Posts Tagged ‘Jorge Luís Borges

01
set
13

A crônica de Emir Ross: Borges

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Borges, por Emir Ross

Tenho uma amiga escritora, a Dani Langer. Ela escreve muito melhor do que eu. Na real, eu nem escrevo. Ela sabe o que faz: é acadêmica, seus textos são limpos e aparados; encaixados e bem-servidos.

Nos meus, o único encaixe é no quadril dos personagens. Os textos são sujos de porra e lama e não são servidos: quem quiser, que se preste.

Talvez por isso a Dani Langer seja melhor escritora que eu.

Mas, talvez, ela seja melhor por gostar de Borges. Jorge Luis Borges.

Certo dia, numa conversa entre escritores, disse ela ao público: “façam um favor a vocês mesmos, leiam Borges”.

Eu já havia feito aquele favor a mim mesmo. E confesso: não gostei.

Achei Borges fantástico, fenomenal, excelente, maravilhoso, genial e tudo mais de bom que pode-se achar de um escritor. Mas achei-o muito limpinho. Não gostei.

Acho Borges muito bom.

Mas não gosto.

Não sei por que não gosto. Não gosto e pronto. Talvez por ele ser real, perfeito, conceitual, ícone, referência, cult, recomendável, intelectual. Taí, não gosto porque ele é intelectual. Não gosto de intelectuais. A cada cinco textos repito que intelectuais para nada servem.

Eu gosto de coisas vivas. Gosto do absurdo. Do bizarro. E gosto da irrealidade.

Borges transforma as invenções em verdades.

Eu prefiro quem transforma mentiras em mentiras. E nos faz acreditar nisso. Eu gosto de acreditar nas coisas improváveis.

Acredito até no ser humano.

Por isso não vivo no mundo real. Às vezes é válido manter-se ignorante. É mais salutar física e mentalmente.

As pessoas, de modo geral, gostam de Borges. Acho que a maioria delas gosta porque não entende. A outra parte gosta porque lhes dizem que é cult, recomendável, intelectual… Faz parte do jogo. Essas pessoas são como eu: não vivem no mundo real.

Qual a diferença, então? Nenhuma.

Tenho certeza de que gostar ou não de Jorge Luis Borges não fará diferença alguma na vida das pessoas. Assim como não faz diferença casar com marido rico ou pobre, dormir com mulher bonita ou feia, passar o final de semana em Mônaco ou Tramandaí.

A diferença é que tem gente que lê Borges e não gosta: e tem gente que gosta, mas não lê. Tem gente que casa com marido rico, mas não casa. Assim como tem gente que passa o final de semana em Tramandaí, mas está em Mônaco.

A diferença, portanto, pode não ser o que se faz. Tenho certeza de que vocês me entendem ipsis literis. Se não, por favor, bóra ler Borges.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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14
ago
10

Jorge Luís Borges: Funes, o memorioso

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Funes, o memorioso. Vídeo da série Imaginantes, produzida pela rede mexicana Televisa. Tematiza o conto de Jorge Luís Borges, do livro Ficções. O conto narra a história de um rapaz que tinha uma memória prodigiosa, mas que, sem conseguir articulá-la com sua pouca inteligência, era tido como curiosidade no vilarejo em que vivia. Funes era uma verdadeira enciclopédia, pois lembrava-se de incontáveis textos, apesar de não saber elaborar estes conhecimentos.

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Ficções, de Jorge Luís Borges. Companhia das Letras, 2007. Trad. Davi Arrigucci Jr. R$ 36,50

Ficções reúne os contos publicados por Borges em 1941 sob o título de O jardim de veredas que se bifurcam (com exceção de “A aproximação a Almotásim”, incorporado a outra obra) e outras dez narrativas com o subtítulo de Artifícios. Nesses textos, o leitor se defronta com um narrador inquisitivo que expõe, com elegância e economia de meios, de forma paradoxal e lapidar, suas conjecturas e perplexidades sobre o universo, retomando motivos recorrentes em seus poemas e ensaios desde o início de sua carreira: o tempo, a eternidade, o infinito. Os enredos são como múltiplos labirintos e se desdobram num jogo infindável de espelhos, especulações e hipóteses, às vezes com a perícia de intrigas policiais e o gosto da aventura, para quase sempre desembocar na perplexidade metafísica. Chamam a atenção a frase enxuta, o poder de síntese e o rigor da construção, que tem algo da poesia e outro tanto da prosa filosófica, sem nunca perder o humor desconcertante.
Em Ficções estão alguns de seus textos mais famosos, como “Funes, o Memorioso”, cujo protagonista tinha “mais lembranças do que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo”; “A biblioteca de Babel”, em que o universo é equiparado a uma biblioteca eterna, infinita secreta e inútil; “Pierre Menard, autor do Quixote”, cuja “admirável ambição era produzir páginas que coincidissem palavra por palavra e linha por linha com as de Miguel de Cervantes”; e “As ruínas circulares”, em que o protagonista quer sonhar um homem “com integridade minuciosa e impô-lo à realidade e no final compreende que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando”.

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