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07
ago
13

A crônica de Guto Piccinini: Em trânsito

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Em trânsito, por Guto Piccinini

 

 

Toda a semana pego o mesmo ônibus para minha “quase cidade natal”, como um ritual cumprido a risca. Passos por uma longa distância percorrida amigavelmente com o mundo, acompanhados pelos ruídos de um mp3 já tão prematuramente antigo, e que me sibilam versos ao pé do ouvido. A cada nota um rico diálogo tecido no inesperado. Um fio quase invisível que atravessa a rua e agrega num contínuo retilíneo o emaranhado de vida que nestes dias convergem para um mesmo e tão festejado ponto. “Meu reino por uma poltrona confortável!”, reivindica raivosamente meu ímpeto sonolento enquanto separo cuidadosamente os trocados que garantem meu lugar ao céu. Nenhum cobrador um dia saberá o esforço que dispendo ao guardar os míseros centavos que garantem o troco preciso. É preciso, isto lhes digo, mas isto nunca hei de confessar a estes que invariavelmente caem nesta rede de pensamentos sem desconfiar um pingo disto que os envolve. Afinal, a trama segue sua linha, salvo pequenas interferências de desejo: dessas nunca estaremos salvos. Jornal? Pastel? Quem sabe uma bala pelos centavos, agora inexistentes, para adoçar a vida? Um mundo gira insistentemente nestes dez minutos que antecedem a partida. Estaria mentindo descaradamente se não confessasse nestas meias palavras minha simpatia por estes momentos ínfimos: a chegada em meio a um turbilhão de pessoas que vagam aliviadas pela chegada ao destino esperado; uma multidão de olhares apreensivos por ainda terem de enfrentar um longo e árduo caminho; mas há também aqueles que pouco se importam com qualquer movimento, seja pelas estradas da vida, seja de qualquer átomo que se move ao lado. Em pleno gozo de minhas faculdades afetivas, tomo a fila que me separa temporariamente de minha própria empreitada. É preciso desesperadamente aliviar o peso da espera, dizem as televisões do espaço. Eu, de um universo distante, sinto-me um tanto alheio. Dói um tanto pensar as coisas de tão longe. Esquálido pela palidez momentânea, visto Fiona Apple e seu polvo gigante como um chapéu a rodear a cidade sem saber ao certo o que fazer consigo neste vão entre a pele e os ossos. Minúsculos são os detalhes recolhidos tão carinhosamente sem sentido. I just wanna feel everything, insisto. Troca efetuada, com o papel em mãos os passos seguem soltos e independentes. Já os holofotes me acompanham ouriçados! Ainda tomado pela viscosidade que escorre da cabeça, corro desconfiado para as últimas poltronas do ônibus que, eventualmente, já está ao meu aguardo. Acomodo meus pensamentos sem pressa ao conforto possível, e retomo a atenção ao famigerado aparelho que segue agarrado aos meus ouvidos e firme em seu esforço de alheiamento e delírio produtivo. É preciso sim agarrar os sonetos com uma gana sem fim! De minha parte, somados os esforços, durmo. Assim sigo abraçado em meus sonhos.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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01
jul
13

A crônica de Guto Piccinini: Ela

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Ela, por Guto Piccinini

 

Ela está sentada em uma mesa. Com as pernas cruzadas, observa distante a vista da janela, que oferece um esquadro da rua principal da cidade. Toma um cafezinho com açúcar (ela gosta de pequenas aventuras) e fuma um toco de cigarro com desleixo, na medida em que corre os olhos no agito de vida em sua volta. Aquele fim de tarde lhe surpreende e vagarosamente vai tecendo as cores de toda a cena em seu fluxo associativo. Ela está cansada. Atormentada por uma simples, mas insistente ideia: um reencontro dos takes tragicômicos, com seus contornos bourgeois e permeados por ruidosos fracassos e arrependimentos. Uma longa tragada ressuscita a chama desta trilha refinadamente otimista. “Morre-se pela boca”, pensa, e dela vem a dança que encontra entre a fumaça e a leve briza que por ali pede passagem. Está atormentada pela passagem do tempo, como um peso que cresce indiscreto e que demanda um sutil esforço. Ela está cansada. Uma vez mais se vê impelida na busca por algum sentido, por algum substrato mínimo que sustente um pouco mais desta cadeia contínua e mortificante. Oferece a si uma última tragada, num visível encadeamento de pouco caso, e descobre um fio alegre no amargo do café que acaba, resiste e ressoa. A idade não lhe cai bem. A constatação lhe desse garganta abaixo embalada no vazio repentino e imperioso da xícara em suas mãos e do resto de amargura que há poucos instantes servia-lhe de alento.

Ela arrebanha suas coisas da mesa, faz menção de sair o mais rápido possível pela rua. Testemunha de relance em um futuro próximo sua pele enrugada exposta ao sol, os cabelos curtos massageados pelo tímido vento (tão raro nestes dias!). Consegue sentir suas pernas levemente revigoradas pelo prazer da suposta caminhada. Tão logo esta chama lhe percorre o corpo, sente a preguiça triunfar sobre o entusiasmo do instante. Tentativa vã, deixa-se cair com o mesmo peso que antes abraçava pensativa. Peso de uma vida. Titubeia, mas impulsiona uma outra tentativa. Estática, permanece. Fecha os olhos, e contempla alguns instantes a mais o seu fracasso.

De um súbito, sente uma intensidade amealhar o instante. Algo muda a sua volta de forma inexplicável. Ela abre os olhos e, assustada, não reconhece o novo enquadre de sua vista. Aquilo que antes testemunhara como um corpo urbano a respirar em polvorosa, passa agora a ser uma grande visão aberta, permeada por pequenos vultos que saltitam alegremente. A virada lhe tonteia. Tenta manter o equilíbrio como se estivesse no auge de uma embriaguez, e mal consegue ver tamanha a turbidez da visão. O corpo lhe escapa, é tomado pela briza que agora varre o abatimento de outrora. Perde-se nas próprias mãos, cobertas de juventude, perde-se nas novas roupas que lhe mascaram. Progressivamente recupera a consciência. Passa a escutar com clareza a confusão de vozes que se misturam à risadas e gracejos infantis. Olha para os lados e se vê sentada em um banco junto a duas pequenas garotas sorridentes e conversantes. Percebe que está em um local estranhamente familiar, o pátio, as cores, um som e um cheiro característicos. Entende, então, que ao seu lado estavam duas grandes amigas de seu passado. Ambas a olham com certo espanto. Não entendem o que ela faz ali, perdida em sua temporalidade. Não soube como reagir ao reencontro. Levanta rapidamente e se põe a correr como há muito não corria. Segue para um antigo banheiro, que em momentos de angústia de sua juventude, servia de um íntimo companheiro. Porta adentro, detém-se ofegante em frente ao espelho. Na medida em que desacelera o ritmo atabalhoado do tórax, depara-se cada vez mais com uma estranha. Sorri, curiosa com o antigo penteado, com a pele novamente lisa, com traços há muito esquecidos. Algo desta velha/nova composição lhe incomoda. Está feliz, não nos enganemos, mas de um modo intensiva pela loucura de estar diante de si, como outra, e que ali, parada diante deste reflexo, lhe interpela. O tempo passa. Ela está cansada. Segue com o olhar fixo no espelho. Tateando, insistindo, confabulando. Vê um rosto que lhe diz algo que não sabe por onde, que não entende. Ao mesmo tempo, aprecia a intensidade de outrora se extinguindo. As pernas doem. Na medida do tempo o peso retorna. Ela compreende. Levanta, junta suas coisas, paga o café e sai.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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15
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Retorno

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Retorno, por Guto Piccinini

Seguia atento a minha caminhada com o passo firme. Resoluto. Não tenho o costume da errância Ela tem um pingo de erro que me desacomoda e não me acompanha. Eu muito menos a sigo. Seguia em contornos pré-definidos. Seguia. A concentração era tanta que me via ali, puro passo, antecipação e couraça. Me fazia ouvir nos passos, o traçado que por muito tempo vivi no chão duro de asfalto. A gente vai se apegando aos detalhes do caminho, e no meu caso, o caminho certo era o meu caminho. Caminho. Numa das pontas, eu, demasiado (“justo a mim coube ser eu”). Na outra, aquele pedaço de mundo que há muito se fora. O tempo é uma coisa engraçada. Principalmente quando passa. Em mim o tempo tem algo que insiste. Um movimento ruminante de vai e volta, que regurgita este engodo de uma suposta história. É um pouco triste até, esta ingerência que subverte minhas esperanças quanto a firmeza do passado lá onde ele não mais existe. Vocês vejam: no tempo os passos deixam rastros, marcas. Não existe aquela metáfora do prego na madeira? É algo mais ou menos assim. Ali, nestes passos que me deslocam, vejo os passos do próprio tempo que rastejam em mim. Resisto o que posso.

Dia desses andarilhava por minha rota rotineira. Acompanhei de sobressalto um indício de água que escapulia de um registro. Mirei de longe o vazamento baixinho, de um chiado inexistente. Na passagem conhecida, os pulos de sempre, os cheiros de sempre, o alarido foi crescendo, ganhando corpo, até que pude vislumbrar seu corpo exposto, um solitário e úmido grito por socorro. Por três dias acompanhei o suplício daquele que um dia foi uma estrutura de vigor jovial. Por três dias segui meu caminho supondo um porvir. Mastigava esse tempo de acontecer, fazia eu parte daquele acontecer sem nome, enredado nos fios de água que inundavam vagarosamente o entorno. Estava eu inundado pelo suplício. No quarto dia, o vazamento já não existia. A parede aberta, expunha na minha cara estes dias de devir espasmódico, por um volume de espera e demora. Sentindo em mim o cimento ainda novo, não pude gozar de nenhum tostão de glória: no tempo deste existir, havia em mim um desamparo de surpresa. Algo daquele fluxo me pertencia. Nestes passos que me acompanham, já tomado pela secura, vejo no tempo o que ele nos oferece de melhor! Confesso: “Dar tempo ao tempo”. Nunca compreendi a razão de uma assertiva que redunda nela mesma. Apenas visto a carapaça.

Hoje já é um outro dia. Insisto. O corpo rijo, em velocidade constante e retilíneo segue os traçados de um outrora já percorridos. Sigo nesse fluxo de permanência. No passo compassado do tempo o amargo da boca prenuncia a chegada. Exito, mas hoje já é outro dia. Já dentro da sala, revisito os sentidos perdidos agora reencontrados. Aquele que um dia ali também esteve lhe possui: as paredes sujas e coloridas de memórias, um cheiro levemente azedo da falta de sol e circulação, os papéis. Nunca soube de onde surgiam tantos papéis. E eles estavam ainda dispersos e descompostos em ordem própria. Fui testemunhando aquele encontro no que era viável da umidade que me apossava, e das luminárias semi funcionais que assim ainda permaneciam. Um pouco desmontado, segui tateando pelo espaço, remoendo o ranger dos dentes, e retomando aqueles cantos de palavra que via pela primeira vez. Foi num destes cantos que me deparei, depois destes longos anos, com o antigo sofá, companheiro de muitas horas de descanso. O mesmo sofá (!), ainda incrivelmente mais sujo do que as paredes que lhe circundam e de um azul de poucos amigos. Parei para admirá-lo, e sentia o mesmo olhar direcionado a mim. Por um instante acreditei que aquele sacana deveria estar pensando o mesmo que eu! Foram segundos deste reencontro inusitado. E eu que acreditei estar preparado para tudo? Não exitei instante ao encontro do velho amigo, e desabrochei os passos em seus braços. Ali, os dois abraçados na sujeira dos anos, dormimos o sono dos injustos, lado a lado. Vos digo: há coisas deste mundo que não me atrevo a dizer, mas neste dia sonhamos juntos nossa singela dança de um dia de semana blue.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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01
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Binarismos

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Binarismos ou Das inquietudes que o estranho evoca quando o fitamos de frente, por Guto Piccinini

Não era um evento incomum, mas algo começou a ganhar forma neste início de dia. Ele abre os olhos, e eles se abrem tortos. O primeiro bocejo acompanha o movimento de recolocar no lugar um dos braços que durante a noite parou-lhe no meio das costas. A cabeça nos pés. No banheiro, escova os dentes com força. Vê sangue escorrer-lhe da boca. Não é incomum, e sorri. Gostava de ver o líquido espesso sair por entre os dentes, de um espaço tão estreito que parecia que nunca sairia nada. Lava o rosto, e ao olhar novamente para o espelho vê um rosto outro. Na sequência de mais um enxague, um outro rosto a lhe encarar os olhos. É como um misto de reconhecimento e estranheza que agora fita. Veste o uniforme. Sai. No trabalho, se vê de posse de um controle incontrolável. Este seria o dia. A cidade a seus pés esmagam o corpanzil duro em meio a ronda despretensiosa. O carro acelera. Pé botina, pé martelo. A abordagem é límpida no rosto que se desloca na velocidade das rodas. É hora. Saca do coldre o soldo recheado de munição ideológica. Inova, repetindo o mesmo: o pé tijolo acelera o ato punitivo. Não há tempo a perder. Não há mais tempo. Deitado sob seus pés, o meliante cumpre.

Ele acorda. Demora a descobrir-se do mundo o corpo esguio. É negro de um negro que muitos desconhecem: carrega no bolso uma variedade infinita de nomes. Levanta. Oscila no raiar do dia, entre o ódio e um pão com manteiga. Caminha até a parte da casa que pode ser definido como a cozinha. Passa entre os filhos, a mulher, dois irmão mais novos, três mais velhos, dois tios e a mãe. Essa já estava acordada há um tempo. Ele a vê no horizonte desde que acordara para a vida. Toma um resto de café. Sai. Na rua, mais do mesmo. O asfalto é um mar de oportunidades. Ele sente na pele o corpo ofuscado na urbe. Um espelho marcado, pensa. Saca do coldre o vazio recheado de história: algo nele falta, e sua busca tem demarcações holofóticas. Ganha aí sua roupagem. É um instante. No carro, de um outro, acelera a adrenalina dos deuses. Em meio a ação, se confunde na autoria principal. Uma horda de coadjuvantes ganha a cena: ele sente, na sincronicidade do destino, o datado na perseguição. Um fio de sangue escorre, mas ali isso pouco importa. Cabeça nos pés. Em mutação com o asfalto, o pé martelo lhe esmaga as têmporas, enquanto o tempo contorna uma nova máscara.

 

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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17
abr
13

A crônica de Guto Piccinini: Uma vida extra-ordinária

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Uma vida extra-oridinária, por Guto Piccinini

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Logo após a jornada de trinta minutos desde a admissão no hospital à saída da sala de parto, a equipe responsável por aquela menina de vinte e sete anos chegou a mais óbvia das conclusões: este  caso poderia ser registrado como o trabalho de parto mais simples da vida de cada um dos profissionais ali presentes. Enquanto saíam consternados com o acontecimento histórico, não puderam perceber a autora da proeza, que num misto de surpresa e choque, permanecia impávida, na tentativa de compreender este ser que minutos antes destacou-se de seu corpo de uma forma escorregadia e flácida em comparação com a dureza do mundo. Carregava consigo as inúmeras histórias de dor relatadas por companheiras de gravidez ou conhecidas próximas. E enquanto permanecia ali, com este ser em seus braços, sentiu apreensão por não identificar ao certo qual o sentido de ser mãe. Curiosa, seguiu com os olhos este mal fadado corpo, enquanto ela própria estranhava seu corpo. Sem perceber, nesse andar vagaroso compôs uma sintonia sutil, uma função penetrante, que apenas aos dois fariam sentido. Sem perceber, mirava os olhos desta pequena criatura com amor e ternura. Foi a primeira vez que algo brilhou naquele corpo intruso e esguio: tomado de puro ímpeto, inflou como um balão.

Embora permaneça um mistério para as muitas teorias científicas que buscaram produzir contornos para a caso, a vida deste garoto não fugia do que consideraríamos normal e corriqueiro a qualquer ser humano ordinário que frequentemente surge de bobeira por aí. Para a surpresa dos médicos, sua constituição surpreendentemente flácida garantia um tônus muscular (ou o que quer que seja aquilo que lhe compunha um corpo) suficiente para sustentar seu corpo em qualquer atividade do dia. Ainda mais nos momentos em que a cena descrita de seus primeiros minutos de vida repetia-se, e seu corpo inflava tal qual um balão, e o corpo lânguido ganhava contornos rijos e de uma vistosidade incomparável ao estado anterior. Assim permanecia até que novamente seus contornos iam relaxando vagarosamente até o ponto em que não havia tensão alguma visível. Vazio.

Sua impressão era de que deveria ter uma estima menor do que todos seus conhecidos. Mas não se sentia mal com sua diferença. Não mais do que qualquer um em sua volta. Era por vezes atravessado pelos olhares inquisidores e incompreendidos de pessoas que se surpreendiam com sua presença inusitada. Nestes momentos era tomado por um descontrole singular, que resultava em seu corpo inflado. Sofreu ordinariamente como todo ser humano em função dos amores da vida. Diferente, talvez, por sua condição especial, que conferiu um outro contorno às decepções amorosas: um furo com consequencias imprevistas. A cena se repetiu diversas vezes, mas ele não a temia mais do que cada um teme estar só com sua própria solidão. Por isso cercou-se de pessoas que mantinham este temor afastado. Neste carinho dos mais próximos, algo que ele não supunha relembrava o primeiro olhar oferecido por sua mãe, no primeiro respirar de sua pele.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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03
abr
13

A crônica de Guto Piccinini: Trilogia da violência III

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Trilogia da violência III, por Guto Piccinini

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O terror não tem palavra. Ele se esgueira por detrás, de sobreaviso. Desliza sorrateiro e se instala em nós, de modo incompreensível. O terror não tem palavra, e não há dia em que eu não busque palavra que dê conta desta hiância. Tento. Espero. Estas noites eu reviro meu corpo em dois. Não é possível revirar-me na cama. Até as ridículas banalidades não são permitidas. Afinal, são de banalidades que nossa vida faz sentido. E são exatamente estes dois detalhes que não passam despercebidos: vida e sentido. Estas noites carregam no tempo sua intensidade. Um estado de tensão constante. Um dia te direi desta angústia que precede o ato. Hoje não te digo, por motivos óbvios. Mas não perco a esperança.

De duas em duas horas nos acordam ligando as luzes e/ou emitindo algum som alto. Batidas em nossas portas. As vezes os gritos já são o suficiente. Enquanto digo, vieram me buscar em meio a este sono descontínuo. Nos pegam no corpo como objetos desprezíveis. Um saco de corpo, é o que quase consigo sentir, enquanto esboço, mecanicamente, nuances de reação. Sou posto em uma cadeira. A mesma de sempre. Cheira a suor e sangue. Deixam assim para intimidar logo de cara quem é trazida para cá. Fico por horas sendo observado por um grupo. Parecem esperar algo, ou talvez queiram me fazer esperar. O segundo que precede o ato é povoado.

Ele entra contundente. O terror não tem palavra: ele entra e desfere em meu rosto desfigurado pelo tempo um tapa tão forte que consigo ouvi-lo de fora de meu corpo. Dói, e sinto escorrer um lágrima de meu olho. O grupo que me envolve na sala quebra seu silêncio anterior e ri. São homens como eu, digo, mas não sei ao certo que humanidade referencio. A sequência segue o script. As perguntas são as mesmas, não fossem as palavras diferentes. As respostas são as mesmas, não fosse a tentativa que delas se fizesse um outro contexto. Hoje morri mais um dia. Como morri no dia em que me colocaram dentro de uma viatura. Como no dia em que ameaçaram minha família. Morri como no dia em que fui examinado para saber se meu corpo aguentaria por mais um tempo. Morri e agora sou outro. Digo.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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19
mar
13

A crônica de Guto Piccinini: Trilogia da violência II

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Trilogia da violência II, por Guto Piccinini

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Minha querida

Fico feliz em finalmente tomar um papel e lápis e escrever-te estas palavras. Foram longos os anos que nos separam deste dia, e peço que não repare esta letra que mal se insinua por estas linhas tortas. Carrego ainda comigo estas mãos trêmulas que, como vês (e se escrevo é porque espero que vejas), não me permitem esconder-me como gostaria. Tu muito sabes que o tempo raramente sossega as marcas. É uma mentira mal contada. O presente é um tempo acumulado, e o esquecimento é uma dádiva para poucos. O mesmo posso dizer do que me sobra de paciência (que continua escassa) para dedicar a palavra sobre isso, mas verás que já começo a soltar algumas amarras. Há muito que desacredito das palavras. Este é um dos motivos pelo qual te escrevo e minha esperança de que que receba esta carta com carinho. Não por conforto. Imagino que estejas cansada desta caminhada, ao mesmo tempo que nela nos sustentamos. Então não me delongo mais nas escusas, não mais do que uma frase: penso todo dia no que ainda deves passar, penso em ti ao longo de todos estes anos e culpo-me por não ter estado perto. Guardo em mim a última vez que nos vimos e sinto como se fosse ontem teu olhar pousado ao meu no dia em que nos despedimos.

Estes dias têm sido ainda mais duros do que nunca. Meu esforço em me manter afastado é tentador para este velho corpo que me carrega. Como nos conhecemos por quase toda uma vida, já antevejo seus movimentos furtivos e preparo-me para os primeiros movimentos involuntários, que nos tomam de assalto, sem pressa e, aos poucos, transformam a tênue paz que construímos sobre o indizível. É em torno deste indizível que meu corpo perece e persiste. Vivo como um estranho em mim. Nestes arrastados anos, posso dizer-te que o sofrimento é maior apenas quando esta sensação me invade como se estivéssemos lá, neste exato instante. Tomado de vertigem, sou arrastado de mim novamente, como se pudesse sentir o cheiro ocre e a minha própria pulsação a servir de deleite para o estranho que, hoje, invento. Dispositivos de permanência, que dobram este passado infame sobre o que nos resta. O barulho dos passos contundentes, a iminência presente na cegueira proposital e o medo. Não tenho como te explicar, pois careço de explicações para mim mesmo. Tento esquecer, mas já aprendi que para o apagamento é preciso que não deixemos de repetir a palavra. Quem sabe um dia ela possa se tornar outra.

Eu estava sozinho em minha cela quando ouvi levarem um dos nossos. Não recordo exatamente o motivo, mas lembro que durante um tempo o prédio se esvaziara quase por completo. Era possível ouvir mais do que eu gostaria, e é com pesar que este custo me permite escrever-te este testemunho.  Vi quando o levaram, lá para onde levaram todos. Todos. Depois de algum tempo nos tornamos apenas “mais um”. Foi lá que perdi meu nome, porque continha em mim o nome de todos os outros. Passados alguns minutos, após cerrarem a porta com o gozo em punho, pude então ouvir, em volume máximo, o velho rádio sempre presente na abertura destas sessões intermináveis. Ele estava lá, como eu e tantos outros. Não mais o vi.

Por aqui fico. A ti, espero que possas encontrá-lo.

Com carinho.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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