Posts Tagged ‘Luiz-Olyntho Telles da Silva

10
jul
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A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: O rapto de Lucrécia

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O rapto de Lucrécia, por Luiz-Olyntho Telles da Silva

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Ticiano Sesto Tarquínio e Lucrécia
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Lucrécia tinha trinta e seis anos quando procurou ajuda, e isso só depois de muita insistência de seu marido. Minha colega a descrevia como uma pessoa desbotada. Deveria ter tido seus dias, mas agora, tão descuidada, pálida, mais parecia um fantasma! Três anos atrás fora atacada sexualmente por um primo de seu marido, um homem que na verdade nunca tinha visto na vida a não ser em uma fotografia na qual aparecia, junto com seu esposo, em uma caçada de marrecos. Seu nome costumava vir à tona quando o assunto fosse caça. E nada mais! Até que um dia, sem ser esperado, justamente quando o marido estava de viagem, aparece o primo com armas e bagagens; enganara-se em uma semana da data de uma nova expedição e terminou ficando para passar a noite. Jantaram, seus dois filhos estavam encantados com as histórias contadas pelo primo, e depois se recolheram todos.

Enquanto minha colega começava a contar os detalhes de como o primo se aproveitara do sono da casa para invadir o quarto de Lucrécia, outras lembranças começaram a invadir minha mente. Esboçaram-se na forma de uma pintura de Ticiano, representando Sesto Tarquínio e Lucrécia, no momento em que ele, armado de adaga, a obriga a entregar-se a ele. Entremearam-se às lembraças as primeiras linhas de um poema de Shakespeare a ela dedicadas:

From the besieged Ardea all in post,
Borne by the trustless wings of false desire,
Lust-breathed Tarquin leaves the Roman host,
And to Collatium bears the lightless fire
Which, in pale embers hid, lurks to aspire
And girdle with embracing flames the waist
Of Collatine’s fair love, Lucrece the chaste.

Era a história de outra Lucrécia, descrita por Tito Lívio, um poeta romano que viveu nos dias do nascimento de Cristo. Quando nos relata a história da constituição da república romana e fala do último rei, Tarquínio, o Soberbo, Tito Lívio conta-nos que o mesmo tinha um filho absolutamente desagradável, justamente esse Sesto Tarquínio de Ticiano. O episódio envolvendo Lucrécia deu-se no sexto século a.C., durante o assédio a cidade de Ardea, um porto fortificado no litoral do Lácio, quando os filhos do rei, junto com outros nobres, para matar o tempo, divertiam-se voltando a Roma, às escondidas, para espiar suas próprias mulheres.

Entre os nobres traquinas, Lúcio Tarquínio Collatino – que depois, junto com Bruto foram os primeiros Cônsules da República –, sabia que nenhuma mulher seria mais calma, trabalhadora e fiel que a sua Lucrécia. E foi com essa convicção que levou os amigos, entre eles seu primo Sesto Tarquínio, no meio da noite, para espiá-la! Como constataram, lá estava Lucrécia pacatamente tecendo suas lãs, junto de suas criadas, enquanto as noras do rei se divertiam em um orgíaco banquete.

Mas isso de espiar as mulheres nunca deu certo! Heródoto já havia nos contado alguns desastres resultantes do voyeurismo. O jovem Werther não se apaixonou por Lotte ao vê-la passar manteiga no pão? Pois Sesto Tarquínio, cunhado de Lucrécia, também ficou fascinado e preso ao desejo de possuí-la. Tanto que poucos dias depois, escondido do marido, retornou a casa deles, a Vila Collazia, com um só homem de escolta, e é recebido com grande hospitalidade. Mas depois do jantar, adormecida a casa – tal como na história que eu agora escutava -, ele se introduziu nos aposentos de Lucrécia que, acordada de sobressalto, viu-se agredida por um homem armado de uma grande adaga. Ela ainda tentou rechaçá-lo, mas Sesto, muito mais forte, a ameaçou: se ela não consentisse em satisfazer seus desejos, ele a mataria e ao seu lado poria o corpo mutilado de um escravo, sustentando depois tê-la flagrado em flagrante adultério.

Chegada a este ponto, antes que deixar enxovalhar eternamente seu nome, Lucrécia foi constrangida a ceder aos desejos do filho do rei de Roma. Mas assim que Sesto partiu, ela enviou um mensageiro à Roma, para seu pai, e outro à Ardea, para o marido, suplicando viessem correndo junto com um amigo de confiança porque uma grande infelicidade havia acontecido.

Quando chegam os parentes, suas lágrimas até então contidas explodiram! E quando o marido lhe pergunta se está tudo bem, Lucrécia lhe responde: – E como poderia andar tudo bem para uma mulher que perdeu sua honra? Na tua cama, meu amado Collatino, estão as marcas de outro homem. Mas quero te dizer que só meu corpo foi violado, o meu coração permanece puro e eu o provarei com minha morte. Jura-me que o adultero não ficará impune. Foi Sesto Tarquínio! Foi ele que ontem à noite veio aqui e, retribuindo hostilidade em troca da hospitalidade, armado com a força, abusou de mim. Se forem homens de verdade, fazei com que esse relato não seja fatal apenas para mim, mas também para ele.

Um depois do outro, todos juraram, procurando consolá-la como este argumento: antes de tudo, a culpa recai sobre o autor dessa ação abominável e não sobre ela que tinha sido a vítima, e depois, não é o corpo que peca, mas a mente e, logo, se falta a intenção, não se pode falar de culpa. E ela replica: – Vocês podem estabelecer quem a merece. Quanto a mim, mesmo que me absolva da culpa, não significa que não terei punição. E de hoje em diante, mais nenhuma mulher, após o exemplo de Lucrécia, viverá na desonra! Depois, agarrada ao punhal que trazia escondido sob o vestido, plantou-o no coração e, dobrando-se sobre a ferida, entre os gritos do marido e do pai, tombou exânime por terra, como corpo morto cai.

Assim que o marido de Lucrécia soube do episódio – continuava o relato de minha colega –, processou o primo que foi imediatamente preso e logo solto por falta de provas, aguardando ainda o julgamento em liberdade.

O marido da outra Lucrécia, junto com o pai e o amigo Lúcio Giunio Bruto expulsaram toda a família do rei, obrigando-os a refugiarem-se na Etrúria, atos que possibilitaram a criação da República Romana no ano de 509 a.C. Dante, vinte e um séculos depois, colocou-o no primeiro giro do sétimo círculo do inferno, junto com Pirro, o filho de Aquiles, e não o rei de Epiro.

E Lucrécia, essa de hoje, vinte e sete séculos depois, não se suicidou, mas, tão desbotada,  nunca mais foi a mesma! 

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Luiz-Olyntho Telles da SilvaLuiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publicou Ponto contraponto (HCE, 2012) e, mais recentemente, Um elefante em Albany Street (HCE, 2013). Publica também na página: www.tellesdasilva.com

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14
jun
13

Aconteceu na Palavraria, nesta quinta, 13, o lançamento do livro Expulsão, de Hilda Simões Lopes

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aconteceu

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Aconteceu nesta quinta, 13, o lançamento do livro Expulsão, de Hilda Simões Lopes. Apresentação do livro pelo escritor Luiz-Olyntho Telles da Silva e a participação especial do jornalista Milton Wells.

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Palavraria - livros c.

 

11
jun
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Vai rolar na Palavraria, nesta quinta, 13, Lançamento do livro Expulsão, contos de Hilda Simões Lopes

program sem

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13, quinta, 19h: Lançamento do livro Expulsão, de Hilda Simões Lopes (Ed. Confraria do Vento). Apresentação do livro em bate-papo com os escritores Luiz-Olyntho Telles da Silva e Cassio Pantaleoni.

expulsão

Os 16 contos de EXPULSÃO têm homogeneidade de conteúdo. Abordam conflitos fortes onde os personagens estão enredados em situações familiares e de relações humanas radicais. A violência em suas vidas escancara-se em metáforas, símbolos e imagens que remetem o leitor a questões do dia-a-dia comumente encobertas, dissimuladas, negadas ou, quando visíveis, pouco perceptíveis devido aos condicionamentos psico-emocionais, sociais e familiares.

No conto DESTERRO,  o desterro não é ser mandado para o exílio mas é  ficar refém de pessoas cheias de vida e esvaziadas de si mesmas. Ao longo do livro, os desterrados e a descomunal dificuldade existencial e social de uma pessoa se manter conectada ao que ela de fato é, torna-se gritante: em EXPULSÃO, onde um “passa o bastão”  ao outro; PROGRAMAÇÃO, em que a mãe castradora é delineada em sua opulência, invisibilidade e poder devastador; PAPÉIS mostra o ser humano submetido e coisificado na busca desesperada pelo ter; MARCHA-A-RÉ é a mulher tradicional refletindo seu papel na hora da separação; FIOS fala dos invisíveis fios de comando de toda gente; DESVIO enfoca o triângulo  marido/esposa/amante inconscientemente sustentado e incentivado pela esposa; OLHOS tem de tragédia grega mas é a comum tragédia de uma mal resolvida relação edipiana; PEDRAS enfoca a criança que todos temos e que não quer um mundo duro, escuro e de caminhos entulhados;  YONNA vai ao cerne e quanto mais for lido mais irá revelar sobre a questão do exercer-se; em SANGUE aparece o abandono do velho e em ETIQUETAS, de certa forma, o abandono da criança; RUMO diz do desterro dos migrantes rurais; TEIA fala do encontro de desterrados, como também ONDINA; BANQUETE termina escancarando a antropofagia social.

Expulsão, com sua linguagem metafórica e riqueza sub-textual, é um livro para o leitor ler, mergulhar nas entrelinhas e viajar além das linhas porque a vida, em sua complexidade e na crueza de suas perplexidades,  é a matéria pura de seus contos.

hilda simões lopesHilda Simões Lopes Costa, nascida em Pelotas, é bacharel em Direito, mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília e professora universitária aposentada pela Universidade Federal de Pelotas. Fez oficinas de Criação Literária com Luiz Antonio de Assis Brasil, em Porto Alegre e no Centro Cultural de Las Americas, no México. Há 12 anos, ministra oficina de criação para jovens e escritores em Pelotas e, mais recentemente, em Porto Alegre. Em 2009, foi patrona de Feira do Livro de Pelotas. Publicou os livros Do Abandono à DelinqüênciaSenhoras e Senhoritas, Gatas e Gatinhas (ensaios sociológicos); A Superfície das Águas, prêmio Açorianos de Literatura, 1998, pelo Instituto Estadual do Livro; Cuba, Casa de Boleros, conjunto de crônicas,  finalista prêmio açorianos, pela AGE; Um Silêncio Azul, AGE; o romance A Anatomia de Amanda, pela editora Juruá, onde a autora analisa a obra ‘A Paixão Segundo GH’, de Clarice Lispector e  o livro didático Manual de Criação Literária, pela Editora Baraúna.

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29
maio
13

Aconteceu na Palavraria, nesta terça, 28, Lançamento do livro Um elefante em Albany Street, ensaios de Luiz-Olyntho Telles da Silva

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aconteceu

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28, terça: Lançamento do livro Um elefante em Albany Street: A arte da descrição discreta, ensaios de Luiz-Olyntho Telles da Silva. Participação especial de Luciana Thomé e Silvia Rocha-Starosta (Editora HCE)

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maio
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Vai rolar na Palavraria, nesta terça, 28, lançamento do livro Um elefante em Albany Street, de Luiz-Olyntho Telles da Silva

program sem

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28, terça, 19h: Lançamento do livro Um elefante em Albany Street: A arte da descrição discreta, ensaios de Luiz-Olyntho Telles da Silva. Participação especial de Luciana Thomé e Silvia Rocha-Starosta (Editora HCE).

um Elefante em albany street CapaUm elefante em Albany Street comenta cinco diferentes formas narrativas: Epopeia, Teatro, Conto, Poesia e Romance. Em sua análise, percorre obras que vão desde a clássica Odisseia e sua paródia, o revolucionário Ulisses, passando por Chesterton e Molnár, até os mais contemporâneos e próximos, como Ana Mariano, Assis Brasil, Erico Verissimo, Cristovão Tezza e Vargas-Llosa, entre outros. Comparando as traduções com os textos originais, procurando o sentido encoberto, por vezes nos textos de outros autores citados, resgatando antecedentes, ou ainda buscando ler nas entrelinhas, mesmo por entre as palavras, e até nos diastemas, Luiz-Olyntho Telles da Silva detecta em cada autor as influências de sua formação – entre as quais vê preponderarem as autoridades de Dante, Goethe e Flaubert – e desvela, com nova abordagem crítica, as mensagens dos diferentes textos cujos ensinamentos servem tanto ao escritor que quer aprimorar a arte da descrição como ao homem que está continuamente aprendendo a viver.

Luiz-Olyntho Telles da SilvaLuiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publica também na página: www.tellesdasilva.com

LU THOMÉLuciana Thomé é jornalista e escritora, Sócia da Não Editora e Assessora de imprensa em sua empresa, Estúdio de Conteúdo. Organizadora do Gauchão de Literatura e da Copa de Literatura Brasileira e Idealizadora do Sport Club Literatura.

Silvia Rocha-Starosta é Bacharel em Letras, Professora de Relações Internacionais (UFRGS) e membro da Comissão Editorial da HCE. Aprendiz e praticante da arte de ler e escrever, poeta.

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Um elefante em Albany Street: A arte da descrição discreta

Luiz-Olyntho Telles da Silva
Porto Alegre,
Ed. HCE
2012 dezembro)
239p

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25
maio
13

A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: O engano de Calvero

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O engano de Calvero, por Luiz-Olyntho Telles da Silva

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Calvero-Chaplin
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Calvero foi um homem bom. Entrou no século XX com a experiência e a bagagem adquirida no século anterior. Grassava uma grande insatisfação entre o povo que, pelas mãos dos anarquistas, começou a matar os governantes. Primeiro mataram o Presidente da França, Sadi Carnot, em 1894; o fato chamou a atenção porque seu assassino, o anarquista italiano Geronimo Caserio, em vez de fugir, ficou correndo em torno da carruagem presidencial gritando Viva a Anarquia! Viva a Anarquia! Três anos depois, assassinaram o Primeiro-Ministro da Espanha, Antonio Canovas. No ano seguinte, foi a vez da Imperatriz Elizabeth da Baviera, a inesquecível Sissi, casada com o Imperador Francisco José. Na virada do século, em 1900, acabaram com a vida do Rei Humberto I, da Itália. Em setembro de 1901 aconteceu o assassinato de William McKinley Jr., o vigésimo quinto presidente dos Estados Unidos da América. A insegurança generalizada alcançou o ápice com o assassinato do Príncipe Francisco Ferdinando da Áustria e de sua esposa, em Sarajevo, no dia 28 de junho de 1914, estopim da Primeira Guerra Mundial. Nesse clima aparece Calvero. Como palhaço, divertindo as multidões, tornou-se famoso. Mas se entediou!  Ao alcançar um momento de sua vida, quando sua percepção da realidade já não lhe permitia cooptar com o status quo, abandonou a profissão. Se o riso ajuda a desabafar e a prosseguir, ele já não pode fazer nada que possa servir de antolhos. Sem um pouco de depressão as pessoas não pensam! Mas, além de divertir as pessoas, acreditando não poder fazer outra coisa, Calvero pensa que não sabe fazer mais nada! E entrega-se à bebida.

Embriagado, salva Thereza, uma jovem dançarina, de uma tentativa de suicídio, acompanhando-a durante toda sua convalescença, ajudando-a a recuperar seu amor-próprio e a incentivando a retomar sua carreira. Isso também o anima. Precisa fazer alguma coisa. A ribalta o chama! Mas ele o faz com pseudônimos, e fracassa, uma vez depois da outra. Não sabe que o nome conquistado serve para valorizar novas conquistas. Nada é para sempre! Sua piada mais sem graça envolvia uma sardinha apaixonada por uma baleia. Uma vítima da Síndrome de Estocolmo avant la lettre! As barbatanas horizontais da cauda da baleia o fascinavam! Na outra cena, Thereza, que também precisava fazer algo para sobreviver, atende em uma livraria onde, para proteger um jovem compositor, chamado Neville, vende pautas de música por um preço menor e dá troco à maior. Charles Chaplin, o autor, ator e diretor de Luzes da Ribalta, sabe o que faz! O nome de de bastismo atribuído ao compositor lembrou-me de Herman Melville, e tomei-o por homenagem ao autor de Moby Dick, a baleia. Aí, além de chamar a atenção para a peculiar barbatana da cauda da baleia, diferente de todos os outros peixes que as têm sempre na vertical, Melville deixa claro que, em um barco de caça – metáfora de nossa vida -, todos têm de ajudar uns aos outros.

Ao final, quando Thereza retorna ao balé, reconhecido por um grande empresário, Calvero também volta à ribalta, agora com seu próprio nome. O sucesso de ambos é estrondoso! Calvero, contudo, mesmo com o seu beau geste de convidar Buster Keaton – seu antigo rival no cinema mudo -, já no estertor desse tipo de teatro, para contracenar nos esquetes, acreditando que o sucesso vinha de atuar embriagado, bebe antes de subir ao palco e, na gag da última cena, cai mal, fere a coluna vertebral e morre.

Seu engano: pensar que nossa embriaguez faz bem aos outros, enquanto se trata justamente do contrário. Fazer bem ao outro é que é embriagador. Embora os dicionários tendam a dar como primeiro significado da palavra o estado alcançado pela ingestão de bebidas alcoólicas, não podemos esquecer que seu segundo sentido, tornado aqui primeiro, diz de uma exaltação, de uma enlevação, de um êxtase causado por grande alegria ou admiração. Talvez Aristóteles estivesse com razão ao falar de retorno à natureza. Se ambos os sentidos de embriaguez dizem de uma intoxicação pela natureza, a derivada do álcool e similares são sempre, necessariamente, artificiais, enquanto a embriaguez pela alegria de ajudar o próximo advém  de uma conquista sobre nossa humanidade!

 

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Luiz-Olyntho Telles da SilvaLuiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publicou recentemente Ponto contraponto (HCE, 2012) e estará lançando, o próximo dia 28 de maio, na Palavraria, Um elefante em Albany Street (HCE, 2013). Publica também na página: www.tellesdasilva.com

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17
maio
13

A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: Maria e Herodes

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Maria e Herodes, por Luiz-Olyntho Telles da Silva

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Pietro Cavallini - Anunciação
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In mense autem sexto missus est angelus Gabrihel a Deo in civitatem Galilaeae cui nomen Nazareth, ad virginem desponsatam viro, cui nomen erat Ioseph, de domo David et nomen virginis Maria. Et ingressus angelus ad eam dixit: have gratia plena Dominus tecum benedicta tu in mulieribus. Quae cum vidisset turbata est in sermone eius et cogitabat qualis esset ista salutatio. Et ait angelus ei: Ne timeas Maria, invenisti enim gratiam apud Deum ecce concipies in utero et paries filium et vocabis nomen eius Iesum.

(LUCAS, I :26-31.)

 

O Papa Gregório X voltara da nona cruzada a São João de Acre, junto com o rei Eduardo I, da Inglaterra, de quem era conselheiro, preocupado com a conquista de Jerusalém. Era difícil e caro, motivo suficiente para convocar um Concílio. Tomadas as providências, dois anos depois, em 1274, instalava-se em Lyon, na França, o décimo quarto Concílio da Igreja Católica.

Quem também queria ir a essa reunião era o Cardeal Bertoldo Stefaneschi. Seria uma bela oportunidade de encontrar-se com Tomás de Aquino, convidado especial do Concílio e amigo comum, tanto dele como de Teobaldo Visconte, mesmo antes de ser elevado ao setial de São Pedro. Mas resolveu não ir. Verdade que Tomás de Aquino, que não andava bem de saúde, fazia tempo, tendo morrido no caminho, faltou ao encontro. Assim que a resolução de ficar, no final, pareceu acertada ao Cardeal. Estava ocupado com a construção da Basílica de Santa Maria, no além Tibre, e isso lhe dava muito trabalho. Maria, a mãe de Jesus, era um tema comovente para ele. Sentia-se enternecido com sua história, a qual, não raro, ocupava suas conversas com o Papa. Certa feita precisou visitá-lo, no Acre, por assuntos eclesiásticos, e aproveitou uma folga, nas entrevistas com Sua Santidade, para visitar Nazaré, em busca de algum indício que o ajudasse a decidir sobre qual dos dois lugares, segundo se apontava, teria ocorrido a Anunciação. Visitou o Poço de Maria, santuário em homenagem à Virgem, alguns sítios arqueológicos, mas um dos lugares, aquele no qual os católicos acreditavam ter havido a Anunciação, já estava ocupado com a Igreja da Anunciação, e o outro espaço, o que os ortodoxos acreditavam, já estava ocupado, por sua vez, com a Igreja Grega Ortodoxa da Anunciação. Contudo, mesmo não tendo encontrado nenhum indício material, não estava frustrado! Ainda que vagamente, pairava sobre sua cabeça a ideia de que o importante era a Anunciação propriamente dita. Havia aí algo que parecia ir além do óbvio.

De volta a Roma, ocupado com os planos de decoração das cúpulas da igreja, deparou-se com antigos projetos para o campanário, cuja construção fora autorizada ainda pelo Papa Inocêncio II, há mais de cem anos. E, então, inteira-se de que aquele local fora escolhido porque, cerca de quarenta anos antes do nascimento de Cristo, aí começara a brotar um óleo, e esse fenômeno fora interpretado, na época, como um prenúncio da vinda do Messias. – Da vero, exclamou o Cardeal estupefato! O tema da Anunciação o perseguia. E as associações que em seguida lhe ocorreram cada vez mais lhe reforçavam a importância do episódio. Se de um lado havia descrédito na história da concepção de Maria, sem pecado – singelo eufemismo para sem coito -, por outro, havia gente que havia lhe dado muito crédito, talvez até crédito demais! Herodes, o grande, por exemplo.

Se São João de Acre, quando estivera em Jerusalém, não passava de um porto fortificado, imagine-se o tamanho da vila de Nazaré mil anos antes! Como num lugar pequeno não há como guardar segredos, alguém ouviu dizer que por aqueles dias ia nascer o Rei dos Judeus e foi logo levar a notícia quentinha para o paranoico Rei de Israel, o odiado idumeu Herodes, o qual, sem muito pensar, mandou matar todos os primogênitos. Se alguns dizem que foram milhares, enquanto outros dizem que não passou de poucas dúzias e haja até quem diga que isso não aconteceu (sempre há destes, não é mesmo?), o que importa é que ele deu crédito. E que não se diga que esse sujeito, pai do outro tarado que mandou cortar a cabeça do João Batista, não sabia como se fazia filhos. O que Herodes percebeu – que burro não era! -, é que alguém, como estava acontecendo com ele, podia mesmo ser fecundado pelo ouvido.

Tomado pelo valor subversivo da ideia, Bertoldo chama seu amigo Pietro Cavallini para conversar. Gregório X por certo havia se dado conta da alegoria e, esperto, fora-se à França: é pelo ouvido que se pode plantar uma ideia na cabeça de outro; espere-se um tempo e, se plantada na cabeça certa, ela germinará!

Bertoldo Stefaneschi não era tão prático. Pensava mais longe. Não tinha deixado de observar que, na meia cúpula da abside, Maria aparecia, pela primeira vez na arte cristã, ao lado do Cristo, no trono celestial, usando roupas e uma coroa de rainha. Tinha sido aí, na sua igreja, que a Virgem se tornara a Rainha do Céu. Devaneava assim quando recebeu o já renomado Cavallini: que planejasse uma série de mosaicos para a abside retratando a vida de Maria, começando por seu nascimento e terminando por sua morte. A Anunciação deveria ser o segundo, posicionado, com discrição, depois do primeiro, para dizer, sim, mas sem chamar demasiadamente a atenção. Fecundado pelo ouvido pode-se alcançar o topo do mundo!

De Santa Maria in Trastevere, cujos mosaicos foram concluídos em 1291, a ideia espalhou-se, aparecendo logo em Pádua, na Capela Crovegni, o afresco de Giotto; em Florença, na Basílica da Santa Cruz, a escultura dourada de Donatello, e, na Basílica de Santa Maria Novella, o afresco de Ghirlandaio. Logo depois, Leonardo Da Vinci, Boticelli e tantos outros também renderam homenagens ao tema da Anunciação.

Em seu devaneio, o Cardeal Stefaneschi ainda pensava nos teóricos da Igreja que, para justificar a gravidez de Maria, haviam recorrido à antiga teoria egípcia de que só havendo abutres fêmeos, eles eram fecundados pelo ar: – Certamente não tinham entendido nada!

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Luiz-Olyntho Telles da SilvaLuiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publicou recentemente Ponto contraponto (HCE, 2012) e estará lançando agora em maio, na Palavraria, Um elefante em Albany Street (HCE, 2013). Publica também na página: www.tellesdasilva.com

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