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07
dez
11

Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina

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Osman Lins revisited, por Roberto Medina

 


Hoje acordei com sede de rever quem me faz tanto bem aos olhos e à alma. Acho que sentimentalmente precisamos vasculhar nossas estantes e provocar reencontros com os autores prediletos – aqueles que, a cada nova leitura, invadem-nos como uma centelha, causando estrondo ou apenas silêncio bom. Assim é Osman Lins. Há alguns anos faço esforços para que todos o leiam,  que fiquem a ruminar seus contos, romances e peças de teatro.

Dizem que os livros nos encontram. Comigo não é diferente. Acredito haver muitos livros mal escritos, histórias carentes de uma estruturação narrativa decente, poesias que forçam uma lamúria piegas. Reafirmo que comigo não é diferente: no caso com Osman Lins, ocorreu de eu ter de resenhar dois livros de contos: Os gestos (1957) e Nove, novena (1966)… O que era para ser um trabalho hercúleo transformou-se em verdadeira paixão; quase devoção. Como amante literário, fui atrás de informações: era pernambucano; nasceu em 1924 e faleceu em 1978; escreveu de tudo. Era um expoente que peitava as qualidades de texto de uma Clarice Lispector ou um Guimarães Rosa. Por que os bons morrem cedo?

O escritor italiano Ítalo Calvino, em Por que ler os clássicos, elenca conceitos sobre o que indica um livro como clássico. Há várias definições; agradam-me estas: “Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira” e “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Dessa forma, aproximo-me novamente de Osman Lins. A cada releitura, pressinto ter deixado algo escapar. Algo que, por vivência ou ignorância, não consegui apr(e)ender. Nos contos do escritor pernambucano, é possível notar o apuro e esmero com que tecia as histórias: o domínio da palavra exata e sua cosmovisão. Era incansável com a linguagem. Esse fazia Literatura!

Em Os gestos, o próprio autor afirma “quando escrevi os contos aqui reunidos, todos alusivos ao tema da impotência humana (ante os elementos, ante os olhos de um morto, ante a linguagem etc.), minha ambição centrava-se em dois itens: a) lograr uma frase tão límpida quanto possível; b) não alheio à voz de Aristóteles, fundir num instante único, privilegiado, os fios de cada breve composição, como se todo o passado ali se adensasse. A luta que, desde a adolescência, eu mantinha – sempre derrotado e às cegas – com a arte de narrar encontrava finalmente um rumo e, parece, uma resposta.”  Osman Lins é exemplar quanto ao ofício de escrever literariamente; por conta disso, seus textos possuem a beleza e profundidade dos maiores nomes da nossa literatura brasileira. Suas personagens se encontram em plena sondagem interior, interrogando-se, solitariamente, de forma histriônica, o seu lugar no mundo. Tal mundo que entendemos como vida – por mais prosaica que seja.

Em alguns momentos desta existência, devemos compilar com semblante grave as nossas preferências, lembrando que toda escolha carrega uma renúncia. Pois bem, do livro Nove, novena, penso ser algo próximo a um crime quem não leu “Retábulo de Santa Joana Carolina”. Como afirma Sandra Nitrini, estudiosa do autor, é uma perfeita transposição literária do retábulo plástico. A narrativa é composta por doze módulos, chamados de mistérios, numa referência clara ao gênero teatral religioso da Idade Média. A voz em “Retábulo…” é assumida por vários narradores, em primeira pessoa, que realçam o perfil exemplar dessa mulher nordestina (personagem inspirada na avó paterna do autor), concretizada no amor, na fidelidade, na lealdade, na solidariedade, na firmeza de caráter, na obstinação, na coragem, na resistência e enfrentamento aos poderes locais e na convivência com a natureza, a partir de acontecimentos específicos de sua vida.

Hoje foi um dia bom. Puxo os livros de Osman Lins para perto do peito, fecho os olhos, respiro modicamente e sinto um prazer com a grandeza dos fortes e bons. Experimente-o também.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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