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26
fev
12

A crônica de Ademir Furtado: Literatura real

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Literatura real, por Ademir Furtado

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As relações entre literatura e realidade são tão antigas quanto a arte de narrar. Para uma corrente dos estudos literários influenciada pela poética clássica, o objeto privilegiado da literatura é a realidade. A literatura, portanto, seria uma imitação do mundo real. Depois, com o desenvolvimento dos estudos sobre a linguagem, o conceito de real foi questionado e denunciado como mera representação que depende do ponto de vista, uma construção retórica com muita influência da subjetividade. Entretanto, a desconfiança do status de real não destruiu de maneira definitiva alguns elementos fundamentais da arte literária, entre eles o personagem. E a menos que se trate de alguma experimentação bizarra, o personagem será sempre um ser humano.  O problema é que um ser humano não vive sozinho no planeta. Ele precisa de interação com outros da mesma espécie, o que resulta na existência de conflitos, outro elemento que nem as experiências mais extravagantes da literatura moderna conseguiram abolir. Acrescente-se que os conflitos se estabelecem porque as pessoas precisam agir para se manterem vivas. Então, existe um objeto que pode ser definido, sem nenhuma hesitação, como real: as ações humanas. Motivos e significações de uma atitude podem ser questionados, mas não há como duvidar do caráter real de uma ação ocorrida num determinado local e num momento do tempo. Já é um começo.

E aqui retornamos ao princípio de tudo. Aristóteles, na Poética, afirma que as ações humanas são o objeto privilegiado da narrativa, pois é pela ação, e não pelo caráter, que o indivíduo determina sua boa ou má sorte. Ora, uma ação humana sempre produz uma conseqüência, que gera um acontecimento, que vira história.

Tantas divagações com pretensão de filosofia surgiram com a leitura do livro Habitante irreal, de Paulo Scott. Obra publicada no final de 2011, já teve resenha no Caderno Cultura da Zero Hora, na revista Bravo, e foi matéria de capa do jornal Rascunho, só para citar os que eu li. Essa grande divulgação na imprensa já demonstrou o valor da obra e ressaltou suas principais características, o que me isenta de discorrer sobre detalhes da narrativa. Minha intenção é apenas assinalar um aspecto que, na minha opinião, constitui um dos maiores méritos do livro – não o único, com certeza.  O fato de abordar a história recente do Brasil. Não sei porquê, –  e isso é algo que merece uma investigação mais profunda, –  a literatura brasileira, e principalmente a do Rio Grande do Sul, não se ocupa muito da história atual do Brasil. Com a ressalva de que eu posso estar desatualizado, um caso raro nos últimos anos aqui nos pampas é o romance Quem faz gemer a terra, de Charles Kiefer, que a partir de um episódio policial ocorrido em Porto Alegre, mostrou sua visão do Movimento dos Sem Terra. No mais das vezes, a história só aparece na literatura como um passado distante, sem nenhuma ligação com o presente, um recorte isolado numa linha de tempo, esterilizado por convenções literárias, um passado sobre o qual é muito fácil se posicionar, pois já teve sua dimensão definida e consolidada pelo mundo acadêmico.

Nesse contexto, o livro de Paulo Scott aparece como uma provocação. Se é verdade que a arte re-apresenta a realidade, quantos brasileiros desiludidos com antigas utopias não encontram no Paulo-personagem o eco da própria decepção? E quantos não verão em Donato uma cópia da geração de jovens contemporâneos carentes de representação legal, abandonados por lideranças políticas de outrora, hoje tão ocupadas nas disputas de cargos e poder.

Há quem diga que a literatura possui um conhecimento próprio, que só ela consegue transmitir. E aqui voltamos mais uma vez a Aristóteles quando ele afirma que “nós contemplamos com prazer as imagens mais exatas daquelas mesmas coisas que olhamos com repugnância”. Talvez a realidade atual seja por demais complexa, cruel e cansativa para ser enfrentada sem temores. Por isso, a importância de escritores que, como alternativa ao mero entretenimento livresco, ousam abordar as trajetórias humanas assim como elas ocorrem na vida das pessoas reais do presente. A literatura assim é mais viva, mais real.

Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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