Posts Tagged ‘Relendo Drummond

12
jun
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Sidnei Schneider, relendo Drummond

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Relendo Drummond

Convidados pela Palavraria a escrever sobre Carlos Drummond de Andrade, escritores amigos da casa ensaiam dizeres sobre a obra do escritor mineiro. Sidnei Schneider apresenta sua releitura.

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Acessando Drummond, por Sidnei Schneider

Os poetas brasileiros que primeiro me interessaram, pela ordem, foram Ferreira Gullar, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Cheguei a Carlos Drummond de Andrade meio de atravessado, pelo livro Boitempo I (1968), de importância lateral, embora tenha retido poemas como “Negra” e “Copo d’água no sereno”, e gostasse de “O homem; as viagens”, de As impurezas do branco (1973), presente num livro escolar. O poeta mineiro, àquele leitor iniciante, parecia verborrágico e com predileção por temas nostálgicos, diante da secura e da contemporaneidade de Gullar e Cabral.

Hoje, quando penso em Drummond, volto aos livros que inicialmente me seduziram, e marcaram. Primeiro, A rosa do povo (1945), com aquela quantidade impressionante de poemas estelares, um fenômeno da poesia brasileira: “Procura da poesia”, “A flor e a náusea”, “Carrego comigo”, “Nosso tempo”, “Áporo”; os narrativos “Caso do vestido” e “Morte do leiteiro”; a série que trata do terrível momento pelo qual atravessava o mundo de então, formada por “Carta a Stalingrado”, “Telegrama de Moscou”, “Visão 1944”, “Com o russo em Berlim”, revelando também uma espetacular confiança no futuro desde “Mas viveremos”, que deseja-e-prevê um “avião sem bombas entre Natal e China/ petróleo, flores, crianças estudando,/ beijo de moça, trigo e sol nascendo”. Depois, Claro enigma (1951), com o muitas vezes relido “Máquina do mundo”, que por si vale um livro completo, e o agridoce “Amar”, derivado provavelmente de “Amo, amas”, do modernista nicaraguense Rubén Darío. Que essa minha predileção de leitor iniciante tenha coincidido com a posição de boa parte da crítica, foi uma surpresa que só mais tarde eu constataria. Anterior a estes, Sentimento do mundo (1940) introduziria o ponto de vista que redundaria em A rosa do povo, através de poemas como “Mãos dadas” e “Mundo grande”. Drummond, evidentemente, tem muitíssimo mais do que comporta esse pequeno texto.

Recordo a crítica de João Cabral de Melo Neto, talvez ainda parte de um processo de desvencilhamento daquele que foi seu grande mestre, dizendo que Drummond se excedia e publicava demais. Impossível discordar completamente, para quem leu os livros Boitempo I, II e III (1968, 1973 e 1979), repletos de recordações que já apareciam de algum modo no inicial Alguma poesia (1930). O fato é que Drummond sentiu necessidade de revisitar o passado, não se lhe nega esse direito, um poeta escreve sobre o que bem entender, mas a pergunta, se realmente deveria publicar toda essa investida, fica suspensa igual a espada de Dâmocles. Claro, podemos ler só o que mais apreciamos; acontece que essas questões preocupam os poetas, pois eles se colocam o problema de o que publicar continuamente.

Drummond, com sua poesia de faca de ponta (diferente da de Cabral, que parece afiar sua só lâmina na pedra enquanto se ausenta do poema, mas não de sua planejada eficácia), vai escarafunchando as nódoas da sociedade e da civilização, mas antes escarafuncha as que carrega, como se, fazendo-o, colocasse o seu “eu poético” no lugar de todos. Embora tenha escrito excelentes poemas nas mais diversas formas, tradicionais e inovadoras, há nele uma forte dicção logopeica, afeita a extrair a credulidade das estratégias que encobrem os fatos e as relações humanas, sem se preocupar centralmente, nessas ocasiões, em reproduzir uma musiquinha ou mesmo dar a ver imagens com o seu poema. É essa escrita fria, perfurante, não-melódica no sentido tradicional, crítica e autocrítica ao extremo que melhor o caracteriza: vê-se logo quando o poema é dele. Escrever poesia numa língua que produziu poetas como Drummond é uma dádiva e uma responsabilidade. Sua obra, sim, temos que disseminar por aqui e exportar cada vez mais, para que os raimundos de todo o lugar o possam ler.

09-05-2012

Sidnei Schneider é poeta, tradutor e contista. Autor dos livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999) e tradutor de Versos Singelos/José Martí (SBS, 1997). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional/MinC, 2001), Antologia do Sul (Assembléia Legislativa, 2001), O Melhor da Festa 1 e 2 (Nova Roma, 2009; Casa Verde, 2010) e de outras dez publicações. 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS, 2003 e 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM, 1995, de um total de treze premiações. Publicou artigos, poemas, contos e traduções de poesia em jornais e revistas. Participa do projeto ArteSesc e é membro da Associação Gaúcha de Escritores.

04
jun
12

Ronald Augusto, Relendo Drummond

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Relendo Drummond

Convidados pela Palavraria a escrever sobre Carlos Drummond de Andrade, escritores amigos da casa ensaiam dizeres sobre a obra do escritor mineiro. O poeta e crítico Ronald Augusto manda seu recado.

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Depois de Manuel Bandeira, sem dúvida, o melhor, por Ronald Augusto

Carlos Drummond de Andrade é um grande poeta, inclusive porque, quando foi preciso, soube reconhecer que Manuel Bandeira lhe era superior. Alguns objetarão dizendo que o itabirano afirma isso no espaço ambíguo de um poema, lugar onde se anulam a verdade e a mentira, e que, portanto, não se pode levá-lo a sério nesse gesto de desprendimento em que concede o primeiro posto ao poeta recifense. Mas como, do meu ponto de vista, a insuficiência do mundo exige a colaboração da arte para torná-lo plausível e tolerável, sou obrigado a discordar e insistir que Drummond não dissimulava, pois, neste momento moderno/pós-moderno, onde tudo se volta equívoco, a começar pala linguagem referencial (que serve de legenda ao mundo), me parece que o poema, paradoxalmente, acaba por se constituir em um discurso forte o bastante para justificar nossas mais caras ilusões.

Por outro lado, se me engano, isto é, se o que afirma o poema de Drummond (no tocante a superioridade de Bandeira) não pode ser levado a sério, então o crédito que se dá aos seus assuntos elevados e graves: o vasto mundo, o medo, a náusea, a memória, a pedra prosaica e dantesca, a bomba, enfim, todos os seus movimentos em direção à tematização do fracasso e da beleza do “humano” não merecem, por conseguinte, nossa devota confiança.

Talvez seja esse o problema: lê-se mais os assuntos e os temas do que o poema drummondiano. A verdade é essa: num poema bom os acordes vão para um lado e as palavras para o outro. Um poema bom se plasma sobre uma consciência de linguagem que não teme a disjunção entre nome e coisa, aliás, essa coincidência não existe. Algo similar acontece com o cinema, a maioria se interessa pela fábula (a história) e se mostra desatenta à narrativa (como se conta a história), à estética fílmica (planos, angulações, movimentos de câmera), ou seja, não se dá atenção àquilo que singulariza tal linguagem. Prefiro ser um intérprete (em sentido musical) da música de Drummond a me solidarizar com os seus ombros fatigados.

A suposta humildade de Bandeira também não é a música de Bandeira. A “humildade” é a fábula. Joaquim Pedro de Andrade em seu curtametragem O poeta do Castelo, filmou muito bem esse personagem da poesia de Manuel Bandeira. Sua música não se esgota nessa virtude-clichê.

Muito bem, mas eu estou aqui, a convite dos meus amigos da Palavraria, para falar de Drummond. E acho que já falei o suficiente. Grande Drummond, o segundo melhor poeta de nós todos.

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Ronald Augusto Poeta, músico, e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) e No Assoalho Duro (2007). Despacha no blog www.poesia-pau.blogspot.com e é diretor-associado do website WWW.sibila.com.br

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10
mar
12

Jaime Medeiros Júnior, Relendo Drummond

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Relendo Drummond

Convidados pela Palavraria a escrever sobre Carlos Drummond de Andrade, escritores amigos da casa ensaiam dizeres sobre a obra do escritor mineiro. O poeta Jaime Medeiros Júnior, nosso cronista inaugural, abre a série.

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Mínima animália drummondiana, por Jaime Medeiros Júnior

Me coube escrever sobre Drummond. Me solicitaram. Aceitei, apesar de guardar um certo desconforto. Como cuidar de honrar a grandeza de Carlos sem se descuidar das medidas? Só mais recentemente consegui colocar Drummond em seu devido lugar [li Claro enigma].

Para não nos impor tarefa para além da que cabe em minha tresleitura do poeta, fiz um mínimo recorte, com a intenção de talvez topar com algo do DNA do autor. Por outro lado, correndo o risco de não conseguir enxergar a floresta em consequência de ter os olhos postos em uma única árvore.

Na Rosa do povo [1942], livro ainda tomado de um ativismo algo programático, vamos encontrar o primeiro daqueles grandes animais que compõem o par com que Drummond resolveu nos agraciar, pondo-os poemas. Nos diz: Fabrico um elefante/ de meus poucos recursos./ Um tanto de madeira/ tirado a velhos móveis/ talvez lhe dê apoio./ E o encho de algodão, de paina, de doçura. Animal feito da faina do poeta que pesquisa, que procura descobrir a partir de velhas matérias algo de novo no mundo ou de um renovo do mundo. Eis sua riqueza, feita de tão poucos re-cursos [possibilidade de voltar e dar novo curso as coisas] pondo algo de paina no enchimento, de doçura que garantam algo de delicadeza nos entrechoques com a vida. Enorme elefante que cuida de não pisar sobre nada vivo, apesar de se conduzir algo desajeitadamente. Esse amoroso fabrico que o poeta nos entrega ainda era um engenho, um mecanismo que se construíra da esperança diante de um mundo torpe. No fim do dia pouco sobra do seu elefante. Mas a essa altura Drummond ainda conseguirá dizer: Amanhã recomeço.

Nove anos decorrem. Vargas e Prestes se abraçam. Drummond concentra seu Áporo e faz seu Claro enigma [1951]. E nos oferta o segundo de seus grandes animais, embora menor e bem mais ao metro de um itabirano, o boi de O boi vê os homens. Carlos já nos diz nas primeiras três estrofes de Dissolução, primeiro poema de Claro enigma: Escurece, e não me seduz/ tatear sequer uma lâmpada./ Pois que aprouve ao dia findar,/aceito a noite/ E com ela aceito que brote/ uma ordem outra de seres/ e coisas não figuradas./ Braços cruzados./ Vazio de quanto amávamos,/ mais vasto é o céu. Povoações/ surgem do vácuo./ Habito alguma?/  Parece que o poeta aqui não está mais a combinar com aquelas anteriores mui grandes esperanças postas sobre o fazer. O seu boi toma um modo mais contemplativo e compassivo de falar das coisas: Tão delicados [mais que um arbusto] e correm/ e correm de um para outro lado, sempre esquecidos/ de alguma coisa/ … parecem não enxergar o que é visível/ e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade. Drummond aceita a noite que percebe não só no mundo, mas também em si como coisa no mundo, de onde brota uma outra ordem de seres e coisas não figurados, que por fim obriga o boi a observar quão faltos de montanha são os homens em faina. Boi robusto firmemente posto sobre sua memória, e que se obriga, para dar bons tratos a digestão, a ruminar e ruminar e ruminar sua verdade.

E agora, em concordância com meu amigo Ademir Furtado, que nos explica que um rico parece não ser o mesmo que um pobre endinheirado. Aqui, entendo que Drummond parece querer ensinar o quão ricos de renovos podemos ser com tão poucos e simples re-cursos.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira e escreve quinzenalmente neste blog na coluna A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior.

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