Posts Tagged ‘Michel Onfray

16
maio
13

A crônica de Ademir Furtado – Recados de Londres: Senso de localização

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Senso de localização, por Ademir Furtado

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London Eye
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Finalmente, estou em Londres. Uma viagem há algum tempo planejada, e várias vezes adiada. Como tenho aversão a roteiros turísticos, resolvi me lançar numa aventura de imersão cultural, e entrei num curso, para aprimorar o inglês e ter oportunidade de viver experiências mais gratificantes do que o deslumbramento de turista. Somente após cinco dias na cidade é que saí para ver alguns dos pontos que atraem milhões de pessoas do mundo inteiro para cá. E o primeiro que vi foi um relógio grande, fixado lá no alto da parede de um prédio antigo. E lá embaixo, milhares de seres embasbacados, com suas câmeras fotográficas apontadas, ou em poses gargarejantes. Não estava preocupado em saber as horas, segui adiante, atravessei uma ponte e, numa das margens do Tamisa, dei de cara com uma roda gigante que tem, no lugar das tradicionais cadeirinhas, umas cabines parecidas com elevador panorâmico. A vista lá de cima até deve ser legal, mas só de pensar em encarar aquela imensa fila que reproduz a Torre de Babel, já me senti cansado. Melhor mesmo é entrar num pub, tomar uma cerveja, e ir pra casa dormir.

Minha primeira experiência na cidade foi viver na prática a diferença estabelecida por Michel Onfray entre turista e viajante. (A Leila de Souza Teixeira já escreveu sobre isso, aqui) Não tenho a menor dúvida de que não sou, e acho que jamais serei, um turista típico. Minha incapacidade de deslumbramento chega a ser patológica. E minha câmera fotográfica continua guardada numa gaveta, e só vai sair para registrar alguma coisa que mereça ser revista no futuro.

Mas o que marcou mais profundamente meus primeiros dias aqui foi a constatação do meu senso de localização. Ou, melhor dizendo, as ferramentas que estou usando para me localizar em Londres. Ou talvez, no mundo. Ainda sou do tempo em que, ao chegar numa cidade estranha, a primeira providência era comprar um mapa e passar um dia inteiro estudando locais mais importantes. E fiquei meio surpreso ao perceber que esse comportamento parece bizarro para os meus colegas de curso, todos eles equipados com todos os tipos de aparelhos, com as mais incríveis tecnologias para localização: GPS, mapa do metrô de Londres, mapa de rua, tudo na palma da mão, acessado com um clic. Maquininhas estranhas demais para mim, que não uso sequer um celular. Aliás, a pergunta que mais ouço quando digo que não tenho celular é “how can you live?”, sempre acompanhada de uma cara de espanto. Ninguém mais precisa pedir informação na rua, ninguém mais se perde. Quer dizer, ninguém a não ser eu, é claro, pois na minha primeira viagem sozinho peguei o trem errado e fui parar não sei onde. Mas aí usei a única ferramenta que sei usar, pedi informação a um oficial da estação, que me ajudou com a presteza britânica, e voltei pra casa em paz e a tempo de pegar a janta.

No final das contas a gente sempre se acha, consegue encontrar o rumo e chegar aonde quer. Mas fica uma sensação de estranheza, de andar sozinho. E uma desconfiança de estar usando os instrumentos inadequados para se localizar no mundo. Acho que preciso me adaptar. Vou ficar um mês e meio por aqui e tentar desenvolver métodos mais modernos de localização.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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03
jun
11

Fragmentos da eternidade, por Leila Teixeira

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A jornada do hedonista: a jornada do anarquista, por Leila D. S. Teixeira

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O materialismo e o hedonismo como formas de reavaliar o relacionamento do homem com o mundo? O fazer filosófico baseado nas experiências pessoais de cada indivíduo? Falar se Michel Onfray está certo ou errado, em relação ao que pensam aqueles que o criticam, é pegar o caminho fácil (e, sobretudo, pretensioso) de achar que se tem competência para dizer o que é “certo” e o que é “errado” neste mundo. Dentre todas as coisas que poderiam ser ditas, vou me limitar a dizer que Onfray apresenta, na minha opinião, uma proposta muito atraente.

Em “A Teoria da Viagem – poética da geografia”, traduzido por Paulo Neves e publicado pela L&PM, Michel Onfray aponta três razões não excludentes para o surgimento do desejo de viajar.

Sob uma perspectiva holística, universal, mais ampla, a ânsia por viajar tem sua origem na vontade de voltar à essência, de fazer parte do movimento do mundo outra vez, de retornar à dinâmica molecular que se tinha durante as horas dentro do ventre materno, arredondado como um globo, como um mapa-múndi. Dentro dessa perspectiva maior, a escolha da destinação atende a necessidade que cada corpo tem de reencontrar o elemento no qual se sente mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e prazeres confusos, mas memoráveis. “Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento”.

Do ponto de vista local, menos abrangente, da relação do indivíduo com a comunidade que o cerca, o querer viajar surge da recusa do tempo laborioso da civilização em proveito do lazer inventivo e alegre. “O viajante nega o tempo social, coletivo e coercitivo, em favor de um tempo singular feito de durações subjetivas e de instantes festivos buscados e desejados. Associal, insociável, irrecuperável, o viajante ignora o tempo convencionado”, não possui relógio de pulso, mas, sim, um olho que se orienta pelo sol e pelas estrelas.

Sob um prisma individual, a vontade de viajar nasce no desejo do autoconhecimento, da partida em busca própria com o propósito, muito hipotético, de se reencontrar ou, quem sabe, de se encontrar. “A viagem supõe uma experimentação em nós que tem a ver com exercícios costumeiros entre os filósofos antigos: o que posso saber de mim? O que posso aprender e descobrir a meu respeito se mudo de lugares habituais e modifico minhas experiências? O que resta da minha identidade quando são suprimidos vínculos sociais, comunitários, tribais, quando me vejo sozinho, num ambiente hostil ou pelo menos inquietante?”.

As duas primeiras motivações, global e local, aproximam o viajante do nômade. Ambos sabem-se mortais, mas sentem-se como fragmentos da eternidade destinados a se mover num planeta finito. Ambos, com suas atitudes incontroláveis, com seus modos errantes, questionam as instituições, o Estado, o Direito, a religião: não se submetem facilmente às imposições sociais e políticas.

A terceira motivação afasta o viajante do turista. Para o turista, a viagem não significa busca ou autoconhecimento. Para o turista, a viagem consiste em um ato mecanizado, um preencher o check list de lugares já visitados.

Um detalhe importante que não pode ser esquecido é que, para Onfray, não há Odisséia sem o reencontro com Ítaca. Em outras palavras, o viajante tem que voltar para casa, para organizar o que viu, repensar o que passou e maturar o que aprendeu. O nomadismo perpétuo sairia dos limites da viagem e entraria no da vagabundagem.

O viajante volta ao lar, mas logo já ansia pela próxima viagem. “Saber-se nômade uma vez é o que basta para nos convencer de que tornaremos a partir, de que a recente viagem não será a última. A menos que a morte aproveite para nos colher… Até à beira do túmulo, é preciso querer, ainda e sempre, a força, a vida, o movimento”.

Leila D S Teixeira, nascida em Passo Fundo/RS em 1979, formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, participou dos livros “Outras Mulheres”, em 2010 e “Inventário das Delicadezas”, em 2007; venceu os concursos Osman Lins e Mário Quintana/SINTRAJUFE em 2006 e frequenta as oficinas Charles Kiefer desde 2005. Junto com Cristina Moreira e Daniela Langer, idealizou a Vereda Literária, programa de debates onde se enfocam temas literários, realizado na Palavraria.

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A partir desta data, Leila Teixeira passa a publicar neste blog na primeira sexta-feira de cada mês.

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