Posts Tagged ‘Promoção de Natal da Editora Arquipélago na Palavraria

12
dez
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Sem ideias para os presentes de Natal? livros da Arquipélago Editorial com 20% de desconto

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Oferta especial de Natal da Editora Arquipélago na Palavraria:

Veja a lista dos livros da Editora Arquipélago à venda com 20% de descontos para pagamentos à vista. Válido até 31 de dezembro de 2010.

Reserve seu exemplar – palavraria@palavraria.com.br, 3268 4260
ou venha até a loja: Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim

De segunda a sábado, das 11 às 21h.

Observação: os preços abaixo são os preços de capa, sem o desconto.

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A Vida Que Ninguém Vê, de Eliane Brum. 208 páginas. R$ 32,00. Uma repórter em busca dos acontecimentos que não viram notícia e das pessoas que não são celebridades. Uma cronista à procura do extraordinário contido em cada vida anônima. Uma escritora que mergulha no cotidiano para provar que não existem vidas comuns. O mendigo que jamais pediu coisa alguma. O carregador de malas do aeroporto que nunca voou. O macaco que ao fugir da jaula foi ao bar beber uma cerveja. O álbum de fotografias atirado no lixo que começa com uma moça de família e termina com uma corista. O homem que comia vidro, mas só se machucava com a invisibilidade.
Essas fascinantes histórias da vida real fizeram sucesso no final dos anos 90, quando as crônicas-reportagens eram publicadas na edição de sábado do jornal Zero Hora. Reunidas agora em livro, formam uma obra que emociona pela sensibilidade da prosa de Eliane Brum e pela agudeza do olhar que a repórter imprime aos seus personagens – todos eles tão extraordinariamente reais que parecem saídos de um livro de ficção.
A edição que marcou a estréia da Arquipélago Editorial – reúne as 21 melhores colunas de A Vida Que Ninguém Vê acrescidas de textos que revelam o “dia seguinte” de dois personagens emblemáticos da série de reportagens: Adail realizou seu grande sonho, enquanto Antonio sofreu de uma segunda tristeza. Ao final do volume, um texto inédito de Eliane avalia, com o distanciamento que o tempo oferece, o que há por trás dessa vida que (quase) ninguém viu. É mais uma prova da força do trabalho da autora. E uma demonstração de que a reportagem é uma arte.

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Terra Adentro, de Luís Sérgio Metz, Pedro Luiz da Silveira Osório e Tau Golin. 178 páginas. R$ 29,00. Eles eram três. Amigos e companheiros de militância, na política e no jornalismo, na poesia e no nativismo. Num certo dia, no distante março de 1980, montaram em seus cavalos e deram início a uma jornada que marcaria para sempre a maneira como viam o mundo – especialmente aquele universo particular que habitavam, o território mítico do pampa. Saíram de Santa Maria e só pararam 13 dias depois, 600 quilômetros mais longe, no interior de Jaguarão, perto da divisa do Brasil com o Uruguai.
Em seguida, contaram o que viram: o pior bolicho do mundo, o homem que se esconde em si mesmo, a hospitalidade campeira, as frustradas tertúlias em volta do fogo de chão, as desventuras do Tigre (o bravo cachorro que os acompanhou). Mais do que isso, relataram um momento singular na história daquele pedaço de chão: a chegada da televisão e o esmagamento que a nova cultura de massa provocava no imaginário do homem do campo. Em outras palavras, eles fizeram um retrato da passagem do Rio Grande do Sul tradicional ao moderno.
Tudo isso foi contado – em uma reportagem especial publicada originalmente Caderno de Sábado do Correio do Povo – com uma prosa em ritmo de galope e sempre em tom de causo. Porque nenhum dos três viajantes pretendia tirar da experiência da viagem uma tese sociológica (embora tenham passado perto). O interesse era jornalístico, o que importava era o registro do que se passou naqueles longos 13 dias. Por isso, também é um livro de aventura, o relato de uma viagem única, irrepetível hoje em dia.
Hoje eles são dois. Luiz Sérgio Metz, um dos autores do texto, faleceu em 1996, aos 43 anos. Escritor e letrista cujo talento ainda não foi plenamente reconhecido, é autor de outros três livros. Terra Adentro seria o quarto. No momento em que se completam dez anos de sua morte, seus companheiros de travessia prestam a mais bela homenagem que um escritor poderia desejar: ter sua obra apresentada aos leitores, que agora poderão acompanhar a jornada daqueles três homens. Terra adentro, tempo afora.

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O Calcanhar do Aquiles, de Duda Teixeira. 224 páginas. R$ 34,00. Eu, você, seus pais, o seu vizinho da frente, o dono da livraria e o autor deste livro temos algo em comum: somos todos um pouco gregos. Qualquer pessoa deste lado do mundo, da chamada civilização ocidental, tem um pé (ou até mesmo os dois) na Grécia Antiga. Isso porque foi lá, naquele pequeno território há milhares de anos, que surgiram as bases de um conhecimento coletivo que ainda partilhamos em áreas como a filosofia, a medicina, a astronomia, a matemática e as artes.
Mas a sociedade grega não era formada apenas por pensadores e suas elucubrações filosóficas. Nem só de intrincados debates viviam aqueles homens. No correr dos dias comuns, eles dedicavam-se a assuntos bem mais mundanos. Tomavam porres homéricos de vinho com pimenta, recorriam a videntes em transe para conhecer o futuro, inventavam palavrões cabeludos, faziam macumba, faltavam às assembléias políticas e competiam nus nas disputas esportivas. Um cotidiano repleto de manias, defeitos, preocupações triviais e um bocado de situações inusitadas.
Essa mistura, da qual ainda faz parte uma mitologia de significados inesgotáveis, é a marca do povo grego. É isso tudo que o jornalista Duda Teixeira nos conta neste livro, deixando de lado a sisudez das teses acadêmicas, mas com um profundo trabalho de pesquisa. E muito bom humor. O resultado é uma obra divertida, de leitura saborosa, uma coleção das histórias mais curiosas que tiveram como protagonistas os gregos. Essa gente tão parecida comigo, com você, com todos nós.

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A Longa Marcha – A história do mito-fundador da China Comunista, de Sun Shuyun. Tradução: Caroline Chang. 336 páginas. R$ 44,00. Bem de perto, os heróis cheiram mal. É isso que denuncia sua humanidade. E é assim que os mitos começam a ruir. Episódios históricos só viram épicos à custa do extermínio das verdades inconvenientes. Forjam-se heróis para ocultar homens. A história é transformada em lenda. E lenda, nesse caso, é a história lavada de suas indignidades.
A Longa Marcha é o mito fundador da China de Mao Tse-tung. Em 1934, o exército comunista, que pode ter chegado a 200 mil pessoas – os números são controversos – foi expulso de suas bases pelas tropas nacionalistas de Chiang Kaishek. Empreendeu então uma travessia que superou os dez mil quilômetros. Estima-se que apenas um quinto chegou até o fim. Os sobreviventes fundaram a nova China não sobre a história da Longa Marcha, mas sobre a lenda. Ela se tornou a peça de propaganda da revolução.
Sun Shuyun, como todos os chineses, cresceu embalada por canções e filmes heróicos. O mito é parte do que ela é. Mas havia demasiadas perguntas sem respostas. Setenta anos depois, em 2004, Sun refez a marcha do exército comunista. Encontrou mais do que foi buscar.
Seu livro dá voz aos homens e mulheres que atravessaram a China com os pés enrolados em trapos. Restaram poucos não apenas porque os expurgos, as doenças, o frio e a fome mataram mais do que o inimigo – mas porque as deserções foram maiores do que as mortes em batalhas.
Em suas páginas, Chen confessa que se alistou para ganhar seu primeiro sapato. Huang narra os dias em que esperou sua vez na fila para beber a urina dos cavalos dos oficiais – único remédio disponível para soldados com diarréia. Wang conta que deixou um rastro de sangue na neve. Chegou ao topo da montanha viva, mas nunca mais menstruou. É a própria China que emerge das lembranças. Sua geografia, sua cultura, suas dores.
Ao fundo, é a voz de Sun Shuyun que se ouve. Ela faz também uma travessia para dentro de si mesma. É honesta ao expor o embate travado entre as vozes do mito que a habita e da História que foi buscar. Esse livro mostra como Mao transformou fuga em epopéia. Ecoa em cada um de nós porque nos debatemos todos com lendas travestidas de História. Como Sun Shuyun, nós também conhecemos o significado de despertar no meio de uma longa noite com o eco de verdades abafadas. Eliane Brum

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A Literatura Vista de Longe, de Franco Moretti. Tradução: Anselmo Pessoa Neto. 184 páginas. R$ 36,00. Se o leitor se intrigou com o título deste belo estudo e reagiu pensando “Mas literatura é sempre algo a ser visto de perto!”, seja bem-vindo: é exatamente este contraste o ponto de partida para apreciar e fruir adequadamente as teses de Franco Moretti sobre estudar literatura hoje.
Autor de alguns trabalhos de grande poder descritivo, muitos dos quais traduzidos no Brasil, Franco Moretti é talvez o mais original formulador das aproximações entre estudos de literatura e geografia. Estudioso do romance, forma narrativa moderna que domina o cenário das letras há mais de dois séculos, ele procede a levantamentos documentais da geografia presente no romance e dá a ver quão estruturante é o papel do espaço nos relatos ficcionais, para muito além do aspecto meramente paisagístico que habitualmente se concebe.
De outra parte, seu trabalho lida com os espinhosos temas da história da literatura, em especial do romance. Sabemos que ninguém tem mais serenidade de falar ingenuamente em histórias nacionais de literatura, menos ainda com a crescente mundialização dos mercados e o conseqüente entrecruzamento de tendências, estilos, enredos; mas quase ninguém ainda havia atinado com premissas sólidas para uma história mundial da literatura. E aí entra Moretti em cena: tomando por base uma perspectiva materialista mezzo darwinista, postula, em particular para o romance, alguns princípios capazes de descrever a origem e o desenvolvimento dessa forma narrativa em todo o mundo.
Utopia? Sim, mas ao alcance do debate, senão mesmo da escrita, como está provando sua obra. No livro que o leitor tem agora em mãos, Moretti oferece três modelos abstratos para a história da literatura. Abstratos, quer dizer: que lidam com a literatura como um objeto passível de uma perspectiva científica aparentada das ciências da natureza. Ele mesmo explica que seu marxismo tem pouco a ver com as sutilezas filosofantes das tradições francesa e alemã e muito em comum com a tradição empirista inglesa (Moretti, italiano, especializou-se em romance inglês, justamente).
Gráficos, mapas e árvores, então, são as figuras abstratas que Moretti mobiliza, aqui, para pensar (de longe, de cima, panoramicamente) sobre literatura, e o leitor vai logo apreciar o enorme rendimento que ele obtém, ao lado do não menos interessante ritmo de sua argumentação, marcante em maisde um sentido, que ajuda a arejar a conversa sobre história da literatura, aqui e em toda parte por onde já circula. Luís Augusto Fischer

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Uma Vida Menos Ordinária, de Baby Halder. Tradução: João Luiz Guimarães. 224 páginas. R$ 38,00. “Tome, escreva alguma coisa neste bloco. Se quiser, você pode escrever a história da sua vida nele. Tudo que aconteceu desde que você consegue se lembrar e desde que tomou consciência de si mesma”, disse a Baby Halder o seu patrão, um professor de antropologia aposentado. “Escreva todo dia. Você precisa fazer isso.” Assim ela fez, e assim nasceu este livro. Apontada como uma “estrela emergente no horizonte literário indiano” pelo jornal The New York Times, até aquele momento decisivo ela era apenas mais uma entre milhões de mulheres pobres submetidas à tirania de uma sociedade patriarcal e preconceituosa.
O resultado dessa transformação pela escrita é uma narrativa única, retrato de uma vida que tinha tudo para terminar como começou. Baby Halder foi abandonada pela mãe aos quatro anos. Aos 12, foi obrigada pelo pai a se casar com um homem mais velho e violento. Conseguiu escapar do casamento, mas não da pobreza nem do estigma de ser mãe solteira. Como integrande da casta mais baixa, até onde ela poderia chegar? Sobreviver era tudo o que interessava, até aquele momento em que teve o primeiro contato com a literatura.
Ali, tudo mudou. A infância não deixou de ser trágica, nem os problemas se desfizeram. Mas, aos poucos, Baby passou a habitar um mundo no qual existem metáforas. Uma vida menos ordinária é um texto que não tenta ser poético em cada frase. Pelo contrário, tem na crueza das descrições e na linguagem seca e direta a sua força vital. Mas, observado em seu conjunto, é uma fascinante metáfora do poder transformador da palavra.

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Machado e Borges e outros ensaios sobre Machado de Assis, de Luís Augusto Fischer. 264 páginas. R$ 37,00. Luís Augusto Fischer é ficcionista, cronista, crítico literário, roteirista, até dicionarista (do porto-alegrês). Quem podia ser melhor, então, para escrever sobre Machado de Assis, escritor que usou todos os gêneros possíveis para animar a cultura do seu tempo? Ao ler este livro, fiquei impressionado por duas coisas – primeiro, a naturalidade, a desenvoltura, do estilo, e segundo, a ousadia do autor ao abordar assuntos abrangentes.
Comecemos pelo ensaio de abertura, sobre Machado e Borges. Sempre os dois autores foram comparados, mas nunca com tanto detalhe, levando em conta tantos contextos, geográficos e históricos, sem excluir o biográfico. Ambos foram sobretudo céticos, na vida e na narrativa, visceralmente opostos a um realismo ingênuo. Neles, o leitor sente sempre a presença da voz narrativa – no caso de Machado, tanto nos contos como nos romances, e tanto em Quincas Borba quanto em Dom Casmurro, digamos.
Os dois ensaios seguintes expandem estes argumentos. O primeiro junta uma inesperada terceira figura aos dois sul-americanos – a de Edgar Allan Poe. Será que este triângulo nos explica o porquê da diferença de Machado, a estranha dificuldade de exportá-lo, de aclimatá-lo em terras européias que ele nunca visitou?
O segundo, “A invenção de distâncias”, em harmonia com tendências recentes da crítica machadiana, focaliza os contos, dando-lhes uma importância enorme dentro da obra. Li-o com enorme prazer. É escrito com toda a clareza e o charme a que Fischer nos acostuma, e o que é mais, com uma honestidade que não hesita em questionar as conclusões anteriores do próprio autor, nem de achar inspiração num crítico que pareceria estar nas antípodas dos gostos do autor – o português Abel Barros Baptista.
São só três ensaios, entre vários. Este é um livro que honra o seu autor, e que veio para ficar. John Gledson

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Conversas de Cafetinas, de Sérgio Maggio. 160 páginas. R$ 31,00. “Amei Raimundo Temporal, amei Congo de Ouro, amei Pai, amei Sena, que deitava na minha cama, todo bacana”, anuncia a mulher, esparramada em si mesma, 110 quilos de lembranças. “Era um homem gostoso, cabeludo. Parecia um macaco, tinha um perfume que embelezava a gente.”
Essa é Saiana, figura de uma época que torcia as ancas para preservativo, “com camisinha não tem buceta que fique apertada”. Que avisa: “Na minha casa, abaixo de Deus, eu. Abaixo de mim, a polícia.” Tem Nini, que só amou um homem que ficou noivo de outra e agora envelhece ao lado de um que não ama. Tem dona Cabeluda, mulher que amarra a palavra literalmente no fio do bigode. Inaugurou o negócio no tempo em que prostituta usava “vestido meia-perna e sapatos de salto alto” e segue firmona, 30 anos depois, administrando “10 mulheres que usam um taco de short combinando com um taco de blusa”. E Andréa, que capitaneia seu “Cabaré das Donzelas Inocentes” nem tão inocentes assim, porque volta e meia ela fica nervosa e “dá uns tapinhas…. mas nada de violência, coisas de mãe”.
E ainda Gina, Minininha, Juci e Fátima, uma soma robusta de oito cafetinas. Ou “donas de casa”, como elas preferem. Oito contadoras de uma história que seduz o jornalista Sérgio Maggio desde o tempo em que, menino, ele se solidarizava com os ciúmes da mãe diante dos olhares compridos do pai para as misteriosas moças do cabaré. Ou quando, aos oito anos, escondido embaixo da mesa da sala, enchia os olhos com Maria Machadão e as mulheres coloridas do bordel Bataclã, na novela Gabriela.
Sérgio Maggio andou por ladeiras de Salvador e curvas de cidadezinhas do interior baiano para escutar não prostitutas, mas cafetinas, as mulheres no comando do prazer e da dor, administradoras de não-ditos na vida das cidades. Na esquina dessas conversas, às vezes tensas, encontram-se duas mitologias, a do repórter que veio buscar segredos, a das cafetinas que, no vício da profissão, tentam adivinhar que mercadoria agradaria mais ao freguês.
Nesse jogo de esconde-esconde, as verdades assomam nos vãos da prosa, na existência substantiva dessas mulheres, no absurdo do cotidiano que escapa de todo o controle, na vida que elas gostariam de acreditar que comandam, mas que escorrega por entre os dedos. Estão, todas as oito e cada uma ao seu modo, agarradas à possibilidade de reinvenção pela palavra num mundo que se desmancha, cada vez mais incertas do seu lugar. Aqui também a vida se ilumina nos cantos escuros da narrativa. Eliane Brum

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O Pai dos Burros. Dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck . 208 páginas. R$ 29,00. Humberto Werneck é um colecionador. Não de borboletas, como explica na apresentação deste livro, mas de lugares-comuns e frases feitas. Há quase quatro décadas ele mantém o hábito de anotar, no cantinho de papel que estiver à mão, aquelas expressões que, de tanto uso, tornaram-se gastas. É o caso de “a escola da vida”, “abraçar uma causa” e “acreditar piamente”, apenas três exemplos entre as mais de 4.500 expressões espalhadas pelos 2.000 verbetes da obra.
Tamanha obsessão tem uma razão: Werneck sempre se preocupou com a funcionalidade da linguagem. A necessidade de que cada palavra ou sentença seja usada precisamente. “Se escrever vale a pena, deve ser para enunciar algo que se pretende novo — e me parece um contrassenso, sobretudo no jornalismo, tentar passar o novo com linguagem velha”, escreve Werneck. O que não significa que os lugares-comuns devam, necessariamente, ser banidos. “O que se quer com este livro é apenas recomendar desconfiança diante de tudo aquilo que, no ato de escrever, saia pelos dedos com demasiada facilidade. Porque nada de verdadeiramente bom costuma vir nesse automatismo.”

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Inteligência com Dor. Nelson Rodrigues ensaísta, de Luís Augusto Fischer. 336 páginas. R$ 39,00. Íntimo e desmedido, reacionário e frágil, iconoclasta e moralista: Nelson Rodrigues é um daqueles autores que não deixam ninguém indiferente. Também é difícil ficar indiferente diante deste livro de Luís Augusto Fischer, que enfoca o lado menos estudado da obra de Nelson: suas crônicas.
Crônicas? Nada disso, argumenta Luís Augusto Fischer.  Ensaios! Ensaios!, proclama o crítico,  com “olho rútilo” e um não menos rodriguiano “vozeirão de barítono de Puccini”.
A crônica, para Fischer, é um gênero literário mais próximo das gracinhas do que do humor verdadeiro,  mais inclinada ao descompromisso do que ao envolvimento pessoal;  um gênero que não se arrisca –e Rubem Braga é desancado de passagem— a dar conta, de corpo e alma, do tempo presente.
São estas algumas das qualidades que Fischer identifica, de modo persuasivo, ao mesmo tempo livre e sistemático, nos textos de Nelson Rodrigues. Mais ainda, esse “Montaigne brasileiro” foi quem definitivamente –e Mário de Andrade leva suas lambadas também—incorporou a linguagem coloquial à literatura brasileira.
A revalorização da obra jornalística de Nelson Rodrigues deve muito a Ruy Castro, que organizou vários volumes de suas confissões, desabafos, provocações contra D.  Hélder Câmara, estagiárias de calcanhar sujo e padres de passeata. São, sem dúvida, textos que ninguém lê sem prazer, até pelo que têm de hiperbólico em sua desconcertante naturalidade.
Fischer dá um passo além nessa recuperação, mobilizando com agilidade e sem pedantismo um expressivo aparato teórico (em geral marxista, aliás) para acertar os relógios da crítica com esse tremendo dinossauro das nossas letras. Escrevendo contra a esquerda em plena ditadura, não é à toa que Nelson Rodrigues tenha ficado por muito tempo na geladeira;  Fischer não se intimida diante do problema, reconhecendo que em muitos pontos o “reacionário” tinha razão.
O autor desta orelha não iria tão longe; vê em Nelson Rodrigues, de resto, uma intencionalidade quase profética de convicções que o afasta do modo ensaístico, por excelência exploratório e inconclusivo. Mas essa é apenas uma das discussões que este livro, tão cortante e luminoso, está pronto a suscitar. Nelson Rodrigues, autor de ensaios? Não sei se é. Sei que Luís Augusto Fischer é.  E dos bons. Marcelo Coelho

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Sobrescritos, de Sérgio Rodrigues. 152 páginas. R$ 25,00. As pessoas coçaram atrás da orelha. Depois, porém, as pessoas coçaram atrás da orelha de novo. Por fim, as pessoas ficaram com o lado de trás da orelha inteiramente escalavrado. Quando os primeiros Sobrescritos apareceram, enigmáticos, na coluna Todoprosa, de Sérgio Rodrigues, no bom e velho site NoMínimo, as pessoas suspeitaram que eram minicontos à clef, dispostos a esculhambar de vez o mundo das letras. Quem seria o “escritor de barba espessa e fama rala?”, alarmaram-se alguns. E o inesquecível Lúcio Nareba, “lenda da blogosfera literária nacional”, quem haveria de ser?, sussurraram outros.
Felizmente, houve também quem percebesse de cara que todas essas figuraças, incluindo Demóstenes Bastião, o que escrevia em preto-e-branco, ou o latinista Cecilio Giovenazzi, “o maior memorialista do onanismo no Ocidente”, habitavam era a interseção entre a capacidade de observação e o talento para fabular de Sérgio, crítico-romancista. Daí elas tanto incomodarem quanto permanecerem na memória bem após o log off, caso do primeiro texto da coletânea, no qual a blogueira reencena Love story com o estruturalista.
Hoje, portanto, quando a sempre prestigiosa Todoprosa é navegável via IG, mais pessoas já leem os Sobrescritos como as delicadas peças de ironia, bibliofilia e alguma tristeza que eles de fato são. Embora algumas das pessoas, por via das dúvidas, carreguem sempre um band-aid para o lado de trás da orelha no bolso da frente das calças. Arthur Dapieve

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Os Novos Escribas. O fenômeno do jornalismo sobre investigações no Brasil, de Solano Nascimento. 112 páginas. R$ 18,00. “Há uma grande diferença entre descobrir uma irregularidade e descobrir que alguém descobriu uma irregularidade”, avisa Solano Nascimento na frase de abertura deste livro provocador. Ele está se referindo a uma transformação silenciosa – e maléfica – que ocorre no jornalismo dito investigativo no Brasil: não é mais o próprio repórter que desvenda as maracutaias e falcatruas, mas autoridades que têm a obrigação de fazer isso, como policiais, promotores, procuradores e outros agentes de órgãos de fiscalização. Ao jornalista cabe apenas ter acesso àquela fita, ao tal dossiê, ao vídeo comprometedor.
Para detectar essa tendência, o autor observou a cobertura jornalística dos escândalos políticos nas três principais revistas semanais do país – Veja, IstoÉ e Época – em todos os anos em que houve disputa presidencial desde a redemocratização, da eleição de Fernando Collor de Mello, em 1989, à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. Com apuro científico e analítico, Solano Nascimento demonstra que a transformação do “jornalismo investigativo” no que ele chama de “jornalismo sobre investigações” é uma realidade incômoda.
Ao abrir mão de investigar por si mesmo, o jornalista fica mais vulnerável ao risco de ser usado pela fonte que passa a informação e pode perder o controle sobre o próprio trabalho. Em outras palavras, o repórter deixa de ser um autor para se tornar um escriba, aquele que resigna a reproduzir a obra dos outros – o que é ruim para a imprensa, e terrível para a sociedade.

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Operação Portuga. Cinco homens e um recorde a ser batido, de Sérgio Xavier Filho. 176 páginas. R$ 32,00. Este não é um livro sobre corrida, embora se passe entre treinos e competições. É sobre gente. Na verdade, um tipo muito especial de gente. O esporte é o pano de fundo, mas o que está em jogo é muito mais do que isso. São histórias de competição, superação e camaradagem.
Em outubro de 2006, o empresário Amílcar Lopes Jr., o Portuga, realizou um feito memorável ao completar a Maratona de Chicago em 2 horas 43 minutos e 50 segundos. A marca, extraordinária para um amador, fez dele uma espécie de lenda no circuito dos corredores de rua de São Paulo. Desde aquele momento, Portuga se tornou o homem a ser batido. Marcelo Apovian (o Lelo), José Augusto Urquiza (o Guto) e Tomás Awad são os mais fortes candidatos a derrotar Amílcar no que ficou conhecido como o “Desafio do Portuga”.
Os três desafiantes treinam forte. Para alcançar o objetivo, eles, que são executivos ocupados, driblam suas agendas apertadas, desviam de compromissos sociais e deixam de lado muitas horas de descanso ou de convívio familiar. Também deixam para trás, como no caso do Lelo, as sequelas de um acidente que quase lhe custou a perna. A marca mítica não sai da cabeça deles, o Portuga precisa ser derrubado.
O circuito das maiores maratonas do mundo – Berlim, Boston, Chicago, Nova York e Paris – é o cenário ideal para a busca pelo recorde. Lelo, Guto e Tomás correm o mundo, literalmente, para derrubar o Portuga. A esse grupo junta-se mais tarde Felipe Wright e sua obsessão em terminar uma maratona abaixo de 3 horas. E ele chegou lá, com a ajuda de um amigo capaz de um gesto de pura e comovedora nobreza.

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Aforismos, de Karl Kraus. Trad. e org. de Renato Zwick. 208 páginas – Capa dura. R$ 39,00. “O aforismo jamais coincide com a verdade; ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia”, escreveu Karl Kraus (1874-1936) a respeito do gênero em que se tornou um mestre. Personagem singular do debate intelectual europeu do começo do século XX, Kraus encontrou na brevidade e na condensação extrema dos aforismos a forma ideal de espetar seus adversários – notadamente jornalistas, políticos e figuras prestigiadas do meio cultural vienense. Exprimindo o que à primeira vista pode parecer uma generalização abusiva, o aforismo desestabiliza as certezas cotidianas cristalizadas em frases feitas e, à luz de seu brilho repentino, desvenda aspectos da realidade até então ignorados. Neste volume, apresenta-se uma poderosa mostra de como podem ser cortantes esses pequenos textos – e de como Kraus, manejando a sátira, feriu seus inimigos com grande concisão. Como ele mesmo dizia: “Há escritores que já conseguem dizer em vinte páginas aquilo para o que às vezes preciso de até duas linhas.”

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As melhores entrevistas do rascunho – vol. 1, de Luís Henrique Pellanda (Org.). Ilustrações de Ramon Muniz. 288 páginas. R$ 39,00. Este é um livro improvável. Quando circulou pela primeira vez, em 2000, o jornal literário Rascunho parecia condenado ao mesmo destino de muitas outras publicações do gênero: uma morte tão rápida quanto certa. Ao contrário de todas as previsões, no entanto, o Rascunho teve a audácia de sobreviver e se transformou em uma aventura editorial que – teimosamente – já dura uma década. Nesse período, o Rascunho publicou entrevistas com 153 escritores, de jovens promessas a nomes consagrados. Essas conversas – geralmente longas e por escrito, sempre minuciosas e reveladoras – são um traço característico do jornal, uma marca de nascença que o acompanha desde o número zero.
As melhores entrevistas do Rascunho é um projeto que não seria possível sem a persistência do editor do jornal, Rogério Pereira, que driblou o fechamento da publicação mesmo quando o bom senso indicava esse caminho. A teimosia, porém, nunca foi só dele, como lembra no prefácio o escritor e jornalista Luís Henrique Pellanda, organizador desta antologia: “Se há algo realmente importante a declarar sobre o Rascunho é que ele só existiu e perdura graças à colaboração gratuita e apaixonada de diversas e incontáveis pessoas”.
As entrevistas dos 15 escritores reunidas neste volume cobrem uma boa parte da trajetória do Rascunho, mas revelam bem mais do que isso. Elas são um retrato vívido da literatura brasileira contemporânea pela voz de quem a produz. As opiniões, os métodos, as influências e as manias desses escritores – que podem não ser os seus preferidos, mas sem dúvida têm muito o que dizer – formam um documento para o leitor de hoje e o pesquisador do futuro. Um registro em primeira pessoa da cena literária brasileira neste começo de século 21.
Escritores entrevistados:
Altair Martins
Bernardo Carvalho
Cristovão Tezza
Elvira Vigna
Fausto Wolff
Fernando Monteiro
João Gilberto Noll
João Ubaldo Ribeiro
José Castello
Luiz Ruffato
Mario Sabino
Milton Hatoum
Nelson de Oliveira
Sérgio Sant’Anna
Wilson Martins

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Livro é sempre um bom presente!

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Telefone 3289 2184

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