Posts Tagged ‘Jaime Medeiros Júnior



05
set
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Do deslocamento [ou da ferida de Zênon],

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Do deslocamento [ou da ferida de Zênon], por Jaime Medeiros Júnior

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Parto de um sim imenso, um sim sem refúgio, um sim presente, um sim sem par. Antes de haver esperança e de se prender o feixe das coisas com este tênue fio de entendimento, ele já sofria de se ser, perene curso do meu e do teu desejo. Mas mesmo assim talvez possa haver algum deslocamento. Ou há alguma descoberta na solidão?

Não sei. Quero me aquietar diante dele. Sonho com outras terras. A flor no vaso. O prato de sopa. A cama no quarto de dormir. O sonho. E, no entanto, todo santo dia o sol inda fere a pele da noite. Será que já sei morrer?

Jerusalém inda está tão distante. Como não estar deslocado, não estar em outra parte? E a luz-menino ainda não se apagou no fim da história? E, contudo, agora já posso dizer, por desventuras de todo cavaleiro, que tudo vem sempre um pouco antes das coisas, nesse sim sem tamanho, que todo santo dia fere a natureza que percebe e que aqui nesse meu olhar te vê.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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15
ago
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Da criação

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Da criação, por Jaime Medeiros Júnior

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Depois da nossa última prosa me tomei de ânimo de abrir nova frente de leitura. Releio a Bíblia. Sigo ao ritmo desordenado das disponibilidades de tempo e gosto. Escolhi duas versões, ricas em notas e comentários: a Bíblia de Jerusalém [BJ] e a Nova Versão Internacional [NVI] [versão que vim a conhecer após o comentário a nossa última prosa feito pela minha amiga Ana Cristina Aço].

Leio em Gênesis [Bereshit] o relato da criação. Em um determinado ponto me defronto na NVI com uma nota ao versículo 2 do primeiro capítulo, que quer chamar a atenção para os paralelismos com que foi construído o relato: terra. O centro deste relato. sem forma e vazia. Essa locução, que só ocorre depois em Jr 4.23, dá estrutura ao restante do capítulo. O “separar” e o “ajuntar” que Deus realizou do primeiro ao terceiro dia produziu a forma; o “fazer” e o “encher” do quarto ao sexto dia eliminaram o vazio. A BJ por sua vez traz a seguinte nota a mesma locução: em hebraico: tohû e bohû, “o deserto e o vazio”, expressão que se tornou proverbial para toda a falta de ordem.[…]. Este versículo descreve a situação de caos que precede a criação. Notas que se completam com o seguinte quadro que nos demonstra a ordem vertical e o horizontal dos dias no primeiro capítulo do Gênesis [NVI]:

 

Dias de formação

Dias de preenchimento

  1º dia – “luz”   4ºdia – luminares
  2º dia – “aguas […] abaixo do   firmamento das que ficaram por cima”   5ºdia – “seres vivos que povoam as águas […] todas as aves”
  3º dia –A: a parte seca   6º dia-A1: “rebanhos domésticos, animais selvagens e os demais seres vivos da terra”A2: o homem
  B: “vegetação”   B: todos os vegetais como alimento

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Lido isto, me ocorre a lembrança de Mircea Eliade falando a respeito dos mitos, histórias exemplares que devem, de certa forma, ser recordadas e imitadas. E quanto aos mitos cosmogônicos afirma que toda história das origens, de certa forma, repete a história da criação. De certa forma, todo ato criativo quer repetir a criação.

Isto posto, pensei que talvez fosse possível perceber algo do processo de criação naquele relato do Gênesis. E aquele era a terra sem formas e vazia certamente anuncia o quanto a matéria inicial é incapaz de se apresentar senão como uma rude esperança da coisa que se há de fazer. Mas aqui parece importante assinalar que não se põe o espírito sobre o nada. Mas sim sobre águas primordiais – a que tendo nomear sempre por mar de saudadesejo. E a luz posta com intenção sobre a coisa há de alumiar e discernir nomes, e há de poder separar o que é noite e escuridão [que convida ao repouso e ao simples estar em si, que é como um fechar olhos para o mundo e um pôr ouvidos ao tempo] daquilo que é dia e claridade [que convida à ação e a estar no mundo das coisas e de suas visões] e também de separar o que está em cima [céu] do que está embaixo [terra], e contudo não só pela separação, mas também pelo discernimento da matéria que une este par de opostos é que há de se pôr curso a obra. Por certo aqui nos defrontamos com subidas ideias, mas também com os ditames materiais e comezinhos do fazer.

Depois de tanto separar é preciso também juntar. Juntando o úmido [água] em um grande mar sobra uma parte seca. E depois há se fixar sobre o seco nova luz em forma de flora, mãe dos frutos e das sementes que em promessa prefiguram toda forma viva.

Agora há de se pintar o recheio dos contornos. E neste ponto já conhecemos muito da nossa obra, já temos olhos com que ver durante o dia [o sol] e com que ver à noite [a lua]. Aqui somos já capazes de ler o mundo no que tem de explícito e no que tem de subposto. Agora já se é capaz de se conhecer o que há de vivo nas profundezas do mar e o que há de vivo nas alturas do céu, já se emprestou fôlego ao que pensa e sente em nós. Depois ainda haverá de se pôr ali, naquela parte seca, uma casa, donde tudo se admira. Agora já se tem um cercado [paradeisos, παράδεισος], que determina o que é de casa [animais domésticos] e o que é de fora [besta fera]. E, por fim, ainda há de se ver um rosto [um outro em que se espelhar]. E assim talvez se consiga abençoar esta obra, e fazer dela um território de paz, onde bestas feras se alimentem junto com os animais da casa, só de vegetais.

Por certo esta é a história da obra divina, a qual deveríamos recordar e se possível imitar, mas contudo nem sempre a obra se faz a contento. E muitas vezes acontece de que quem faz acaba por se perder em algum desses passos e toma o mesmo infeliz destino do que aquela galinha, que se pôs a chocar ovos de serpente, que por ventura couberam de cair em seu ninho.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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01
ago
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das muitas vozes do Espírito [outro labirinto]

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Das muitas vozes do Espírito [outro labirinto], por Jaime Medeiros Júnior

Faz muito não que tudo começou. O início, uma conversa com o amigo Heron, que me conta ter andado atrás de um texto bíblico, a modo de rememorá-lo. Encontrou. Pô-se a lê-lo. Mas qual a surpresa!? O texto já não coincidia com aquele que ecoava em sua memória.

Esta semana, dia do amigo, aniversário de minha prima, fui a Santa Maria. Resolvi pôr na bagagem um exemplar da TEB [tradução ecumênica da Bíblia, que segue o modelo da TOB francesa]. O exemplar em capa dura, tamanho de bolso, estava à mão e parecia ser mais fácil convidá-lo a adentrar a bolsa que eu estava a preparar para a viagem.

A viagem: algum cansaço a pôr ainda mais peso no corpo da gente. Sono que se recusava, assim tão facilmente, a resolver-se. Chego a Santa Maria. Conversa vai, conversa vem. Felicito minha prima. Entrego o presente. Em algum momento tento confundir o cansaço, descansando. Fui parcialmente bem sucedido. Durmo, não muito, depois acordo. Abro a bagagem. Topo com a TEB a um canto. Abro e caio no salmo 19. Leio os versículos de 2 a 5, que dizem:

2- Os céus narram a glória de Deus, o firmamento proclama a obra de suas mãos.

3- o dia transmite a mensagem ao dia, e a noite a faz conhecer à noite.

4- Não é um discurso, não há palavras, não se lhes ouve a voz.

5- sua harmonia se estende sobre toda a terra, e sua linguagem até as extremidades do mundo.

Tomo um susto, pois, apesar de simpático, o texto parecia participar mais de nosso espírito moderno. Aqui os céus narram, o dia transmite a mensagem [um salmo apropriado a era da informação?], e, por fim, se estende a sua linguagem até as extremidades do mundo. De outra parte, algo em mim também desconfiava de tudo aquilo. Pois aquela não era voz que estava acostumado a escutar na palavra do senhor.

Aqui adianto as minhas escusas a todos os sábios tradutores. Não escolhi falar a partir da perspectiva do especialista, pois não o sou, mas sim, a partir do que me suscitam enquanto leitor desarmado, mas não desalmado, de grandes recursos.

Abro novamente ao acaso a TEB. Caio em Gálatas 3 [versículos 1 e 3]. Leio Paulo a admoestar:

1 Ó gálatas estúpidos, quem os seduziu; depois que, aos vossos olhos, foi exposto Jesus Cristo crucificado?

3- Sois a tal ponto estúpidos? Vós que a princípio começastes pelo espírito será agora a carne que vos leva a perfeição?

Que susto grande! Era a primeira vez que lia no texto bíblico a palavra estúpido, que a mim parece tão inapropriada à admoestação de quem quer que seja, e sim, mais própria ao xingamento.

Resolvo então consultar as bíblias da casa. A de minha avó que hoje encontra-se aos cuidados de minha tia e a que minha prima recém comprara, em letras grandes. Ambas publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil e que contemplam a mesma tradução de João Ferreira de Almeida na sua versão Revista e Atualizada, versão que lia na igreja metodista, nos tempos de minha fé adolescente e militante, que nos apresenta o Salmo 19: 1-4:

1- Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos

2- Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite

3- Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se houve nenhum som;

4- No entanto, por toda terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo.

Quando chego em Porto Alegre busco a bíblia que ganhei de meu avô. Uma João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida, na grafia simplificada, onde se trata o mesmo texto desta forma:

1- Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos

2- Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.

3- Sem linguagem, sem fala, ouvem-se suas vozes

4- Em toda a extensão da terra, e suas palavras até o fim do mundo

Conheci também mais tarde, à época do segundo grau a Bíblia de Jerusalém, era o tempo de uma igreja Metodista que ainda participava do movimento ecumênico das igrejas cristãs. Quando acabei o segundo grau no Colégio Centenário de Santa Maria [colégio metodista] ganhei, bem como todos os meus colegas, o novo testamento, exemplar em capa dura, desta edição da bíblia fruto das pesquisas da École biblique de Jérusalem, que congrega pesquisadores que não se filiam a uma denominação específica. Bíblia que no Brasil era editada pelas Paulinas [hoje pela Paulus, editoras católicas], mas que em alguns países é editada por editoras protestantes. Onde assim se nos apresenta o mesmo salmo:

2-Os Céus contam a glória de Deus,

e o firmamento proclama a obra de suas mãos

3-O dia entrega a mensagem a outro dia

e a noite a faz conhecer a outra noite

 

4-Não há termos, não há palavras,

nenhuma voz que deles se ouçad,

5-e por toda a terra sua linha aparece

e até os confins do mundo sua linguagem

Edição que se acompanha de notas como aquela d aposta ao versículo 4: as versões compreendem o contrário: “dos quais não se ouve o som”, mas a sequência faz alusão ao tema assírio-babilônico dos astros, silenciosa “escritura dos céus”.

Quando fiz a minha profissão de fé na igreja metodista com a idade de treze anos, recebi um novo testamento da Bíblia na linguagem de hoje. Uma das fortes tendências de tradução do texto bíblico desde então, onde assim encontramos os primeiros versículos do salmo 19:

1- Os céus falam da glória de Deus e anunciam o que ele tem feito!

2- Um dia fala dessa Glória ao dia seguinte, e uma noite repete isso à outra noite.

3- Não há discurso nem palavras, e não se ouve nenhum som.

4- No entanto a voz do céu se espalha pelo mundo inteiro, e as suas palavras alcançam a terra toda.

Resolvi, por fim, sair em busca de alguma outra tradução. Encontrei a Bíblia Sagrada Edição Pastoral [Paulinas], que faz assim o Salmo 19, a qual me pareceu algo singela e simpática nas suas escolhas para a tradução do mesmo salmo:

2- O céu manifesta a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos,

3- o dia passa a mensagem a outro dia, a noite sussurra para a outra noite

4- Sem fala e sem palavras, sem que sua voz seja ouvida,

5- a toda terra chega o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem

Terminada essa pequena viagem pelas traduções do Salmo 19, faço então percurso semelhante pelas traduções dos versículos 1 e 3 de Gálatas 3. A maioria, em discordância com a TEB, preferem o termo insensatos, ao invés de estúpidos. Já A Bíblia na linguagem de hoje o primeiro versículo traz tolos e o terceiro sem juízo ao invés dos estúpidos escolhidos pela TEB.

Néscios, como muitas vezes nos tornamos, certamente poderíamos prolongar indefinidamente a nossa busca. Empilhando aqui ainda outras tantas traduções, tanto católicas quanto protestantes. Mas acreditamos já ter demonstrado suficientemente a profusão labiríntica das traduções do texto bíblico no Brasil.

Retomando. Na mesma viagem a Santa Maria releio Borges [Borges Oral – o Livro] que comenta, referindo-se ao espirituoso Shaw: uma vez perguntaram a Bernard Shaw se ele acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: “todo livro que vale a pena reler foi escrito pelo Espírito”.

Talvez, no entanto, você possa crer que o Espírito escreva apenas em Hebraico, Grego ou talvez em Sânscrito ou Pali. Mas talvez possamos nos abrir a uma outra possibilidade, a de que o único livro o qual devamos realmente reler seja aquele em que não há termos, não há palavras e que por toda a terra a sua linha aparece, e até os confins do mundo sua linguagem. Onde estará este livro? Senão em todo o lugar onde o Espírito está. E onde ele haveria de não estar? Isto talvez confira muito mais importância a quem lê, que para encontrar o Espírito no texto-fonte, certamente há também de precisar ler com Espírito. E, por fim, incidentalmente, me ocorre, ler com espírito talvez seja, fundamentalmente, reler.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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18
jul
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Da inocência do pombo ou Das trocas

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Da inocência do pombo ou Das trocas, por Jaime Medeiros Júnior

Todorov parece nos demonstrar quanto Colombo foi incapaz de se libertar do sistema de valores Europeu ao cambiar com os ameríndios. Talvez disto tenham advindo as suas observações contraditórias, quanto aos homens cujas terras acabara de descobrir, que para ele eram ora covardes, ora valorosos, ora tolos e generosos [afinal trocavam ouro por miçangas], ora maus e mesquinhos. A Europa fundada nos valores da caridade e da humildade cristãs parece ter optado pela penúria, pela pobreza que reduz o universal ao relativo do seu sistema de trocas. Pois como não haveria de se admitir que ouro vale bem mais que miçangas?

Como saber agora da dor de quem sente? Os manuais de semiologia orientam inspecionar, questionar e palpar. Devendo-se também, se necessário e possível, usar de outros recursos que não só o exame clínico. A criança ainda não chegou aos cinco anos, e portanto ainda não domina totalmente o poder da palavra, ainda não virou gente grande, e, por isso, ainda não sabe mentir. Os manuais especificam as perguntas a se fazer: perguntas referentes a quando e a quanto tempo e se a dor é como uma agulhada, se queima, se torce, ou se tão-somente dói. Depois palpa-se e procura-se na face algum sinal de dor. Mas nem tudo se reduz a um sistema, e há ainda algo mais nas palavras, que vai mais no modo com que se diz e se escuta a dor de quem sente. E deste modo já não se consegue separar bem o que é ouro do que são miçangas.

Por fim, como conviver sem compreender o ouro que trocamos entre nós? Conviver com o outro que nos oferece tudo que nos é capaz de ofertar. Amizade. Ou algo que se finge de, mas que morde sempre que se vira as costas. O triste, quando isto acontece, é o quão insuperável é toda essa situação, nem a inocência é capaz de redimir. Pois quando não compreendo o real valor das miçangas que dou e espero ouro em troca, já não é comércio o que faço, senão a usurpação cínica [coitados dos cães que nada tem que ver com isso] do outro. Mas toda verdade ainda há de estar no jeito de se dizer, algo meio como a criança, que ainda não nos sabe mentir.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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05
jul
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das perguntas

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Das perguntas, por Jaime Medeiros Júnior

Estás aí? E a pergunta sai em busca dela lá pras outras bandas do google talk. A estas alturas ele já desistiu de escrever certo. Os erros povoam a tela, devido às mínimas teclas do teclado qwerty do seu celular, incompatíveis com o gordo de seus dedos. Bah pareço meio leso! É o que ele se diz. Mas não desistiu de conversar. E no grande trânsito de falas e escutas acaba-se sempre por se perguntar. Estás aí?

Depois, Sócrates, respondendo a Fedro, diz: se, a exemplo dos sábios [hoi sophoi] eu não acreditasse, não seria de estranhar. Referindo-se a todas as tentativas, igualmente quiméricas, de explicar as quimeras, os centauros e os pégasos de que se engendra o mito. Mas não tinha muito tempo a perder com tais teorias, pelo simples motivo que ainda tentava conhecer a maior de todas as quimeras – Sócrates.

Logo em seguida Platão põe um elogio a Fedro na fala de Sócrates, que afirma ser Fedro um ótimo guia, desde que havia lhes descoberto um belo e aprazível lugar para que pudessem conversar. Em contrapartida, e apesar de estarmos em Atenas, Fedro diz: e tu, oh Sócrates, pareces um estrangeiro, pois que se põe a seguir um guia.

Este estás aí? é também um pouco isto; o ter confiança num guia. Que em toda conversa há de ser bem mais a pergunta que se faz, pergunta que há de sempre supor alguém lá praquelas outras bandas pra além donde se está. Portanto em toda conversa há algo de fé.

Nesta última segunda-feira, o mestre Arthur Telló acabou por me tornar ciente de mais um dos tantos motivos de se conceber Sócrates como um dos grandes mestres da erótica. Em grego as raízes do verbo perguntar e do verbo amar [no sentido de amor sensual de outro] são semelhantes, ou talvez, como entendem alguns, uma devendo ter se derivado da outra.

Perguntemos agora junto com Sócrates, ou mesmo às quimeras e com as quimeras do mito – que, se não outra razão houvesse, haveria ainda o sonho, a dedicação, o maravilhamento e mesmo o aborrecido tédio de alguns teóricos que por mais de 2000 anos escutaram e depois leram o mito – estás aí? Pois que, perguntar, também, há de ser amar.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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05
maio
12

Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 04/05: Lançamento do livro Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior

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Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 04/05: Lançamento do livro Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior. Fotos do evento.

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03
maio
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Vai rolar na Palavraria, nesta sexta, 04/05: Lançamento do livro Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior

program sem

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04, sexta, 19h: Lançamento do livro de crônicas Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior. (Ed. Modelo de Nuvem)

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Neste “Retrato de um tempo à meia-luz”, segundo livro de Jaime Medeiros Júnior, o autor nos apresenta a qualidade característica de sua prosa em textos curtos que versam sobre a própria literatura, a filosofia, a memória, a infância e o tempo. Sempre inquieto em relação à discutível necessidade de classificar e enquadrar em gêneros predeterminados aquilo que se produz, Jaime encontrou no termo “prosa ligeira” a melhor saída para abrigar sob um guarda-chuva temático o teor e o estilo dos textos que reúne neste livro. Basta começar a leitura para ingressar em portas destinadas a conduzir o leitor a uma experiência literária singular, em que o prazer de ler se harmoniza com a reflexão proposta pela absorção de novos vieses sobre o que nos circunda, gerados a partir da voz de um prosopoeta. O cronista Jaime Medeiros Júnior canta e ouve a cadência do mundo. Misto de flanêur e de peripatético (esse um que não pretende ensinar, mas sim aprender andando, passeando) que folheia aos nossos olhos o seu jornal íntimo, crítico da pósmodernidade, e que se vê implicado nela, e nos observa.

Do Sócrates do Banquete ao Eco dos bosques da ficção, da desconfiança com verbetes só aparentemente banais ao sonho de Santo Agostinho, do mistério de brincar às possibilidades da literatura, lá vai Jaime ser gauche, com suas sacolas enganchadas cheias de memória e delicado espanto.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou em 2008 o livro de poesia Na ante-sala. Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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Ficha Técnica:
Livro:
“Retrato de um tempo à meia-luz”
Autores
: de Jaime Medeiros Júnior
Editora
: Modelo de Nuvem
Crônicas
Preço
: R$ 28,00
Nº Páginas: 152

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