Posts Tagged ‘leitura



26
out
12

Vai rolar na Palavraria, neste sábado, 27/10: Bianca Obino convida Ana Santos

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27, sábado, 19h: Bianca Obino convida Ana Santos

Bianca Obino vem ganhando destaque na cena gaúcha há 3 anos com o projeto “Bianca Obino Convida”, dirigido por Felipe Azevedo, numa série de espetáculos seus no formato violão e voz, sempre ao lado de outro artista convidado. Em Março deste ano foi agraciada com a Comenda Lobo da Costa, oferecida pela Sociedade Partenon de Literatura aos artistas destaque na área cultural do RS em 2011. É bacharel em Canto Lírico pela UFRGS. Agrega ao seu currículo diversos cursos, workshops e masterclasses de aperfeiçoamento em cidades do Brasil, Itália e Estados Unidos. Está em pré-produção do seu primeiro CD.

Ana Santos, natural de Porto Alegre, estudou Jornalismo na UFRGS e cursou a Oficina de Criação Literária da PUCRS. Também participou de duas oficinas de escrita criativa na Universidade do Colorado, e tem contos publicados em antologias e nas revistas Bravo!, Cult e Ficções. Publicou O que faltava ao peixe, contos, pela Libretos em 2011.

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10
out
12

Vem aí: Clube de Leitura na Palavraria

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Clube de Leitura Penguim/Companhia das Letras – Palavraria

Inscrições gratuitas

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O Clube de leitura visa reunir, na primeira segunda-feira de cada mês, pessoas interessadas em ler e trocar idéias informalmente sobre obras clássicas e contemporâneas da literatura.

A primeira reunião, no dia 5 de novembro de 2012, terá como foco de discussão o livro Terra Sonâmbula, de Mia Couto (já disponível na Palavraria). A partir daí, em cada reunião os participantes escolherão as obras a serem discutidas nos próximos encontros e os respectivos mediadores, que serão sempre alternados.

Os participantes do Clube de Leitura terão um desconto de 10%, ao adquirirem na Palavraria os livros destinados à discussão.

Informações e inscrições na Palavraria
Rua Vasco da Gama, 165 – 51 3268 4260 – de segunda à sexta das 11 às 21h
ou pelo email palavraria@palavraria.com.br.

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Terra sonâmbula – sinopse:

Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1965-75), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992.

O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga, e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra.

Terra Sonâmbula – considerado por júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século XX e agora reeditado no Brasil pela Companhia das Letras – é um romance em abismo, escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa. Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula, que nos ensina que sonhar, mesmo nas condições mais adversas, é um elemento indispensável para se continuar vivendo.

Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955. Jornalista, poeta, cronista, ficcionista, é considerado um dos principais escritores africanos da atualidade. Em muitas das suas obras, tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. Em 1999, o autor recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra e, em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas Românicas.

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19
ago
12

A crônica de Gabriela Silva: Um pouco de paciência

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Um pouco de paciência, por Gabriela Silva

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Certa vez trabalhei numa pesquisa sobre Machado de Assis, era minha tarefa (um bocado prazerosa) ler as crônicas produzidas por ele. Num destes textos encontrei a seguinte frase: “a paciência é um biscoito dado pelos deuses.” Não contesto essa frase. Dizem os budistas que a paciência é cultivável. Não contesto também.

A palavra paciência vem do latim “patientĭa, ae” com o significado de “capacidade de suportar, constância; submissão, servilismo; faculdade de resistir, derivado do verbo patĭor, ĕris, passus sum, pati “sofrer” – informações essas retiradas do Houaiss.

Bem, a paciência é uma virtude. Inerente ou adquirida. Aliada à sabedoria, torna-nos seres melhores. O questionamento é: o que é ser melhor? Considero uma boa resposta: saber posicionar-se entre bem e o mal, entre as virtudes e as incapacidades, entre o não e o sim. Equilíbrio é um bom sentido para “ser melhor”. A caridade e a justiça nem sempre precisam estar conjugadas a um trabalho social. A caridade pode ser também a gentileza e a solidariedade. A justiça pede que prestemos atenção a tudo que nos cerca e então poderemos fazer uso dela.

É fato que a paciência nos exige o exercício cotidiano de aprender. Então você se pergunta: aprender o quê? E eu respondo: aprender a observar, a “sacar” o mundo e as pessoas.

Então eu me lembro de algumas das personagens criadas por Salinger que são tomadas pela mais sublime paciência, como Seymour, ou ainda Holden Caulfield. São personagens que observam o mundo, tranqüilas, e decidem a longo prazo o que vão fazer. Isso sempre me fascinou em Holden, protagonista de O apanhador no campo de centeio (do original The catcher in the rye). Chamado de “o livro que criou uma geração”, a narrativa é sobre um garoto que depois de rodar em quase todas as disciplinas na escola está voltando pra casa. E então é que entra a minha questão sobre paciência: Holden pensa sobre sua vida, sobre as coisas que quer e que não consegue fazer, sobre a sua relação com o mundo e com as coisas. Não um símbolo de rebeldia, mas de observação, de método, de paciência.

Lembro que conseguir esse livro foi para mim um exercício de paciência. Eu o queria há bastante tempo, um dia descobri que minha irmã o tinha na sua estante. Eu que não havia percebido. Mas não me bastava ler aquele ali, ele tinha de ser meu. E eu não podia apenas pegá-lo para mim, tinha que ser um negócio limpo. Achei na minha estante um livro que ela queria: O senhor embaixador de Erico Veríssimo. Foi um bom negócio. Depois do Apanhador, eu comprei todos os outros do Salinger. Nunca mais deixei de ler suas histórias, nunca mais consegui não pensar durante horas antes de resolver um assunto. A paciência é, sim, cultivável.

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Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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13
ago
12

A crônica de Emir Ross: Estaremos fazendo

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Estaremos fazendo, por Emir Ross

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Há uma instituição nacional que é exclusividade dos brasileiros. Chama-se Estaremos Fazendo. Em outros lugares isso seria compromisso futuro. Aqui, é o tapa furo.

O Estaremos Fazendo é a variante que, para o emissor, significa “tudo bem, para de encher-me” e, para o receptor, “finja que faz e eu finjo que acredito”.

O povo tupiniquim é o povo mais generoso do mundo. No Brasil, todos querem cumprir com sua parte. Com a torcida na Copa do Mundo, com um conselho a quem pede informação, com os moradores de rua. Quando alguém bate na casa de um tupiniquim pedindo cinco reais para o leitinho das crianças, este prontamente coloca a mão na carteira e retira uma nota de cinco; como se não bastasse, ao dar as costas ao pedinte, lembra que há uma moeda em seu outro bolso e chama-o de volta. “Ei, fique também com isso!”

Depois, sorridente e coçando a barriga, volta para assistir o Domingão do Faustão. Fala para a mulher “Fiz minha parte”. Se ela questionar sobre o destino daquele dinheiro, que poderia ser a aquisição de drogas, o tupiniquim responde: “Bom, fiz minha parte.” E se ela sugere que o melhor, já que o indivíduo pretendia comprar leite, era dar-lhe uma das quatorze caixas de leite que há na despensa, ele responde: “Bom, a minha parte eu fiz.”, e troca para o Programa Silvio Santos.

Quando um tupiniquim pretende contratar um serviço, como TV por assinatura, ele ouve do outro lado da linha: “É pra já.” Agora, quando ele estiver de saco cheio por este serviço não funcionar nas horas em que ele está em casa para assistir e pedir uma visita técnica a fim de verificar o problema, a resposta é “Estaremos fazendo”. Ele aguardará por alguns dias, ou semanas, essa visita, até irritar-se pelo péssimo serviço e pelo preço exorbitante. Ligará para cancelar a assinatura. Então ouvirá: “Estaremos cancelando”. E, assim, ele “estará fazendo pagamentos” e assistindo o Domingão do Faustão.

Já ouvi falar que o Estaremos Fazendo vem de uma antiga técnica tuaregue para enganar saqueadores. Funcionava assim: ao saberem que seus espaços seriam invadidos, os tuaregues colocavam o que tinham de mais vistoso e barato, ou seja, vagabundo, à vista. Quem saqueava ia levando tudo, e perguntando se não havia nada de mais valioso. “Estaremos fazendo, senhor, mas a temperatura ainda não é adequada.” Quando os saqueadores retornavam, então os tuaregues haviam-se já mudado.

A filosofia também explica o estaremos fazendismo tupiniquim. Nesse caso, acredita-se que os infortúnios acontecem “apesar” de todo esforço e, principalmente, “apesar de eu ter feito minha parte”. Então, “se todos fossem como eu, não haveria fome, prostituição (a não ser de vez em quando) e crianças fora de escola.”

Mas, na minha humilde crença anti-intelectualismo e anti-comportamento-historicamente-adquirido, penso o contrário. Se o tupiniquim encontra dinheiro no chão ele o apanha e guarda, afinal, se não o fizer, outro o fará. Se pescar um peixe proibido, ele o guardará, afinal, melhor ser ele do que outro. Se ele ajeitar a bola com a mão e o juiz não perceber, fará o gol, pois se não fizer certamente o centroavante do time adversário o fará.

Para intervir na instituição do Estaremos Fazendo talvez tenhamos que imigrar para o Japão, ou então para o Guarani, que é o país que morava aqui antes do Brasil chegar. Fora isso, penso que não “estaremos fazendo” nossa parte nem antes, nem durante e nem depois do Domingão do Faustão.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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30
jul
12

A crônica de Emir Ross: Praça Shiga

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Praça Shiga, por Emir Ross

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Mario Quintana morreu triste. Havia ruas de Porto Alegre pelas quais jamais tinha andado. Ele não era um grande caminhante. Preferia as mesas dos cafés e os cigarros. Mas era um grande apaixonado. Talvez por isso tenha morrido triste.

Eu consigo ser ainda mais triste que Quintana. Primeiro porque não escrevo como ele escrevia. Depois, porque não conheço metade das ruas de Porto Alegre pelas quais ele pisou.

Os engarrafamentos dos anos dois mil têm responsabilidade por uma parcela de minha tristeza. Meu bundamolismo se encarrega da outra. De todo o tempo que perco na vida, não há tempo pior gasto que o a não conhecer as ruas de Porto Alegre.

Não conheço as ruas do IAPI. Não conheço a rua que leva a Itapuã. Não conheço a Rua 24 horas de madrugada. Nunca pisei na Rua Esplanada.

Isso é assustador. Enquanto desfilo a caneta por essas linhas, perco passos. Mario Quintana certamente estaria soprando em meus ouvidos se não tivesse coisas mais importantes para fazer.

Causaria-lhe genuína aflição ver-me a não caminhar por paralelepípedos, lajotas ou caminhos de chão batido.

Uma das causas dessa displicência deve ser meu desapego para comigo mesmo. Sou desprovido de amor-próprio. Por isso envelheço sem fazer o que mais gosto: ler Quintana enquanto tomo um expresso no Café Santo de Casa.

Leio-o no sofá da sala. Ao invés do Guaíba, admiro a parede roxa.

Quintana era porto-alegrense roxo. Embora não tenha nascido aqui. Também não nasci aqui. Talvez esse seja o motivo da minha cor bege. Ou talvez eu tenha essa aparência por minha falta de paixão. Ou minha falta de idade. Quintana tinha a idade do mundo. O suficiente para ser pai de qualquer rua dessa cidade.

Filhas pródigas, algumas.

Temporãs, outras.

Órfãs, todas.

Quando o relógio avisa que são dezoito horas, geralmente faz calor na Praça Shiga. Dou-me conta de que desperdicei algumas linhas durante o dia. Fico um pouco menos triste. Não conheci novas ruas. Mas convivi com a praça. É sempre assim. Essa praça se renova a cada sol. Por isso, volto todas as tardes, para conhecê-la. Às dezoito horas, o zelador precisa fechar as portas.

Nessa hora, a cidade muda. Dou boas-vidas ao engarrafamento e à minha parede roxa. Mario Quintana morreu triste. Havia ruas de Porto Alegre pelas quais jamais tinha caminhado.

Eu consigo ser ainda mais triste. Amanhã passarei a tarde na Praça Shiga.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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29
jul
12

A crônica de Gabriela Silva: Recordar, ler e recordar de novo

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Recordar, ler e recordar de novo, por Gabriela Silva

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“Texto de prazer: aquele que comenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise em relação com a linguagem.” Roland Barthes. O prazer do texto.

Ler é antes de tudo, romper com o propósito de um universo único. Lemos porque precisamos. É a sede de conhecer o que nos é diferente, estranho ou ainda exótico. Procuramos na literatura as viagens que determinadas por espaço e tempo não podemos realizar. E então, encontrando o caminho dessas viagens, passamos a procurar respostas, para um acontecimento cotidiano, para decepções, para alegrias…E quando encontramos, junto está a sensação de que algum ente no mundo esteve na mesma situação. É ai que nos identificamos com alguma personagem que nos dá a impressão de que é real, de que viveu semelhantes experiências. Não que a literatura seja perfeita, não que ela deva desconstruir nossa visão da vida. Não. É mais do que apenas isso. Imagine fragmentar-se por centenas de livros, em cada um deles colocar uma memória, como um álbum de fotos. Como se classificariam? Que livros são a minha, a sua memória?

Há determinados livros que são a chave de nossa memória toda. Assim como existem filmes, músicas e pessoas que concentram boa parte das imagens que guardamos em nossa mente (ou no coração). Uma vez li, em determinado livro de teoria literária, que “recordar” não vem de lembrar, mas se origina da palavra cordis, coração em latim. Então, recordar é passar novamente pelo coração, esse arquivo de memórias e sentimentos.

Sempre que me lembro das minhas leituras de criança, um livro em especial aparece na memória: O burrinho que queria ser gente, de Herberto Salles. Era uma edição mesmo muito feia, que minha mãe me havia dado numa feira do livro. O que me fazia ler ele umas muitas e tantas vezes era o final: nunca me conformei. A história é assim: um burrinho queria ser gente, um dia ele encontra uma bruxa que o transforma em… gente. Dai é aquilo, sempre tem um porém, uma mas, um não sei o quê… e essa, como uma boa história, também tinha: o burrinho era muito querido e portanto chamado assim: burrinho querido. A bruxa lhe ajudou, mas também deixou dito que o batizaria de Ohnirrub Dorique, e que se um dia alguém lhe dissesse o nome ao contrário, ele voltaria a ser burro. Ele vai viver sua vida (nas ilustrações ele era bem bonito), se apaixona por uma moça linda e um belo dia… ele faz uma coisa errada e a namorada lhe diz: ah meu burrinho querido! E puff! Ohnirrub Dorique se transforma em burro e volta pra casa numa nuvem para o campo, triste e solitário. A moral? Preste atenção no que você faz, ou pode por tudo a perder.

Esses dias encontrei o livro na minha estante. Ele estava meio deixado de lado, talvez até mesmo esquecido. Li e recordei. E ele fruiu em mim, como nunca antes, me deixou desconfortável mesmo, a pensar nas ações e reações que o cotidiano demanda de mim. E me aconchegou, pois mais uma vez lembrei que, desde a infância, eles, os livros, me acompanham. E consigo trazem as personagens que habitam comigo o mundo. Ainda que não lhe possa mostrar, amigo, Ohnirrub Dorique está agora aqui a soprar no meu ouvido: let it be… let it be… porque um dia, menina, alguém pode te dizer que está na hora de voltar pra casa.

Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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16
jul
12

A crônica de Emir Ross: Seu Jorge

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Seu Jorge, por Emir Ross

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Por que não leio mais jornais?

Porque dedico três minutos antes das dez para falar com Seu Jorge, o porteiro. Entre seis e oito da manhã, ele lê os quatro tablóides de Porto Alegre. Às sextas, também dá uma espiada na Folha, que um senhor do sexto andar assina. Mas Seu Jorge não gosta da Folha, é difícil de acomodar por trás do balcão.

Seu Jorge é o último plantão noticioso propriamente dito. Ele sabe de tudo. Da roupa que usamos a mais ao sair à assertividade dos planos para nosso final de semana. Também, só de olhar, sabe o que os candidatos a prefeito dirão antes das campanhas começarem.

Estou cada vez mais convencido sobre a eficácia da Sabedoria da Portaria. É o conhecimento e a informação mais sólida que vem se construindo nas areias do século XXI.

Nessas areias contemporâneas, tudo é desmentido. A verdade absoluta morreu. A ciência ou a amante sempre estão aí pra provar o contrário.

Tudo se desfaz no ar. Desde o melhor time de futebol de todos os tempos a tradicionais teorias sobre meio de vida e alimentação vegana.

No século XXI, nada é o que parece. Ou nada é o que é.

Menos a sabedoria do Seu Jorge.

O Seu Jorge é mais preciso que a previsão do tempo. Porque ele lê os quatro jornais e depois dá uma olhada no céu para ver a movimentação do vento e das nuvens.

O Seu Jorge faz melhores roteiros que a CVC. Pois ele sabe a temperatura em cada cidade da Serra ou Litoral, e dirá se as dicas de gastronomia estarão adequadas para a sexta, o sábado e o domingo.

O Seu Jorge cruza informações.

E depois dá seu parecer ajustado ao que aprendera lá no interior de Getúlio Vargas com seu avô.

Ele nunca erra.

Na minha doutrina de vida, estou a abolir gradativamente os jornais e a inserir cada vez mais a Sabedoria da Portaria. Os papelóides sempre repetem os assuntos. Nas férias, quando não posso levar o Seu Jorge, levo um jornal e leio-o todos os dias como se fosse a primeira vez. Após o ponto final, a sensação é a mesma.

Sensação era o motivo para se ler resenhas, críticas, até anúncios fúnebres. Mas a sensação não existe mais. A opinião escafedeu-se junto com o último jornalista. Depois da preguiça imposta pela instantaneidade, apenas sobreviveram as agências de notícias e as assessorias de imprensa que repassam idêntica informação para todos os veículos.

Por isso, invisto no Seu Jorge e na Sabedoria da Portaria. Ela tem suas vantagens, afinal, não vem pasteurizada, promove a interação social e é bem mais higiênica. Por acaso vocês sabem como é produzido o papel jornal e porque ele deixa aquela cor enegrecida nos nossos dedos depois de alguns minutos de leitura?

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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