Posts Tagged ‘Platão

05
jul
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das perguntas

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Das perguntas, por Jaime Medeiros Júnior

Estás aí? E a pergunta sai em busca dela lá pras outras bandas do google talk. A estas alturas ele já desistiu de escrever certo. Os erros povoam a tela, devido às mínimas teclas do teclado qwerty do seu celular, incompatíveis com o gordo de seus dedos. Bah pareço meio leso! É o que ele se diz. Mas não desistiu de conversar. E no grande trânsito de falas e escutas acaba-se sempre por se perguntar. Estás aí?

Depois, Sócrates, respondendo a Fedro, diz: se, a exemplo dos sábios [hoi sophoi] eu não acreditasse, não seria de estranhar. Referindo-se a todas as tentativas, igualmente quiméricas, de explicar as quimeras, os centauros e os pégasos de que se engendra o mito. Mas não tinha muito tempo a perder com tais teorias, pelo simples motivo que ainda tentava conhecer a maior de todas as quimeras – Sócrates.

Logo em seguida Platão põe um elogio a Fedro na fala de Sócrates, que afirma ser Fedro um ótimo guia, desde que havia lhes descoberto um belo e aprazível lugar para que pudessem conversar. Em contrapartida, e apesar de estarmos em Atenas, Fedro diz: e tu, oh Sócrates, pareces um estrangeiro, pois que se põe a seguir um guia.

Este estás aí? é também um pouco isto; o ter confiança num guia. Que em toda conversa há de ser bem mais a pergunta que se faz, pergunta que há de sempre supor alguém lá praquelas outras bandas pra além donde se está. Portanto em toda conversa há algo de fé.

Nesta última segunda-feira, o mestre Arthur Telló acabou por me tornar ciente de mais um dos tantos motivos de se conceber Sócrates como um dos grandes mestres da erótica. Em grego as raízes do verbo perguntar e do verbo amar [no sentido de amor sensual de outro] são semelhantes, ou talvez, como entendem alguns, uma devendo ter se derivado da outra.

Perguntemos agora junto com Sócrates, ou mesmo às quimeras e com as quimeras do mito – que, se não outra razão houvesse, haveria ainda o sonho, a dedicação, o maravilhamento e mesmo o aborrecido tédio de alguns teóricos que por mais de 2000 anos escutaram e depois leram o mito – estás aí? Pois que, perguntar, também, há de ser amar.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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04
abr
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das causas, dos galináceos e do sentar

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Das causas, dos galináceos e do sentar, por Jaime Medeiros Jr.

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Recentemente relendo o Fédon me deparo com Sócrates a confessar, um pouco antes de tomar do phármakon, que tinha na juventude se empolgado com os ensinos de Anaxágoras, que afirmava que a causa primeira de tudo era a mente, mas que ao se debruçar sobre o livro de Anaxágoras acabara por se decepcionar profundamente, pois o sábio simplesmente arrolava explicações sobre os fenômenos naturais utilizando-se das explicações de praxe, sustentando que a matéria tinha sua causa nos elementos [ar, água e terra]. E nenhuma explicação sobre os princípios ordenadores das coisas. Desde então resolveu manter o foco nestes princípios [as ideias], pois agir como Anaxágoras lhe parecia ser como aquele que ao tentar explicar porque Sócrates estava ali sentado naquele momento, viesse a tentar explicar o fato imputando aos músculos, aos tendões e aos ossos de Sócrates a causa de ele estar ali. Pois que este modo de pensar parecia esquecer que a causa de Sócrates ali estar era ele [Sócrates] ter escolhido cumprir a lei da cidade, se furtando de aceitar as oportunidades de fuga que lhe foram oferecidas. E, aos que o criticassem dizendo que não tivesse ossos, músculos e tendões não estaria ali sentado, ele responde: sim, certamente, isto é uma condição necessária, mas não a causa.

Seguindo um pouco mais nos defrontamos com a moderna tendência a entendermos como explicações suficientes de um fato a descrição de seus mecanismos de funcionamento. Por exemplo: argumentamos que uma experiência qualquer de realidade pode ser reduzida a tal e tal ambiente bioquímico cerebral. Isto parece não ser outra coisa senão o dizer que Sócrates ali está sentado porque é detentor de músculos, tendões e ossos que assim lhe permitem estar.

De outro lado, temos, por exemplo, a tentativa de explicar um bom poema [outros diriam o poema, pois se não for bom não é poema], pelas muitas partes possíveis de se isolar na análise do poema: ritmo, métrica, assonâncias, paralelismos, etc. Partes que, se bem ajustadas, por si próprias facilitariam a que atingíssemos o bom poema. Um poema bom não é senão um construto bem equilibrado. Parece que aqui estamos novamente a utilizar o mesmo tipo de explicação. Qual seja? Confundimos uma condição necessária com a causa.

Talvez, como no caso da galinha dos ovos de ouro, estejamos buscando, queiramos simplesmente nos apropriar da origem das nossas riquezas, abrindo o ventre da nossa ave poeteira, a qual, em nossos dias, bem não deva passar de galináceo comum, do qual contamos com os ovos para o nosso jantar.

Há, sim, algo invisível, que parece pousar sobre o poema, que o faz vivo. Aqui talvez coubesse lembrar a diferença que faz Otávio Paz entre poema e poesia, que talvez pudesse ser equiparada àquela entre o poema e o poema bom [ou o que para outros é a diferença entre poema e não poema], mas aqui se alarga ainda mais a diferença, pois este acontecimento que é a poesia não é exclusivo de um poema, mas pode se dar sim em qualquer uma das nossas manifestações artísticas [música, cinema, artes plásticas, dança etc.]. Deste modo talvez bem pudéssemos dizer juntamente com Sócrates [que sobejamente parece amar os poetas] que aqui talvez tenhamos atingido [lembrado] mais perfeitamente a ideia do belo. E sim, aqui é bem possível que o poema, sem o querer, acabe por nos ensinar o que é o belo. Ou dito algo ao modo do zen: não é o sentar [zazen] que nos assegura o Zen.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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01
fev
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Da disjunção à conjunção

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Da disjunção à conjunção, por Jaime Medeiros Júnior

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Como iniciar este texto? Apenas um segundo atrás, tinha pensado começar mais ou menos assim: perguntas sempre haveremos de tê-las! Já no instante seguinte discordei de mim. O certo é que volta e meia acabamos por nos pôr nos mesmos bretes.

Umberto Eco, em recente entrevista à revista Época, diz que a internet só serve àquele que já é detentor de conhecimento, e, portanto, sabe onde quer ir. Quem tudo desconhece não sabe procurar, e, portanto, vai ter em qualquer parte.

Isso me faz lembrar Calvino, o reformador, para quem a salvação não tinha parte alguma com a fé, ou sequer com o amor e suas obras, mas unicamente com a vontade do senhor. Deus já escolheu os justos e estes hão de ser salvos.

A universidade, sugere Eco, talvez devesse se ocupar de desenhar os filtros necessários para que aquilo que se tenha apreendido da internet possa ser transformado em conhecimento. Aqui, creio, cabe outra pergunta: existe algum mecanismo de uso universal e de fácil manejo que seja capaz de dar forma ao informe?

Platão parece ter entendido que não temos nenhum método seguro para atingirmos o conhecimento, senão, talvez, através do confronto com a aporia. Primeira das armas a se usar para nos livrarmos daquelas certezas que são não mais do que falsos conhecimentos. Somente Eros, o filho de aporia, é filósofo, ou, dito de outro modo, a aporia é mãe da filosofia. Do que talvez pudéssemos depreender que só após termos caído em aporia,  e tendo assim nos posto no mesmo estado tenso das cordas do arco, é que conseguiremos produzir novo disparo de nossa seta em direção a um novo saber, ou, tensos como as cordas da lira, quando poderemos produzir uma nova harmonia.

Lutero, de modo diferente de Calvino, acreditava que as virtudes teologais – fé, amor e esperança – poderiam ser um bom meio de atingirmos a salvação. A salvação para um cristão se daria através de sua fé em Jesus Cristo. Entendia Jesus Cristo como um modelo a ser imitado ativamente. O mesmo modelo, Cristo, também foi entendido em um modo contemplativo, como por exemplo, na Imitação de Cristo, de Thomas Kempis.

Creio, por isso – já que em algum momento temos de chegar à parte interpretativa deste nosso texto –  não por acaso Eco reproduz a dança do homem no ocidente, dança constante, que se produz no espaço entre as duas colunas do templo. A coluna do rigor, que perenemente nos condena a nós mesmos, e a coluna da graça que perenemente nos liberta. A cruz de Cristo é a transfiguração da aporia em mistério, que entende que estamos ali naquele ponto central de suprema tensão, entre as forças que nos querem fiéis ao alto e aquelas que nos querem próximas do mundo, e que nos constrangem a tentar envolvê-lo num abraço amoroso. Aqui passamos da disjunção a conjunção dos contrários. Lutero, talvez no seu maior comentário ao evangelho, por medo de que incorrêssemos em idolatria, arrancou o Cristo a morrer da cruz, e colocou uma cruz preta, ali, no centro de uma rosa branca, outros comentadores vieram, e colocaram uma rosa vermelha, bem ali no ponto central da cruz, o de máxima tensão, como um signo da vida que está sempre a florescer em toda e qualquer parte. E aqui talvez valha ainda lembrar Diotima, uma mulher, que lá naquela Grécia que hoje subpomos empedernidamente masculina, já esclarecia Sócrates, o qual nos faz o seguinte relato: O que então lhe disse foi mais ou menos o que Agatão acabou de afirmar: Eros é um deus amante das coisas belas. Ela contestou minha proposição ponto por ponto, como fiz neste momento com a dele, para mostrar que, de acordo com o meu próprio argumento, ele não podia ser belo nem bom. Nesta altura, lhe falei: “Como assim, Diotima! Nesse caso, Eros é feio e mau?”

E ela: “Não blasfemes! Pensas, porventura, que o que não é belo terá de ser necessariamente feio?”

“Sem dúvida.”

“E quem não for sábio, será ignorante? Não percebeste que há algo intermediário entre a sabedoria e a ignorância!”

“Que poderá ser?”

Neste ponto, Platão parece afirmar Eros como a eterna presença de um terceiro na cena universal do embate dos opostos. Aqui invito, a quem interessar possa, deixar de ler as considerações desse cuidador de criancinhas, para tomar a grande nau que é o Banquete. Pois, já no parágrafo seguinte, Diotima há de esclarecer Sócrates. Sem mais, por hoje, e até a próxima.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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18
jan
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Eros, filho de aporia

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Eros, filho de aporia, por Jaime Medeiros Jr.

Estou a ler novamente o Banquete de Platão. Daí me muni da vontade de ler um tanto mais a sério. Busquei comentários. Estou a lê-los concomitantemente. Se nisto vier a descobrir algum remansozinho em que me pôr por algum tempo, já estarei bem contente por ter, mesmo que circunstancialmente, ancorado os apelos distraídos do meu coração. Como não se pôr a deriva neste grande e vago mar de saudadesejo que se há de navegar?

A edição da Editora da Universidade Federal do Pará, 2011; traz um alentado estudo introdutório, onde se comentam várias das reentrâncias do texto. Lembra-se, entre outras coisas, o mito platônico do nascimento de Eros, filho do casal de opostos, penia ou penúria e poros ou abundância. Eros, aqui, não é outro senão a consequência harmônica desta contradição.

Pobre como a mãe, mas cheio de engenhos e de coragem – caracteres herdados do pai –  para se pôr a busca do que é belo. Sempre cobiçoso da abundância, mas condenado a estar eternamente em penúria, em a-poria. Um pouco mais adiante, hei ainda de aprender, junto com Sócrates, de Diotima de Mantineia, sábia sacerdotisa, que bem mais como um novo avatar de Penia, despe Eros da sua condição divina e dá à luz a sua verdadeira natureza. Eros é um daimon.

O que é um daimon? Um ser de um tipo intermédio entre homens e deuses. Pobre, pois lhe faltam todos os recursos específicos da natureza divina. Mas, mesmo assim, devoto servidor do belo, Afrodite, a quem há de cobiçar por toda sua vida.

O próximo passo, diriam alguns, seria empobrecer ainda mais a Eros e igualá-lo a Sócrates, segundo outros talvez elevar Sócrates a condição de Eros. Aqui temos a filosofia se igualando a erótica, onde Sócrates é o mesmo que Eros e a filosofia o mesmo que a erótica. Eros nasce de sua mãe Penia, que também pode se traduzir por a-poria – a que não tem recursos – o que o obriga a uma cobiça, a um desejo constante do divino. O que, ao fim e ao cabo, não livre de um certo atrevimento, pudéssemos arriscar dizer, que a filosofia é filha da penúria, da aporia.

Xiii! Parece que perdi meus óculos, e sem aquele intermédio de que se fazem as lentes já não consigo reconhecer muitos destes caminhos por entre estas letras aqui de perto? Bah!!! Já quase não consigo enxergar!!! Mas procuremos um pouco mais, aqui por trás deste outro livro. Ufa, aqui está, encontrei!!! E agora já não agonizo, já não derivo e já posso descansar um pouco aqui nesta abundância de caminhos que reconheço neste único texto frente aos olhos, pois que todos me foram entregues por aquele único intermédio de que se faz as lentes.

Retomemos. Portanto parece ser só por meio desta coragem com que determino a atividade, os apelos do coração deste nosso Eros, pois filho de poros – que hão de se originar deste sentir falta, deste cobiçar, pois também filho de aporia – que acabarei ainda por focar este belo a que quero chegar. Isto, por certo, nada garante, mas a depender da fidelidade com que me puser a amar e de uma possível circunstancial disposição para a generosidade que os deuses possam comportar, talvez ainda venha a topar com algumas pistas – opiniões corretas – que possam, por fim, levar ao verdadeiro endereço do belo que estou a almejar.

Por hoje, aqui ficamos. Certamente, ainda nos veremos em outro ponto do curso desta nossa jornada.

Um ab e até já

Jaime

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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29
jun
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: No caminho para Larissa

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No caminho para Larissa, por Jaime Medeiros Jr.

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Acetil Cefuroxima, data de fabricação 11/2010, prazo de validade 10/2013 , é o que estava escrito na caixa da medicação que comprei na farmácia. É o que, por fim, parece se dar com as coisas que somos capazes de pôr numa prateleira e vender. Têm um prazo de validade, uma data limite, após a qual é conveniente que não mais as utilizemos. O Mênon [escrito em uma data qualquer entre 428 e 327 a.C] ou o soneto Alma minha gentil, que te partiste [escrito em uma data entre 1524 e 1580 A.D.] parecem não trazer em si aposto qualquer prazo de validade, senão aquele intrinsecamente relacionado à materialidade do suporte, a qual também podemos comprar. Pondo-se as coisas nos seus devidos lugares, não se compra na farmácia o medicamento cefuroxima, mas, isto sim, o comprimido, ou o vidro de cefuroxima suspensão. A validade do medicamento se determina por outro prazo, o tempo necessário para que as bactérias hoje sensíveis a ele consigam desenvolver cepas com mecanismos de defesa suficientemente eficientes que as tornem resistentes à droga utilizada.

Há quem queira confundir o Mênon e cefuroxima. Dizendo que o prazo de validade dos antigos acabou e que deveríamos depositar neles apenas a nossa curiosidade, bem como fazemos quanto às técnicas dos romanos para a construção de aquedutos. No entanto o medicamento que nos propõe o Mênon não se pode comprar, meio se ganha, meio se conquista.

Cá estamos diante do livreto, quando de repente uma expressão posta em meio ao texto, estar em aporia, acaba por nos conduzir a um estado de alerta. Aporia, que até este momento nos soava ser unicamente um problema filosófico sem possibilidade de solução, como aquela aporia sobre o tempo que Kant nos propõe na Crítica da Razão Pura. Aqui, no entanto, no ponto em que Sócrates tem de responder ao paradoxo que Mênon tinha lhe proposto – como saber o que é virtude através da pesquisa, pois se não soubermos o que é virtude não saberemos o que procurar, e se por acaso a encontrarmos não o saberemos tê-la encontrado; de outro lado se soubermos o que é virtude, para que procurá-la? Platão, contudo, quando se serve da expressão estar em aporia, ele nos aponta um método, que se dá a partir do espanto que a percepção de que foram sim nossas certezas que nos trouxeram até aqui a este beco sem saída, e que, agora após consequente rompimento com aquelas certezas, bem como a um áporo nos vemos obrigados, depois de termos assimilado muito de nossas tonterias,  a cavar um caminho para fora deste mundéu sem saída em que nos pusemos a viver. Platão, deste modo, acaba por nos dar de presente o poema de Drummond, o Áporo [temos aqui em uma só palavra: inseto, aporia e flor (orquídea)]:

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se

Isto nos leva a fazer a pergunta junto com Kolakowski, no qual lemos en passant, referindo-se a Nicolau de Cusa: Os argumentos de Nicolau de Cusa derivam amiúde do arsenal dos céticos. Ele também é um místico. Isso prova que o cético e o místico podem estar em um só indivíduo. […] Pode o cristão acreditar em Deus e, ao mesmo tempo, afirmar que não sabe nada sobre ele? E por que não bebermos também do mesmo remédio ao lermos este Camões?

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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