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03
nov
10

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Fôssemos falar de velocidade

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Fôssemos falar de velocidade, por Jaime Medeiros Júnior

Fôssemos falar de velocidade ao modo dos físicos, teríamos de falar de espaço (uma distância) e de quanto tempo necessitaríamos para percorrê-la (V = d / t). Acabamos, porém, por escolher falar de outra coisa, falaremos da sensação, do sentimento, do “ritmo” que criamos e ao qual nos submetemos ao estarmos no mundo.

Nunca fui veloz. O que bem podemos tentar explicar pelos meus bem mais de 100 quilos, que fazem o meu caminhar arrastado, e que me obrigam a uma retração e exasperação constante em situações de exiguidade de espaço. Tentemos, contudo, evitar os esbarrões, os entrechoques, as aparições.

Como fazer que não estejamos sempre a abalroar o mundo, senão desacelerando e rezando para que nos sobre algum lugar em meio ao ritmo enlouquecido das coisas. Todavia este problema não está circunscrito apenas àquilo que tendemos a conceber como “a realidade”, “o mundo”, “a vida” que está para além de nossa pele. Pois que no mundo da infraderme, medos e quereres, vivendo-me, estão aos entrechoques, esbarrões e aparições constantes. Querer ser pequeno, mera criatura entre outras, ser indistinguível, ou querer ser grande e reconhecível? Temer ser pequeno e insignificante ou temer ser grande, desajeitado, e abalroante? O que fazer, por fim, da velocidade com que tudo isto se torna outra coisa?

Nunca fui veloz. Sempre senti saudade. Uma saudade de te ver passar. Não te persigo e contudo sei aonde irás.

Outro dia, depois de cruzar veredas e trilhar outros tantos caminhos, depois de me informar com os passantes, que disseram que a igreja era azul e um tanto rústica, cheguei à igreja ortodoxa de Cruz Alta. Entro, percorro várias salas e corredores, e por fim acabo em uma ampla sacada, cheia de maquinarias, grandes tubulações, caldeiras, e bombas. A sacada se abre para o mar, numa pequena enseada, onde estava atracado o submarino, um grande leviatã de metal, pronto para a guerra. Eu na sacada da igreja, me sinto como quem vai ao aeroporto ver alguém partir, o submarino some em um mergulho na água escura. Pra onde ele parte, pra onde vai?

Tudo isto se deriva de uma vontade de estar só e não se prender a nada? Quem me dera te conhecesse realmente, e não te visse apenas como quem passa ao largo.

De certa forma a saudade é somente o descompasso entre a velocidade do mundo e a velocidade da gente. Quando nos damos conta já deixamos o ponto de partida e rumamos para um outro qualquer lugar, no entanto, agora, só queremos olhar para trás. Somos bem mais lentos do que o mundo, nos perdemos, procuramos pelos rastros que deixamos, pelos vestígios de pureza da hora em que acordamos, e por fim, só queremos tornar ao nosso ponto de partida [origo].

Talvez aqui pudéssemos opor a nossa saudade a um possível cosmopolitismo da alma [uma disposição da alma para compreender e enfrentar todo e qualquer ponto do caminho a se percorrer como se fora tanto o ponto do qual partimos quanto o ponto a que se há de chegar]. E onde, por isso, já não há qualquer parâmetro pelo qual possamos falar de velocidade, pois nada é veloz ou, tampouco, lento, pois tudo em todo ponto do caminho sempre há de estar em seu próprio lugar.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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