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15
nov
12

A crônica de Guto Piccinini: Sobre a morte (2)

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Sobre a morte II, por Guto Piccinini

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Sobre a Morte II, por Guto Piccinini

Ao olharmos para o mundo, dificilmente destacamos do plano comum a lógica do acontecimento. Explico. Tomando a existência como um plano de imanência, como um real inimaginável (não seria aí uma boa forma de conceber a Deus?) ou ao menos inapreensível, todo movimento só ganha um estatuto de consistência, uma vez que sob testemunho. Poderíamos pensar sobre o balançar de seus efeitos. Bom, neste caso afirmo que seu vínculo, embora presente, configuraria por sua vez um outro estatuto, cuja origem por hora desconhecemos, nos desinteressamos ou que, enfim, ignoramos. Flertamos, portanto, com as possibilidades de “acontecimentalizar” extratos de história, que por hora são nada menos do que passagens do tempo.

No dia primeiro de dezembro de 1955, em uma pequena cidade norte-americana, uma mulher sai de sua casa sem um destino relevante aos objetivos da história. Seu caminho era relativamente longo, e logo aos primeiros passos cede a vontade de gastar alguns centavos com um ônibus. À espera de seu destino, senta-se sem grandes pensamentos (no que contraria o romance com que se embebedam as grandes histórias). Sua condução se aproxima, ela se ressente. Levanta e prepara o valor certo para o pagamento. Ao leitor desavisado, com seus olhos apressados deste dia presente, logo esquece as condições pelo qual a vida nos rodeia. No dia primeiro de dezembro de 1955, uma lei existente na legislação cindia a convivência entre brancos e negros no transporte público. Nossa personagem senta-se nos bancos mais à frente de sua parte. Algumas paradas adiante, um homem branco entra, e de acordo com esta legislação, seria preciso que os passageiros negros sentados mais à frente, cedessem seu lugar aos passageiros brancos. Por ventura da história, o anonimato cotidiano ganha suas cores pela insistência. Retomamos um corpo, que ganha um nome: Rosa Parks. Não foi a primeira, mas foi revestida das qualidades do tempo. Ela se recusa a ceder seu lugar e confere aí uma marca.

O testemunho é uma forma de dar corpo a estas marcas, é fazer voar um ato que ganha estatuto de acontecimento. Fazemos crescer a ideia que construímos de vida, tomando de empréstimo sua noção pela força conferida por Spinoza, galgando aí a potência de se fazer mover a si e ao mundo (neste sentido de imanência – porque não de real?). Aos discursos recorrentes que hora ganham a forma de “vândalos desrespeitam a ordem pública”, ou que por vezes se cola no “há uma luta mais importante”, agreguemos a proposta de inflar a noção de vida aqui presente, aos seus efeitos. Assertivas com sentença marcada: silenciar ações e constituir sentidos.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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31
out
12

A crônica de Guto Piccinini: Sobre a morte (1)

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Sobre a morte I, por Guto Piccinini

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A morte é sempre uma experiência traumática. Configura um acontecimento de proporções que extrapolam as palavras e ao possível de ser simbolizado. Não podemos tomar a morte apenas como um corpo que tomba, uma vez que este corpo é permeado por uma sequência de discursos, uma linha que costura nossa existência (e como a vamos concebendo) e a todos a sua volta. Enlace “místico”, recheado de desejo e suposições. A morte, pois, reconfigura de modo trágico esta linha simbólica em que nos enlaçamos, e cujas consequências apenas compreendemos um tempo após o acontecimento em si. Denominamos “luto” esta passagem, este movimento de ir e vir compondo novas redes simbólicas sobre esta existência, ou talvez possamos denominar esta nova fase como uma “não-existência”. Existência ausente, como uma fantasia bem elaborada e que compõe novos sentidos, novas histórias. Ao passo que algo sempre permanece, algo sempre nos escapa.

Falar sobre a morte requer também que deslizemos do privado ao público, oscilando entre estes campos encontros possíveis. No primeiro caso, uma vida que esvai carrega consigo um mundo, uma história. São olhares que se perdem no tempo. Como colocamos acima, não há palavra que signifique o que é perder alguém querido, alguém que nos faça sentido. Literalmente perde-se algum sentido (simbólico e afetivo). Já no segundo caso, a relação se distingue exponencialmente: enquanto o acontecimento em si enlaça um corpo a seu destino traçado e incontornável, a ordem discursiva carrega como um furacão os sentidos sentidos. Argumenta-se que a ossada de um rei de nada se distingue de seu súdito mais miserável. Em vida, no entanto, há vidas mais matáveis do que outras. Isto, ao menos, é aquilo que legitimamos.

Sem dúvida, existem muitos modos de se encarar a morte. Um, que me guarda grande estima, carrega consigo uma desvinculação entre a noção de “vida” com um traço “biológico”. Um corpo, por esta via, será apenas um dos modos pelo qual a existência marca sua passagem. A vida enquanto corpo tem como um único direcionamento o existir, “independente da qualidade desta existência”. Não seria esta uma possibilidade de considerarmos a morte uma potência de vida? Não seria esta uma forma de nos debatermos com a vida sem potência? Michel Foucault é um autor marcado por seus estudos sobre o “poder”. Ao contrário da concepção mais corrente, do poder enquanto uma substância que as pessoas detém, marca o poder enquanto uma relação. É no entre-meio que as relações de poder se efetuam. Sai do “poder-forma”, e afirma um “poder-força”. No transcorrer de seus estudos, demarca a passagem de um poder da Soberania, no qual um rei detém o poder sobre a morte de seus súditos, para um poder Disciplinar, onde a relação de poder exerce sobre as vidas. Deste modo, o poder não mais se exerce marcado pelo “deixe viver, faz-se morrer”, articulando um “deixe morrer, faz-se viver”. Imprecisão esquemática, mas operativa quanto as formas: a vida passa a ser um ato político, enquanto a morte, um ato de resistência.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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