Posts Tagged ‘Porto Alegre

13
ago
12

A crônica de Emir Ross: Estaremos fazendo

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Estaremos fazendo, por Emir Ross

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Há uma instituição nacional que é exclusividade dos brasileiros. Chama-se Estaremos Fazendo. Em outros lugares isso seria compromisso futuro. Aqui, é o tapa furo.

O Estaremos Fazendo é a variante que, para o emissor, significa “tudo bem, para de encher-me” e, para o receptor, “finja que faz e eu finjo que acredito”.

O povo tupiniquim é o povo mais generoso do mundo. No Brasil, todos querem cumprir com sua parte. Com a torcida na Copa do Mundo, com um conselho a quem pede informação, com os moradores de rua. Quando alguém bate na casa de um tupiniquim pedindo cinco reais para o leitinho das crianças, este prontamente coloca a mão na carteira e retira uma nota de cinco; como se não bastasse, ao dar as costas ao pedinte, lembra que há uma moeda em seu outro bolso e chama-o de volta. “Ei, fique também com isso!”

Depois, sorridente e coçando a barriga, volta para assistir o Domingão do Faustão. Fala para a mulher “Fiz minha parte”. Se ela questionar sobre o destino daquele dinheiro, que poderia ser a aquisição de drogas, o tupiniquim responde: “Bom, fiz minha parte.” E se ela sugere que o melhor, já que o indivíduo pretendia comprar leite, era dar-lhe uma das quatorze caixas de leite que há na despensa, ele responde: “Bom, a minha parte eu fiz.”, e troca para o Programa Silvio Santos.

Quando um tupiniquim pretende contratar um serviço, como TV por assinatura, ele ouve do outro lado da linha: “É pra já.” Agora, quando ele estiver de saco cheio por este serviço não funcionar nas horas em que ele está em casa para assistir e pedir uma visita técnica a fim de verificar o problema, a resposta é “Estaremos fazendo”. Ele aguardará por alguns dias, ou semanas, essa visita, até irritar-se pelo péssimo serviço e pelo preço exorbitante. Ligará para cancelar a assinatura. Então ouvirá: “Estaremos cancelando”. E, assim, ele “estará fazendo pagamentos” e assistindo o Domingão do Faustão.

Já ouvi falar que o Estaremos Fazendo vem de uma antiga técnica tuaregue para enganar saqueadores. Funcionava assim: ao saberem que seus espaços seriam invadidos, os tuaregues colocavam o que tinham de mais vistoso e barato, ou seja, vagabundo, à vista. Quem saqueava ia levando tudo, e perguntando se não havia nada de mais valioso. “Estaremos fazendo, senhor, mas a temperatura ainda não é adequada.” Quando os saqueadores retornavam, então os tuaregues haviam-se já mudado.

A filosofia também explica o estaremos fazendismo tupiniquim. Nesse caso, acredita-se que os infortúnios acontecem “apesar” de todo esforço e, principalmente, “apesar de eu ter feito minha parte”. Então, “se todos fossem como eu, não haveria fome, prostituição (a não ser de vez em quando) e crianças fora de escola.”

Mas, na minha humilde crença anti-intelectualismo e anti-comportamento-historicamente-adquirido, penso o contrário. Se o tupiniquim encontra dinheiro no chão ele o apanha e guarda, afinal, se não o fizer, outro o fará. Se pescar um peixe proibido, ele o guardará, afinal, melhor ser ele do que outro. Se ele ajeitar a bola com a mão e o juiz não perceber, fará o gol, pois se não fizer certamente o centroavante do time adversário o fará.

Para intervir na instituição do Estaremos Fazendo talvez tenhamos que imigrar para o Japão, ou então para o Guarani, que é o país que morava aqui antes do Brasil chegar. Fora isso, penso que não “estaremos fazendo” nossa parte nem antes, nem durante e nem depois do Domingão do Faustão.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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30
jul
12

A crônica de Emir Ross: Praça Shiga

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Praça Shiga, por Emir Ross

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Mario Quintana morreu triste. Havia ruas de Porto Alegre pelas quais jamais tinha andado. Ele não era um grande caminhante. Preferia as mesas dos cafés e os cigarros. Mas era um grande apaixonado. Talvez por isso tenha morrido triste.

Eu consigo ser ainda mais triste que Quintana. Primeiro porque não escrevo como ele escrevia. Depois, porque não conheço metade das ruas de Porto Alegre pelas quais ele pisou.

Os engarrafamentos dos anos dois mil têm responsabilidade por uma parcela de minha tristeza. Meu bundamolismo se encarrega da outra. De todo o tempo que perco na vida, não há tempo pior gasto que o a não conhecer as ruas de Porto Alegre.

Não conheço as ruas do IAPI. Não conheço a rua que leva a Itapuã. Não conheço a Rua 24 horas de madrugada. Nunca pisei na Rua Esplanada.

Isso é assustador. Enquanto desfilo a caneta por essas linhas, perco passos. Mario Quintana certamente estaria soprando em meus ouvidos se não tivesse coisas mais importantes para fazer.

Causaria-lhe genuína aflição ver-me a não caminhar por paralelepípedos, lajotas ou caminhos de chão batido.

Uma das causas dessa displicência deve ser meu desapego para comigo mesmo. Sou desprovido de amor-próprio. Por isso envelheço sem fazer o que mais gosto: ler Quintana enquanto tomo um expresso no Café Santo de Casa.

Leio-o no sofá da sala. Ao invés do Guaíba, admiro a parede roxa.

Quintana era porto-alegrense roxo. Embora não tenha nascido aqui. Também não nasci aqui. Talvez esse seja o motivo da minha cor bege. Ou talvez eu tenha essa aparência por minha falta de paixão. Ou minha falta de idade. Quintana tinha a idade do mundo. O suficiente para ser pai de qualquer rua dessa cidade.

Filhas pródigas, algumas.

Temporãs, outras.

Órfãs, todas.

Quando o relógio avisa que são dezoito horas, geralmente faz calor na Praça Shiga. Dou-me conta de que desperdicei algumas linhas durante o dia. Fico um pouco menos triste. Não conheci novas ruas. Mas convivi com a praça. É sempre assim. Essa praça se renova a cada sol. Por isso, volto todas as tardes, para conhecê-la. Às dezoito horas, o zelador precisa fechar as portas.

Nessa hora, a cidade muda. Dou boas-vidas ao engarrafamento e à minha parede roxa. Mario Quintana morreu triste. Havia ruas de Porto Alegre pelas quais jamais tinha caminhado.

Eu consigo ser ainda mais triste. Amanhã passarei a tarde na Praça Shiga.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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25
ago
11

A crônica de Ademir Furtado: Antigualhas

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Antigualhas, por Ademir Furtado

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O livro Antigualhas, de Antônio Álvares Pereira, mais conhecido como professor Coruja, é uma relíquia, tanto no sentido literário quanto histórico, porque é uma espécie de registro de nascimento da cidade de Porto Alegre. A introdução de Sérgio da Costa Franco, na edição ERUS, nos apresenta um pouco da biografia do autor. Nasceu no ano de 1806, quando Porto Alegre ainda se limitava ao estatuto de Freguesia. Tornou-se um homem letrado, e foi um dos primeiros professores da comunidade. Já adulto, tomou partido no entrevero dos Farrapos, acabou perseguido, fugiu, e foi se esconder no Rio de Janeiro, onde residiu até a morte. Na Corte, teve atuação constante no meio intelectual. Mas nunca esqueceu suas origens. Tanto que, na década de 80, já no final da vida, se pôs a rememorar a província, através de crônicas publicadas em jornal local. E essas lembranças vieram a constituir o Antigualhas..

Mas a Porto Alegre representada nas crônicas transformou-se numa cidade singular, construída por um saudosismo criativo. E o bom humor com que descreve o cotidiano dos porto-alegrenses é o estado de espírito dessa volta ao passado. O caráter de vila fica mais evidente no hábito popular de dar nome à ruas, que na época não passavam de becos ou trilhas. O nome oficial era, em geral, trocado pela alcunha do morador mais ilustre, ou mais conhecido. É o caso do Beco do Fanha, atual Caldas Júnior, assim chamada porque ali morava um sujeito com dificuldades na fala.  A Rua do Arroio, hoje Bento Martins, recebia duas denominações. Numa ponta, Beco dos Nabos, referência a um morador que vendia nabos; e na outra ponta, Beco dos Pecados Mortais, uma alusão à conduta moral dos moradores. Na subida de uma determinada ladeira, encontrava-se, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre à janela, “a individua mais notável do bairro”. Essa “individua” era tal que “para falar pelos cotovelos não precisava arregaçar as mangas” uma vez que usava roupas que deixavam não só os cotovelos à mostra. E mais ainda, “era conhecida pelo nome de não sei que de bronze, mas por conveniência de pessoas sérias a chamavam simplesmente a Bronze”. E assim se justifica que um canto do centro da capital se chama até hoje de Alto da Bronze.

Outro detalhe importante é o tom afetuoso com que a cidade é retratada. Considerando-se que as crônicas foram escritas após meio século de afastamento, é certo que Porto Alegre se manteve viva na memória afetiva do expatriado. Conclui-se daí, que essa mania de levar Porto Alegre a qualquer lugar que se vai é uma extravagância muito antiga. Não sei se nessa época o chimarrão já era um hábito urbano, mas vale o exercício de imaginar o professor Coruja passeando pelas praias cariocas com uma cuia na mão e uma chaleira de água quente na outra; ou, ao final da tarde, com os olhos perdidos no horizonte, à procura de um pôr do sol igual àquele do Guaíba, que os habitantes de Porto Alegre até hoje insistem em acreditar que é o mais lindo do mundo. Um século antes do surgimento dos dois maiores símbolos dos gaúchos, o Grêmio e o Internacional, a maneira mais eficaz de dizer “ah, eu sou gaúcho”, foi fazer a recriação literária de uma Porto Alegre que não existia mais de fato, mas continuava bem viva no coração do cronista.

Parece que o gaúcho em geral, e o porto-alegrense em particular, sofre até hoje desse dualismo. Por um lado, um desejo de aderir ao movimento global da modernização, viajar, falar língua estrangeira, e de outro, esse enraizamento meio caipira ao local de origem. Sem recorrer a teorias antropológicas, razões metafísicas e condicionamentos históricos, tão ao gosto de elucubrações acadêmicas, o certo é que o habitante de Porto Alegre gosta mesmo é de permanecer na cidade, mesmo que esteja fora.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

A crônica de Ademir Furtado é publicada neste blog na quarta quinta-feira do mês.

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16
set
10

Palavraria indica: Rua da Praia, de Rafael Guimarães

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Rua da Praia – um passeio no tempo, livro de Rafael Guimarães. Ed. Libretos, 2010.

À venda na Palavraria – R$ 68,00

Reserve seu exemplar – palavraria@palavraria.com.br, 3268 4260
ou venha até a loja: Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim

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Propomos um passeio afetivo pela principal rua de Porto Alegre. Pelas trilhas virgens onde perambulam os índios guaranis, até conhecerem a maldade do caçador branco. Pela terra úmida onde os casais açorianos encontram aconchego, fazem amor e gestam a cidade. Pelas pedras portuguesas por onde se arrastam pés negros e descalços na fúnebre procissão rumo ao largo da forca, onde, mais tarde, reinará a harmonia dos versos de poetas inesquecíveis. Rua da Praia. Nem os Andradas chamariam por outro nome. Por ela, marcham Osvaldo Aranha e Flores da Cunha no assalto ao quartel.

O pequeno Getúlio Vargas desfila a grandiosidade do poder. Mario Quintana flutua do Majestic ao coração da rua. O olhar fotográfico do cavalieri Calegari, na barulhenta quadra dos italianos, antes do esplendor cinematográfico da Praça da Alfândega, repleta de livros e aventuras, eternizadas pela crônica mundana. O Largo fervilha numa conversa interminável de fuxicos e conspirações. Cafés, boemia, música. A energia dos reclames de Bataclan rivaliza com o lamento em blues de Maria Chorona anunciando jornais. Comícios, canos fumegantes. Vítimas da disputa ancestral entre chimangos e magaratos tombam na calçada. O povo em guerra despedaça lojas.

Estudantes pedem democracia. Na Esquina Democrática, pés internacionais marcham por um outro mundo possível. Da Rua da Graça fica a graça do footing, do flert, do dernier cri exposto nas vitrines coloridas da Rua da Praia européia. Adolescentes suspiram no Clube do Comércio, enquanto dança e arte se encontram no Caixeiral. Vem a ressaca, o vazio. Prédios vão abaixo – alguns sobrevivem, cinemas fecham, cafés esvaziam, a música vai para longe levando um cordão de apaixonados. Os passos se tornam nervosos e apressados. Eis que, lentamente, as luzes se acendem: Usina do Gasômetro, Museu do Trabalho, Casa de Cultura Mario Quintana, Museu de Arte, Memorial do RS, Centro Cultural Erico Verissimo, Cia. de Arte e Centro Cultural da Caixa Econômica Federal.E começa uma nova história.

Rafael Guimarães é jornalista (PUC-RS). Atuou como repórter, editor e secretario de redação do Coojornal, da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, a partir de 1976. Foi editor de Política do jornal Diário do Sul, do grupo Gazeta Mercantil. É autor dos livros O Livrão e o Jornalzinho (infantil, 1997), Pôrto Alegre Agôsto 61 (2001), Trem de Volta – Teatro de Equipe (com Mario de Almeida, 2003), Tragédia da Rua da Praia (2005), que recebeu o prêmio “O Sul, Nacional e os Livros” como melhor livro de ficção do ano, Teatro de Arena – Palco de Resistência (2007), vencedor do Prêmio Açorianos categoria Especial e Livro do Ano (empatado com Machado e Borges, de Luiz Augusto Fischer), Abaixo a repressão! (com Ivanir José Bortot, 2008) e A Enchente de 41 (2009). Editou os livros Legalidade, 25 Anos (1986), Dispersos, de Eduardo Guimaraens (2002), que recebeu o Prêmio Açorianos de Poesia, e Morcego em Paris, de Carlos Rafael Guimaraens (2007). Também atua no mercado áudio-visual. É roteirista dos episódios O Encontro (2004), A Vítima da Serpente e Tragédia da Rua da Praia (2006), Viagem pelo Rio Grande, de Alexandre Baguet, (2007), Cartas da Ilha (2007), O Mujica (2007) e Quando Casar Sara (2008) para a RBS TV.

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