Posts Tagged ‘livraria em Paris

15
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Cartas à Palavraria, por Reginaldo Pujol Filho: I work for café, pão de queijo e cerveja

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I work for café, pão de queijo e cerveja, por Reginaldo Pujol Filho

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Carla,

Andei por Paris. E voltei de lá com uma ideia. E pra te explicar, vamos dar uma voltinha pela Palavraria? Assim, quando a gente entra na livraria, além de dar oi pro Carlos, pode caminhar reto uns 10 passos e aí chega na escada. Daí a gente pega e sobe a escada, esses degraus que tantas vezes fiz de arquibancada, tantas vezes subi pras aulas do Kiefer, bom, tá. Degraus subidos, no segundo andar, 3 opções: a sala grande, onde são/eram as aulas do Charles; a salinha do computador de onde de vez em quando vocês ouviam as leituras das aulas (pensa que eu não sei?); e, mais no fundo desse mini-corredor, aquela outra sala, menos utilizada, mas que tem até um banheiro. É isso, né? Pois era aí que eu queria chegar. Nessa sala. É que pensei assim: quando eu e a Jajá voltarmos pra Porto Alegre, onde é que a gente vai dormir? Daí tive a ideia: Carla, e se a gente fizesse um quarto com banheiro ali? Pronto, posso passar um tempo na Palavraria, por que não?  Tem pão de queijo, café, cerveja e os livros. Feito o carreto. Durante o dia, até dá-se uma força na livraria; quando não tiver movimento, posso escrever, ler um pouco. Não parece uma boa ideia?

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Em Paris é. A Shakespeare and Company que eu (e mais um bilhão de pessoas) fui visitar, além dos personagens míticos que faziam de lá ponto de encontro, tem essa história de até hoje albergar uns escritores. Dá espaço e livro pra eles escreverem, eles trabalham um tempo na livraria e a loja continua sendo uma das tantas atrações turísticas da cidade luz. Talvez hoje ela viva mais até de ser ponto turístico do que de ser livraria, difícil saber. Mas, apesar de ter que pedir licença pras pessoas (tirando fotos, mais do que lendo) pra andar lá dentro, não tem como negar que, mesmo com o verniz do turismo, por baixo dele ainda tem aura. Falo isso, porque dá pra pensar se é possível ainda hoje uma livraria construir essa fortaleza moral, ter tanto significado quanto os livros lá dentro, atrair gente do mundo inteiro pra conhecer o espaço ou pra fazer dela casa, escritório e inspiração. Pois torço pra que sim, sabe? A Shakespeare and Company é daquelas coisas que faz lembrar da importância da livraria como templo de escritores e leitores e de todo mundo que se relaciona com o livro e a literatura. É necessário que isso exista e que surja mais – embora o movimento nos dias de hoje seja justamente o contrário. Mais do que lugares pra encontrar livros, que as livrarias sejam o mundo, a pista de pouso, do mundo dos livros. É importante ter esse lugar pra encontrar o lançamento, o autor preferido, mas também os amigos, os conhecidos e os desconhecidos.  Digamos assim: eu não vou marcar um encontro com o Pena e o Rosp na Amazon. Não tem como. É preciso esses endereços onde a gente possa jogar um pouco de utopia fora. Afinal, mesmo os ideias e as manifestações e os movimentos nascidos na internet nos últimos tempos, no final das contas, precisam de gente tudo junto reunida pra acontecer de fato. E a livraria (digo livraria, não supermercado de livros) é essa praça, essa frente de palácio de governo, onde podem – e devem se reunir – todos esses que acreditam nessa utopia que é a literatura.

E claro que eu não sou o Hemingway nem o Sartre, mas também, vamos combinar, o nosso Monumento ao Expedicionário não é o Arco do Triufo e o Parcão não é bem o Jardim de Luxemburgo. Portanto, Carla, se quiser ajudar a montar esse quartinho aí, quem sabe? Eu trabalho por pão de queijo, café e cerveja.

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

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