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22
fev
13

A crônica de Jeferson Tenório: Facebook: a nossa Parságada digital

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Facebook: a nossa Parságada digital, por Jeferson Tenório

Causou-me um grande impacto a leitura do texto “A dor não nos matará”, de Jonathan Franzen, do livro de ensaios “Como viver sozinho”.  Franzen é um dos autores mais festejados dos EUA na atualidade. Possuidor de um olhar corrosivo, agudo e crítico da cultura norte americana, Franzen diz que a primeira lei do capitalismo é transformar tudo em mercadoria.

O caso do Facebook é mais um exemplo disso. Franzen chama a atenção para a grande valorização do verbo “curtir” no mundo contemporâneo. Na verdade, a frivolidade de “curtir” tem servido para expressar não mais um sentimento em relação a algo ou a alguém, mas passou a ser uma opção de consumo. “Curtir” significa aceitar mercantilização das idéias.

“Curtimos” tudo: das frases sentimentalóides acompanhadas de imagens místicas às catástrofes e tragédias pessoais.

Vejam só: até a dor é “curtível”.

O ato de curtir ainda atende a outro chamado do capitalismo: a efemeridade e a necessidade do novo. Nenhuma postagem dura mais de um dia, às vezes, horas. Nossas frases, vídeos, pensamentos são “curtidos” e rapidamente esquecidos. E então tornamos a postar porque não queremos ser deixados de lado, nem pairar na sombra do esquecimento. Queremos ser curtidos e amados.

Minha namorada chamou à atenção para a diferença do termo “curtir”, em inglês “like”, dizendo que pode haver uma diferença semântica entre de “gostar” e “curtir”, mas o fato é que tudo termina no mouse, porque não importa o que postamos, importa é saber quantas pessoas vão nos “curtir” ou “gostar”.

Aí mora o perigo, pois quando deixamos nos levar pela angústia de não sermos curtíveis (falo daqueles posts que postamos e ninguém curte, comenta ou compartilha), nos sentimos frustrados e passamos a ser joguetes daquilo que os outros pensam ser curtível, ou seja, nos sujeitamos a representar qualquer papel para sermos reconhecidos como pessoas curtíveis.

Para tanto, mudamos nossas fotos de perfil, vasculhamos frases de efeitos ou flagrantes jornalísticos de última hora que podem causar impacto: vale tudo para sermos pessoas curtíveis, até inventar aquilo que não somos.

O Facebook é uma vida onde ninguém é triste e todos são vencedores. Nas discussões, muitas vezes inúteis que se trava ali, todos querem se mostrar inteligentes, coerentes e sedutores. O Facebook é um espelho que só consegue refletir nossa vaidade. No entanto, existe a vida fora dele e nessa vida há tristeza e há os que perdem. Na vida real, aquela que dói, as discussões conjugais ou familiares revela quem de fato nós somos, e daí lá se vai a coerência e a sedução daquele cara legal do Face.

Nada contra a quem passa longas horas na frente do Facebook, mas há um fato importante nisso: A vida não é curtível e é preciso que não esqueçamos disso. Quantas vezes já não nos pegamos alimentando picuinhas por causa de uma “curtida” ou “comentário” no perfil de alguém. Casais que tem longas discussões por causa disso ou que tem de esconder os perfis de ex namorado(s) namorada(s), ou ainda comentários inconvenientes de conhecidos.

Também não estou propondo que as pessoas abandonem seus Faces. Até porque eu mesmo não conseguiria fazer isso. Já fechei compromissos de trabalhos importantes via face. Além disso, gosto ver as postagens, de curtir e postar frases. Assim como também não posso esquecer que o facebook tem mudado o modo como as pessoas tem se comunicado e possibilitado o reencontro de amigos e parentes perdidos. O Face é um importante instrumento para mobilizar grande um número de pessoas.

Minha bronca é com a grande importância que damos aos perfis fictícios dos outros e de nós mesmos, bronca com essa nossa alienação que o capitalismo nos impõe e aceitamos passivamente com o dedo indicador no mouse.

Outro dia uma amiga me disse com sinceridade como é a sua relação com Facebook. Ela me revelou que não gosta de entrar toda hora e nunca posta coisas pessoais, ela procura postar informações sobre cultura, peças em cartaz, filmes etc, e disse não se importar com o número de pessoas que irão “curtir” suas postagens, importa a ela poder compartilhar algo interessante, ou seja, disponibilizar, dar acesso. Ela pode ser uma exceção, porque no fundo todos querem ser amados pelas suas postagens.

Jonathan Franzen em seu artigo parece um velho rabugento contra as redes sociais, mas o fato que ele tem muita razão ao mostrar as facetas recorrentes do capitalismo e de como ele é sedutor.

O Facebook é a nossa Parságada digital onde ninguém é amigo do rei, mas todos fingem ser.

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Jeferson TenórioJeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

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