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A crônica de Clarice Müller: Fidalguia

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Fidalguia, por Clarice Müller

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GOSTAR. Palavrinha comum e ao mesmo tempo muito propícia a suscitar as maiores polêmicas e até mesmo cizânias quando o bicho da certeza nos morde e bota os reis a estrilar na barriga. Pra maioria de nós, gostar pode passar ao largo de questões como estrutura, sintaxe, gênero e o kit analítico padrão. Pode vir lá do fundo, daquelas áreas meio nebulosas onde mal tocamos e que aos poucos se enriquece com o que vamos adquirindo ao longo da vida, sem falar na multidão de seres imaginários que nos cochicha aos berros quando estamos a ponto de tomar decisões estéticas. É com grande alívio, portanto, que me declaro essencialmente leitora e, como tal, não preciso entender de nada, basta-me o fruir, no ritmo e modo que quiser, das minhas páginas eleitas. Posso dizer, por exemplo, sem receio de me botarem no pelotão de fuzilamento da correção artística: não gosto de Nelson Rodrigues. Não mesmo. Tenho idade suficiente para ter lido as crônicas que ocupavam página inteira na Folha da Tarde, nas quais destilava o que tinha de pior em termos de misoginia, política, moral, sexo. Também estudei suas peças quando cursava arte dramática no CAD, onde a bateção de cabeça pro velho dá nos nervos. Mulheres, padres e comunistas compunham a tríade contra a qual não poupava um milímetro de acidez, assim como todas as formas de sexo, visto sempre na forma de tara e perversão, o que não deixa de ser bem a cara de Nelson, um moralista que fazia parte do primeiríssimo time do reacionarismo. Escrevia muito bem, claro, que burro não era, mas competência não põe mesa quando a serviço dos piores propósitos, come on. E eu, talvez por defeito genético ou estético, sou chegadinha numa fidalguia. Em caras como o Gore Vidal, de quem estou lendo o Lincoln com especial deleite, porque, embora não se furte a espelhar a dor e o horror, não deixa de refletir sobre a grandeza humana, sem a qual a vida é nada, estou certa? Gosto de gente que se posiciona sobre as coisas, que tem bandeiras, que acredita, pensa, faz. Esse papinho de desintegrar tudo numa miscelânea artística sem pé nem cabeça e relativizar valor como se fosse babaquice jurássica é papo de bandido, sinceramente, papo de bandido. Presta um desserviço enorme à cultura. Confesso-me, portanto, fã de escritores que pensam o mundo na escala do universo, e não na arraia miúda da mesquinhez, onde Nelson chafurdava com tudo. Assim, se a coisa for de tomar partido, não me avexo nem um pouco, volto ao tempo das matinês no cinema do meu avô, e bato os pés com força quando o mocinho vem chegando. Xô, Nelson! Viva Vidal!

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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