, talvez não. Acompanhando o Fernando, a impressão é de que não tem porquês objetivos. Beira a hipongagem e chega a dizer “Se tiver envolvido com algo, é o movimento, tá valendo”. E o que é o movimento, Fernando?

– Estar fazendo qualquer coisa. Tô com uma gurizada agora na Casa de Cultura Mario Quintana (Coletivo Cabaré do Verbo). Se eu contribuir, tá bom.

– Fernando é um dos caras mais insistentes que conheço. Nos conquista com seus projetos, é conquistado por outros tantos. Mente e ouvidos abertos – diz a sócia da livraria Palavraria, Carla Osório.

O escritor Paulo Scott diz que Fernando “tem muito a ensinar à maioria dos velhos e novos escritores gaúchos; generoso, inteligente, sem esnobismo”. Foi assim e empurrado pelo tal movimento que ele criou e fez a primeira edição da FestiPoa em menos de três meses. Mas, na verdade, o que poderia receber o clichê agitador cultural (embora a calma e a fala mansa do Fernando não combinem nada com agito) parece se aproximar mesmo do que o próprio Fernando nega ser:

– Grande escritor, autor – afirma o poeta Everton Behenck. – Escreve em voz alta capítulos da nossa literatura.

E a comparação com um escritor, artista vai além. O espírito com que se dedica aos projetos equipara-se à forma como muitos artistas se entregam à arte. Questionado sobre quantas horas por dia tem trabalhado na FestiPoa, Fernando para e pensa “Horas? Por dia? Sei lá, o dia inteiro”. É fato. Durante este nosso bate-papo, teve ideias para a edição atual e as próximas. Como o escritor que, obcecado por um tema, relaciona a ele todas as experiências; ou um músico que acha a melodia que buscava em uma frase no meio de uma conversa. Da mesma forma, Fernando vive também o prazer e a dor do processo criativo.

– Prazer é beber uma cerveja, se divertir. Aqui não tem prazer como fim. Às vezes é muito chato – comenta o trabalho com a FestiPoa e o Vaia.

Mas, verdadeiro artista, desapegado de fins, segue fazendo, independentemente de promessas de satisfação.

Fernando lembra é Manoel de Barros, sua poética da inutilidade, das ignorãças. Não quer grandiosidades, resultados, posteridade. Faz por fazer e “não pra marcar. Melhorando um pouco a Vasco da Gama, a quadra da Palavraria, tá bom. O mundo tá sempre mudando, como vou ter pretensão de fazer a diferença?”, e aproxima-se mais de Barros por meio de outro poeta, “mas ainda vale a sabedoria do João Cabral: entre fazer o inútil e não fazer, faz o inútil. Não fazer é mais inútil”.

Sabedoria do poeta e do Fernando, “um Bombril” na opinião do escritor Lima Trindade. Talvez seja, fazedor de mil e uma inutilidades. Que fazem, sim, a diferença.

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Publicado no Caderno de Cultura do jornal ZH, em 07/05/2011

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Reginaldo Pujol Filho nasceu em março de 1980 em Porto Alegre e trabalha como redator publicitário. Lançou Azar do personagem (Não Editora / 2007), organizou a antologia Desacordo Ortográfico (Não Editora / 2009 – Livro do Dia / 2010) e tem contos publicados em antologias, revistas, jornais, sites e no YouTube (vídeo Querido U). Escreve com alguma regularidade no blogue Por causa dos elefantes.

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13
set
10

Aconteceu na Palavraria: encontro literário de Altair Martins e Marco de Curtis

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Sábado, 11, na Palavraria, aconteceu o encontro literário dos escritores Altair Martins e Marco de Curtis. Leituras e bate-papo enfocando as respectivas obras. Richard Serraria e Eliana Mara Chiossi fizeram o sarau de abertura, com belas canções entremeadas das leituras inspiradas de Eliana. Da série Palavra – Alegria da Influência,  produção do Fernando Ramos, do Jornal Vaia. Fotos do evento.

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09
dez
09

Aconteceu na palavraria – bate-papo de Scott, Carpinejar, Carlos André e Pellizzari

Uma boa parte da novíssima geração de escritores do Rio Grande do Sul esteve representada num festivo encontro realizado segunda, 07, na Palavraria. Utilizando-se como pretexto a visita de Paulo Scott à cidade – que agora mora no Rio de Janeiro – Fernando Ramos, do Vaia, conseguiu reunir na livraria um timaço de escritores. Além dos escalados para conduzir o papo – Scott, Carpinejar, Carlos André e Pellizzari, marcaram presença na platéia Cardoso, Antônio Xerxeneski, Rodrigo Rosp, Bernardo Moraes, Marcelo Noah, Everton Behenk, Samir Machado de Machado, Alexandre Rodrigues… Para além do tema – irreverentemente discutido pelos presentes, o encontro caracterizou uma grande confraternização. As fotos registram o evento.

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22
jul
09

Aconteceu na Palavraria: bate-papo com Ademir Assunção

ADEMIR_COYOTE 19 01O poeta, editor e agitador cultural Ademir Assunção – paulista de Araraquara e atualmente morador de São Paulo – andou em Porto Alegre na semana passada. Não veio para agitar – segundo suas próprias palavras; veio para visitar os filhos que moram por aqui.
Mas o Fernando Ramos, editor do Jornal Vaia, atento como sempre, não deixou passar a oportunidade: com o pretexto de lançar no Rio Grande o recém impresso número 19 da revista Coyote (da qual o Ademir é um dos editores), bolou um encontro do Ademir com três ativos nomes da poesia gaúcha – Telma Scherer, Cristina Macedo e Ronald Augusto. Na terça, 14, estavam todos na Palavraria – inclusive os filhos do Ademir – para mais um estimulante bate-papo.

P1070079

A conversa girou em torno das revistas literárias: o fazer cotidiano e os desafios dos editores alternativos (a expressão é minha) para manter viva a palavra poética num mundo mercantilizado. Aliás, registro umas duas ou três frases de Ernesto Sábato que fizeram bela moldura para a discussão. A título de editorial, aparecem lá nas primeiras páginas da Coyote 19:

Não devemos desperdiçar a graça dos pequenos momentos de liberdade de que podemos desfrutar: uma mesa compartilhada com pessoas que amamos, umas criaturas que ampararemos, uma caminhada entre as árvores, a gratidão de um abraço. Nós nos salvaremos pelos afetos. O mundo nada pode contra um homem que canta na miséria.

COYOTE 19 03

Bacana que, como manda o figurino, o papo rolou com muita leitura. As gurias e os guris da mesa se puxaram e mandaram ver muito poema bom. Aproveito para concluir esta nota, reproduzindo dois poemas lidos com muita emoção pelo Ademir, numa homenagem póstuma ao poeta Rodrigo de Souza Leão, morto prematuramente há alguns dias.

Em tempo: a revista está um primor – editorial e gráfico. Vai para minha pilha de livros na cabeceira. Coyote 19 encontra-se à venda na Palavraria por R$ 10,00.

Valeu Telma, Ronald, Cristina. Valeu Ademir. Boa, Fernando.

Um abraço do Luiz Heron

Dois poemas de Rodrigo de Souza Leão:

I
Guelras e silêncio. As formigas passeiam pelos peixes. Jonas e sua baleia estão expostos. À mostra, toda a tradição. Estandartes nas mãos. Crianças começam a cantar o estribilho do hino nacional. As bandeiras se masturbam no vento. Poetas discutem a complexidade do mundo sem complexidade. O hino é belo e a flâmula é verde e amarela. Eu só queria romper a bolha que me prende a esta casa e a estes metros quadrados. Eu iria à feira ver os peixes mortos. Sentir o odor fétido das sardinhas expostas. E não ler em algum lugar que tudo está à venda. Inclusive as cabeças dos líderes da oposição poética. Um a um decapitados por serem apenas diferentes. [Do livro O caga-regras. Pará de Minas, Virtual Books, 2009.]

napalm_01

II
Cada gol é uma medalha no peito. O general tem muitas medalhas e nenhuma guerra. Em São Paulo, certa vez, uma mulher super-poderosa disse que eu tinha sido soldado em outra encarnação. Muitas guerras a serem vencidas. Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones. Vietnã. Na veia. Helicópteros por todo o lado. Napalm. Gás mostarda. Baionetas enfiadas nos corpos. Injetando alguma química feroz. [Fragmento do livro Todos os cachorros são azuis, 2008.]

MARCADOR 01_LIVROS

 




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