Posts Tagged ‘Recado de Lisboa

15
abr
12

Recado de Lisboa, por Gabriela Silva: Cuerpos de dolor

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Cuerpos de dolor, por Gabriela Silva

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Nunca escondi minha predileção por arte. Estando em Portugal, não pude deixar de ver exposições, monumentos históricos e outras relíquias salutares para nossa memória. Uma dessas exposições foi no Museu Nacional de Arte Antiga aqui de Portugal, chamada Cuerpos del dolor – a imagem do sagrado na escultura espanhola. A exposição foi trazida do Museo Nacional de Escultura na Espanha e abrange os séculos áureos da arte sacra (de 1500 a 1700). Um período de forte presença religiosa e que denota uma necessidade muito grande da representação da dor e do martírio de soldados, herói e santos marcados por intenso flagelo e sofrimento.

A presença do sagrado é muito evidente na cultura de alguns países europeus como Espanha e Portugal, igrejas, arquitetura e costumes denotam isso. E a exposição que visitei evidenciava essa característica da arte produzida nesses países. Entre as imagens estão Santo Antônio, Santa Clara de Assis, Santa Maria Egípiaca , Retábulo-mor de San Benito el Real entre outras.

Embora sejam obras de arte de um enorme valor tanto como mímese como história, elas  causam certo desconforto. São acima de tudo representações de dor. E para isso é preciso ater-se mais aos traços esculpidos do que aos sentimentos expressos.

O Museu de Nacional de Arte antiga também conta com exposição do acervo permanente, com obras de diversas épocas e também autores como Bosh. Há ainda uma sessão de mobiliário antigo muito interessante.

E se pode também aliviar a tensão nos jardins do Museu: há um café muito bom, com vista para o Tejo. Uma combinação muito agradável.

 

Link da exposição:

http://www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/pt-PT/exposicoes%20temporarias/em%20curso/ContentDetail.aspx?id=517

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Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Atualmente está em Lisboa, dizem que estudando.

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01
abr
12

Recado de Lisboa, por Gabriela Silva: Pessoa plural como o universo

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Pessoa plural como o universo, por Gabriela Silva

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Estar em Lisboa é uma experiência única. São elementos de cultura e de história que povoam nosso imaginário e cuja existência precisamos muitas vezes comprovar. Um desses espectros é Fernando Pessoa (1888-1933). Na primeira semana aqui em Lisboa fui à Casa Fernando Pessoa.  Um lugar interessante que guarda recordações de vida do poeta.

Mas foi em fevereiro que me deparei com uma exposição deveras convidativa: Fernando Pessoa – plural como o universo. Um evento promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, instituição conhecida pelos portugueses por seu incentivo e cuidado com as artes de um modo geral. E “Fernando Pessoa – plural como o universo” é financiada também pela Rede Globo, Banco Itaú, Banco Caixa Geral – Brasil e apoiada pela Casa Fernando Pessoa, Consulado Geral de Portugal e do Museu de Língua Portuguesa de São Paulo e Centro Cultural Correios no Rio de Janeiro.

A exposição que começou em fevereiro e se estende até 30 de maio de 2012,  e já esteve no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo e no Centro Cultural Correios no Rio de Janeiro, conta com diversas seções: biografia do autor, seus heterônimos e espaço para os leitores manusearem seus livros. Há intensa interatividade com a poesia. Painéis, fotos, obras de arte e poemas associados à tecnologia permitem que o visitante (e leitor) interaja com os textos poéticos de Fernando Pessoa.

Estão lá os heterônimos mais conhecidos: Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Cada um representado com suas biografias e estilos de escrita. Há cabines onde se podem escolher poemas a serem lidos e ouvidos.

E pode-se perceber que a proposta da exposição atinge seu objetivo: compartilhar Fernando Pessoa, possibilitar que os leitores “sintam” os poemas.

Minha predileção por Bernardo Soares fez-me ficar algum tempo a mais no estande dedicado ao heterônimo autor do Livro do Desassossego.

E é com Bernardo Soares que termino meu texto de hoje, é do Fragmento 1, apenas um trecho: “Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.”

Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Atualmente está em Lisboa, dizem que estudando.

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19
mar
12

Recado de Lisboa, por Gabriela Silva: Florbela, o filme

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Florbela, o filme, por Gabriela Silva

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Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Florbela Espanca

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Então não posso me furtar, estando em Lisboa, de não pensar em Florbela Espanca (1894- 1930). Ainda que seus poemas não definam ruas com exatidão, nem descrevam épocas de Portugal, percebe-se a melancolia que habita o espírito português e que ecoa nos sonetos de Florbela.  Lembro do primeiro poema dela que li,  bem conhecido: “Eu”. E me identifiquei tanto, era como se corressem nas minhas veias, as palavras, como soro, rápidas. Cada verso do soneto parecia dizer o que eu sentia. Desse momento em diante não consegui mais deixar de ler a poetisa portuguesa.

E fiquei muito feliz ao saber da produção “Florbela” de Vicente Alves do Ó. O filme trata de uma parte exata da vida de Florbela Espanca: o casamento com Mário Lage e a morte do irmão Apeles.  Um filme esteticamente belo: a  década de 1920 retratada em seus modismos e cores, dando a impressão de vida que acreditamos que o cinema deve nos proporcionar.

A vida de Florbela, recortada para o filme, tinha muito mais dor do que alguns de seus poemas: a complicada questão de sua filiação, a ausência da mãe, dois casamentos fracassados e dois abortos.  Todos esses acontecimentos  lhe concederam a tristeza que até hoje é lida e percebida em seus versos.

Essa tristeza, essa permanente busca por alguém ou por um sentimento a ser preenchido associada à genialidade da poetisa é colocado de maneira excepcional no filme.  Alentejana de nascimento, Florbela era uma figura que frequentava os círculos literários de Lisboa, cafés, livrarias e era conhecida por sua simpatia e alegria, muito diferente do eu lírico identificado em seus sonetos.

Produzido pela Ukbar Filmes em 2012, escrito e dirigido por Vicente Alves do Ó e com 119 minutos de duração, Florbela é uma obra completamente portuguesa. Dalila Carmo interpreta Florbela, junto a um elenco de bons atores também portugueses.

O filme se encerra com Florbela escrevendo o livro que dedicou ao irmão falecido. Ela morreria três anos após o irmão, aos 36 anos. Ela que queria amar e amar somente.

Assisti ao filme no El Corte Inglés, num sábado, em que a tarde começara com chuva. Saí do cinema muda. Em casa peguei minha antologia da Florbela e precisei ler, ler…para poder encerrar e começar os sentimentos que me haviam tomado: melancolia e alegria.

Espero que o filme chegue ao Brasil, espero que ele chegue a Porto Alegre. Eu sei de muitos amigos e amigas que terão a mesma sensação que eu.

Sobre o filme:  http://www.florbela.pt/index.html

Sobre Florbela Espanca: http://www.vidaslusofonas.pt/florbela_espanca.htm

Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Atualmente está em Lisboa, dizem que estudando.

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12
mar
12

Recado de Lisboa, por Gabriela Silva: De fado em fado se conhece Lisboa

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De fado em fado se conhece Lisboa, por Gabriela Silva

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Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz

Amália Rodrigues

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Permitam-me que faça uma pequena apresentação: sou Gabriela Silva, estudiosa de Teoria da Literatura, especificamente personagem e construção desse elemento nas narrativas. E foram sses estudos que me trouxeram cá em Lisboa. E nem só de estudo vive a pessoa não é mesmo? Tiro alguns dias para conhecer Lisboa, sentir a cidade, seus lugares, seus aromas, cores e sons. Uma de minhas saídas prediletas em Lisboa é ir a uma casa de fado.  A música símbolo de Portugal é mesmo muito bonita. Nela reside um sentimento que se mostra a cada nota.

A fadista mais conhecida em Portugal é Amália Rodrigues. Se você caminhar tranquilamente por Lisboa, parece que pode ouvir a voz de Amália cantando fados divinos. E eu que achei que resistiria a isso…pego-me a cantar fados e com um sorriso!

Amália Rodrigues é unanimidade entre os portugueses. Falecida em 1999, a cantora tem seu túmulo cercado de flores no Panteão português. Sua música ecoa pelos corredores e salas do local. Sente-se sua forte presença no espirito lusitano. E nas casas e shows de fado, sempre sua voz é referenciada.

A história do fado, marcada por Amália, tem seu lugar no Museu do Fado, que fica Largo do Chafariz de Dentro, número 1. Lá se pode ver tudo que se relaciona ao fado, em diversas épocas: quadros, partituras, cartazes antigos de shows e outros tantos objetos de arte e música. Há visitas cantadas, isso mesmo, não são guiadas, são cantadas! E agora em março, haverá a exposição sobre Amália, começa no dia 21 desse mês e vai até o final de maio.

Considerado patrimônio da humanidade, o fado é uma composição muito interessante. Ele nasceu na Lisboa dos meados de 1800 e como uma música popular, da rua, dos lugares frequentados por marinheiros e prostitutas. Aos poucos o fado foi deixando de ser a música das margens e foi sendo considerado mais erudito. O crescimento do rádio também contribuiu para a difusão do fado. Mas é nos anos 50 dos anos de 1900 que o fado encontra Amália Rodrigues e a partir de então, poetas e eruditos passam a escrever letras para as canções.

Hoje, outros cantores e cantoras de fado constroem sua história. Estando aqui, fui ao show de Mísia, com uma voz inebriante e uma figura que nos faz fixar o olhar o tempo todo no palco. Suas músicas são poemas de diversos autores. E nos tocam a alma.

Fui também ao Clube de Fado, localizado na Alfama, um dos bairros boêmios de Lisboa. É o lugar mais conhecido do gênero. Tocam fadistas a noite toda, revezam-se e fazem as palmas do público ecoarem pelo recinto. E com os temas de amor e de Lisboa. De fado em fado se conhece Lisboa, se conhece uma parte do espírito português.

E não é fábula que o fado nos inebria…ele está aqui em todos os lugares, a todas as horas. Basta você chegar a Lisboa.

Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Atualmente está em Lisboa, dizem que estudando.

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25
out
11

Recado de Lisboa, por Reginaldo Pujol Filho: Brasileiro gosta de chope, afirmam pesquisas

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Brasileiro gosta de chope, afirmam pesquisas – por Reginaldo Pujol Filho

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Livro é caro no Brasil.

Peraí, guenta um pouquinho. Se acha que esse lugar comum aí em cima é o indício de um texto todo ele lugar comum, de novo reclamando do preço do livro, de novo dizendo que assim não dá, segura só mais um pouquinho, deixa eu terminar esse primeiro raciocínio. Assim ó: Livro é caro no Brasil, vírgula, tô começando a achar que isso é um mito.

Olha, talvez dê pra dizer, vá lá, que livro custe muito em língua portuguesa. Sei lá eu porque haveria esse fenômeno, quem sabe porque a gente gaste mais tinta e papel pra dizer em português as mesmas coisas que se diz por menos em inglês? Teoria furada, e aqueles palavrões em alemão que vão colando um substantivo no outro? Isso sim deve gastar papel.

Tá, mas não vamos gastar palavras aqui. O negócio é o seguinte: tô aqui em Portugal e, já que livro é caro no Brasil, como dizia o outro, fui pras livrarias daqui. E, epa: os livros tão emparelhando no preço. Quando não custando mais caro. Por exemplo, A máquina de fazer espanhóis do Valter Hugo Mãe sai aqui 15,30 a 17 euros, o que dá de 39 a 45 pilas brasileiros. Quanto custa no Brasil? Eu pesquisei: 39 mangos. Em algumas livrarias, até 36. E, detalhe, aqui o A máquina vem numa edição padrão da Alfaguara; no Brasil, em uma edição com o padrão da Cosac Naify, todo tranchã e bonitoso, que tinha tudo pra ser mais cara. Tem mais: fui atrás de um livro qualquer do Lobo Antunes (como se ele tivesse livro qualquer), o Conhecimento do inferno. Em terras portugas, dezessete com noventa. Euros. Converte e desembolsa 45,70 reais. Mas se quiser comprar aí no Brasil, já dei uma pesquisadinha pra ti: leva por 41,90. Tá vendo? Não? Então pega O ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Na Livraria do Manuel aqui em Lisboa vai de 13,60 a 16,90 euros (R$ 36 a 43). Na livraria do Alemão aí no Brasil, te digo: vai de R$36 a 46. Dei uma olhada ainda em exemplos aleatórios, como lançamentos de jovens poetas e prosadores em editoras independentes. Sai uns 10, 11 euros. Uns 25, 30 reais. Meu livro, só pra constar (sou jovem, tenho 31 anos, e publico pela Não Editora), sai R$ 28,00. Pra resumir: se compra livro por aqui, no geral, tirando sebo e promoção de pai pra filho, de 10 a 25 euros. Ou seja, de 25,50 até mais de 60 reais.

Quanto saiu o último livro comprado aí no Brasil?

Pois é, essa pesquisa de preço, essa minha estatística de boteco e seu resultado, isso é preocupante. Não, não é preocupante só pra mim que vim pra cá com a ideia de derrubar o avião na volta com excesso de bagagem em livros.

É preocupante por causa do mito aquele do livro caro no Brasil. É que se cai esse mito do preço do livro, essa peça caindo, derruba a próxima do dominó: aquela que diz que brasileiro não lê, porque livro é muito caro no Brasil.

Ou a gente reforma a frase pra “livro custa caro no Brasil, em Portugal idem (e na Argentina também não é essa barbada)” ou vamos ter que dizer que brasileiro não gosta mesmo de ler. Sem frescura, sem sofrimento. Como especulou um dia o meu amigo Polydoro, a gente vive num país cuja cultura se formou através do rádio, depois na TV, e antes disso não existia nem noção de cultura nacional, nem população alfabetizada pra criar o gosto do brasileiro pelo livro. Quer dizer, quando a maioria dos brasileiros teve acesso a bens e cultura, já existia plimplim no país. Pro bem e pro mal somos um país eletrônico, onde o livro talvez não seja tão caro assim. O brasileiro é que não gosta de ler.

Gosta mesmo é de chope.

Que chope é bem mais caro aí no Brasil do que aqui em Portugal. Tomo chope e cerveja aqui por dois e cinquenta, três reais, fácil. Chope é caro no Brasil. E nem por isso sai matéria todo mês afirmando que o chope não emplaca no Brasil por causa do preço, que isso é um problema nacional, que precisamos cuidar pra essa indústria não quebrar. Emplaca sim. Brasileiro gosta de chope.

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Reginaldo Pujol Filho, escritor portoalegrense, é um dos primeiros autores da Não Editora. Tem dois livros de contos publicados, Azar do Personagem e Quero ser Reginaldo Pujol Filho e é o organizador da antologia Desacordo ortográfico. Publicou contos em antologias como 101 Que Contam e Histórias de Quinta (organizadas por Charles Kiefer), 24 Letras Por Segundo (org. Rodrigo Rosp), no Janelas (projeto de cartazes literários dele com o amigo e poeta Everton Behenck) e no youtube. Mantem o blog Por causa dos elefantes.

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