Posts Tagged ‘Jaime Medeiros Júnior



18
jul
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Da inocência do pombo ou Das trocas

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Da inocência do pombo ou Das trocas, por Jaime Medeiros Júnior

Todorov parece nos demonstrar quanto Colombo foi incapaz de se libertar do sistema de valores Europeu ao cambiar com os ameríndios. Talvez disto tenham advindo as suas observações contraditórias, quanto aos homens cujas terras acabara de descobrir, que para ele eram ora covardes, ora valorosos, ora tolos e generosos [afinal trocavam ouro por miçangas], ora maus e mesquinhos. A Europa fundada nos valores da caridade e da humildade cristãs parece ter optado pela penúria, pela pobreza que reduz o universal ao relativo do seu sistema de trocas. Pois como não haveria de se admitir que ouro vale bem mais que miçangas?

Como saber agora da dor de quem sente? Os manuais de semiologia orientam inspecionar, questionar e palpar. Devendo-se também, se necessário e possível, usar de outros recursos que não só o exame clínico. A criança ainda não chegou aos cinco anos, e portanto ainda não domina totalmente o poder da palavra, ainda não virou gente grande, e, por isso, ainda não sabe mentir. Os manuais especificam as perguntas a se fazer: perguntas referentes a quando e a quanto tempo e se a dor é como uma agulhada, se queima, se torce, ou se tão-somente dói. Depois palpa-se e procura-se na face algum sinal de dor. Mas nem tudo se reduz a um sistema, e há ainda algo mais nas palavras, que vai mais no modo com que se diz e se escuta a dor de quem sente. E deste modo já não se consegue separar bem o que é ouro do que são miçangas.

Por fim, como conviver sem compreender o ouro que trocamos entre nós? Conviver com o outro que nos oferece tudo que nos é capaz de ofertar. Amizade. Ou algo que se finge de, mas que morde sempre que se vira as costas. O triste, quando isto acontece, é o quão insuperável é toda essa situação, nem a inocência é capaz de redimir. Pois quando não compreendo o real valor das miçangas que dou e espero ouro em troca, já não é comércio o que faço, senão a usurpação cínica [coitados dos cães que nada tem que ver com isso] do outro. Mas toda verdade ainda há de estar no jeito de se dizer, algo meio como a criança, que ainda não nos sabe mentir.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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05
jul
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das perguntas

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Das perguntas, por Jaime Medeiros Júnior

Estás aí? E a pergunta sai em busca dela lá pras outras bandas do google talk. A estas alturas ele já desistiu de escrever certo. Os erros povoam a tela, devido às mínimas teclas do teclado qwerty do seu celular, incompatíveis com o gordo de seus dedos. Bah pareço meio leso! É o que ele se diz. Mas não desistiu de conversar. E no grande trânsito de falas e escutas acaba-se sempre por se perguntar. Estás aí?

Depois, Sócrates, respondendo a Fedro, diz: se, a exemplo dos sábios [hoi sophoi] eu não acreditasse, não seria de estranhar. Referindo-se a todas as tentativas, igualmente quiméricas, de explicar as quimeras, os centauros e os pégasos de que se engendra o mito. Mas não tinha muito tempo a perder com tais teorias, pelo simples motivo que ainda tentava conhecer a maior de todas as quimeras – Sócrates.

Logo em seguida Platão põe um elogio a Fedro na fala de Sócrates, que afirma ser Fedro um ótimo guia, desde que havia lhes descoberto um belo e aprazível lugar para que pudessem conversar. Em contrapartida, e apesar de estarmos em Atenas, Fedro diz: e tu, oh Sócrates, pareces um estrangeiro, pois que se põe a seguir um guia.

Este estás aí? é também um pouco isto; o ter confiança num guia. Que em toda conversa há de ser bem mais a pergunta que se faz, pergunta que há de sempre supor alguém lá praquelas outras bandas pra além donde se está. Portanto em toda conversa há algo de fé.

Nesta última segunda-feira, o mestre Arthur Telló acabou por me tornar ciente de mais um dos tantos motivos de se conceber Sócrates como um dos grandes mestres da erótica. Em grego as raízes do verbo perguntar e do verbo amar [no sentido de amor sensual de outro] são semelhantes, ou talvez, como entendem alguns, uma devendo ter se derivado da outra.

Perguntemos agora junto com Sócrates, ou mesmo às quimeras e com as quimeras do mito – que, se não outra razão houvesse, haveria ainda o sonho, a dedicação, o maravilhamento e mesmo o aborrecido tédio de alguns teóricos que por mais de 2000 anos escutaram e depois leram o mito – estás aí? Pois que, perguntar, também, há de ser amar.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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05
maio
12

Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 04/05: Lançamento do livro Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior

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Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 04/05: Lançamento do livro Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior. Fotos do evento.

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03
maio
12

Vai rolar na Palavraria, nesta sexta, 04/05: Lançamento do livro Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior

program sem

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04, sexta, 19h: Lançamento do livro de crônicas Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior. (Ed. Modelo de Nuvem)

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Neste “Retrato de um tempo à meia-luz”, segundo livro de Jaime Medeiros Júnior, o autor nos apresenta a qualidade característica de sua prosa em textos curtos que versam sobre a própria literatura, a filosofia, a memória, a infância e o tempo. Sempre inquieto em relação à discutível necessidade de classificar e enquadrar em gêneros predeterminados aquilo que se produz, Jaime encontrou no termo “prosa ligeira” a melhor saída para abrigar sob um guarda-chuva temático o teor e o estilo dos textos que reúne neste livro. Basta começar a leitura para ingressar em portas destinadas a conduzir o leitor a uma experiência literária singular, em que o prazer de ler se harmoniza com a reflexão proposta pela absorção de novos vieses sobre o que nos circunda, gerados a partir da voz de um prosopoeta. O cronista Jaime Medeiros Júnior canta e ouve a cadência do mundo. Misto de flanêur e de peripatético (esse um que não pretende ensinar, mas sim aprender andando, passeando) que folheia aos nossos olhos o seu jornal íntimo, crítico da pósmodernidade, e que se vê implicado nela, e nos observa.

Do Sócrates do Banquete ao Eco dos bosques da ficção, da desconfiança com verbetes só aparentemente banais ao sonho de Santo Agostinho, do mistério de brincar às possibilidades da literatura, lá vai Jaime ser gauche, com suas sacolas enganchadas cheias de memória e delicado espanto.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou em 2008 o livro de poesia Na ante-sala. Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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Ficha Técnica:
Livro:
“Retrato de um tempo à meia-luz”
Autores
: de Jaime Medeiros Júnior
Editora
: Modelo de Nuvem
Crônicas
Preço
: R$ 28,00
Nº Páginas: 152

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04
abr
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das causas, dos galináceos e do sentar

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Das causas, dos galináceos e do sentar, por Jaime Medeiros Jr.

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Recentemente relendo o Fédon me deparo com Sócrates a confessar, um pouco antes de tomar do phármakon, que tinha na juventude se empolgado com os ensinos de Anaxágoras, que afirmava que a causa primeira de tudo era a mente, mas que ao se debruçar sobre o livro de Anaxágoras acabara por se decepcionar profundamente, pois o sábio simplesmente arrolava explicações sobre os fenômenos naturais utilizando-se das explicações de praxe, sustentando que a matéria tinha sua causa nos elementos [ar, água e terra]. E nenhuma explicação sobre os princípios ordenadores das coisas. Desde então resolveu manter o foco nestes princípios [as ideias], pois agir como Anaxágoras lhe parecia ser como aquele que ao tentar explicar porque Sócrates estava ali sentado naquele momento, viesse a tentar explicar o fato imputando aos músculos, aos tendões e aos ossos de Sócrates a causa de ele estar ali. Pois que este modo de pensar parecia esquecer que a causa de Sócrates ali estar era ele [Sócrates] ter escolhido cumprir a lei da cidade, se furtando de aceitar as oportunidades de fuga que lhe foram oferecidas. E, aos que o criticassem dizendo que não tivesse ossos, músculos e tendões não estaria ali sentado, ele responde: sim, certamente, isto é uma condição necessária, mas não a causa.

Seguindo um pouco mais nos defrontamos com a moderna tendência a entendermos como explicações suficientes de um fato a descrição de seus mecanismos de funcionamento. Por exemplo: argumentamos que uma experiência qualquer de realidade pode ser reduzida a tal e tal ambiente bioquímico cerebral. Isto parece não ser outra coisa senão o dizer que Sócrates ali está sentado porque é detentor de músculos, tendões e ossos que assim lhe permitem estar.

De outro lado, temos, por exemplo, a tentativa de explicar um bom poema [outros diriam o poema, pois se não for bom não é poema], pelas muitas partes possíveis de se isolar na análise do poema: ritmo, métrica, assonâncias, paralelismos, etc. Partes que, se bem ajustadas, por si próprias facilitariam a que atingíssemos o bom poema. Um poema bom não é senão um construto bem equilibrado. Parece que aqui estamos novamente a utilizar o mesmo tipo de explicação. Qual seja? Confundimos uma condição necessária com a causa.

Talvez, como no caso da galinha dos ovos de ouro, estejamos buscando, queiramos simplesmente nos apropriar da origem das nossas riquezas, abrindo o ventre da nossa ave poeteira, a qual, em nossos dias, bem não deva passar de galináceo comum, do qual contamos com os ovos para o nosso jantar.

Há, sim, algo invisível, que parece pousar sobre o poema, que o faz vivo. Aqui talvez coubesse lembrar a diferença que faz Otávio Paz entre poema e poesia, que talvez pudesse ser equiparada àquela entre o poema e o poema bom [ou o que para outros é a diferença entre poema e não poema], mas aqui se alarga ainda mais a diferença, pois este acontecimento que é a poesia não é exclusivo de um poema, mas pode se dar sim em qualquer uma das nossas manifestações artísticas [música, cinema, artes plásticas, dança etc.]. Deste modo talvez bem pudéssemos dizer juntamente com Sócrates [que sobejamente parece amar os poetas] que aqui talvez tenhamos atingido [lembrado] mais perfeitamente a ideia do belo. E sim, aqui é bem possível que o poema, sem o querer, acabe por nos ensinar o que é o belo. Ou dito algo ao modo do zen: não é o sentar [zazen] que nos assegura o Zen.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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21
mar
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Onde está Wally?

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Onde está Wally?, por Jaime Medeiros Jr.

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Que atrapalho pode ser ter de encontrar um dromedário em meio ao deserto! Toma-se então dum punhado de grãos de areia e deixa-se que escoe entre os hemisférios da rígida translucidez encontrada por preparo em vidro de um outro qualquer punhado do que outrora também denominou-se areia. Agora já se tem tempo de transformar existência em trabalho para procurar o dromedário. Mas cum grano salis, guardando-se a devida atenção, há de se escutar aquele grão de areia, que se situa a 77,639 centímetros ao norte donde fincou-se o primeiro pododáctilo do teu pé direito, a gritar assim: mas como esse idiota não percebe que eu sou totalmente diferente deste mar de idiotas que me cercam? Faz-se um pé de vento, a ampulheta cai. A rigidez do tempo esfacelada mistura-se a areia. Tentas colhê-la para que os pequenos cacos de rígido não possam fazer mal algum. Fere-te. Matizas de sangue outro punhado de areia. Um pouco de existência se escoa em dor. Alguns grãos se depositam em teu corte, e junto deles, o sossego inesperado de tua existência.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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10
mar
12

Jaime Medeiros Júnior, Relendo Drummond

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Relendo Drummond

Convidados pela Palavraria a escrever sobre Carlos Drummond de Andrade, escritores amigos da casa ensaiam dizeres sobre a obra do escritor mineiro. O poeta Jaime Medeiros Júnior, nosso cronista inaugural, abre a série.

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Mínima animália drummondiana, por Jaime Medeiros Júnior

Me coube escrever sobre Drummond. Me solicitaram. Aceitei, apesar de guardar um certo desconforto. Como cuidar de honrar a grandeza de Carlos sem se descuidar das medidas? Só mais recentemente consegui colocar Drummond em seu devido lugar [li Claro enigma].

Para não nos impor tarefa para além da que cabe em minha tresleitura do poeta, fiz um mínimo recorte, com a intenção de talvez topar com algo do DNA do autor. Por outro lado, correndo o risco de não conseguir enxergar a floresta em consequência de ter os olhos postos em uma única árvore.

Na Rosa do povo [1942], livro ainda tomado de um ativismo algo programático, vamos encontrar o primeiro daqueles grandes animais que compõem o par com que Drummond resolveu nos agraciar, pondo-os poemas. Nos diz: Fabrico um elefante/ de meus poucos recursos./ Um tanto de madeira/ tirado a velhos móveis/ talvez lhe dê apoio./ E o encho de algodão, de paina, de doçura. Animal feito da faina do poeta que pesquisa, que procura descobrir a partir de velhas matérias algo de novo no mundo ou de um renovo do mundo. Eis sua riqueza, feita de tão poucos re-cursos [possibilidade de voltar e dar novo curso as coisas] pondo algo de paina no enchimento, de doçura que garantam algo de delicadeza nos entrechoques com a vida. Enorme elefante que cuida de não pisar sobre nada vivo, apesar de se conduzir algo desajeitadamente. Esse amoroso fabrico que o poeta nos entrega ainda era um engenho, um mecanismo que se construíra da esperança diante de um mundo torpe. No fim do dia pouco sobra do seu elefante. Mas a essa altura Drummond ainda conseguirá dizer: Amanhã recomeço.

Nove anos decorrem. Vargas e Prestes se abraçam. Drummond concentra seu Áporo e faz seu Claro enigma [1951]. E nos oferta o segundo de seus grandes animais, embora menor e bem mais ao metro de um itabirano, o boi de O boi vê os homens. Carlos já nos diz nas primeiras três estrofes de Dissolução, primeiro poema de Claro enigma: Escurece, e não me seduz/ tatear sequer uma lâmpada./ Pois que aprouve ao dia findar,/aceito a noite/ E com ela aceito que brote/ uma ordem outra de seres/ e coisas não figuradas./ Braços cruzados./ Vazio de quanto amávamos,/ mais vasto é o céu. Povoações/ surgem do vácuo./ Habito alguma?/  Parece que o poeta aqui não está mais a combinar com aquelas anteriores mui grandes esperanças postas sobre o fazer. O seu boi toma um modo mais contemplativo e compassivo de falar das coisas: Tão delicados [mais que um arbusto] e correm/ e correm de um para outro lado, sempre esquecidos/ de alguma coisa/ … parecem não enxergar o que é visível/ e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. Drummond aceita a noite que percebe não só no mundo, mas também em si como coisa no mundo, de onde brota uma outra ordem de seres e coisas não figurados, que por fim obriga o boi a observar quão faltos de montanha são os homens em faina. Boi robusto firmemente posto sobre sua memória, e que se obriga, para dar bons tratos a digestão, a ruminar e ruminar e ruminar sua verdade.

E agora, em concordância com meu amigo Ademir Furtado, que nos explica que um rico parece não ser o mesmo que um pobre endinheirado. Aqui, entendo que Drummond parece querer ensinar o quão ricos de renovos podemos ser com tão poucos e simples re-cursos.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira e escreve quinzenalmente neste blog na coluna A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior.

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04
mar
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Das sandices literárias

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Das sandices literárias, por Jaime Medeiros Jr.

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O interessante ao fazer a inspeção das coisas do mundo é quantas vezes acabamos por nos redescobrir. Estas coisas não nos chegam sem perdas. Podemos muitas vezes manusear algum pequeno artefato. Rugosidade, cheiro, cor e outros recortes sensíveis da realidade auferidos pelos sentidos se perdem em meio às palavras da descrição de quem se propõe a nos revelar sua materialidade. Bem, se tivermos agora um objeto um tanto mais taludo, uma mesa, por exemplo, e resolvermos entregá-la a um bom punhado de observadores, para que nos descrevam aquele único objeto, acabaremos por aumentar vertiginosamente o nosso espectro de incongruências. Agora o nosso problema não mais se reduz as incapacidades da linguagem dar conta daquele pedaço de mundo, mas também porque as diferentes experiências frente àquele único real ainda hão de acabar se acotovelando. Que mesa haveremos de escolher? A do pintor de paredes ou a do pintor? Ou, quem sabe, a do marceneiro?

Agora, queremos, isto sim, compreender uma obra literária e não mais um simples artefato material. O nível de incongruências que haveremos de enfrentar certamente há de aumentar. Tomando-a como um mar, poderemos nos servir de um barco para que, singrando-o em sua superfície, possamos reconhecer  o máximo de sua extensão. Também, segundo os nossos recursos, poderemos submergir nas águas, atingindo maior ou menor profundidade conforme acabarmos por utilizar: um submarino, um escafandro, ou simplesmente descermos até onde o nosso fôlego humano aguentar. A obra Platônica, por exemplo: alguns comentadores dirão que, se quisermos entender Platão, Platão basta. Todo o Platão está contido nos diálogos. Já outros comentadores dirão de modo diferente: se quisermos encontrar Platão em sua plenitude, teremos de obrigatoriamente consultar outras fontes também, dentre elas sobretudo Aristóteles [divergências entre as hermenêuticas que se fundam em Schleiermacher ou na escola de Tübingen]. O que nos revela o nível de incongruências que acabamos por ter quando frequentamos a incrível variabilidade de interpretações de uma mesma obra literária.

Bom, como sandice pouca é bobagem, agora fomos acometidos de um tipo especial de doença. Temerariamente resolvemos perscrutar não mais um artefato material, não mais um “artefato” literário, mas sim, o próprio real. Não satisfeitos resolvemos ainda fazer literatura de nossas interpretações. Essa doença se manifesta na eleição de uma cartilha pessoal de interpretação do mundo [e aqui desconfio que no mais das vezes não escolhemos a cartilha, mas, sim, ela se nos impõe]. Somos realistas: acreditamos na supremacia dos instintos sobre o espírito e que invariavelmente deveremos tentar explicar o mundo a partir de suas bases materiais. Ou somos não realistas: poremos nossas fichas em crenças advindas do espírito, procuraremos símbolos e imagens que possam referenciar nosso ideal.

Aqui cabe lembrar como certos tipos de realismo acabam por entender como escapismo tudo que não lhe obedeça a cartilha [lembrar, por exemplo, que certos intérpretes da literatura latino-americana entendem que a literatura de Borges ou de Sábato não podem ser compreendidas como literatura latino-americana]. Este tipo de realismo, quer me parecer, está a sofrer de sua própria esquizofrenia, acreditando que o seu simulacro de real é menos simulacro do que o daquele que foi acometido pela doença da cartilha não realista.

Parece que toda abordagem que fizermos do real sempre há de padecer de um mesmo nó górdio. Quem observa não está apartado do mundo. Ele também é realidade. Alfred Tarski propõe como solução do problema do cretense [um cretense em Tebas diz: todo cretense é mentiroso] que se quisermos banir de nossa linguagem todas essas cobras que mordem o seu próprio rabo, deveremos construir para nossa linguagem-objeto uma metalinguagem, onde deveremos colocar todas as regras de ordenação da linguagem-objeto. Analogamente poderíamos dizer que não somos esta metalinguagem para a linguagem-objeto mundo, mas, isto sim, estamos inseridos no mundo. Ou dito ainda de outro modo, sempre há de nos faltar o ponto de apoio para alavancarmos o mundo. Portanto se há algum escapismo a que devamos temer não é o não nos vincularmos a uma interpretação realista do mundo, mas sim o não nos mantermos coerentes com nossa própria sensibilidade.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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15
fev
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Pequena nota desentranhada da leitura de Szlezak

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Pequena nota desentranhada da leitura de Szlezak, por Jaime Medeiros Jr.

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Recentemente topei com interessante passagem no livro Ler Platão de Thomas Szelezak comentando a crítica. Passagem que parece deixar claro o quão saudável, mesmo quando demolidora, pode ser a crítica, em alguns casos, mesmo que paradoxalmente, pode vir a fortalecer uma obra. Szelezak cita o caso de Homero que sofreu a crítica dos melhores dos pré-socráticos. Heráclito queria bani-lo dos festivais. Xenófanes zombeteiramente arguia que fossem os bois erguer imagens dos deuses e delas fariam bois. Os deuses homéricos eram demasiadamente homens.

Poderiam os gregos, já a esse tempo, pôr no lixo a Ilíada e a Odisséia? Parece que Homero já havia sido  instituído, era o mestre de uma civilização, os gregos vinham beber sabedorias nele, os filhos dos melhores aprendiam grego com ele. Como dizer, então, que ele nada mais valia?

Os gregos optaram por ler novamente Homero. E disto criaram formas de interpretação alegóricas de sua obra. Homero não dizia necessariamente o que queria dizer, a sabedoria precisava ser desentranhada do poema por novos aparatos interpretativos. O que, de um modo paradoxal, tornou Homero ainda mais importante.

E talvez aqui pudéssemos lembrar Propp ou Campbell, que afirmam que uma narrativa, ou a jornada do herói só poderão se realizar com a aparição de um antagonista. Uma obra literária parece muitas vezes também só alcançar seu destino através de uma fricção com inóspito território da crítica. O que poderá lhe obrigar a se conduzir por novos caminhos, cuidando de forjar novas leituras, mais convincentes para as novas mentalidades.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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01
fev
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Da disjunção à conjunção

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Da disjunção à conjunção, por Jaime Medeiros Júnior

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Como iniciar este texto? Apenas um segundo atrás, tinha pensado começar mais ou menos assim: perguntas sempre haveremos de tê-las! Já no instante seguinte discordei de mim. O certo é que volta e meia acabamos por nos pôr nos mesmos bretes.

Umberto Eco, em recente entrevista à revista Época, diz que a internet só serve àquele que já é detentor de conhecimento, e, portanto, sabe onde quer ir. Quem tudo desconhece não sabe procurar, e, portanto, vai ter em qualquer parte.

Isso me faz lembrar Calvino, o reformador, para quem a salvação não tinha parte alguma com a fé, ou sequer com o amor e suas obras, mas unicamente com a vontade do senhor. Deus já escolheu os justos e estes hão de ser salvos.

A universidade, sugere Eco, talvez devesse se ocupar de desenhar os filtros necessários para que aquilo que se tenha apreendido da internet possa ser transformado em conhecimento. Aqui, creio, cabe outra pergunta: existe algum mecanismo de uso universal e de fácil manejo que seja capaz de dar forma ao informe?

Platão parece ter entendido que não temos nenhum método seguro para atingirmos o conhecimento, senão, talvez, através do confronto com a aporia. Primeira das armas a se usar para nos livrarmos daquelas certezas que são não mais do que falsos conhecimentos. Somente Eros, o filho de aporia, é filósofo, ou, dito de outro modo, a aporia é mãe da filosofia. Do que talvez pudéssemos depreender que só após termos caído em aporia,  e tendo assim nos posto no mesmo estado tenso das cordas do arco, é que conseguiremos produzir novo disparo de nossa seta em direção a um novo saber, ou, tensos como as cordas da lira, quando poderemos produzir uma nova harmonia.

Lutero, de modo diferente de Calvino, acreditava que as virtudes teologais – fé, amor e esperança – poderiam ser um bom meio de atingirmos a salvação. A salvação para um cristão se daria através de sua fé em Jesus Cristo. Entendia Jesus Cristo como um modelo a ser imitado ativamente. O mesmo modelo, Cristo, também foi entendido em um modo contemplativo, como por exemplo, na Imitação de Cristo, de Thomas Kempis.

Creio, por isso – já que em algum momento temos de chegar à parte interpretativa deste nosso texto –  não por acaso Eco reproduz a dança do homem no ocidente, dança constante, que se produz no espaço entre as duas colunas do templo. A coluna do rigor, que perenemente nos condena a nós mesmos, e a coluna da graça que perenemente nos liberta. A cruz de Cristo é a transfiguração da aporia em mistério, que entende que estamos ali naquele ponto central de suprema tensão, entre as forças que nos querem fiéis ao alto e aquelas que nos querem próximas do mundo, e que nos constrangem a tentar envolvê-lo num abraço amoroso. Aqui passamos da disjunção a conjunção dos contrários. Lutero, talvez no seu maior comentário ao evangelho, por medo de que incorrêssemos em idolatria, arrancou o Cristo a morrer da cruz, e colocou uma cruz preta, ali, no centro de uma rosa branca, outros comentadores vieram, e colocaram uma rosa vermelha, bem ali no ponto central da cruz, o de máxima tensão, como um signo da vida que está sempre a florescer em toda e qualquer parte. E aqui talvez valha ainda lembrar Diotima, uma mulher, que lá naquela Grécia que hoje subpomos empedernidamente masculina, já esclarecia Sócrates, o qual nos faz o seguinte relato: O que então lhe disse foi mais ou menos o que Agatão acabou de afirmar: Eros é um deus amante das coisas belas. Ela contestou minha proposição ponto por ponto, como fiz neste momento com a dele, para mostrar que, de acordo com o meu próprio argumento, ele não podia ser belo nem bom. Nesta altura, lhe falei: “Como assim, Diotima! Nesse caso, Eros é feio e mau?”

E ela: “Não blasfemes! Pensas, porventura, que o que não é belo terá de ser necessariamente feio?”

“Sem dúvida.”

“E quem não for sábio, será ignorante? Não percebeste que há algo intermediário entre a sabedoria e a ignorância!”

“Que poderá ser?”

Neste ponto, Platão parece afirmar Eros como a eterna presença de um terceiro na cena universal do embate dos opostos. Aqui invito, a quem interessar possa, deixar de ler as considerações desse cuidador de criancinhas, para tomar a grande nau que é o Banquete. Pois, já no parágrafo seguinte, Diotima há de esclarecer Sócrates. Sem mais, por hoje, e até a próxima.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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