Posts Tagged ‘João Pedro Wapler

29
out
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Aconteceu na Palavraria, em 15/10, Lançamento do livro Translúcido, de João Pedro Wapler

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aconteceu

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15, quarta, 19h: Lançamento do livro Translúcido, poemas de João Pedro Wapler (Letra1)

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Palavraria - livros c.

 

14
out
14

Vai rolar na Palavraria, nesta quarta, 15, Lançamento do livro Translúcido, de João Pedro Wapler

ESTA SEMANA NA PALAVRARIA b.

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15, quarta, 19h: Lançamento do livro Translúcido, de João Pedro Wapler (Letra1)

translúcidoCom efeito, a favor de Translúcido o que se pode constatar de mais simples e fundamental é a percepção de seu autor da noção de que a qualidade de um livro não pode ser presumida da quantidade de páginas, quer para mais, quer para menos. Pois não é o caso que João Pedro Wapler – ainda que nos oferte um livro magro e poemas-síncopes – aposte, por exemplo, na ultrapassada vaga do haikai leminskiano, ou seja, como se ele desse uma piscadela de olhos à quantidade de páginas – aqui, para menos – concedendo a isso o caráter de papel-moeda ou de valor real para a poesia e, de resto, para a literatura. O breve, porém grande livro, Translúcido, carrega em seu centro aqueles traços que a visão poundiana identifica como essenciais à boa poesia: concentração e linguagem carregada de significado. A qualidade do ambíguo, que esse livro atualiza de modo preciso, cobra amorosamente do leitor uma participação colaborativa. Embora a responsabilidade de João Pedro Wapler sobre seus poemas se encerre, paradoxalmente, no momento da publicação de Translúcido, é possível que ele, como todo poeta, se dê por satisfeito se o leitor desprezar a moral social da significação que, segundo Barthes, exige do poeta “uma fidelidade aos conteúdos, enquanto ele só conhece uma fidelidade às formas”. (Ronald Augusto, poeta, sobre o livro)

 

joão pedro waplerJoão Pedro Wapler é poeta. Nasceu em Porto Alegre em 1986. Translúcido é seu primeiro livro de poemas. Participou de antologias poéticas no Brasil. Tem poemas publicados no jornal Zero Hora, além de artigos críticos em diversos sites dedicados à literatura e aos debates culturais.

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Palavraria - livros a

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24
fev
14

A crônica de João Pedro Wappler: Não como nossos pais

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Não como nossos pais, por João Pedro Wapler

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Ouço muito pelos bares da vida sobre a dispersão cognitiva da minha geração. Como sou filho dela me sinto atingido pelas críticas. Minha mania de perseguição me faz revidar aos chato de plantão: “Nós não somos só um bando de idiotas viciados em Facebook!” Muitos dizem que somos hiperconectados mas pouco aprofundados. Isso faz todo sentido. Assino embaixo. Mas o que eu acho que faz falta para os especialistas em matéria de vida é captar a difusa e fragmentada linguagem de hoje. Será que esses críticos dos tempos vigentes não são simplesmente saudosistas perdidos na maré de informação?

Paradoxalmente, muitos dos ditos mais velhos se dão muito bem na nossa pós-modernidade cada vez mais atomizada. São jovens de cabeça. Apesar de muita gente madura de idade se sentir hostilizada no mundo virtual, não é tão difícil assim aderir a ele. Depois de algumas horas na frente do PC, qualquer tecnófobo aprende o bê-á-bá da web. O fato é que quem não navega na internet hoje acaba sendo convidado para um cruzeiro marítimo nas águas tecnológicas. Mesmo quem odeia a web não pode mais evitá-la. Só por curiosidade: você conhece alguém que não tenha celular? Pois é, muita gente odiava esses aparelhinhos e hoje é quase impossível viver sem um.

O grande barato de hoje não é propriamente a profundidade intelectual e o fanatismo por ideologias, características típicas de décadas antecessoras. O grande esquema do novo milênio é o acesso quase universal à informação. Essa é a revolução que foi forjada pela tecnologia. O que falta provavelmente é tempo para os filhos do novo milênio digerirem tudo o que cai no prato cultural deles.

Vejamos só o caso do cinema. Há algum tempo atrás para ver filmes antigos o cara precisaria gastar uma grana na locadora ou esperar que por sorte algum clássico passasse na tv a cabo. Fora isso muitos filmes nunca foram lançados em cópias para serem assistidos em casa. Com a internet o sujeito pode achar praticamente todos os filmes da história do cinema de graça. Isso é absolutamente revolucionário e faz um bem extraordinário para o novo público.

Por incrível que pareça para muitos críticos dos jovens “alienados de hoje”, nunca foram assistidos tantos filmes clássicos pelos mais imaturos em matéria de cultura. Num final de cinema, uma adolescente pode fazer download e ver todos os filmes do Truffaut.

Isso gera uma nova geração de cinéfilos. Estão por aí se proliferando amostras de cinema, que são possibilitadas por esse acesso irrestrito a filmes. Antes a batalha era complicada. O programador buscaria VHS’s em cópias esdrúxulas ou gastaria uma fortuna para importar películas.

Nossa geração do novo milênio é altamente retrô. Ela ama o antigo. Ele é referência pra ela. Nunca a nouvelle vague foi tão assistida como é hoje.

O que mais atrapalha a rapaziada de hoje é a falta de foco. Com uma filmografia imensa na palma da mão, não sabemos que filme ver primeiro e antes de ver algum título já se está pensando no próximo. Outro dado é a doentia falta de paciência da moçada. Quantos conseguem ver um filme inteiro hoje sem nunca pausar?

A recepção da arte mudou completamente. Ela é entrecortada, impaciente, exigente, sedenta por estímulos e mais estímulos, até ficar saciada. Diretores como Tarantino captaram genialmente o Zeitgest dessa geração e se tornaram ícones incontestes da pós-modernidade.

Será que alguém aguenta hoje um Antonioni? A globalização massificou muito a cultura mas paradoxalmente deixou ela muito variada também. Há público pra tudo.

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João Pedro Wapler. Ator e escritor. Assina o blog de poesia Poesia Imoral (http://poesiaimoral.blogspot.com) e o de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com) . É colunista de literatura do site O Café (http://ocafe.com.br). 

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13
dez
13

A crônica de João Pedro Wapler: Panis et circenses no novo milênio

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Panis et circenses no novo milênio, Por João Pedro Wapler

Ano que vem é ano de Eleições. Quase todo mundo odeia essa época e com toda a razão. Rios de dinheiro serão drenados para propagar candidatos cada vez mais despreparados e inescrupulosos. Seremos obrigados a conviver com jingles retardados, sorrisos maquiavélicos e debates completamente inócuos. Mas quem gosta de eleição exceto as siglas partidárias, não? Eleição não é a festa da democracia e sim a farra da plutocracia.

Depois do pequeno desabafo, vou iniciar de outra maneira meu texto, quiçá pior que a anterior: entraremos agora no ano da Copa do Mundo. O curioso é que justamente no “país do futebol”, “na pátria de chuteiras” (dentre outras expressões chatas que sempre ouvimos por aí nos noticiários vagabundos) surgiram diversas desconfianças acerca do evento. Logo aqui onde quase tudo gira em torno do círculo central do gramado. Muitos achavam que a festança seria saudada pelo povo e que todos bateriam palmas como macacos. O pão e o circo futebolístico dopariam definitivamente os nativos, numa versão pós-moderna do mito romano. Todos acreditariam de pés juntos que vivem num país abençoado e “bonito por natureza” e se convenceriam de que Deus é de fato brasileiro registrado em cartório. Aconteceu o contrário, graças a Deus! Foi comprovado que não estamos no Planeta dos Macacos.

Os únicos que parecem saudar com os dentes (brancos e bem alinhados) da boca o evento são os governantes, as empresas de refrigerante e as grandes construtoras. As manifestações que tomaram conta do país em 2013 endossaram o que já era sabido: a população acha vergonhoso torrar em estádios o que poderia ser investido em escolas. O pessoal acha estúpido ocupar espaços públicos com monumentos à FIFA ao invés de reforma-los para a utilidade pública. Os eleitores não são tão otários assim como dantes.

Mas é claro que não somos uma nação que sataniza qualquer competição. O ano de Copa sempre foi e sempre será um momento de catarse, altamente divertido e saudável. O brasileiro é apaixonado por futebol, sendo esse desporto, como dizem os mais velhos amantes da bola, não apenas uma atividade física mas um símbolo nacional indiscutível, como o samba, a bossa nova, a telenovela e o Carnaval. Se houve uma Copa em países onde mal se joga futebol (África do Sul, EUA) por que não haver uma no Brasil? Segundo a nova política da FIFA, a mandatária suprema nas quatro linhas, as sedes dos Mundiais devem se espalhar pelos continentes num mundo globalizado e não apenas se centrar nas grandes potências. É um grande negócio para os organizadores do evento e um “marketing” para os países-sedes. Dentro dessa lógica uma Copa num país do futuro faz todo o sentido. Mas pra quem faz sentido?

Uma coisa é a galera curtir o evento sabendo que ele está sendo financiado com dinheiro da Alemanha, da Coreia do Sul ou da África de Mandela, outra é tomar uma cerveja com plena consciência que nossos impostos estão pagando o aço dum estádio no meio da floresta que depois da Copa virará sei lá o que.

A última Copa por aqui foi em 1950. Desde lá tivemos duas Copas no México, outro representante do Terceiro Mundo. Os outros países sedes sempre foram grandes potências. Pra quem é a Copa? Ou melhor, quem sai ganhando verdadeiramente com o megaevento? Os primeiros beneficiados da Copa são as grandes empresas que bancam ela com a parceria confusa e suja com os governos. Uma elite está rindo à custa do povo, superfaturando obras e etc e tal. Outros favorecidos são a alta casta que pagará preços estapafúrdios para assistir às partidas. A grande massa acompanhará a Copa da mesma maneira que acompanharia se ela fosse realizada no Uzbequistão: sentado na poltrona ou num bar.

O pior da Copa é aguentar à enxurrada de publicidade e de matérias jornalísticas ufanistas, saudando o evento como a coisa mais maravilhosa já feita no Brasil, como a “festa do povo”. Tudo isso é um grande engodo. Querem vender a ideia de que todos “ganharão com a Copa”, mas o outro lado desse discurso populista é outro: o que se forma nesses megaeventos são cartéis que comandam tudo e se autobeneficiam dessa sensação de alegria que muitos entram só por estarmos “em mês de Copa do Mundo”. As escolas e faculdades ficarão vazias só por que uma seleção europeia vai jogar uma partida na cidade. Existe algo mais patético que isso? Parece que estamos escancarando nossos traços de colonizados com essa postura.

Espero que a Copa não seja nada demais e que as pessoas lembrem mais das Eleições do que da Copa, mesmo que isso seja chato. O Brasil tem um grave problema em idolatrar o divertimento e deixar que nosso futuro seja decidido em bancas de negócios escusos.

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joão pedro waplerJoão Pedro Wapler é ator e escritor. Mantém o blog de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com).

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20
nov
13

A crônica de João Pedro Wapler: 2001: uma odisseia sonora

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2001: uma odisseia sonora, por João Pedro Wapler

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Posso estar sendo meio atrasado fazendo só agora um balanço da década iniciática do novo milênio, mas creio que só agora sinto-me municiado para escrever sobre ela. Essa década será lembrada para sempre, eu acho. Os números não mentem. O início de um novo milênio é um fato astrológico e histórico por si só, mesmo que não ocorra nada de excepcional durante esse período do calendário.

Não vou fazer revelações estrondosas aqui, não sou o Bauman, o Lipovetsky ou algum participante do Fronteiras do Pensamento, mas acho que tenho o direito de falar algumas coisas que para muitos soarão óbvias. É para isso que servem crônicas, não? Pois vamos lá! De volta ao passado recente…

No ano 2000 eu estava no apogeu da adolescência e isso coincidiu com o grande boom da internet. Pela primeira vez na história a facilidade de fazer downloads de músicas atingiu seu ponto nevrálgico com os primeiros programas de compartilhamento. Lembram do famoso Napster que foi processado logo depois de seu auge pela banda Metallica? Imagina hoje como o Metallica faria para processar quem compartilha suas músicas…

Enfim, eu lembro que na pré-história do compartilhamento, o mais comum era baixar músicas separadamente e não em álbuns. Como um ávido colecionador de discos e pouco afeito a engenhocas tecnológicas, nunca fui um grande usuário de mp3. Mas lembro de como era sensacional e mágico poder ter a qualquer instante ao seu alcance tal música dos Stones ou do Rauzito. Hoje todo mundo acha isso a coisa mais banal do mundo, mas já não foi tão facilzinho assim.

Antes da internet para ouvir alguma música eu gravava ela do rádio numa fita cassete. Parece papo de titio, mas eu não sou um cara velho, vejam só! Outro divertimento meu era ir até a uma loja de discos perto da minha casa e pedir para escutar algum disco. Isso soa tão antiquado hoje, mas não faz tanto tempo assim. Só uma passagem engraçada da vida: um amigo meu até hoje não tem toca cd no carro, pois ele diz que o cd “pula”. Por isso ele gasta R$4 numa fita cassete e grava seu jazz pra ouvir no seu fusca.

Durante a primeira década do novo milênio vivemos um dos momentos mais interessantes da música brasileira. Nunca surgiram tantas novas bandas, cantores e cantoras. Antes conhecíamos só o que saía no rádio ou em disco e passamos a descobrir novas sonoridades crocantes graças à Madame Internet. Isso foi revolucionário e resultou num novo paradigma cultural. Os artistas deixaram de ser medidos somente pelo número de discos que vendiam e passaram a focar em outras formas de divulgação do seu trabalho, buscando inclusive um contato mais próximo com seus fãs.

Os sites, blogs e páginas em redes sociais tornaram nossos deuses do Olimpo musical mais humanamente acessíveis. Os números de shows e de downloads também aumentaram a facilidade de conhecer a obra de um artista. Se antes era preciso desembolsar uma grana e garimpar álbuns antigos, com o tempo e alguns cliques, o sujeito toma conhecimento de toda uma carreira.

Parece que quem não gostou dessa história toda foram as gravadoras e os grandes grupos de mídia que antes monopolizavam a imagem dos artistas e mediavam a interação deles com os fãs. O combate inútil à pirataria e ao mp3 de graça foi uma das causas perdidas dessas grandes corporações que antes de compromisso com a arte têm preocupação com o próprio bolso.

Hoje um artista não sobrevive vendendo discos e sim com uma miríade de opções. Ele não depende mais de uma gravadora pra ser feliz. O cara pode gravar em casa, divulgar na internet e daí por diante. Por um lado essa facilidade fez com que grande parte das bandas e cantores primassem mais pela divulgação do que propriamente pelo aprumo sonoro. O delírio da rapidez com que se divulga pode eclipsar o processo criativo e tornar os artistas deslumbrados facilmente.

Pois bem, o grande barato da nossa era é produzir com facilidade, o que gera muita coisa boa e muito lixo eletrônico, essa é a verdade. Não temos mais grandes bandas como Beatles, Stones, Led e The Doors e sim diversas bandas boas e algumas muito boas. Essa é a marca do início do novo milênio. A facilidade de se expressar nos deixa mais preguiçosos, mas quem dirá que na década de oitenta era melhor? Por que era melhor, cara?

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joão pedro waplerJoão Pedro Wapler é ator e escritor. Mantém o blog de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com).

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11
out
13

A crônica de João Pedro Wappler: Porto Alegre menos chata

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Porto Alegre menos chata, por João Pedro Wapler

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Porto Alegre é uma cidade curiosa. Digo isso pelo fato de ela ser uma capital com todos os predicados para ser uma cidade superinteressante, mas que acaba não conseguindo subir às alturas por alguns ranços e idiossincrasias locais. É uma cidade que ainda não floresceu como deveria. Diferente de outras cidades brasileiras ainda não conseguimos transformar nossas potencialidades em resultados concretos para um município melhor.

Antes de tudo, o que mais define a capital gaúcha é, a meu ver, o fato de ser muito simpática e agradável – pelo menos é uma das características mais ressaltadas pelos visitantes e moradores. Muitos dizem: “Em Sampa tem tudo, mas aqui, mesmo com menos coisa pra se fazer e com menos dinheiro, tudo é perto e há mais tranquilidade”. POA é uma capital com cara de cidade do interior, essa é a verdade. Seu ar provinciano cativa. Nunca esqueço duma amiga carioca radicada aqui há anos que disse: “O Rio é maravilhoso, mas eu adoro viver nesse provincianismo daqui.” Curioso comentário. Você conhece algum carioca que deixou o Rio por opção? Caso, raro, muito caro.

Num panorama geral sobre nosso provinciano município posso começar a dizer que as ruas arborizadas são o grande atrativo local. Algumas cidades têm praias, outras lojas de grife, nós temos ruas arborizadas. Uma rua sem árvores perde toda a graça por aqui. Não somos uma cidade turística, isso é fato: uma cidade para viver e não para visitar. Temos muitas características que nos ligam ao Conesul mais do que ao Brasil. Somos mais parecidos com Montevideo do que com qualquer outra capital nacional. Mas a capital uruguaia é muito mais bonita do que Porto Alegre. Mas eu ainda acho que com um pouco de esforço chegamos lá! O fato é que gostamos e não gostamos do Brasil. Vamos ser sinceros, muitos porto-alegrenses gostariam de ser uruguaios ou argentinos nos confins da sua alma.

Relembrando nossas qualidades no quesito de conteúdo, Porto Alegre é uma cidade exportadora de escritores, jornalistas, artistas visuais, atores, músicos, publicitários, designers, advogados, etc. Por que todo mundo quer sair daqui? É lógico que não temos o número de oportunidades oferecidas por megalópoles e nunca conseguiremos modificar esse paradigma migratório, mas penso que se fortalecêssemos algumas características locais, tornaríamos a cidade mais vibrante e muitas das pessoas que estão loucas pra vazar daqui, poderiam repensar um pouco antes de ir para o Salgado Filho.

Um paradoxo é de que a maioria das pessoas que eu conheço quer sair daqui. O engraçado é que nunca saem – e se saem voltam logo. Os porto-alegrenses têm uma grande dificuldade de deixar pra trás suas raízes. Eu não sei responder essa questão. Não são antropólogo nem astrólogo.

Outro dado, seminal para o entendimento de nossas características, é que somos além de muito provincianos, também preconceituosos. A miscigenação tão forte e criativa no Brasil, aqui parece ser vista com desconfiança. Nossa cidade precisa se abrir para o mundo e não se fechar em si mesma – hábito aqui muito cultivado. POA precisa se misturar com o mundo. Nossas tradições não podem ser um fim em si. Nosso “orgulho de ser gaúcho” não pode ser nossa razão de ser. Resumindo, o gaúcho deve ser menos chato.

joão pedro waplerJoão Pedro Wapler é ator e escritor. Mantém o blog de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com).

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09
jul
12

A crônica de João Pedro Wappler: O porto das artes

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O porto das artes, por João Pedro Wapler

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Porto Alegre poderia ser um pólo cultural e isso não é mais uma daquelas conversas para boi dormir. É comum em muitas pequenas cidades europeias um fato: tal lugarejo transforma-se num pólo de artes visuais, cinema, dança, literatura ou teatro. Há muitos anos as metrópoles clássicas (Berlim, Londres, Paris, Praga, Viena, etc) coexistem com outros minicentros de ebulição criativa em harmonia.

No Brasil se dá de outra forma esse fenômeno: temos dois grandes centros e é lá onde acontece quase tudo. Esse panorama já vem de décadas e não é somente um decreto governamental que fomentará a cultura aqui ou acolá. É essencial, acima de tudo, modificar nosso posicionamento diante da cultura. O quanto a arte é essencial para nós, como cidade brasileira? O como podemos fazer para avançarmos nesse sentido e virarmos o jogo o quanto antes?

Nossa capital está recheada de movimentos culturais expressivos. Há diversos coletivos de artes visuais, outras tantas bandas de rock, além de numerosos grupos de dança e de teatro, além de vários novos escritores e pesquisadores surgindo nas universidades. Dentre nossos espaços culturais mais importantes citaria: Casa de Cultura Mario Quintana, Fundação Iberê Camargo, MARGS, Teatro São Pedro, Santander Cultural e Usina do Gasômetro. Abrigamos também outros espaços que também valem a pena ser destacados: Teatro de Câmara Túlio Piva, Teatro Renascença e Casa de Teatro de Porto Alegre. Eventos como o a Bienal do Mercosul, o Fantaspoa, a Feira do Livro, a Festipoa Literária e o Porto Alegre em Cena atestam que, além de um espaço físico propício para a arte, também sediamos acontecimentos vibrantes em matéria artística.

Esse cenário comprova dois fatos: devemos apreciar e fomentar ainda mais a divulgação e afirmação desses espaços e eventos; devemos trabalhar na formação da nossa clássica artística de um modo geral. São dois desafios que exigem parcerias entre governo e iniciativa privada e que não ocorrerão do dia pra noite, evidentemente. O fato é que faltam incentivos locais à cultura e sobreviver como artista aqui é uma tarefa hercúlea. Por isso muitos de nós fazem as malas e somem. E esse panorama não é um fenômeno dos últimos anos…

Convivemos historicamente com um êxodo criativo e urgentes esforços conjuntos, envolvendo também outros grupos sociais e econômicos, tornam-se imperativos para transmutar tais carências estruturais. Nosso ensino público (primário, médio e superior) ainda é muito falho na área artística. Os cursos privados são inacessíveis e também ainda incipientes. Para buscar uma formação de qualidade no campo da arte é ainda indispensável ir para o centro do país.

Pois bem, costumam dizer que o povo gaúcho é muito culto. Não sei bem até onde essa assertiva é válida. Nosso estado é inegavelmente um exemplo de qualidade de vida e de desenvolvimento humano, posicionando-se na frente de muitos outros estados brasileiros em tais quesitos. Nossa cidade se insere nessa realidade regional também. Somos uma das capitais mais bem estruturadas do país sem dúvida alguma, tanto em quesitos humanos quanto materiais. Porém, na seara artística, ainda precisamos de mais pessoas interessadas e ativas, necessitamos de mais energia e incentivos para criar e acima de tudo, deve haver uma constante troca e união entre todos os campos de manifestações artísticas locais. Sem esses quesitos, continuaremos na periferia da arte.

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João Pedro Wapler. Ator e escritor. Assina o blog de poesia Poesia Imoral (http://poesiaimoral.blogspot.com) e o de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com) . É colunista de literatura do site O Café (http://ocafe.com.br). 

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13
dez
11

A precisão do impreciso: poemas da oficina

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A precisão do impreciso: Poemas da Oficina

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Poemas lidos no sarau poético A precisão do impreciso, da Oficina de Poesia Ronald Augusto, realizado em novembro último na Palavraria.

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de súbito
não morri

sustive o tempo
sem saber o que fazer com ele

gotas de ti intercalo a miçangas
escondo as marcas do inverno

não ponho os pés no pedaço onde me perdi

(Maria da Graça)

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na procura por vestigios
a vassoura varre vento e vozes
forja atalhos aproxima e se-distancia
do tempo e no tempo

deixa-se abracar pelas coisas
num trilho brilhante
ruidos do arrastar
sungra silenciosamente tambem tetos e paredes

e sem dizer nada
surpreende a orelha
antes de existir alguma coisa
um ponto, uma palavra
escoamento

(Jackeline Barcellos)

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caminho como se soubesse de todas as encruzilhadas
dos atalhos e acasos
no gesto, escalo o muro à procura da vista
gradeei um cemitério de objetos
museu de cera a preencher o lugar das ausências
que cercaram meu início
monotonia circular do cotidiano
as costas arqueadas
a cada manhã que brota à janela
me fazendo esquecer de onde não vim
não cuspi nos pratos em que comi
ao invés disso, os preenchi de pressas,
de choros rasos e quantos
engoli cada toque
como se fosse o último, como se fosse o mote
tenho, no entanto, um estômago sensível:
não sabe guardar pedras

(Deisi Beier)

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O mundo da linguagem me desfaz

Por entre o mundo mudo da memória

Esquecida ao acaso no asfalto
A agulha se move ágil entre dedos
Sento-me ao sol

Sou mácula que arde
Forte haste rija

Que o tempo vai brunindo

(Paulo Prates)

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Considerações do alfafeto I

deixava para trás aquela escrita
pouca coisa mais que o menos
e o que lhe acrescentasse
as experiências de euzinha
seria lucro na mesmice do seu alfabeto
fez uma réstia de todos os erres
repúdio
raiva
réplicas de si recuperando erros
emendou-se no p da palavra
que daqui pra frente é pauta
piso
possibilidades
de versar em sua estrofe

ainda crua

(Liana Sinara)

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Efeito Kosmopolis

Eu tenho uma puta vontade de comer
Uma puta vontade de comer tudo que eu vejo e escuto
Uma puta vontade de estar em tudo que eu vejo e escuto
Uma puta
Transformar-me em uma puta
Uma puta ideia vencida
Coberta e sorvida
Cortada-etéril-precisa

Uma lima
Amarela na América
Verde na Europa
Inexistente em Abril
Em Hebreu
Contagiosa e azeda
Como duras patas de penas mortas
Como o azul apagado do teu silêncio

A lima puta
Mercadante e periférica
Compaginada em tantos rascunhos
Convencida de tantas derrotas
Imposta
À mostra

(Juliana Ben)

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Conveniência e rumor de impulso

Entre o fim e o vão de uma ideia
esse intervalo
pedaço de omitir-se
polpa e circunspecção

Se eventualmente pudesse desfigurá-lo
de forma nítida
suspenderia o excesso de luz
que me esconde aos extremos

Redefino o traçado
limite oposto
sobre a imagem de um caixilho
recuperado aos escombros do éter

Sem menos escora
sustento fachadas, ruídos

Em evidente descaso
ao cenário
a poeira germina por costume
não o das tradições valiosas               incálidas
mas o do descontínuo sem-cuidado
com que se atrelam
(vagoam-se) um após outro
o mesmo dia

(Denise Freitas)

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o abandono da anatomia
na unha da fala
o codinome do pulso
no fio da meada
a forma avessa
à pele

(João Pedro Wapler)

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Silêncio ao Mar

O meu silêncio é uma nau com todas as velas pandas
Infladas pelo vento duvidoso do (des)conhecimento
Deslizando por mares habitados por estranhas criaturas
Que no silêncio encontram o desencontro de si mesmas
Contorno o cabo-da-boa-esperança e lanço minha rede
Recolho apenas letras soltas que somem com a espuma
Deixando aos pássaros nada a dizer para alimentar sua fome
Fecho as portas do porão abarrotado de expressões vazias
E tranco a cadeado para que não saiam a perturbar as estrelas
Que silenciosamente guiam os poetas na escuridão das palavras
Tanta coisa digo em meu silêncio que não resta dizer mais nada.

(Sirlene Maria Vieira)

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Bicho

responde à chuva
ao vento
ao sol
com o seu jeito de ser.
Vive a resposta desinteressada
indiferente à pegada do destino.
O medo é ornamento do animal mais belo.
Selvagem na outra íris
seu silêncio é camuflagem ao olhar que captura.
Respingo de humanidade
na sua voracidade
de querer viver
seja jacarandá, índio,
trepadeira, gafanhoto,
uma alga ou algo mais.
Fareja sem saber
que o infinito é logo ali…
Aonde tudo começa outra vez sem relógios…
Responde instintivamente
aos presságios e aos sonhos,
responde todas as incógnitas
existindo
E bebe com toda a sua sede de bicho
sem supor que está rezando.

(Márcio Rodrigo Gelain)

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Renga[*]

 

um ponto no áspero cercado
e se as pernas
se a musculatura inescultural
se o fôlego se esses recursos todos
e a seguir sua falência
fossem apenas feixes no asfalto
linhas rígidas do esquadro
traduziriam o limiar

um dia se cansa de tudo
e não há mais nada
nada na camada subterrânea
e na face os olhos
reescrevem a caminhada
que já é flor torta
destemperada
com as pupilas parodiando aromas
e as camadas de pólen dançando
em pleno asfalto
justo ao ponto do empecilho
de qualquer modo entre
a desenvoltura dos rochedos
se ocuparia da pressa
em agitar-se sem nenhum contorno
emaciado sob um sol de março

hipotético anseio  de perpetuar-se
a despeito da inaptidão congênita
da secura entranhada

alonga
a nódoa do girassol sem vértice
na escassez de rotas
amarelas ou alvas

flor de nada dizer
a ser
simplesmente entre os feixes
matéria de cor
matéria cortada de orvalho seco

(por Maria da Graça, Denise Freitas, João Pedro Wapler, Jackeline Barcellos, Deisi Beier, Liana Sinara, Paulo Prates e Juliana Ben)

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[*] O renga é um tipo de diálogo cantado e uma espécie de divertimento literário em que se misturam os elementos lírico, cômico e satírico. Surgiu no início do século XII, apreciado pelos poetas da corte e sociedade aristocrática japonesa de então. O haicai tal como é praticado hoje, é resultante do renga (ou tanka). O renga, portanto, era um poema coletivo, em que um poeta compunha a primeira estrofe (hokku), um terceto com 5-7-5 sílabas (ou sons). Em seguida, outro poeta compunha a segunda estrofe, um dístico de 7-7 sílabas (ou sons). Assim cada poeta que chegava escrevia um dístico de 7-7 sílabas, após um hokku. O renga do grupo da Oficina A precisão do Impreciso não obedece à estrutura rígida da métrica japonesa. Trata-se de um renga não-ortodoxo, de linhagem moderna. Trata-se da tradição renovada no presente.

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15
nov
11

Aconteceu na Palavraria, no sábado, 12/11: lançamento do livro “enquanto água”, de altair martins

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Lançamento do livro  Enquanto água, de Altair Martins. Fotos do evento.


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07
nov
11

Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 04/11: Sarau das oficinas Ronald Augusto

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04, sexta, Sarau poético A precisão do impreciso – Oficinas Ronald Augusto, com a participação de Denise Freitas, Deisi Beier, Liana Marques, João Pedro Wapler, Maria da Graça, Paulo Prates, Jackeline Barcellos, Juliana Ben e convidados. Fotos do evento.

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