Posts Tagged ‘Praça Shiga

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ago
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A crônica de Emir Ross: Estaremos fazendo

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Estaremos fazendo, por Emir Ross

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Há uma instituição nacional que é exclusividade dos brasileiros. Chama-se Estaremos Fazendo. Em outros lugares isso seria compromisso futuro. Aqui, é o tapa furo.

O Estaremos Fazendo é a variante que, para o emissor, significa “tudo bem, para de encher-me” e, para o receptor, “finja que faz e eu finjo que acredito”.

O povo tupiniquim é o povo mais generoso do mundo. No Brasil, todos querem cumprir com sua parte. Com a torcida na Copa do Mundo, com um conselho a quem pede informação, com os moradores de rua. Quando alguém bate na casa de um tupiniquim pedindo cinco reais para o leitinho das crianças, este prontamente coloca a mão na carteira e retira uma nota de cinco; como se não bastasse, ao dar as costas ao pedinte, lembra que há uma moeda em seu outro bolso e chama-o de volta. “Ei, fique também com isso!”

Depois, sorridente e coçando a barriga, volta para assistir o Domingão do Faustão. Fala para a mulher “Fiz minha parte”. Se ela questionar sobre o destino daquele dinheiro, que poderia ser a aquisição de drogas, o tupiniquim responde: “Bom, fiz minha parte.” E se ela sugere que o melhor, já que o indivíduo pretendia comprar leite, era dar-lhe uma das quatorze caixas de leite que há na despensa, ele responde: “Bom, a minha parte eu fiz.”, e troca para o Programa Silvio Santos.

Quando um tupiniquim pretende contratar um serviço, como TV por assinatura, ele ouve do outro lado da linha: “É pra já.” Agora, quando ele estiver de saco cheio por este serviço não funcionar nas horas em que ele está em casa para assistir e pedir uma visita técnica a fim de verificar o problema, a resposta é “Estaremos fazendo”. Ele aguardará por alguns dias, ou semanas, essa visita, até irritar-se pelo péssimo serviço e pelo preço exorbitante. Ligará para cancelar a assinatura. Então ouvirá: “Estaremos cancelando”. E, assim, ele “estará fazendo pagamentos” e assistindo o Domingão do Faustão.

Já ouvi falar que o Estaremos Fazendo vem de uma antiga técnica tuaregue para enganar saqueadores. Funcionava assim: ao saberem que seus espaços seriam invadidos, os tuaregues colocavam o que tinham de mais vistoso e barato, ou seja, vagabundo, à vista. Quem saqueava ia levando tudo, e perguntando se não havia nada de mais valioso. “Estaremos fazendo, senhor, mas a temperatura ainda não é adequada.” Quando os saqueadores retornavam, então os tuaregues haviam-se já mudado.

A filosofia também explica o estaremos fazendismo tupiniquim. Nesse caso, acredita-se que os infortúnios acontecem “apesar” de todo esforço e, principalmente, “apesar de eu ter feito minha parte”. Então, “se todos fossem como eu, não haveria fome, prostituição (a não ser de vez em quando) e crianças fora de escola.”

Mas, na minha humilde crença anti-intelectualismo e anti-comportamento-historicamente-adquirido, penso o contrário. Se o tupiniquim encontra dinheiro no chão ele o apanha e guarda, afinal, se não o fizer, outro o fará. Se pescar um peixe proibido, ele o guardará, afinal, melhor ser ele do que outro. Se ele ajeitar a bola com a mão e o juiz não perceber, fará o gol, pois se não fizer certamente o centroavante do time adversário o fará.

Para intervir na instituição do Estaremos Fazendo talvez tenhamos que imigrar para o Japão, ou então para o Guarani, que é o país que morava aqui antes do Brasil chegar. Fora isso, penso que não “estaremos fazendo” nossa parte nem antes, nem durante e nem depois do Domingão do Faustão.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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30
jul
12

A crônica de Emir Ross: Praça Shiga

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Praça Shiga, por Emir Ross

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Mario Quintana morreu triste. Havia ruas de Porto Alegre pelas quais jamais tinha andado. Ele não era um grande caminhante. Preferia as mesas dos cafés e os cigarros. Mas era um grande apaixonado. Talvez por isso tenha morrido triste.

Eu consigo ser ainda mais triste que Quintana. Primeiro porque não escrevo como ele escrevia. Depois, porque não conheço metade das ruas de Porto Alegre pelas quais ele pisou.

Os engarrafamentos dos anos dois mil têm responsabilidade por uma parcela de minha tristeza. Meu bundamolismo se encarrega da outra. De todo o tempo que perco na vida, não há tempo pior gasto que o a não conhecer as ruas de Porto Alegre.

Não conheço as ruas do IAPI. Não conheço a rua que leva a Itapuã. Não conheço a Rua 24 horas de madrugada. Nunca pisei na Rua Esplanada.

Isso é assustador. Enquanto desfilo a caneta por essas linhas, perco passos. Mario Quintana certamente estaria soprando em meus ouvidos se não tivesse coisas mais importantes para fazer.

Causaria-lhe genuína aflição ver-me a não caminhar por paralelepípedos, lajotas ou caminhos de chão batido.

Uma das causas dessa displicência deve ser meu desapego para comigo mesmo. Sou desprovido de amor-próprio. Por isso envelheço sem fazer o que mais gosto: ler Quintana enquanto tomo um expresso no Café Santo de Casa.

Leio-o no sofá da sala. Ao invés do Guaíba, admiro a parede roxa.

Quintana era porto-alegrense roxo. Embora não tenha nascido aqui. Também não nasci aqui. Talvez esse seja o motivo da minha cor bege. Ou talvez eu tenha essa aparência por minha falta de paixão. Ou minha falta de idade. Quintana tinha a idade do mundo. O suficiente para ser pai de qualquer rua dessa cidade.

Filhas pródigas, algumas.

Temporãs, outras.

Órfãs, todas.

Quando o relógio avisa que são dezoito horas, geralmente faz calor na Praça Shiga. Dou-me conta de que desperdicei algumas linhas durante o dia. Fico um pouco menos triste. Não conheci novas ruas. Mas convivi com a praça. É sempre assim. Essa praça se renova a cada sol. Por isso, volto todas as tardes, para conhecê-la. Às dezoito horas, o zelador precisa fechar as portas.

Nessa hora, a cidade muda. Dou boas-vidas ao engarrafamento e à minha parede roxa. Mario Quintana morreu triste. Havia ruas de Porto Alegre pelas quais jamais tinha caminhado.

Eu consigo ser ainda mais triste. Amanhã passarei a tarde na Praça Shiga.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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