Posts Tagged ‘poema

04
abr
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das causas, dos galináceos e do sentar

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Das causas, dos galináceos e do sentar, por Jaime Medeiros Jr.

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Recentemente relendo o Fédon me deparo com Sócrates a confessar, um pouco antes de tomar do phármakon, que tinha na juventude se empolgado com os ensinos de Anaxágoras, que afirmava que a causa primeira de tudo era a mente, mas que ao se debruçar sobre o livro de Anaxágoras acabara por se decepcionar profundamente, pois o sábio simplesmente arrolava explicações sobre os fenômenos naturais utilizando-se das explicações de praxe, sustentando que a matéria tinha sua causa nos elementos [ar, água e terra]. E nenhuma explicação sobre os princípios ordenadores das coisas. Desde então resolveu manter o foco nestes princípios [as ideias], pois agir como Anaxágoras lhe parecia ser como aquele que ao tentar explicar porque Sócrates estava ali sentado naquele momento, viesse a tentar explicar o fato imputando aos músculos, aos tendões e aos ossos de Sócrates a causa de ele estar ali. Pois que este modo de pensar parecia esquecer que a causa de Sócrates ali estar era ele [Sócrates] ter escolhido cumprir a lei da cidade, se furtando de aceitar as oportunidades de fuga que lhe foram oferecidas. E, aos que o criticassem dizendo que não tivesse ossos, músculos e tendões não estaria ali sentado, ele responde: sim, certamente, isto é uma condição necessária, mas não a causa.

Seguindo um pouco mais nos defrontamos com a moderna tendência a entendermos como explicações suficientes de um fato a descrição de seus mecanismos de funcionamento. Por exemplo: argumentamos que uma experiência qualquer de realidade pode ser reduzida a tal e tal ambiente bioquímico cerebral. Isto parece não ser outra coisa senão o dizer que Sócrates ali está sentado porque é detentor de músculos, tendões e ossos que assim lhe permitem estar.

De outro lado, temos, por exemplo, a tentativa de explicar um bom poema [outros diriam o poema, pois se não for bom não é poema], pelas muitas partes possíveis de se isolar na análise do poema: ritmo, métrica, assonâncias, paralelismos, etc. Partes que, se bem ajustadas, por si próprias facilitariam a que atingíssemos o bom poema. Um poema bom não é senão um construto bem equilibrado. Parece que aqui estamos novamente a utilizar o mesmo tipo de explicação. Qual seja? Confundimos uma condição necessária com a causa.

Talvez, como no caso da galinha dos ovos de ouro, estejamos buscando, queiramos simplesmente nos apropriar da origem das nossas riquezas, abrindo o ventre da nossa ave poeteira, a qual, em nossos dias, bem não deva passar de galináceo comum, do qual contamos com os ovos para o nosso jantar.

Há, sim, algo invisível, que parece pousar sobre o poema, que o faz vivo. Aqui talvez coubesse lembrar a diferença que faz Otávio Paz entre poema e poesia, que talvez pudesse ser equiparada àquela entre o poema e o poema bom [ou o que para outros é a diferença entre poema e não poema], mas aqui se alarga ainda mais a diferença, pois este acontecimento que é a poesia não é exclusivo de um poema, mas pode se dar sim em qualquer uma das nossas manifestações artísticas [música, cinema, artes plásticas, dança etc.]. Deste modo talvez bem pudéssemos dizer juntamente com Sócrates [que sobejamente parece amar os poetas] que aqui talvez tenhamos atingido [lembrado] mais perfeitamente a ideia do belo. E sim, aqui é bem possível que o poema, sem o querer, acabe por nos ensinar o que é o belo. Ou dito algo ao modo do zen: não é o sentar [zazen] que nos assegura o Zen.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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16
abr
11

Legião, poema de Mariana Ianelli

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Legião

Mariana Ianelli

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As estátuas cobertas de hera

Os casulos debaixo da escada

O chão traidor, esverdeado

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Mas ninguém se lembra

Que em outros tempos

Coisas minúsculas se agarravam

E cresciam atrás dos reposteiros

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Toda uma orgia assim igual a essa,

De trepadeiras e crisálidas,

Um miasma de verdades escondidas

Que a seu tempo conquistaria tudo

Sob este sol das três da tarde

Rebentando, arremetendo

Sem mais fazer sombra pela casa.

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Ilustração de Alfredo Aquino

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Mariana Ianelli nasceu em 1979 na cidade de São Paulo. Poeta, mestre em Literatura e Crítica Literária, é autora dos livros Trajetória de antes (1999), Duas Chagas (2001), Passagens (2003), Fazer Silêncio (2005), Almádena (2007) e Treva Alvorada (2010), todos pela editora Iluminuras. Como resenhista, colabora atualmente  para os Jornais O Globo – Prosa&Verso (RJ) e Rascunho(PR). Saiba mais sobre a autora em seu blog http://www2.uol.com.br/marianaianelli/

Legião é poema inédito a ser publicado brevemente em livro pela Editora Iluminuras.

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11
mar
10

Recado de Montevidéu, por Atílio Macunaíma

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Recado de Montevidéu, por Atílio Macunaíma:
Homenagem a Washington Benavides nos seus 80 anos

Washington Benavides cumplió 80 años y se le tributó un homenaje en la Sala Zitarrosa

por Atilio Macunaíma

El pasado 3 de Marzo con el apoyo de la Asociación General de Autores del Uruguay, la Sociedad Uruguaya de Intérpretes y la Dirección de Promoción Cultural de la Intendencia Municipal de Montevideo se le  tributó un homenaje al profesor y poeta Washington Benavides, con motivo de cumplir 80 años de edad y en reconocimiento a su aporte al arte y la literatura uruguaya.

En la oportunidad actuaron Carlos Benavides, Héctor Numa Moraes, Julio Mora, Carlos Alberto Rodríguez, Jorge Alastra, Enrique Rodríguez Viera, Yamandú Palacios, el dúo Larbanois/Carrero, Jorge Alastra y los poetas Víctor Cunha, Elder Silva, Enrique Estrázulas y Macunaíma.

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Washington Benavides nació el 3 de marzo de 1930 en Tacuarembó, Uruguay. Colaboró con la revista Asir en la década del 50. Desde entonces prosiguió una abundante labor de creación poética, que lo sitúa entre los poetas más importantes de su generación. En 1955 publicó su primer libro de poesía titulado “Tata Vizcacha. Durante los años de la dictadura cívico militar, impulsó decididamente el canto popular, como forma de resistencia.

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Fue uno de los integrantes del llamado Grupo de Tacuarembó, del cual también formaron parte otros poetas y músicos de ese departamento, como Eduardo Larbanois y Eduardo Lago (integrantes de Los Eduardos), Eduardo Darnauchans, Héctor Numa Moraes y su sobrino Carlos Benavídez junto al que ha editado varios discos como “Benavides y Benavides” y “Las milongas”. Fue docente de literatura primero en Educación Secundaria y más tarde en la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación en el Departamento de Letras Modernas y Contemporáneas de la Udelar.

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Sus poemas han sido versionados en canciones por artistas como Eduardo Darnauchans, Carlos Benavídez, Mario Carrero y Eduardo Larbanois, Daniel Viglietti, Alfredo Zitarrosa, Héctor Numa Moraes y Abel García entre otros. Como por ejemplo: “El instrumento”, “Como un jazmín del país”, “Milonga del Cordobés”, “Yo no soy de por aquí” y “Tanta vida en cuatro versos”, entre otros. Su bibliografía comenzó con Tata Vizcacha (1955), siguiendo luego con El poeta (1959), A un hermano (1962), Poesía (1963), Las milongas (1966), Poemas de la ciega (1968), Los sueños de la razón (1968), Historias (1971), Hokusai (1975), Fontefrida (1979), Murciélagos (1981), Finisterre (1985), Fotos (1986), Tía Cloniche (1990), Lección de exorcista (1991), El molino del agua ­Premio Nacional y Municipal­ (1993), La luna negra y el profesor (1994), Los restos del mamut (1995), Canciones de doña Veus, (1998), El mirlo y la misa (2000), Los pies clavados (2000), Biografía de Caín: (2001), Un viejo trovador (2004), Diarios del Iporá (2006), Amarili y otros poemas, de Pedro Agudo, (2007).

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Atílio Duncan Pérez da Cunha – Macunaíma – é poeta, jornalista e publicitário uruguaio de Montevidéu. Publicou os livros de poemas Derrumbado nocturno y desván (Montevideo, Shera´a, 1976), Los caballos perdidos (Montevideo, Granaldea, 1980), Fantasmas en la máquina (Montevideo, Ediciones de Uno, 1986) e La bufanda del aviador (Ediciones de la Banda Oriental, 2008 – lançado em janeiro de 2010 na Palavraria, ver post de 03 de fevereiro). Um disco, Los caballos perdidos (Montevideo, Sondor, 1982) recolhe poemas e canções do autor, reunindo artistas como Agustín Carlevaro, Leo Masliah, Jorge Lazaroff, Eduardo Darnauchans, Fernando Condon, Fernando Cabrera, Julio Calcagno y Jorge Bonaldi. Macunaíma mantém o blog http://macupoeta.blogspot.com/.

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Um poema de Washington Benavides:

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