Posts Tagged ‘prosa ligeira

05
maio
12

Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 04/05: Lançamento do livro Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior

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Aconteceu na Palavraria, nesta sexta, 04/05: Lançamento do livro Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior. Fotos do evento.

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04
abr
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das causas, dos galináceos e do sentar

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Das causas, dos galináceos e do sentar, por Jaime Medeiros Jr.

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Recentemente relendo o Fédon me deparo com Sócrates a confessar, um pouco antes de tomar do phármakon, que tinha na juventude se empolgado com os ensinos de Anaxágoras, que afirmava que a causa primeira de tudo era a mente, mas que ao se debruçar sobre o livro de Anaxágoras acabara por se decepcionar profundamente, pois o sábio simplesmente arrolava explicações sobre os fenômenos naturais utilizando-se das explicações de praxe, sustentando que a matéria tinha sua causa nos elementos [ar, água e terra]. E nenhuma explicação sobre os princípios ordenadores das coisas. Desde então resolveu manter o foco nestes princípios [as ideias], pois agir como Anaxágoras lhe parecia ser como aquele que ao tentar explicar porque Sócrates estava ali sentado naquele momento, viesse a tentar explicar o fato imputando aos músculos, aos tendões e aos ossos de Sócrates a causa de ele estar ali. Pois que este modo de pensar parecia esquecer que a causa de Sócrates ali estar era ele [Sócrates] ter escolhido cumprir a lei da cidade, se furtando de aceitar as oportunidades de fuga que lhe foram oferecidas. E, aos que o criticassem dizendo que não tivesse ossos, músculos e tendões não estaria ali sentado, ele responde: sim, certamente, isto é uma condição necessária, mas não a causa.

Seguindo um pouco mais nos defrontamos com a moderna tendência a entendermos como explicações suficientes de um fato a descrição de seus mecanismos de funcionamento. Por exemplo: argumentamos que uma experiência qualquer de realidade pode ser reduzida a tal e tal ambiente bioquímico cerebral. Isto parece não ser outra coisa senão o dizer que Sócrates ali está sentado porque é detentor de músculos, tendões e ossos que assim lhe permitem estar.

De outro lado, temos, por exemplo, a tentativa de explicar um bom poema [outros diriam o poema, pois se não for bom não é poema], pelas muitas partes possíveis de se isolar na análise do poema: ritmo, métrica, assonâncias, paralelismos, etc. Partes que, se bem ajustadas, por si próprias facilitariam a que atingíssemos o bom poema. Um poema bom não é senão um construto bem equilibrado. Parece que aqui estamos novamente a utilizar o mesmo tipo de explicação. Qual seja? Confundimos uma condição necessária com a causa.

Talvez, como no caso da galinha dos ovos de ouro, estejamos buscando, queiramos simplesmente nos apropriar da origem das nossas riquezas, abrindo o ventre da nossa ave poeteira, a qual, em nossos dias, bem não deva passar de galináceo comum, do qual contamos com os ovos para o nosso jantar.

Há, sim, algo invisível, que parece pousar sobre o poema, que o faz vivo. Aqui talvez coubesse lembrar a diferença que faz Otávio Paz entre poema e poesia, que talvez pudesse ser equiparada àquela entre o poema e o poema bom [ou o que para outros é a diferença entre poema e não poema], mas aqui se alarga ainda mais a diferença, pois este acontecimento que é a poesia não é exclusivo de um poema, mas pode se dar sim em qualquer uma das nossas manifestações artísticas [música, cinema, artes plásticas, dança etc.]. Deste modo talvez bem pudéssemos dizer juntamente com Sócrates [que sobejamente parece amar os poetas] que aqui talvez tenhamos atingido [lembrado] mais perfeitamente a ideia do belo. E sim, aqui é bem possível que o poema, sem o querer, acabe por nos ensinar o que é o belo. Ou dito algo ao modo do zen: não é o sentar [zazen] que nos assegura o Zen.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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