Posts Tagged ‘jaime medeiros jr

14
set
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: como nos desacostumar às trancas?

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Como nos desacostumar às trancas? [prosa da independência], por Jaime Medeiros Jr.

Dia da independência. Saio bem depois do meio-dia de casa. Almoço já bem tarde. A vida nos privou da ágora. Fomos pro shopping. Lá perambulamos. Lá nos pomos frente às gôndolas do supermercado e da livraria. Lá sentamos, tomamos café, lemos a bebericá-lo, fazemos de um tudo. Vamos ao cinema. Tudo fortemente acompanhados de tantos outros, fortemente acompanhados de nossos sonhos de vencer a solidão.

Independência rima com solidão? Na gôndola da livraria abro na página onde a autora fala de seu encontro, o mestre lhe diz que já foi ao sétimo céu, e já desceu à sétima profundeza infernal. Tudo aparentemente igual. De um lado o trem é o da tristeza, de outro, o da alegria, mas o fundo é todo igual e o caminho circular. Toda jornada que se preze parece começar assim. É sempre bom ter um enigma pra pôr os miolos a funcionar.

Achei um Confúcio da Martins Fontes que me pareceu bom de pôr junto aos meus Analectos da L&PM. Dou de frente também com Trabalhe sua raiva de Thubten Chodron, monja do Budismo Tibetano. Me programo, compro duas entradas, uma para a sessão das vinte [Un cuento chino], outra para a das vinte e duas [Octubre]. De resto, procurar o café habitual. As mesas do café estão quase todas tomadas pelos outros, as que eu gosto, e que me oferecem uma tomada onde me plugar, estão ocupadas. Tento não me irritar. Tento. Tento…


Zum-zum. Crianças correndo. Algazarra. Qual há de ser a rima a se fazer aqui? Putz! Tudo inexplicavelmente irritante. Sento. Sento e leio. Sento, leio e tento, tento me acomodar. Me acomodo. Aos poucos consigo prestar alguma atenção nas páginas de introdução: Einstein disse, certa vez, que entendia sua teoria da relatividade até que os matemáticos se apossaram dela. Do mesmo modo, pensei muitas vezes que eu entendia a oração até que li o que os teólogos e filósofos tinham a dizer sobre ela. E mais adiante já na voz de Tich Nhat Hanh, que nos faz a pergunta: quem é a pessoa a quem nos dirigimos na oração?… Onde termina uma linha e começa a outra? … na tradição budista, sempre que juntamos as palmas de nossas mãos diante do objeto de nosso respeito, temos de refletir profundamente para saber quem somos e quem é a pessoa sentada diante de nós e diante da qual estamos dispostos a nos inclinar. Rezo. As crianças fazem barulho, mas agora dá pra sorrir junto com elas. E, quem sabe, se sentir um pouco menos só.

Então, uma vaca cai do céu. Um bebê é deixado na sala da casa de um prestamista. O outro irrompe na vida de alguém. Como operar, aqui, com bênçãos desconhecidas? Como nos desacostumar às trancas e acreditar que todo o sem sentido, que teimamos colecionar, talvez possa ter algum sentido, e aquilo que até então parecia um castigo ainda possa guardar algum qualquer milagre? Que rima deveria se pôr aqui? Por fim, tomo um táxi. Vou pra casa. E esse algo que sempre se crê desperto, dorme. E no fim de tudo, continuo a sonhar.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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15
jun
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Harmonia

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Harmonia, por Jaime Medeiros Jr.

Às vezes nossas palavras soam falsas. Dizes, mas algo se interpõe entre tu e quem recebe tuas palavras ou interpreta teus atos, pois tudo acaba por passar por aquele último crivo que identifica [põe a etiqueta] no que se percebe do mundo: “presta” ou “não presta’. De outro lado é interessante que também posicionamos a todos os nossos  contemporâneos dentro de determinadas categorias de convivência,  aos quais acabamos por distribuir também dentro de determinado número de etiquetas: parceiros, amigos, conhecidos, aqueles de quem temos raras notícias e outras que tais.

Aquele crivo final posto às coisas e atos que coletas durante o dia e que por fim determina o teu juízo destas mesmas coisas parece funcionar muito bem quando as etiquetas que puseste em teus contemporâneos estão bem consolidadas, mas não tão bem quando aquele com quem contracenas inda não foi conduzido definitivamente, ou ao menos temporariamente, ao universo de uma determinada etiqueta. Pois tu não sabes ainda bem onde colocá-lo, ou porque ele é realmente de difícil classificação, ou porque está se estabelecendo um processo de aproximação ou distanciamento entre vocês e tu já não sabes bem em que categoria hás de situá-lo.

Exemplo: tu vens caminhando em um domingo qualquer da tua existência, meio desprevenido de intenções, meio tomado de considerações a respeito de coisas das quais já não lembras mais, mas que naquele momento te pareciam importantes o suficiente para pô-las na ordem do dia. O sol bate em teu rosto, a luz te acorda, não de todo, para o mundo. Lá na frente está vindo alguém, e tu estás indo, vocês estão obrigatoriamente em rota de colisão. Em determinado ponto do percurso tu percebes que aquele alguém a se aproximar, o qual automaticamente tu já classificaras como um belo espécime feminino, também era teu conhecido. Segues adiante tentando lembrar donde tu a conheces. A colisão se estabelece. A moça está quase roxa de vergonha, o teu olhar a desconcertara. Tu também te desconcertas quando percebes que há alguém ao lado dela, em quem tu simplesmente não puseras atenção, pois que tinhas sido consumido pela necessidade de achar uma resposta àquela questão. Ela não está só, e sim acompanhada do amigo do teu amigo. A porcaria está feita. Como tu te explicas, tu que vinhas absorto naquela simples e singela questão: de onde conheço esta moça?  A questão muda de imediato, e agora passa a ser: o amigo do meu amigo é meu amigo? O problema é que nem sempre se tem uma resposta positiva para este tipo de questão e nem sempre sabes a qual categoria pertence o amigo do teu amigo. Deste modo, o diálogo trava. Mas tudo tem de passar pelo último crivo. E por certo, o amigo do teu amigo, ao menos por algum tempo, há de tecer considerações nada louváveis a teu respeito, dizendo: esse cara “não presta”.

Outro dia, algo de semelhante aconteceu. O amigo de um amigo, que inda não sei onde colocar dentro daquelas várias categorias de convivência, fala sobre como universos diferentes que parecem correr de modo paralelo [imagem e som, fotografia e música por exemplo] tem pontos de contato. Eu bato no ombro dele e digo rindo, gostei, paralelos que tem ponto de contato. Ele me olha de viés. Leio nos olhos dele: estás me tirando? As circunstâncias não permitem explicações. E nestes momentos quanto mais explicações, mais ruído. Menos comunicação. Aprendi nos últimos dias que harmonia e talvez seja exatamente esta a ideia a que ele [o amigo do amigo] está se referindo é o contato sincrônico e vertical entre duas ou mais linhas melódicas. Mas no momento eu ri [o que pode significar um riso?], não por um qualquer desapreço pelo comentário, mas pelo exato contrário. Aquela asserção me lembrara Nicolau de Cusa a nos ensinar:  dentro de parâmetros infinitos,  reta e curva são a  mesma coisa,  o que a mim sempre pareceu significar exatamente o que ele [o amigo do amigo] disse,  as paralelas têm pontos de contato entre si.  Mas sempre temos um crivo por que passar. Vai tentar te explicar pra ver o rolo que dá. O melhor é esperar um novo momento, e ver se o acorde se produz, mas quem há de saber?

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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06
abr
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr: Apontamento nº 2

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Apontamento nº2: das qualidades [com uma pequena digressão sobre o zodíaco tropical], por Jaime Medeiros Júnior

 

O mapa astral, como qualquer criação humana, é um construto cultural. Estamos aqui interessados em discorrer sobre os fundamentos de sua arquitetura. Em nosso primeiro apontamento falamos sobre os 4 elementos, porque provavelmente sejam o mais importante fundamento da abordagem astrológica do universo. Hoje falaremos sobre as 3 qualidades que compõem juntamente com os elementos, porque lhes dão novo colorido, a base para se erguer o zodíaco, ou seja, o ciclo zodiacal.

O zodíaco é uma abordagem tradicional do universo. Essa abordagem, ou seja, as escolhas que foram feitas por nossos pais para compreender o universo, baseia-se na construção do zodíaco a partir dos 4 elementos [fogo, ar, terra, água] e das 3 qualidades destes elementos. Desta combinatória de 4 e 3 resultam 12 signos. Então os doze signos, antes de chegarem ao céu, estiveram, isto sim, no coração e na mente de um observador terrestre. Portanto, o zodíaco não é nada mais do que um construto, um mecanismo mental, um instrumento de observação do céu, um instrumento em busca de certas regularidades, que nos garantam certa previsibilidade de eventos. Quem foi este observador? Foi aquele que intuiu que o tempo, pra além de sua marca de continuidade, tinha também especificidades, tinha um espírito. Este observador sabia que o tempo de semear era diferente daquele de colher. E como ele estava interessado em regularidades, e o tempo que tinha para observar o céu era o que se comprimia no tempo de uma vida humana e os fatos observáveis que lhe interessava prever eram: qual o momento mais proveitoso para darmos consecução às mais comezinhas atividades humanas [plantar e colher, amar e deixar de amar, quando coroar o rei, quando começar um novo projeto]. Desta forma ele escolheu projetar aquelas 12 novas categorias de abordagem de todo e qualquer ciclo, produzidas por aquela combinatória, sobre o ciclo anual fruto do movimento de translação da terra em torno do sol [desde que aceitemos a navalha de Ockham, que determina que devemos preferir a teoria que for capaz de explicar um mesmo fato usando-se de maior economia de hipóteses], mas que naqueles tempos pré-Ockham-Copérnico-Kepler foi entendido como derivado do giro anual do Sol em torno da Terra por uma região do céu em que o Sol  parece transitar durante o curso de um ano [a eclíptica]. Essa faixa imaginária de espaço foi escolhida, exatamente pela possibilidade de se observar determinadas regularidades conservando-se estritamente dentro do espectro de vicissitudes que podem suceder no decorrer de uma vida humana, que parecem estar relacionadas a certos eventos celestes gerados em consequência dos movimentos do Sol, da Lua e dos planetas dentro desta faixa de céu [exceção feita aos ciclos daqueles planetas mais distantes do Sol – Urano, Netuno e Plutão – que extrapolam o breve tempo de um homem (Urano hoje parece já começar a caber dentro do tempo de uma vida humana) que parecem ser mensageiros de um tempo de outras estrelas, um tempo de outras galáxias, e que desconhecíamos quando da construção da teoria astrológica].

David Hamblin, em seu livro mapas harmônicos, nos faz perceber que o mapa astrológico é o produto resultante de determinados números, que aqui chamaremos de as matrizes da estrutura do mapa. Tradicionalmente no Ocidente escolhemos como matrizes, há milênios, o três e o quatro. O que produziu um zodíaco com 12 signos. Teoricamente poderíamos ter escolhido, ou vir a escolher, outros números para observar aquelas regularidades [e aqui bem suspeito que esta escolha se deva por quanto na linguagem simbólica dos antigos, o 4 representasse o espaço – os 4 cantos do mundo – e o 3 o tempo – passado, presente e futuro; ascensão, apogeu e queda – vale  lembrar que o tempo do qual se trata em astrologia é quase sempre circular, qual seja, um ciclo]. O que por certo produziria outros zodíacos. E provavelmente um modo diferente de olhar o céu. Talvez pudéssemos entender isso comparando à situação do pescador que sabe que o tamanho dos peixes que pescará é já determinado pelo tamanho dos orifícios da malha que ele por ventura venha a escolher para jogar ao mar. Digo então que teríamos muitas astrologias possíveis, bastando construir novos instrumentos, a partir de outras matrizes. Por outro lado, creio pouco prático este tipo de experimentação, pois deveríamos nos desfazer de boa parte do conhecimento astrológico observado por milênios.

Vale lembrar: o modelo astrológico tem vários ciclos [rodas] superpostos. Mas no caso do mapa erguido para o nascimento de uma pessoa, fundamentalmente estão representados o ciclo dos signos [zodiacal], e o das casas. Temos ainda a roda das constelações, que tem seu lugar na abordagem do universo, mas aqui os ciclos já extrapolam em muito o tempo de vida do homem, este ciclo trata não da minha ou da tua vida, mas sim da vida do nosso pequeno planeta que vive e mora em um dos cantos daquilo a que aprendemos chamar Via Láctea, os ciclos giram em torno de 2000-25000 anos. Portanto pouco servindo para orientar nossas vidas.



Depois de toda essa digressão retornemos aos fundamentos. Quais são estas 3 qualidades ? Temos a qualidade cardinal, a fixa e a mutável. Que são responsáveis por criar pequenos ciclos dentro de cada um daqueles nossos 4 elementos. Ciclo composto de três fases [ascensão, apogeu (platô) e queda]:

A Cruz Cardinal [Áries, Câncer, Libra, Capricórnio] [aqui os signos foram dispostos sobre os pontos cardeais, que devem ser entendidos como o início de cada estação (um quadrante do mapa – o que é interessante, pois mais uma vez espaço é usado para significar tempo)]: No eixo horizontal [que no caso dos cardinais se confunde com o horizonte] desta cruz onde Áries [o eu-pulsão, espontaneidade, instintividade, lutar ou correr] confronta Libra [o outro – contenção, normas de conduta, educação, diplomacia]. No eixo vertical Câncer-Capricórnio [que neste tempo dos inícios se confunde com o meridiano local] onde Câncer [a tradição no que tem de conforto, de colo, de lar, de família e de mãe] confronta Capricórnio [a tradição no que ela tem de obrigações, de trabalho, de ter de deixar o colo, de esforço, de Estado e de pai].


A cruz fixa Touro, Leão, Escorpião, Aquário: [aqui estão os segundos signos no decorrer de uma estação, é o tempo de consolidação da mesma estação, é estação no seu auge]. No eixo Touro-Escorpião: Touro [assimilação, agarrar, pertences, valores] confronta escorpião [eliminação, largar, a necessidade de deixar ir, a necessidade de transcender, de transformar e inevitavelmente de morrer (se deixar ir)]. No eixo Leão-Aquário: Leão [expressão pessoal, uma máscara, o ator, a juventude, o rei no que tem de arrogância e generosidade] confronta Aquário [um rosto, o diretor (?), os nossos amigos que por vezes nos mostram seu rosto, a velhice-experiência, o sábio no que tem de superação da arrogância através da diminuição de si mesmo em prol da humanidade].


A cruz mutável Gêmeos, Virgem, Sagitário e Peixes, conforme diz S. Arroyo: [com estes signos se encerram as estações, é tempo de avaliação – aqui buscamos compreender, traçar relações, avaliar, ponderar, pesar ganhos e perdas quanto ao que se viveu durante a experiência daquela estação]. No eixo Gêmeos-Sagitário: Gêmeos [curiosidade, capacidade de relacionar ideias sem obrigação se preocupar com um status de verdade, o advogado que tão bem pode defender quanto acusar] confronta o sagitário [que como um juiz tem de se guiar não tanto por seus interesses, mas sim tentar sintetizar tese e antítese em uma sentença, que deverá tomar um caráter de verdade; tentar dar uma direção, um sentido ao conhecimento]. No eixo Virgem-Peixes:  Virgem [que mais propriamente discrimina, avalia, pesa, mede, compara, cataloga, coleciona, põe as coisas dentro de suas caixinhas, separa conforme categorias] confronta Peixes [que bem melhor equaliza, vê o que é semelhante nos diferentes, tende a dissolver os limites e tenta abarcar o todo, o universo, o uno].


E, assim, é a simples resultante desta combinatória que a cada quadrante do mapa [equivalente a uma estação] irá distribuir os signos sobre a eclíptica sempre na ordem: cardinal, fixo e mutável. E que a cada terça parte do mapa disporá os signos na seguinte ordenação: fogo, terra, ar e água. Eis o zodíaco. Muito mais fruto da terra e do coração do homem, que bem soube urdir relações, do que das constelações e do céu.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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25
ago
10

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Trânsitos fortes de Netuno

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Trânsitos fortes de Netuno, por Jaime Medeiros Jr.

O senhor das encruzilhadas. O senhor das escolhas. E não te enganes não, o senhor dos modelos, te reconhece e te descobre por trás dos olhos de um espelho.

Não te preocupes. Ando assim, com uns trânsitos fortes de Netuno. Por fim espero que tudo ainda se encaixe.

Ontem lembrei. Depois de ter lido os livros sobre mitologia grega do professor Junito Brandão, me encantei com episódio de Polifemo e Odisseu, um dos vários que acontecem durante a sua volta para casa. Chegando à caverna do cíclope, Odisseu e doze de seus nautas encontram muito queijo e ovelhas, aguardam o dono, que por certo deveria demonstrar-lhes alguma hospitalidade. Se enganam. O ciclope os descobre e pretende devorá-los. Odisseu usando de sua astúcia habitual acaba por vazar o único olho do ciclope. Conseguindo deixar a caverna. Quando os outros ciclopes querem ajudar Polifemo o questionam se alguém tinha lhe feito algum mal, ele responde, “Ninguém”, pois assim se lhe tinha apresentado Odisseu. A história é curiosa. Pra mim ganhou inda um tanto a mais de importância quando consultei a etimologia de Polifemo [Dicionário Mítico-Etimológico –Junito Brandão – Vozes], e descobri significar “o famoso”, o cheio de fama. Homero então está a nos dizer que é ninguém quem fura o único olho da fama e a faz cega. Muda-se da visão de um único olho, sem profundidade, para a cegueira. Resta saber se no universo homérico não enxergar, ser cego, se alinha com o ignorar, ou com ver verdadeiramente, ver o que realmente importa. Lembremos, por exemplo, que quem fala no mundo inferior a Odisseu e com quem ele realmente queria falar, Tirésias, também é cego e sábio. Mesmo Homero, acreditando-se na sua existência, é cego. Deste modo talvez devêssemos entender o ato de Odisseu como terapêutico.

Noutro nível poderíamos dizer que aquilo que a fama e o reconhecimento público geram de acomodação e superficialidade é vencido somente pelo joão-ninguém que nos são as novas ideias. E se quisermos interpretar talvez possamos ir derramando indefinidamente sabedorias infinitas sobre este único episódio da Odisséia. Onde iremos parar assim o fazendo, não sei. Mas isto é o que se propõe a fazer a tradição com aquilo que ela convencionou chamar clássicos.

Ontem acabei o quinto passeio pelos bosques da ficção [Eco]. Onde o autor demonstra que apesar da possibilidade de infindas interpretações de um texto, estas interpretações têm de obedecer certas regras, certos limites para serem verdadeiras. A principal delas é que não podemos contradizer à história. Se eu teimar em dizer que Romeu e Julieta não morreram, se casaram e foram felizes por um tempo e que depois o seu casamento caiu na mesmice, a minha interpretação pode ser muito perspicaz, mas não é verdadeira. No final deste quinto passeio Eco lembra Heráclito, “o Senhor cujo o oráculo está em Delfos não fala nem esconde, mas indica através de sinais”, o conhecimento que buscamos é ilimitado porque assume a forma de uma contínua interrogação.

Polifemo é filho de Netuno/Poséidon. E no final daquele episodio roga ao pai para que se vingue por ele. O que torna o retorno de Odisseu muito difícil. Várias escalas, muitos perigos a ser enfrentados para apenas e tão somente tornar à origem.

De Polifemo temos também outro episódio. Quando se apaixonou pela bela ninfa Galatéia, que o desprezou, visto estar caída de amores por Ácis filho de Pan. Muitos afirmam que isto teria levado a que o ciclope num arroubo de ciúmes matasse Ácis, esmigalhando-o com uma pedra. Teócrito insiste que não, e que ele teria resolvido se dedicar a arte das musas. Neste ponto sempre quis uma fonte que esclarecesse qual é o primeiro destes dois episódios. A lógica nos indicaria que o de Galatéia deveria ser o primeiro, afinal de contas aqui não se cita o fato de sua cegueira. Mas nem tudo é logico em um mito, quem nos garante que Polifemo por um artifício dos deuses não tenha recuperado a visão. O que me fascina aqui é acreditar que, se o relato de Galatéia for posterior ao da Odisséia e em admitindo-se o final de Teócrito, a cegueira possa ter sido um bom remédio para o nosso ciclope. Mas, isto tudo, talvez não passe de uma mera superinterpretação, aposta à história pelo hábito de ofício de um pediatra, que simpatizou com este ciclope feio e desajeitado.

Então chegamos ao ponto de desenlace e talvez devêssemos lembrar o início, de onde partimos, quando ainda nada sabíamos do caminho a ser percorrido. Agora podemos perceber, as perguntas já estavam ali, o que nos obrigou, por fim, a avançar um pouco mais neste caminho sem igual, feito desta profundez que nos espia trás o espelho.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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05
ago
10

Aconteceu na Palavraria: sarau das oficinas Ronald Augusto

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Agora à noite, Maria da Graça, Loiva Serafini, Jaime Medeiros jr, Deisi Beier, Liana Sinara Marques, Antonio Lamberti e Jackeline Brum Gay – alunos das Oficinas de Ronald Augusto – reuniram-se ao mestre na Palavraria para leituras de poemas e confraternização. Fotos do evento.

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14
jul
10

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Bright Star

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Bright Star de Jane Campion, por Jaime Medeiros

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Revi Brilho de uma paixão. Filme de Jane Campion sobre o poeta John Keats. Conta-se aqui a história do amor de Keats e Francis Fanny Brawne. O filme nos leva vagarosamente a história desse amor vivido em pleno romantismo inglês. Saio pensando, que época esquisita para se amar. Num segundo momento repenso, que forma esquisita de se sentir. Talvez este amor esquisito [onde se escolhe alguém para se adorar], seja muito mais um mentar esquizo do que um problema de época.

Algumas falas que esclarecem muito. Keats diz a Frances, mais ou menos assim: não tenho certeza dos meus sentimentos quanto às mulheres, desconfio deles. Isto depois de se confessar atraído por ela. Logo depois ele tenta lhe explicar como ler um poema: é como se faz ao entrar em um lago, não se pensa tanto em nadar para atingir a outra margem, e sim, o que interessa é sentir e brincar em suas águas, comprazer-se de estar ali. Ler [entender] o poema para um romântico é menos interpretação e mais se deixar ir com ele.

Keats aqui está diante daquele doce embaraço, que acena com mistérios a quem os queira deslindar. É esse desconforto que promete, pois tudo é só promessa, só se alcança o furor divino enquanto não se toca, mas enquanto se almeja tocar. Trilhar caminho é mais importante que chegar a algum lugar.  Se está, por certo, dentro do âmbito do empirismo inglês, mas o experimento que aqui se faz, não participa de um meio controlável, e tampouco é reprodutível. Pois aqui, o que se quer experimentar, é justamente o que se alça, o que não se pode controlar, feito engenhosidade, a engenhosidade dos interstícios, a engenhosidade dos sonhos, que é capaz de criar um mundo à parte. Onde só eu e você possamos habitar.

O que se me dá a esta altura, é que talvez tenhamos passado de uma postura invocatória (um rogo) a uma evocação (um lembrar), quando resolvemos querer nos entregar aos citados mistérios do amor. Mudança compatível com o tamanho de nossas perdas, pois já não podemos crer nos deuses, mas certamente conseguimos ainda lembrar daqueles que assim, como deuses, queriam viver. E assim se amplia o espaço reservado àquilo que em português bem podemos chamar saudade, que é um sentir falta, que hoje muitas vezes já é um sentir falta não sei bem de que.

Se o romantismo leva inexoravelmente ao romper dos vasos. Pois um deus não se comprime assim como um gênio dentro de uma garrafa. Contudo ali ainda se tinha uma direção, pois mesmo que por um breve instante, inda se partilhava uma visão, se via pra além dos fatos, tinha-se algo porque viver. Hoje já não significamos mais nada, trocamos os ritos por arranjos, vivemos só de memória e com um medo tremendo de nos esquecer.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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30
jun
10

Prosa ligeira – Jaime Medeiros Jr: uma cantilena…

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Uma cantilena ou um texto frouxo que se quer dizer, por Jaime Medeiros Jr.

fôssemos pensar
das laranjas o gosto
comeríamos pouco doutras coisas
e por fim
diríamos palavras que não se comem
e que nada sabem do que nos toca a língua


Tocar o mundo com nossas palavras parece impossível. Imaginar que saibamos algo em nossa experiência, que possa ter o numen por objeto, e não o fenômeno, talvez seja só vã esperança. Então, como viver em meio aos outros sem aceitar que a vida é ilusão e nossos diálogos uma conversa de doidos?

Nasci de pai e mãe. Sobrevivi ao canal de parto e às intempéries dos tempos do início. Superei a infância e a adolescência. Estudei. Tomei ciência da língua. Trabalho. Retomo a língua, agora não mais como um instrumento de investigação das coisas, mas como coisa, coisa por demais minha e que aqui te ofereço em sacrifício. Coisa que fabrico em pequenos sortilégios.

Agora é só administrar o presente. Impor-se a tarefa de costurar os retalhos. E não se esconder embaixo da estória que resolveste contar. Sei que em mim me caibo, mas quanto tráfego, quanto sim com vontade de dizer não. Quanta imprecisão no me dizer.

Hoje, flores no caixão de minha avó. Palavras, aos montes, de pintar o que era com o que deveria ter sido. Palavras de confiança impotentes ante o abismo. Nem tudo é circo, algo cala, se pôs tampa sobre a existência de um corpo que se desfaz. Assim se o guarda junto aos ossos da família. Tentando se ocultar do medo que dá ao ter de se enfrentar o que não se sabe.

Depois, um fio condutor feito de histórias próprias narradas e incentivadas para que o sejam e que faz risos nos rostos de meninos e meninas da periferia de São Paulo. E mais uma lágrima, antes de apagar o que se vê, insiste em se interpor aqui entre eu e você. Entre nós, que nos acostumamos a habitar o espaço exíguo das nossas expectativas e onde, no fim do dia, ainda há de se adormecer. [Obrigado amigo Canellas, sempre é bom te ver. Brasileiros do dia 24/06/10, rede Globo]

Era uma vez um menino, ou noutra versão da história um pequeno jacaré, que ao ver a luz da lua refletida sobre as águas da lagoa, se apaixona por/quer aquela imagem. Quando tenta tocar/comer aquela luz não consegue, a luz sempre está um pouco mais além. O fim da história todos podem já supor, um se afoga, o outro engole água de montão e logo descobre, se ilumina, luz mata ou nos faz viver.

Seria interessante visitarmos agora o meu amigo Marcos Fernando Kirst, que tão bem sabe falar de fantasmas, que suas palavras parecem capazes de nos fazer tocá-los: A imaginária presença entre eles do já falecido avô do avô e do ainda não nascido neto tornou-se, por um instante, como que real em seu pensamento, e impressionou-se com os fantasmas que criava. Saltava assim, desordenadamente, de uma imagem a outra, naquela atenção dispersa, própria de quem decide libertar a mente para vagar sem rumo. Falava o avô e ele sentia prazer em compartilhar a cuia do chimarrão e nada fazendo senão ouvindo e voando. Sorvia ensimesmado o mate escutando o avô fazer prenúncios de chuva e acompanhava o passeio da cuia de mão em mão entre todos os presentes, imaginários e reais, àquele surreal encontro. Via o seu futuro neto recusando a cuia que lhe oferecia, pois era ainda muito jovem para apreciar a água na temperatura que agradava ao avô do avô. Largava-se ao devaneio com o mesmo torpor de quem se deixa embriagar por uma sucessão de cálices de vinho. Não mais discernia as palavras do avô; apenas embalava-se ao som contínuo e abafado do timbre forte de sua voz e se perdia cada vez mais na loucura que engendrava naquela onírica tarde de feriado, invocando fantasmas passados e vindouros. (Dois passos antes da esquina, Marcos Fernando Kirst, Ed. AGE).

Aqui, então, a gente chega a se desconstituir, a se desinformar. E pondo-se em um ponto a gente se infla de considerações quanto ao trajeto a ser feito. E se traça o curso a ser percorrido, feito de infinitos, intensivo e extensivo, indo-se além do que se pode resolver. E como já acusava o cusano, mesmo que te pareça estares indo por um caminho reto, ele pode entender que tudo, mas tudo mesmo era só um arco desta circunferência infinda, onde o centro pode ser você.


fôssemos pensar
das laranjas o gosto
comeríamos pouco doutras coisas
e por fim
diríamos palavras que não se come [um deslize –
com consciência donde se está]
e que nada sabem do que nos toca a língua.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Colabora no blog Filhos de Orfeu e mantém o blog de crônicas Tênues Considerações.

A prosa de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.




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