Posts Tagged ‘Gustavo Lagranha

20
jan
14

A crônica de Gustavo Lagranha: Fleet Foxes: Música transcendente

.

.

Fleet Foxes: Música transcendente, por Gustavo Lagranha

album_fleet_foxes

Quando criança, eu me entretinha com um certo brinquedo de montar imaginando castelos, reis e lutas entre cavaleiros. Meu filme predileto, ao qual devo ter assistido no mínimo cento e cinquenta vezes, era a Espada Era a Lei, da Disney, uma versão infantil para a lenda do Rei Artur.

Não saberia explicar a razão de haver em meu violento imaginário de guri um espaço tão especial para a Idade Média. Não sou dos mais crentes em vidas pretéritas, logo me afasto de tal linha de raciocínio. Sei que em seguida me demorei no feudalismo, ao estudar História, bem como nas músicas do Led Zeppellin que evocavam raízes célticas[1].

Ano passado quando, tanto por curiosidade como por atração, comecei a estudar os músicos folk americanos e ingleses, recebi a sugestão de um amigo: escute Fleet Foxes. Foi uma estupefação à primeira audição e também um estranhamento. As vozes limpas e melódicas, as harmonias simples e inusitadas estavam impregnadas daquele acento medieval tão caro à minha imaginação.

Ouvi, ouvi de novo e de novo. Li críticas, a maioria favorável, tentando entender a natureza da fascinação que o grupo de Seattle me provocou. Como gostos são normalmente inexplicáveis, segui no simples escutar o EP e os dois álbuns da banda.

Há um problema no compartilhamento massivo de músicas pela world wide web. Consiste em que já se torna raro termos acesso ao objeto CD, DVD ou vinil. Com os Fleet Foxes foi assim, não o nego: entrei num software de downloads, baixei os discos da banda e os passei para o pen drive que utilizo no carro. Nada do álbum, com capinha, letras e créditos. Apenas arquivos de música transitando por diversos tipos de mídia.

Pois aí me escapou a chave que integraria as referências. Eis que a capa do primeiro álbum do grupo, o epônimo Fleet Foxes[2], é a reprodução de uma pintura de Pieter Bruegel, o Velho, representando uma tumultuada cena camponesa da Alta Idade Média. Claramente sob a influência de Hyeronimus Bosch, referência primária para mim, o “Peasant Bruegel” está retratando a decadência do feudalismo.

Então se revelou por que a música dos americanos e seu tom reminiscente me fazem tão bem: num mundo em que assistimos à decadência de um sistema antigo de viver – que em minha pequena cidade muito corresponde ao modo feudal – devemos, como o fizeram Joyce, Eliot e outros grandes, procurar no caos de nosso tempo o homem universal, de valores universais. Foi sempre esta minha crença, e me satisfaço muito em encontrar uma música que embale minhas esperanças de que tal feito seja possível.


[1] Escute Friends, do álbum Led Zeppellin III, e The Battle of Evermore, do Led Zeppelin IV, ambos da Atlantic Records

[2] Onde se encontra minha faixa predileta da banda: Tiger Mountain Peasant Song.

gustavo lagranhaGustavo Lagranha é bancário e estudante de Direito. Mora em Vacaria, cidade dos campos de cima da serra onde nasceu, longe dos estertores da capital. Morou em POA por cinco anos, onde virou fã, frequentador e amigo da Palavraria, tendo publicado nessa época contos nas antologias 103 que Contam e Novos Contos Imperdíveis, ambas organizadas por Charles Kiefer.

.

.

Anúncios
30
maio
13

A crônica de Gustavo Lagranha: O Tempo e O Perseguidor

.

.

O Tempo e O Perseguidor*, por Gustavo Lagranha

Há algo de errado com o tempo. Os dias voam, como se durassem uma piscada. Tal reclamação não é exclusividade minha; pensei que fosse em virtude de meu atarefamento que surgia essa impressão. Contudo ao questionar desde senhores aposentados a jovens e adultos desocupados, vem sempre um: nossa, já e metade do ano e parece que o réveillon foi ontem.

Deixarei de lado as especulações astrofísicas e astrológicas, ou místicas, como se prefira. Há toda a sorte de teoria nesses campos. Enveredo pelo caminho que me atrai: a literatura, a escritura, a palavra no papel ou na tela.

Em suma, o tempo literário é uma narração (mythós), uma ficção de tempo engendrada paralelamente ao decurso real – esse fluxo pretensamente constante e ininterrupto. Ilustrando o que afirmo, recordo a frase de Johnny Carter em O Perseguidor de Cortázar, a respeito de um fabuloso solo de sax alto interrompido abruptamente: “eu já toquei isso amanhã.” Há, neste conto longo do argentino que muito admiro, diversas construções do alter ego de Charlie Parker a respeito do tempo. Elucubrações que soam despropositadas, decorrentes do uso que o personagem faz de maconha, mas que, lidas hoje à luz de nosso cotidiano maluco, possuem uma assombrosa contundência. Mais adiante no texto Johnny diz: “(…) quando comecei a tocar, ainda menino, entendi que o tempo mudava.” E pouco além prossegue: “essa questão do tempo é complicada, vive me pegando de tudo que é jeito. Aos poucos eu começo a reparar que o tempo não é como uma sacola que a gente vai enchendo. Quero dizer que mesmo que a gente mude o que vai colocando na sacola, só cabe uma determinada quantidade, e pronto. Está vendo minha mala, Bruno? Cabem dois ternos e dois pares de sapatos. Bem, agora imagine que você esvazia a minha mala e depois vai pôr de novo os dois ternos e os dois pares de sapatos e de repente vê que só cabem um terno e um par de sapatos. Mas o melhor não é isso. O melhor é quando você percebe que pode botar uma loja inteira na mala, centenas e centenas de ternos, como eu às vezes ponho a música no tempo quando estou tocando.”

A brilhante criação de Cortázar traz à nossa falta de tempo uma lição, que converge justamente ao ponto de vista que desejo revelar: o momento, através da arte – literária ou não – pode se alargar, ou paralisar, ou até correr mais rápido. Ler a Odisséia é e sempre será voltar ao tempo – entenda-se essa volta aqui não como simples figura de linguagem – dos gregos; Ler Walden de Thoreau é não só visitar os bosques norteamericanos em meados do século XIX, mas também, de mãos dadas com o autor, passear novamente pelo tempo dos gregos.

São exemplos, somente, que ilustram e convidam. A arte e a literatura – e aqui acho uma referência para a qualidade na arte – genuína, original, relevante, possui sempre essa capacidade de liquidar o tempo – de o prostrar, derrotado, à condição de coadjuvante. Então talvez não haja algo errado com o tempo; talvez nosso excesso de referências nos ponha cada vez mais angustiados diante da volatilidade do que se produz, dando um xeque naquele velho sonho humano de se tornar eterno.

Escutando mais um pouco Johnny Carter: “você percebe o que poderia acontecer num minuto e meio… Então um homem, e não só eu mas também essa aí e você e todos os rapazes, poderiam viver centenas de anos, se a gente encontrasse a maneira poderíamos viver mil vezes mais do que estamos vivendo por culpa dos relógios, por causa dessa mania de minutos e de depois de amanhã…”

*Excertos de O Perseguidor extraídos de As Armas Secretas, de Júlio Cortázar, tradução de Eric Nepomuceno – 4ª Edição, Editora José Olympio, 2006

gustavo lagranhaGustavo Lagranha é bancário e estudante de Direito. Mora em Vacaria, cidade dos campos de cima da serra onde nasceu, longe dos estertores da capital. Morou em POA por cinco anos, onde virou fã, frequentador e amigo da Palavraria, tendo publicado nessa época contos nas antologias 103 que Contam e Novos Contos Imperdíveis, ambas organizadas por Charles Kiefer.

.

.




julho 2019
S T Q Q S S D
« out    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Categorias

Blog Stats

  • 712.865 hits
Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com
Anúncios

%d blogueiros gostam disto: