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10
nov
12

A crônica de Clarice Müller: Da Feira ao baião

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Da Feira ao baião, por Clarice Müller

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Verão é rua, definitivamente. Só mesmo o calor pra botar feira no lugar de cinema, livro no lugar de teclado. Mais aquelas bolachas todas se amontoando enquanto seu chope não vem. Normal, algo tem que compensar a canícula que sói ser inclemente por aqui e em Moscou (aquecimento global é chapéu que cabe em todos, sorry). Fiquemos nas delícias, porém, para não antecipar notícias que podem, ou não, ser fatais ao planeta segundo os incas ou maias, não sei qual deles tinha o calendário mais certinho, só sei que com eles a coisa não funcionou, tanto que estão extintos há um tempão enquanto nós seguimos aqui, não muito belos nem muito faceiros, porém ajudando a extinguir quem mais precise de uma mãozinha nesse sentido, êba!

Coisas boas então: Marcelino Freire ensinando o povo a soltar a língua numa oficina pra lá de boa na CCMQ, dois dias de conversa com o sujeito e se aprende a lidar com a palavra como gente grande, esse pernambucano é arretado demais! Outra pernambucana linda e talentosa aportou por aqui e dá os ares de sua poesia de um jeito que deixa todo mundo enamorado: Luna Vitrolira, que deu baile na Palavraria em noite de contos de Noll e Ivo Bender (coisa mais boa, gente!) e outro tanto na CCMQ ao meio-dia, pro povo do almoço se nutrir de outras coisas além de churrasco e sagu. Não bastasse isso, outros tantos a encontrar na Feira do Livro, debatendo, autografando, passeando, essas coisas que escritor se mete a fazer quando tá de bobeira. Bom pra atualizar a agenda que nem te conto. Até o pôr do sol mais lindo do mundo peguei de lambuja.  Na seqüência de tanto povo e literatura, nada como uma boa frescura, então toca pro shopping ver se o 007 continua com aquele corpinho que abalou Paris, promessa cumprida, thanks god!, o cara se puxa, salta, atira, esconde, bate, fode, bebe e corre que dá gosto; podia ter mais sexo e martini, mas parece que não é mais politicamente correto o Bond, James Bond, comer todas e sair matando, então fazer o que, a gente tem que obedecer os tempos modernos, não tem? O mulherio que aprecia homem pelado, porém, não precisa lamentar, que nas telas da cidade ainda tem outra chance: Magic Mike, com o Matthew McConaughey e o Channing Tatum interpretando strippers, sabe o que é isso? E depois dizem que o Papai Noel não existe!

Bom, mas pra não parecer que sou uma tarada full time, vou chegar ao X do cinema nacional: Gonzaga – de pai pra filho. Belíssimo filme! A história do difícil relacionamento entre Gonzaga pai e Gonzaga filho é muito bem contada por um elenco excelente, com destaque pro Julio Andrade, que assombra no papel de Gonzaguinha, parece encarnação, cruzes! O filme me prendeu e emocionou do princípio ao fim, ainda mais com as músicas de ambos perpassando tudo, um prazer enorme voltar a ouvi-los, arrepiei todinha. A turma dos cinéfilos talvez não aprecie muito porque a história tem princípio-meio-fim, é totalmente compreensível e, pior, emociona mesmo, além de não apresentar cortes fotográficos inusitados, mas o Breno Silveira está desenvolvendo uma cinematografia de qualidade e fora daquele binômio cidade-favela-bandidagem que já me encheu o saco.  Recomendo vivamente. Coisa boa é pra já.

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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27
out
12

A crônica de Clarice Müller: Ler é bom

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Ler é bom, por Clarice Müller

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Ler é bom. Ler é tri. Ler é demais. Demais mesmo. Em qualquer sentido que se entenda. E, ao contrário do que se pensa, a web não veio atrapalhar hábitos de leitura, veio é incrementar o processo com doses razoáveis de dispersão e nonsense. A quantidade de contos, crônicas, links, podcasts, vídeos, artigos e textos jornalísticos, artísticos, literários, políticos, espirituais, do raio que o parta que são espargidos sobre nós diariamente é espantosa. Tudo sob forte recomendação, ressalte-se. Produz-se tanto nestes tempos, que o ler quase não abre tempo para o fazer, então a leitura diagonal, de vesgueio, passou a ser a regra, vez que não basta ler, é preciso também curtir, comentar ou compartilhar, coisas que por sua vez provocam novas reações que demandam mais atenção e assim a coisa vai, vai e vai, não me pergunte pra onde. Mas, por isso mesmo, tem horas em que bate uma vontade imperiosa de trocar a banda larga pela bunda larga no sofá, um alentado livro nas mãos para mergulhar, com toda calma, em outros universos, siderais ou existenciais. Segundas-feiras chuvosas são ótimas para isso. Qualquer dia chuvoso é ótimo para isso. O mais difícil é escolher a coisa certa pra entrar de chofre.

Se você estiver cansado da multiplicidade de tudo (múltiplo passou a ser adjetivo saidinho, se deu pra perceber) e preferir adentrar num universo já conhecido, a literatura policial não te deixa na mão. Quem faz carreira no ramo é porque já criou um detetive-policial-investigador com características bem marcantes, num cenário bem definido e todo um jogo de relações familiares e profissionais que fazem com que o dito se torne uma pessoa da casa, por assim dizer. Quando você pega um livro da P. D. James, por exemplo, sabe de antemão que vai encontrar o inspetor-superintendente Adam Dalgliesh fazendo uso de sua inteligência e sensibilidade de poeta (sim, ele é poeta e dos bons) para desvendar os crimes que ocorrem entre jardins e escarpas britânicos, esfera de atuação da Scotland Yard, sempre auxiliado por uma equipe que você também já conhece, de modo que pode auxiliar o inspetor no que for preciso, coisa que o bom leitor tem o dever de fazer. O mesmo se aplica aos livros que envolvem o delegado Guido Brunetti em Veneza, cujo traçado já se tornou familiar para mim, como se lá tivesse estado; Salvo Montalbano, que me diverte dividindo seu tempo entre a busca por criminosos e por tascas onde comer as melhores sardinhas, personagem por sua vez inspirado em Pepe Carvalho, que Vásquez-Montalbán criou para exibir dotes culinários refinadíssimos enquanto desvenda de crimes passionais a políticos, ao contrário do inspetor Maigret, que soluciona mistérios tomando doses impressionantes de calvados desde as primeiras horas do dia, enquanto que Kurt Wallander se esquece de fazer uma coisa e outra mesmo quando a Suécia enregela seus ossos e Botsuana aquece a corpulenta e doce Preciosa Ramotswe, a primeira detetive daquele recanto africano.

Todos esses mundos chegam a mim por meio da leitura paciente, atenta, que nenhuma web me dá, por melhor que seja. Isso quando chove. Nos outros dias, o universo se multiplica mais ainda e expande suas forças sobre o fazer estético, quando então me permito comentários inúteis como este que acabo de escrever para que alguém, em algum lugar, possa ler, curtir, comentar, compartilhar e, de preferência, não deletar. Bom apetite!

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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13
out
12

A crônica de Clarice Müller: Fidalguia

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Fidalguia, por Clarice Müller

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GOSTAR. Palavrinha comum e ao mesmo tempo muito propícia a suscitar as maiores polêmicas e até mesmo cizânias quando o bicho da certeza nos morde e bota os reis a estrilar na barriga. Pra maioria de nós, gostar pode passar ao largo de questões como estrutura, sintaxe, gênero e o kit analítico padrão. Pode vir lá do fundo, daquelas áreas meio nebulosas onde mal tocamos e que aos poucos se enriquece com o que vamos adquirindo ao longo da vida, sem falar na multidão de seres imaginários que nos cochicha aos berros quando estamos a ponto de tomar decisões estéticas. É com grande alívio, portanto, que me declaro essencialmente leitora e, como tal, não preciso entender de nada, basta-me o fruir, no ritmo e modo que quiser, das minhas páginas eleitas. Posso dizer, por exemplo, sem receio de me botarem no pelotão de fuzilamento da correção artística: não gosto de Nelson Rodrigues. Não mesmo. Tenho idade suficiente para ter lido as crônicas que ocupavam página inteira na Folha da Tarde, nas quais destilava o que tinha de pior em termos de misoginia, política, moral, sexo. Também estudei suas peças quando cursava arte dramática no CAD, onde a bateção de cabeça pro velho dá nos nervos. Mulheres, padres e comunistas compunham a tríade contra a qual não poupava um milímetro de acidez, assim como todas as formas de sexo, visto sempre na forma de tara e perversão, o que não deixa de ser bem a cara de Nelson, um moralista que fazia parte do primeiríssimo time do reacionarismo. Escrevia muito bem, claro, que burro não era, mas competência não põe mesa quando a serviço dos piores propósitos, come on. E eu, talvez por defeito genético ou estético, sou chegadinha numa fidalguia. Em caras como o Gore Vidal, de quem estou lendo o Lincoln com especial deleite, porque, embora não se furte a espelhar a dor e o horror, não deixa de refletir sobre a grandeza humana, sem a qual a vida é nada, estou certa? Gosto de gente que se posiciona sobre as coisas, que tem bandeiras, que acredita, pensa, faz. Esse papinho de desintegrar tudo numa miscelânea artística sem pé nem cabeça e relativizar valor como se fosse babaquice jurássica é papo de bandido, sinceramente, papo de bandido. Presta um desserviço enorme à cultura. Confesso-me, portanto, fã de escritores que pensam o mundo na escala do universo, e não na arraia miúda da mesquinhez, onde Nelson chafurdava com tudo. Assim, se a coisa for de tomar partido, não me avexo nem um pouco, volto ao tempo das matinês no cinema do meu avô, e bato os pés com força quando o mocinho vem chegando. Xô, Nelson! Viva Vidal!

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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29
set
12

A crônica de Clarice Müller: A lista do bem

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A lista do bem, por Clarice Müller

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A melhor coisa do mundo, dizem os apaixonados, é a reconciliação. Eu também gosto de usufruir esse momento, em que os conflitos deságuam num entendimento que dá gosto e tudo vira paixão. Nesta semana, por exemplo, minha briga com Porto Alegre conheceu o outro lado da moeda, o do amor, do júbilo por tudo que esta cidade me propiciou. Também, o que queriam? Teve Porto Alegre em Cena, FestiPoa revisitada, lançamento de Solidão Continental do João Gilberto Noll e do livro de haikais do Diego Petrarca,  Cabaré do Verbo bombando cada vez mais, convites pra dar entrevista, escrever, recitar, conversar, gente querida chegando, tragos e mais tragos a pretexto, em suma, movimento pra todos os lados, o que dizem ser muito bom pra saúde, ainda que nem sempre a gente jogue no mesmo time. Anyway, pra contrabalançar essa animação toda, tem a mansidão boa repousando ao lado da cama, nos livros com quem compartilho a intimidade das madrugadas, benditas madrugadas. A saber: 1) “O espírito da prosa” do Cristóvão Tezza é uma lição de inteligência e elegância numa área que não costuma dar muito chá, a dos ensaios, mas como ele é bom em tudo que faz, dá pra ler até quando o sono pisca no cerebelo, esse cara é grande e tem que ser lido, no question; 2) na mesma seara, mas indo mais pros lados da imaginação, “A louca da casa”, da Rosa Moreno, que comecei e larguei há tanto tempo que perdi o fio da moeda, mas o bom do livro é que ele fica ali, paradinho, até eu dar outra espiada nele – teu dia chegará, Rosa, me aguarde; 3) o autor premiado da semana, vencedor póstumo do Prêmio São Paulo de Literatura, Bartolomeu Campos de Queirós, com seu primeiro livro adulto, creio, “Vermelho Amargo”, numa edição primorosa da Cosac Naify, só 69 pagininhas além de tudo, mas em cuja leitura já patinei duas vezes, simplesmente vagando e vagueando em meio a tanto tomate até que empaquei de vez, então volta pra pilha, tadinho; 4) para garantir o brilho do escrete, tem “Passeios na ilha” com Drummond, delícia, delícia, tiro mais certeiro não há, o mestre faz gol sempre, vai ser gauche na vida lá em casa, uai; 5) e, pra não dizer que não falei de sangue, “O instinto de morte”, do Jed Rubenfeld, para os  dias de chuva em que preciso ler romances policiais pra não me transformar numa serial killer, não me perguntem a razão, faz favor. Então a pilha da semana é essa, mas a pilha B já está se alinhando, com dois livros de contos de autores que estiveram na FestiPoa desta semana dando um banho de literatura e sensibilidade, “Antes que os espelhos se tornem opacos” de Juarez Guedes Cruz, e “Em que coincidentemente se reincide”, da Leila Teixeira, tipo de livro que não apenas promete, cumpre tudinho, para minha grande alegria (e da Palavraria, onde estes tesouros te aguardam). E agora me digam, sobra tempo pra escrever no meio disso tudo? Que a resposta seja sim, sempre sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, SIM.

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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