Posts Tagged ‘Leila D. S. Teixeira

02
set
11

Fragmentos da eternidade, por Leila D. S. Teixeira

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Odisséia: a trajetória de Odisseu, por Leila D. S. Teixeira

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Se pesquisarmos o significado da palavra Odisséia, encontraremos muitas definições.

Na Wikipédia, encontramos que a Odisséia, em grego, Οδύσσεια, é um dos dois principais  poemas épicos da Grécia Antiga, atribuídos a Homero. Segundo a enciclopédia eletrônica, seria uma seqüência da Ilíada, e um poema fundamental ao cânone ocidental moderno. Historicamente, consistiria na segunda – a primeira sendo a própria Ilíada – obra existente da literatura ocidental, e teria sido escrita no fim do século VIII a.C., em algum lugar da Jônia, região da costa da Ásia Menor então controlada pelos gregos, e, atualmente, parte da Turquia.

No Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, obtemos as definições a seguir expostas:

1. Poema do grego Homero (v. homérico), cujo assunto são as aventuras de Ulisses ao retornar à pátria, após a tomada de Tróia.

2. Fig. Viagem cheia de peripécias e aventuras.

3. Fig. Narração de aventuras extraordinárias.

4. Fig. Série de complicações, peripécias ou ocorrências singulares, variadas e inesperadas:
“uma odisséia romanesca de aventuras e de reveses” (Latino Coelho, Cervantes, p. 45); “contou-me toda a sua trabalhosa odisséia de prisões e de degredos” (Eça de Queirós, Prosas Bárbaras, p. 34)[1].

Tanto em uma, quanto em outra fonte, podemos observar o aspecto canônico da Odisséia. A trama da narrativa, surpreendentemente moderna na sua não-linearidade, apresenta a originalidade de só conservar elementos concretos, diretos, que se encadeiam no poema sem análises nem comentários. A influência homérica é clara em obras como Os Lusíadas ou o Ulysses, de James Joyce, mas não se limita aos clássicos. As aventuras de Ulisses, a superação desesperada dos perigos, nas ameaças que lhe surgem na luta pela sobrevivência, são a matriz de grande parte das narrativas modernas, desde a literatura ao cinema. Em português, bem como em diversos outros idiomas, a palavra “odisséia” passou a referir qualquer viagem longa.

Entretanto, nenhuma das definições acima fala, expressamente, o que entendemos o mais importante sobre a palavra. Odisséia significa a trajetória de Odisseu. É a história do “multifacetado, que muitos males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra. Viu cidades e conheceu costumes de muitos mortais. No mar, inúmeras dores ferilham-lhe o coração, empenhado em salvar a vida e garantir o regresso dos companheiros[2]”.

Como aparece na tradução de Donaldo Schüler, Odisseu é uma figura multifacetada. Para vencer as dificuldades que se apresentam no caminho para casa, usa da inteligência, da destreza, da coragem e da força. Sem o amparo de ninguém, Odisseu inventa soluções para todas as dificuldades. “Os deuses, que decretam o seu regresso à pátria, ofereceram recursos imprecisos para realizá-lo. Odisseu é vitorioso por ser quem é”[3].

Ao lado das características heróicas de Odisseu, de forma inovadora, o poeta apresenta aspectos inerentes a todos os seres humanos. À medida que a narrativa introduz novas aventuras, as reações de Odisseu aos obstáculos vão revelando as muitas faces do protagonista. Ganancioso, orgulhoso, prudente, perpsicaz, curioso, desbravador, inteligente, vaidoso, generoso, insensato, apaixonado, estrategista, sensível, esposo, amante, pai e filho. Ontem, hoje e sempre, Odisseu é “tantos que chega a se confundir com o homem enquanto espécie” [4].

Certamente ele arrasta seu público a um mítico mundo de sonho, mas esse mundo de sonho se torna simultaneamente a imagem espetacular do mundo real em que vivemos, no qual dominam necessidades e angústias, terror e dores, e no qual o homem se acha imerso sem escapatória. [5]

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[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”. 3ª ed. Curitiba: Positivo, 2004. p. 1427.

[2] HOMERO. “Odisséia I – Telemaquia”. Tradução: Donaldo Schüler. 1ª ed. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 13. versos 01 a 05.

[3]  SCHÜLER, Donaldo. “ODISSÉIA: a epopéia das Auroras”. In: HOMERO. “Odisséia III – Ítaca”. 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 9.

[4] SCHÜLER, Donaldo. “ODISSÉIA: a epopéia das Auroras”. In: HOMERO. “Odisséia I – Telemaquia”. 1 ed. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 140.

[5] CALVINO, Ítalo. “Por que ler os clássicos”. Tradução: Nilson Moulin. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. pp. 22 a 24.

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Leila D S Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.

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Leila publica neste blog na primeira sexta-feira do mês.


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05
ago
11

Fragmentos da eternidade, por Leila D.S. Teixeira

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Street art Berlin parte um: a não-exaltação do artista, por Leila Teixeira

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Foto Leila Teixeira.

Tinha programado escrever este mês sobre a street art em Berlim: sobre o modo como a cidade colabora com a criatividade visível nas ruas e com a criatividade na mente das pessoas; sobre o fato de que, devido à street art, as ruas de Berlim mudam constantemente; enfim, sobre o círculo virtuoso que a cidade, os artistas e o público impulsionam. Porém, achei que deveria ler mais a respeito de urbanismo e de sociologia, antes de me meter em assuntos que não conheço direito.

Depois pensei em falar sobre a versão turística (East Side Gallery) e a versão alternativa da street art em Berlim, mas isso seria repetir o que centenas já fizeram: muito mais produtivo listar alguns sites e blogs que apresentam o tema (como fiz abaixo).

Já estava desistindo dos muros de Berlim quando li a entrevista que o FUCK YOUR CREW deu ao Urban Illustration Berlin. Este último é um guia da street art em Berlim, composto por centenas de fotos de intervenções em prédios da cidade, um mapa para o leitor poder visitar os locais fotografados e dezesseis entrevistas com os artistas que estão no guia. FUCK YOUR CREW é um dos artistas e ele me fez identificar o principal motivo que me leva a gostar de street art: a não-exaltação do artista.

Sei que muitos artistas de rua vivem na mídia, expõem até em museu, mas o espírito de humildade permanece. A rua proporciona isso: em um espaço público e democrático, famosos pintam ao lado de totais desconhecidos, iniciantes adesivam ao lado de consagrados. A rua é de todos, e, para ela, não interessa o artista, mas, apenas, a obra. Se eu estudasse filosofia iria falar do subjetivismo nietzscheano contido na estética da embriaguez versus o pensamento heideggeriano no qual o centro de gravidade da arte é a obra, mas a resposta do FUCK YOUR CREW é tão mais objetiva, que preferi transcrevê-la, com a ajuda do tradutor Paulo Menechelli.

“Então… o que nós devemos dizer? É lisonjeiro ter nosso trabalho publicado em livros e ser solicitado a dar uma entrevista. Mas isso não é o que nos motiva a criar arte na rua. Todo esse papo, ultimamente, só nos afasta de fazer arte. FUCK YOUR CREW é uma expressão daquilo que nós fazemos por diversão, e daquilo que nos gostaríamos de ver os outros fazendo com mais frequência. Para nós, não é importante quem nós somos ou de onde nós viemos ou qual é nosso background. Se pensarmos na repercussão dos nossos trabalhos dentro do tempo relativamente curto em que eles existem, podemos acreditar que falam por si próprios. Se nossos trabalhos chamam a atenção de outras pessoas e as fazem felizes, então, nós alcançamos o nosso objetivo (…)”

Em relação ao nome, o artista diz que FUCK YOUR CREW (foda-se o seu time, na minha tradução) é uma piada sobre a mentalidade de rebanho que alguns grafiteiros apresentam por aí.

WWW.blublu.org

http://streetart.berlinpiraten.de/

http://www.alternativeberlin.com/

http://www.eyecandiesblog.com/9/post/2010/9/berlin-street-art.html

http://www.slowtravelberlin.com/2011/07/21/the-heritage-of-berlin-street-art-and-graffiti-scene/

WWW.xoooox.com

http://www.eastsidegallery.com/

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Leila D S Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.
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01
jul
11

Fragmentos da eternidade, por Leila D. S. Teixeira: auto-estrada do Sul

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Auto-estrada do Sul, por Leila D. S. Teixeira

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Foto de Leila D. S. Teixeira
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O conto “Auto-estrada do Sul”*, de Júlio Cortázar, é um excelente exemplo do uso do tempo e do espaço como elementos de construção do significado.

As personagens estão presas em um engarrafamento quilométrico, em uma estrada que leva a Paris. Na mesma velocidade em que se movem os carros, as relações interpessoais vão sendo construídas. Pessoas vão se conhecendo, grupos vão se formando, funções dentro dos grupos vão surgindo, vizinhos de carros vão se tornando íntimos. Durante trinta páginas, Cortázar estrutura um microcosmos delicado e complexo que vagarosamente passa a abarcar as personagens. É interessante notar que, as personagens vão se movendo lentamente e se tornando cada vez mais próximas, durante o percurso de um caminho com uma única direção, pois todas desejam chegar a Paris e não têm como voltar atrás. O tempo é tratado da mesma forma por Cortázar: em uma única direção. O escritor não utiliza flashbacks ou flashforwards na narrativa e, com isso, não diferencia de forma marcante o tempo da história e o tempo do discurso, coloca-os, ambos, movendo-se no mesmo sentido. Assim, a estrada sem volta, o tempo da história e o tempo da narrativa na mesma direção aparentam ser a linha da vida, na qual não se pode voltar atrás, tampouco adiantar acontecimentos.

O fim dessa estrada (e do conto) será o sinônimo da destruição do microcosmos paulatinamente construído. De maneira veloz e abrupta, em apenas um parágrafo, Cortázar desfaz totalmente a rede antes estruturada em trinta páginas: como acontece fora da ficção, o protagonista se vê sozinho em meio a estranhos, pois as pessoas com quem havia estabelecido intimidade e cumplicidade foram arrancadas de seu convívio, para sempre, sem que ele pudesse se despedir, pelo trânsito que voltou a correr a oitenta quilômetros por hora.

*O conto “Auto-estrada do Sul” está no livro “Todos os Fogos o Fogo”, de Júlio Cortázar, publicado pela Civilização Brasileira.

Leila D S Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.

Leila publica regularmente neste blog na primeira sexta-feira do mês.

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15
nov
10

Vai rolar na Palavraria, 16/11: segundo encontro da Vereda Literária

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16, terça, 19h: A palavra, palestra e debate com Cintia Lacroix e Leila D.  S. Teixeira – Mediadora: Daniela Langer. 1ª Vereda Literária na Palavraria.

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A palavra direciona o texto, ou o texto inventa a palavra? A construção e a voz no texto literário, as diferentes formas de combinação dos elementos narrativos e a possibilidade de infinitas combinações entre significante e significado.

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Cíntia Lacroix nasceu em Porto Alegre, em 1969. Formou-se em direito na UFRGS e cursou jornalismo na PUC. Em Roma, estudou direito internacional e literatura italiana. Trabalha como Procuradora da Fazenda Nacional, na Advocacia-Geral da União. Participou da oficina de criação literária ministrada por Luiz Antonio de Assis Brasil, publicando contos na coletânea Contos de oficina 28, e frequenta os seminários de criação literária coordenados por Léa Masina. É autora do romance Sanga menor (Dublinense, 2009).

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Leila D.  S. Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a VEREDA LITERÁRIA.

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Daniela Langer é designer. Também estuda o que lhe causa espanto na literatura e é aluna da Oficina Charles Kiefer desde 2005. Foi premiada no Concurso Osman Lins de Contos 2005. Tem textos publicados em em antologias, entre elas Inventário das delicadezas (Nova Prova, 2007) e Novos Contos Imperdíveis (Nova Prova, 2007) e Outras Mulheres (Dublinense, 2010). Escreve nos blogs Ordinariedades e Outras Mulheres.

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09
nov
10

Vai rolar na Palavraria, dia 10/11: 1ª vereda literária

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10, quarta, 19h: A consciência, palestra e debate com Daniela Langer e Monique Revillion – Mediadora: Leila D. S. Teixeira. Primeiro encontro da 1ª Vereda Literária na Palavraria.

As palestrantes:

Daniela Langer é designer. Também estuda o que lhe causa espanto na literatura e é aluna da Oficina Charles Kiefer desde 2005. Foi premiada no Concurso Osman Lins de Contos 2005. Tem textos publicados em em antologias, entre elas Inventário das delicadezas (Nova Prova, 2007) e Novos Contos Imperdíveis (Nova Prova, 2007) e Outras Mulheres (Dublinense, 2010). Escreve nos blogs Ordinariedades e Outras Mulheres.

Graduada em Jornalismo, Monique Revillion é professora universitária e atualmente conclui o mestrado em Escrita Criativa na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, sob orientação do professor e escritor Luiz Antônio de Assis Brasil. Foi a segunda colocada no Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, em 2001, e finalista, em 2004, do prêmio Casa de Cultura Mário Quintana, com o livro de contos Teresa, que esperava as uvas, publicado pela Geração Editorial em 2006. O livro, sua primeira publicação individual, foi laureado com o Premio Açorianos de 2006 – mais importante prêmio literário do Rio Grande do Sul – nas categorias contos e livro do ano. Seus contos foram também publicados em diversas antologias e revistas especializadas no país.

Leila D S Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a VEREDA LITERÁRIA.

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