Posts Tagged ‘Mário Quintana

13
ago
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A crônica de Emir Ross: Estaremos fazendo

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Estaremos fazendo, por Emir Ross

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Há uma instituição nacional que é exclusividade dos brasileiros. Chama-se Estaremos Fazendo. Em outros lugares isso seria compromisso futuro. Aqui, é o tapa furo.

O Estaremos Fazendo é a variante que, para o emissor, significa “tudo bem, para de encher-me” e, para o receptor, “finja que faz e eu finjo que acredito”.

O povo tupiniquim é o povo mais generoso do mundo. No Brasil, todos querem cumprir com sua parte. Com a torcida na Copa do Mundo, com um conselho a quem pede informação, com os moradores de rua. Quando alguém bate na casa de um tupiniquim pedindo cinco reais para o leitinho das crianças, este prontamente coloca a mão na carteira e retira uma nota de cinco; como se não bastasse, ao dar as costas ao pedinte, lembra que há uma moeda em seu outro bolso e chama-o de volta. “Ei, fique também com isso!”

Depois, sorridente e coçando a barriga, volta para assistir o Domingão do Faustão. Fala para a mulher “Fiz minha parte”. Se ela questionar sobre o destino daquele dinheiro, que poderia ser a aquisição de drogas, o tupiniquim responde: “Bom, fiz minha parte.” E se ela sugere que o melhor, já que o indivíduo pretendia comprar leite, era dar-lhe uma das quatorze caixas de leite que há na despensa, ele responde: “Bom, a minha parte eu fiz.”, e troca para o Programa Silvio Santos.

Quando um tupiniquim pretende contratar um serviço, como TV por assinatura, ele ouve do outro lado da linha: “É pra já.” Agora, quando ele estiver de saco cheio por este serviço não funcionar nas horas em que ele está em casa para assistir e pedir uma visita técnica a fim de verificar o problema, a resposta é “Estaremos fazendo”. Ele aguardará por alguns dias, ou semanas, essa visita, até irritar-se pelo péssimo serviço e pelo preço exorbitante. Ligará para cancelar a assinatura. Então ouvirá: “Estaremos cancelando”. E, assim, ele “estará fazendo pagamentos” e assistindo o Domingão do Faustão.

Já ouvi falar que o Estaremos Fazendo vem de uma antiga técnica tuaregue para enganar saqueadores. Funcionava assim: ao saberem que seus espaços seriam invadidos, os tuaregues colocavam o que tinham de mais vistoso e barato, ou seja, vagabundo, à vista. Quem saqueava ia levando tudo, e perguntando se não havia nada de mais valioso. “Estaremos fazendo, senhor, mas a temperatura ainda não é adequada.” Quando os saqueadores retornavam, então os tuaregues haviam-se já mudado.

A filosofia também explica o estaremos fazendismo tupiniquim. Nesse caso, acredita-se que os infortúnios acontecem “apesar” de todo esforço e, principalmente, “apesar de eu ter feito minha parte”. Então, “se todos fossem como eu, não haveria fome, prostituição (a não ser de vez em quando) e crianças fora de escola.”

Mas, na minha humilde crença anti-intelectualismo e anti-comportamento-historicamente-adquirido, penso o contrário. Se o tupiniquim encontra dinheiro no chão ele o apanha e guarda, afinal, se não o fizer, outro o fará. Se pescar um peixe proibido, ele o guardará, afinal, melhor ser ele do que outro. Se ele ajeitar a bola com a mão e o juiz não perceber, fará o gol, pois se não fizer certamente o centroavante do time adversário o fará.

Para intervir na instituição do Estaremos Fazendo talvez tenhamos que imigrar para o Japão, ou então para o Guarani, que é o país que morava aqui antes do Brasil chegar. Fora isso, penso que não “estaremos fazendo” nossa parte nem antes, nem durante e nem depois do Domingão do Faustão.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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30
jul
12

A crônica de Emir Ross: Praça Shiga

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Praça Shiga, por Emir Ross

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Mario Quintana morreu triste. Havia ruas de Porto Alegre pelas quais jamais tinha andado. Ele não era um grande caminhante. Preferia as mesas dos cafés e os cigarros. Mas era um grande apaixonado. Talvez por isso tenha morrido triste.

Eu consigo ser ainda mais triste que Quintana. Primeiro porque não escrevo como ele escrevia. Depois, porque não conheço metade das ruas de Porto Alegre pelas quais ele pisou.

Os engarrafamentos dos anos dois mil têm responsabilidade por uma parcela de minha tristeza. Meu bundamolismo se encarrega da outra. De todo o tempo que perco na vida, não há tempo pior gasto que o a não conhecer as ruas de Porto Alegre.

Não conheço as ruas do IAPI. Não conheço a rua que leva a Itapuã. Não conheço a Rua 24 horas de madrugada. Nunca pisei na Rua Esplanada.

Isso é assustador. Enquanto desfilo a caneta por essas linhas, perco passos. Mario Quintana certamente estaria soprando em meus ouvidos se não tivesse coisas mais importantes para fazer.

Causaria-lhe genuína aflição ver-me a não caminhar por paralelepípedos, lajotas ou caminhos de chão batido.

Uma das causas dessa displicência deve ser meu desapego para comigo mesmo. Sou desprovido de amor-próprio. Por isso envelheço sem fazer o que mais gosto: ler Quintana enquanto tomo um expresso no Café Santo de Casa.

Leio-o no sofá da sala. Ao invés do Guaíba, admiro a parede roxa.

Quintana era porto-alegrense roxo. Embora não tenha nascido aqui. Também não nasci aqui. Talvez esse seja o motivo da minha cor bege. Ou talvez eu tenha essa aparência por minha falta de paixão. Ou minha falta de idade. Quintana tinha a idade do mundo. O suficiente para ser pai de qualquer rua dessa cidade.

Filhas pródigas, algumas.

Temporãs, outras.

Órfãs, todas.

Quando o relógio avisa que são dezoito horas, geralmente faz calor na Praça Shiga. Dou-me conta de que desperdicei algumas linhas durante o dia. Fico um pouco menos triste. Não conheci novas ruas. Mas convivi com a praça. É sempre assim. Essa praça se renova a cada sol. Por isso, volto todas as tardes, para conhecê-la. Às dezoito horas, o zelador precisa fechar as portas.

Nessa hora, a cidade muda. Dou boas-vidas ao engarrafamento e à minha parede roxa. Mario Quintana morreu triste. Havia ruas de Porto Alegre pelas quais jamais tinha caminhado.

Eu consigo ser ainda mais triste. Amanhã passarei a tarde na Praça Shiga.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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24
jul
12

Aconteceu na Palavraria, nesta terça, 24/07: Festipoa revisitada e sampleada: a poesia de Mario Quintana

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Aconteceu na Palavraria, nesta terça, 24, bate-papo com Cristian de Napoli, Diego Grando e Sidnei Schneider, sobre a obra de Mário Quintana. Primeiro encontro da série Festipoa revisitada e sampleada. Fotos do evento.

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23
jul
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Vai rolar na Palavraria, nesta terça, 24/07: FestiPoa revisitada e sampleada – bate-papo com Cristian De Napoli, Diego Grando e Sidnei Schneider

program sem

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24, terça, 19h: Festipoa Revisitada e Sampleada: A poesia de Mário Quintana. Leituras e comentários – com Cristian De Napoli, Diego Grando e Sidnei Schneider.

A “FestiPoa Literária revisitada e sampleada” é a retomada de parte da programação do evento, com a presença de alguns dos escritores que participaram de sua 5ª edição em abril deste ano, e a oportunidade que o público leitor terá de acompanhar a festa literária ao longo de todo o segundo semestre. Temas, reflexões, debates e livros, que estiveram na pauta da última edição, receberão novas abordagens dos convidados, e os escritores revisitarão assuntos e textos seus e de outros autores, contemporâneos ou clássicos.

A organização da FestiPoa, que começa a preparar a 6ª edição, pretende manter à tona e aquecidos debates sobre a produção literária atual, destacar livros lançados pós-abril e experimentar situações e atividades que poderão aparecer no evento em 2013.

A primeira atividade da “FestiPoa revisitada e sampleada” ocorrerá no dia 24 de julho, às 19h, na livraria Palavraria, e a motivação será a poesia de Mario Quintana. Os poetas e tradutores Cristian De Nápoli (Argentina), Sidnei Schneider e Diego Grando vão ler poemas de Quintana, em português e espanhol (traduzidos por De Nápoli), e comentar aspectos da obra do autor de Caderno H.

Cristian De Nápoli nasceu em 1972 em Buenos Aires. Escritor e tradutor. Como poeta, o seus últimos livros publicados são Los animales, 2008 (Primeiro Prêmio do Festival Internacional de Poesía de Medellín, Colombia) e Golpes de kriss (2011). Inéditos ainda, ele tem um livro de contos, Carioca, e o romance Bienvenido entonces, Gato. É o organizador de Salida al Mar/Festival Latinoamericano de Poesía, encontro anual de poetas das línguas espanhola e portuguesa, que celebrou em 2010 sua sétima edição. Entre outros autres brasileiros, já traduziu para o espanhol contos de Sergio Sant’Anna, Caio Fernando Abreu e muitos outros, e poemas de Angélica Freitas, Ricardo Domeneck e Horácio Costa.

Diego Grando nasceu em Porto Alegre em 1981. Licenciado em Letras na UFRGS, atualmente conclui um mestrado em Escrita Criativa na PUCRS, para o qual prepara seu segundo livro de poemas. Começa em seguida um doutorado em poesia na Université Sorbonne Nouvelle. Desencantado carrossel é seu livro de estréia.

Sidnei Schneider é poeta, tradutor e contista. Autor dos livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999) e tradutor de Versos Singelos/José Martí (SBS, 1997). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional/MinC, 2001), Antologia do Sul (Assembléia Legislativa, 2001), O Melhor da Festa 1 e 2 (Nova Roma, 2009; Casa Verde, 2010) e de outras dez publicações. 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS, 2003 e 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM, 1995, de um total de treze premiações. Publicou artigos, poemas, contos e traduções de poesia em jornais e revistas. Participa do projeto ArteSesc e é membro da Associação Gaúcha de Escritores.

Mais informações: http://festipoaliteraria.blogspot.com/

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04
out
10

Palavraria indica: CD da opereta pé de pilão

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Sugestão para dia da criança:

Opereta Pé de Pilão, CD + HQ. Texto de Mário Quintana, música de Cláudio Levitan, Nico Nicolaiewsky e Vitor Ramil.

À venda na Palavraria – R$ 35,00


Reserve seu exemplar – palavraria@palavraria.com.br, 3268 4260
ou venha até a loja: Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim

O álbum é mais do que um disco e mais do que uma história em quadrinhos: é uma divertida e criativa brincadeira onde a história pode ser criada e colorida pela criança a partir das músicas do CD e dos diálogos da peça. Conta e canta a história do menino que virou pato e sua avó enfeitiçada, que perde seu encanto, o de nunca envelhecer. O pato, na tentativa de reencontrar sua avó enviando-lhe uma foto, é preso pelo cavalo-polícia, junto com o macaco retratista e o passarinho da máquina fotográfica. Uma aventura que envolve cobra, fada enfeitiçada, Nossa Senhora, meninas traquinas, professor Dom Galaor e muitos feitiços até ele reencontrar a sua avó enfeitiçada.


No disco, além de Ed Lannes, Ian Ramil, Melissa Arievo, Cláudio Levitan e Ju Dariano, há participações especiais de Nico Nicolaiewsky, Vitor Ramil, Hique Gomes, Renato Mujeiko e Fernando Pezão. A produção é assinada por Kiko Ferraz e Cláudio Levitan, que é também responsável pelos quadrinhos do encarte, com fotos de Eneida Serrano, arte e produção gráfica da Prime Design.

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