Posts Tagged ‘Roberto Medina

02
set
16

Vai rolar na Palavraria, neste sábado, 3, Lançamento do livro 2038, de Max Telesca. Bate-papo do autor com Roberto Medina.

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ESTA SEMANA NA PALAVRARIA b

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03, sábado, 17h: Lançamento do livro 2038, de Max Telesca. Bate-papo do autor com Roberto Medina.

2038
Em 2038 “tudo é normal, pois todo mundo faz”. Este é o princípio fundamental de um país que resolveu de maneira bastante original o problema da corrupção: legalizando-a. Este mesmo país, também de maneira inusitada, solucionou o problema da violência urbana regularizando os esquadrões da morte ao considerar “não-pessoas” os latrocinas, homicidas e os traficantes irregulares de drogas, aqueles que não distribuem de forma regular o “arrego”, propina policial também liberada em Lisarb. Verificando a impossibilidade de vencer o problema dos grandes desvios éticos, os líderes de Lisarb decidiram que o tema da corrupção deveria ser superado de vez e incorporado aos costumes a partir da Doutrina da Aceitação.

Max Telesca nasceu em Porto Alegre em 1974. Passou a infância no interior, na região do Pampa gaúcho, em Canguçu. Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Pelotas em 1997 e logo depois foi para Brasília, onde iniciou sua carreira de advogado. Em sua trajetória, destaca-se a atuação política na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Exerceu cargos relevantes, como a Presidência do Tribunal de Ética, da Comissão de Direitos Sociais e de Diretor da OAB/DF. Criou a Telesca e Advogado Associados e é representante em Brasília da Procuradoria-geral do Município de Porto Alegre. Fundou o Instituto de Popularização do Direito, no qual é secretário-executivo. Exerce, ainda, a função de vice-presidente do Sindicato dos Advogados do Distrito Federal. É especialista em tribunais superiores, processo civil e direito penal. Atuou nas mais importantes investigações criminais do país nos últimos anos, destacando-se a defesa que produziu na AP 470-Mensalão, quando absolveu sua cliente por unanimidade no Supremo Tribunal Federal. É casado pela segunda vez e pai de dois filhos. Na área literária, 2038 é seu romance inicial, embora tenha escrito Mortes Modernas, ainda não publicado. Foi indicado ao Prêmio Habitasul Correio do Povo Revelação Literária de 2001 da Feira do Livro de Porto Alegre pelo conto “Verão Grego”.

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Palavraria - livros a.

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Anúncios
02
mar
12

Vem aí, na Palavraria: Escrita criativa – elementos de formação, oficina com Roberto Medina

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Cursos e Oficinas na Palavraria

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Escrita criativa- elementos de formação

Com Roberto Medina

 A partir de 10 de março, aos sábados, das 14 às 16h


Em especial, a escrita criativa demarca seu território por meio de poemas, crônicas, contos, novelas, romances e peças de teatro, por exemplo. Dessa forma, podemos aguçar a curiosidade acerca de questionamentos relativos a talento, genialidade, poder criativo, técnicas de escrita e desvendamento crucial da leitura.
O homem necessita deslindar e simbolizar seus mundos e representá-los na Arte, tendo a língua portuguesa como ponto de partida: desafio e domínio. Tanto a leitura como a escrita são formas de descobertas e de compreensão sobre o ser humano e as relações sociais entre eles: há uma potencialização em ambas.

HORÁRIO: Das 14h às 16h (sábados)

INVESTIMENTO: 5  x de R$ 150,00 (março, abril, maio, junho e julho)

PÚBLICO-ALVO: escritores, poetas, professores, jornalistas, estudantes e aqueles que amam a literatura e queiram estimular sua criatividade através da leitura e da escrita.

NÚMERO DE ALUNOS POR TURMA: De 10 a 15 alunos

Objetivos:

– Estudar diferentes autores nacionais e internacionais de varias épocas;
– Descobrir chaves para melhor compreender e interpretar textos literários;
– Experenciar a maior gama possível de gêneros literários;
– Aprofundar o domínio da língua portuguesa para depois transgredi-la;
– Desenvolver técnicas capazes de expressar a escrita criativa enquanto “voz autoral”;
– Instigar a ampliação do arcabouço cultural do aprendiz para correlacioná-lo a aspectos interdisciplinares e intertextuais existentes no universo da escrita: cinema, artes plásticas, teatro, dança, por exemplo;
– Discutir o papel imposto e pretendido por autores da América Latina: periferia e centro da produção escrita.

Ementa:
– Leitura de textos literários de gêneros variados. Análise e interpretação dos textos. Características principais de cada gênero. Atividades de escrita criativa. Produção escrita de textos a partir das leituras realizadas.

Programa:
–  O processo criativo na teoria e na prática;
–  Narração, descrição e texto poético;
–  A poesia, o conto e a crônica: características estruturais;
–  Narrador e eu-lírico;
–  Personagens e suas descrições;
–  Cenário: o espaço da narrativa;
–  O tempo na narração;
–  O romance;
–  Leitura e escrita de textos diversos;

Bibliografia básica:
ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Lisboa, Edições 70, 1982
ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Ars Poética, 1993.
CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: Editora Nacional, 1976.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Lucerna, 2009.
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 3ªed. São Paulo: Cultrix, s.d.
CANDIDO, Antonio; ROSENFELD, A; PRADO, Décio de A.; GOMES, Paulo E. S. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1968.
CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva, 1993.
D’ONÓFRIO, Salvatore. Teoria do texto. São Paulo: Ática, 1999
__________. Teoria do texto. São Paulo: Ática.v.2.2000.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura. São Paulo: Martins Fontes, s.d.
GOLDSTEIN, Norma. (1989). Versos, sons, ritmos. 5 a ed. São Paulo: Ática (Col. Princípios, v 26).
GOTLIB, N. B. Teoria do conto. 5 ed. São Paulo: Ática, 1990.
GARCIA, M. Othon. Comunicação em prosa Moderna. 25ª. Ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006.
GUIMARÃES, Elisa. A articulação do texto. São Paulo: Ática, 1990.
HAMBURGUER, Kate. A lógica da criação literária. São Paulo, Perspectiva, 1975.
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
LIMA, Luís C. Teoria da Literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Francisco Alves.v. 1 e 2. 2002
LODGE, David. A arte da ficção. Trad. Guilherme da Silva Braga. Porto Alegre: L&PM, 2009.
LLOSA, Mario Vargas. Cartas a um jovem escritor. Trad. Regina Lyra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.
POUND, Ezra (2006). ABC da literatura . 11ª ed. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. Org. e apresent. Augusto de Campos. S. Paulo: Cultrix, pp 2350.
REIS, Carlos. O conhecimento da literatura. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
SAMUEL, Rogel. Manual de teoria literária. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1985
SANT ANNA, Afonso Romano de. Paródia, paráfrase & Cia. Série Princípios. São Paulo: Ática, 1985.
SILVA, Vitor Manuel de Aguiar. Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina, 1988
SOUZA, Roberto Alcízelo Quelha de. Iniciação aos estudos literários: objetos, disciplinas, instrumentos. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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Roberto Medina é escritor gaúcho, tradutor e professor de literatura. Lecionou, no Rio Grande do Sul e no Paraná, Retórica e Oratória no SENAC. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições. Tem contos publicados nas antologias brevíssimos101 que contam (org. de Charles Kiefer), e em revistas eletrônicas. É autor do premiado pedrarias, publicado pela Redes Editora. Também escreveu os textos dramáticos Você precisa saber (Cia. Amadeus), Silêncio (Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e Fernando em Pessoa (Cia G3).

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15
jan
12

Dicas de leitura, por Roberto Medina: Orhan Pamuk

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Orhan Pamuk: três livros – uma poética para o romance e para a leitura, por Roberto Medina

Há diferentes vias para adentrar no universo criativo de um escritor: os livros escritos, as leituras e as entrevistas.

Melhor ainda quando temos os três modos conjugados. Assim, aconteceu perceber a gênese dos romances de Orhan Pamuk – incansável leitor… e dos bons!

“A partir dos 22 anos, quando comecei a escrever romances, nunca fui capaz de separar minha vida e a dos meus romances. Acho que os livros que ainda escreverei serão pensados mais como entretenimento e mais importantes do que minha própria vida. Com isso, quero dizer que a pessoa deve olhar em frente para o momento de sua morte, que se deve resignar. Apesar disso, ainda parece que há muito tempo para usufruir.”

De sua terra turca, bebeu todos os autores do ocidente e refez o trajeto para casa: o oriente.

Istambul é o caminho percorrido e reconhecido, dos conflitos internos, das pessoas e suas vidas latentes, das suas interrogações políticas, bem como as existências, o autor de “Neve” aguçou todos os seus dotes artísticos, sensibilizando-se pelas artes plásticas até os 22 anos, momento em que se defronta com a necessidade de escrever, optando a partir daí pela escrita.

Antes de escrever os romances que pululam pelos quatro cantos do mundo, Pamuk iniciou-se na leitura. Na verdade, todo escritor e antes de tudo um leitor crítico, acredito que um leitor ideal. Aquele que observa a arquitetura dos clássicos, olha de soslaio seus contemporâneos.

Um escritor faz o trajeto leitor como qualquer outro ser normal: a primeira leitura é por puro prazer, depois virão as outras cirúrgicas, potentes, investigativas.

A leitura de desmontagem das belezas aparentes. O leitor é que sinta, disse Pessoa.

Com O romancista ingênuo e sentimental, Pamuk expõe um pensamento claro sobre os caminhos e descaminhos de sua formação, assim como os autores que lhe marcaram desde sempre, como Tolstói, Proust, Mann, Woolf entres outros de igual calibre. Para ele, vale o retrato da natureza humana: “o centro de um romance é uma profunda opinião ou insight sobre a vida, um ponto de mistério, real ou imaginado, profundamente entranhado.” Em momento algum, descura do estudo técnico e teórico que envolve a arte literária, pois discute as questões arguidas por E. M. Forster (Aspectos do Romance) e por Lukcás (A teoria do Romance): pontos concordantes e discordantes. Percebe-se claramente que se houver uma musa, a dele é muda: trabalha com esforço e afinco. Planeja seus romances, estuda planos, diálogos, objetos, palavras. Pretende-se como um escritor desafiador.

“Quando olho a minha vida passada da idade que estou, vejo uma pessoa que tem trabalhado longas horas na mesa com alegria e miséria. Escrevo meus livros com carinho, paciência e boas intenções, crendo em cada um deles. Sucesso, fama, alegria profissional… coisas que nunca vieram para mim com facilidade.”

Quando Orhan Pamuk, na cerimônia de entrega do prêmio Nobel de Literatura, em 2006, discursa, reforça sua trajetória de leitura, a experiência veio dos recantos da biblioteca de seu pai, como na telemaquia, o resgate pela memória transformada em texto não alivia fantasmas, mas os acomoda.

O caminho de formação está no livro A maleta de meu pai. Leio na figura do pai outros pais e mães – do porte literário, obviamente.

“Para mim, um dia bom é como qualquer outro, quando escrevo uma página bem. Exceto pelas horas que gasto escrevendo, a vida parece ser falha, deficiente e sem sentido.”

“Escrevo livros que eu mesmo gostaria de ler. E às vezes me apego a isso para acreditar que o mundo compartilha dos meus sentimentos.”

Ampliando suas formas de expressão e pensar, Pamuk reúne ensaios e conto na obra Outras cores,neste apanhado vemos um autor que mantém o propósito de dialogar com o leitor de maneira singular, descartando trejeitos acadêmicos, apesar de ser professor na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Fornece-nos um panorama de reminiscências íntimas, entrevista reveladora do pensamento percorrido na concepção de um romance.

Em uma entrevista para uma revista brasileira, Orahn Pamuk fala sobre o papel da literatura, respondendo que é “Comunicação. Olhar para o coração humano. Ver humanidade em todas as culturas, em todas as situações, em todas as classes, cores, raças, sexos. Ver a vida claramente. Para me perguntar a mim mesmo coisas como “por que vivemos, quais são nossos valores na vida, quais são os valores que devemos respeitar, que tipo de vida devemos viver”. Questões que as pessoas esperam da religião, da filosofia, eu espero de romances, de literatura.”

Lança luzes sobre a condição de escritor, “Ser um escritor é como ser um corredor de maratonas. É preciso ter força. A força de um romancista não é apenas sua criatividade, mas sua persistência e determinação. Há dias bons e dias ruins, você precisa seguir como um trem.”

Secção especial sobre a literatura brasileira, Pamuk ressalta: “Eu vinha de um país em que não havia traduções e fiquei com inveja. Publicaram também Machado de Assis nos Estados Unidos. Ele é muito criativo, vanguardista e pós-moderno. Meu editor inglês também me apresentou a Clarice Lispector. Ele me deu seus livros. Essa foi minha iniciação. Jorge Amado, com seus livros realistas, também é popular na Turquia.”

Pequena biografia:

Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Principal romancista turco da atualidade, já foi traduzido para mais de quarenta idiomas e ganhou prêmio Nobel de literatura em 2006. Publicou pela Companhia das Letras O castelo branco, Istambul, O livro negro, A maleta do meu pai, Meu nome é vermelho, O museu da inocência, Neve, O romancista ingênuo e sentimental e Outras cores.
 

Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC – Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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Os livros comentados nesta coluna podem ser adquiridos na Palavraria. Faça o seu pedido:

Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim
90420-111 – Porto Alegre – RS
Telefone 51 3268 4260
palavraria@palavraria.com.br


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02
jan
12

Vem aí, a partir de 07/01, na Palavraria: Escrita criativa: uma introdução para novos autores, oficina com Roberto Medina

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Cursos e Oficinas na Palavraria

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Escrita criativa: uma introdução para novos autores

Oficina com Roberto Medina

 

Dias 7, 14, 21 e 28 de janeiro de 2012
sábados, das 14h às 17h

 

Investimento:R$ 200,00

Ementa:

Fundamentos e discussão de teoria literária;
– Estímulo à criação literária;
– Leituras orientadas dos gêneros em prosa e poesia;
– Desenvolvimento da escrita através de exercícios práticos; e
– Encorajamento da expressão pessoal pela palavra escrita.

Público-alvo: Estudantes, professores, jornalistas e amantes da palavra literária

Professor

Professor Roberto Medina – Escritor, tradutor, consultor e editor literário, mestrando em Autoria e Fruição, sob orientação da Dra. Valéria Brisolara. Autor de Pedrarias, várias peças teatrais, participante em diversas antologias. Cronista no site https://palavraria.wordpress.com/

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Informações e inscrições na Palavraria: 51 3268 4260
Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim – Porto Alegre
De segunda a sábado, das 11 às 21h

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08
nov
11

Um pouco mais do mesmo – A crônica de Roberto Medina

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Crianças: caso sério de poesia, por Roberto Medina

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E não é que Drummond tinha razão? Lembra da história do filho de Dona Coló? Aquele que via dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas?  Ou o dia em que as borboletas do mundo todo formaram um imenso tapete, querendo levá-lo ao sétimo? Ou o pedaço da lua que caiu cheia de buraquinhos, feito queijo, depois de provar, ele atesta ser de queijo mesmo… Com castigos e reprimendas, o menino persistia nesses desatinos; inconformada, a mãe leva-o ao Doutor Epaminondas, recebendo do médico a resposta de que não havia nada a fazer, o menino era caso sério de poesia.

***

O respeitável público

Era do banheiro que vinha aquela cantoria entusiasmada do pequeno Pedro. Seria ele um Pavarotti de calças curtas aos 5 aninhos? Prossigamos! Pai e mãe, reunidos na sala, preocupam-se com os 60 minutos já gastos de água que escorria ininterruptamente, bem como com o cantor lírico que variava os allegros e piano e pianíssimo e solfejos.

Aberta a porta pelo pai, notou que Pedrinho mantinha-se ainda enrolado na toalha, sem uma gota d´àgua no corpo. Nota também uma traça aos pés do cantor. Em menos de um segundo, o bichinho vira uma massa disforme debaixo do chinelo do pai.

A gritaria e desespero de Pedrinho conduzem a mãe e metade da vizinhança para o recinto. Angustiada, pergunta:

–  O que foi meu, filhinho do céu?

Ele soluça e diz, olhando feio para o pai: –  Eu ´tava cantando pra ela!!!!!!!!!!!!!!!!

E o choro, bom, vocês sabem…

***

Invasão americana

Em Uruguaiana, o pai passeia de carro com o filho e um amiguinho. O filho, que aportara antes na cidade, com peito estufado, explicava ao recém chegado as belezas do local. Indicava lugares e ruas. Sonhava o que não sabia. O pai apenas cuidava o trânsito enquanto o nosso guia improvisado indicava lugares e nomes.

Próximo à entrada do município, por onde passeavam, o filho destaca um local, considerado um santuário. Local, dizia ele, onde cuidam dos bichinhos. Eles chegam doentes: patas quebradas, algum ferimento causado por caçadores… entre os animais: onças, pacas, tatus, jaguares e toda sorte de aves.

Porém, sempre tem um porém, o hospital de bichos havia se tornado muito pequeno e caro. Já não possuíam verbas o bastante para manter o hospital-santuário.

O visitante questiona o guia-mirim:

– É… e por que tá tudo vazio? Tu tá mentindo – desafiou.

Triste, contra-ataca:

– Mentindo nada. É que o OBAMA passou aqui e levou todos  – informou.

***

Terra levada

Quem mora no centro do RS gasta um longo tempo de carro até a praia.

No percurso, os três filhos pequenos pedem aos pais para fazer xixi. Então, estacionam o veículo no acostamento. A estrada, neste ponto, está entre paredões de terra, como salsicha no meio do cachorro-quente.

O mais novo dos filhos agora urina, chora e aponta para os sulcos na terra, lembrança de quando as escavadeiras abriram o caminho.

O choro triste do filho desperta a atenção da família inteira. Ele apontava compulsivamente o buraco no paredão.

–  Que que é, filho? Que houve?

–  Mãeee, ´tão roubando o mundo – disse ressentido.

***

Noite duvidosa

São 3 horas da manhã. Jerson olha para a esposa ao lado na cama, ressonando. Ele se preocupa com o choramingo no meio da madrugada. Choramingo de filho. Eles têm o Racine, 7, e Rael, 5 aninhos.

O choro angustiado  driblava a escuridão e acordava o pai naquela hora.

Firme, de sua cama, pesquisou os filhos:

– Racine?!

Apenas silêncio.

O choro tinha, com certeza, outro dono.

– Rael?!

Veio a resposta lacrimosa:

– Quê, pai?!!!!

– Que houve, filho?

Seguro no socorro da voz paterna, chora de fato, sem travas.

Insiste o pai:

– Que é, menino?

Rael chora mais e desabafa:

– Pai, melancia é com “C” ou com “S”? – aproveita e encomprida as lágrimas.

O pequeno se ressentia na entrega do tema na escola na manhã vindoura.

– É com “C” – ouviu o pequeno.

Depois da certeza, o nó do peito se afrouxou, e Rael sentiu a calma dos anjos do sono na alma: uma leveza boa.

***

Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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25
out
11

Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina

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A danação do escritor, por Roberto Medina

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“Nel mezzo del cammin di nostra vita

mi ritrovai per una selva oscura

chè la diritta via era smarrita” – Dante

              Desde o momento em que a palavra se transformou em arte, os seus artífices ficaram condenados à danação. Felizes os que sonham com uma escrita através da Musa, como seria maravilhoso… O escritor apenas sendo um médium! Aos que já trabalham na área da escrita, sabem que o conto da Carochinha não é bem assim: é necessário ler muito, insistir para digladir com deuses no escuro da criação literária. Ato, por excelência, solitário.

Cada vez que inicio um processo criativo, mantenho-me em estado de alerta. Procuro na cabeça leituras que já se distanciaram de mim ou que se mantêm em suspenso: uma frase, um diálogo,uma reminiscência, uma imagem, um sonho. Mas necessito pesquisar muito, para, depois, esquecer tudo e domar a história pretendida. Não raro, a história me põe para dormir e se assume incólume. As personagens falam pela própria boca, e eu fico com o trabalho da faxina do texto, cortando rabos, anulando parágrafos, acrescentando a melhor forma de dizer ou levando a papelada para a lixeira.

Por exemplo, tive um sonho com a atriz Vera Vieira num cenário pós–hecatombe ou explosão nuclear, com choros horrosos, urdidos numa solidão, angústia e desespero. Percebi claramente uma dor universal: um grito pungente a todos os homens. Ao acordar, havia gostado daquela cena.  Senti aquela mulher perdida em seu próprio inferno… quiçá dantesco, traduzindo a epígrafe deste texto: “ no meio do caminho da vida, nos recebeu uma floresta escura, e não se encontrava a saída”. Notei que ela dialogava com seus fantasmas. O lugar não tem um referencial maior: poderia ser em qualquer tempo. Entendo que há olhos para quem quiser ver. No próprio sonho, veio o título do espetáculo: Você precisa saber. Em nada, eu ficaria aborrecido se o texto viesse junto.

Em algum lugar da cabeça, eu havia um eco de algum texto ancestral. Foi na mosca… Medéia, de Eurípides. No entanto, as vozes da memória não cessavam… havia mais coisas, como Huis clos, de Sartre, entre outros textos: Ionesco, Beckett ou Harold Pinter. Com meus alunos e amigos, faço questão de lembrá-los que, depois dos gregos e latinos, pouco nos resta. Muitas luzes são emitidas do lado de lá: fábula e trama.

Para uma consciência do ato de escrever e criar literariamente, Aristóteles , em A arte poética, assinala que o objeto da poética não é a poesia entendida superficialmente como conjunto das composições em verso, mas sim uma série de propriedades por assim dizer mais sutis e profundas do que o simples revestimento da metrificação, isto é, são constituídos pelo caráter mimético, a verossimilhança, a universalidade e o potencial catártico. Para produzir literatura, não basta sermos alfabetizados. É fundamental leitura e busca e tentativa e desânimo e luta.

No eterno retorno, apóio-me no ombro de Flaubert para a arte literária: o ato de escrever é fruto de um trabalho insistente com a palavra para atingir a perfeição. Não é suficiente imaginação. Há um meio caminho do cérebro até a caneta, finalizando-se no papel.

Uma vez o escritor José Paulo Paes expôs o que o artífice literário sofre e espera como resultado de toda essa condenação infernal, ou seja, para que tudo isso? Ele sinteza assim: “sou o poeta mais importante da minha rua, mesmo porque minha rua é curta.”

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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15
out
11

Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina

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A folha em branco, por Roberto Medina

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O desafio de qualquer escritor é o dia da folha em branco. O que ela solicita de ti, artífice da palavra. Participo de rodadas sobre o processo de criação… o barraco cai e não se chega à conclusão alguma.

Gostosa mesmo é a crônica – senhora que aceita quase tudo! Cuidado com as malícias, leitor(a). Que palavra bonita MALÍCIA…

Em termos mais acadêmicos: na interação imprescindível entre leitor e texto, por meio do diálogo entre competências cognitivas, sociais e interacionais, na relação mais estreita entre texto e contexto para a busca da construção de sentidos de cada texto lido, a leitura e produção  de crônicas podem configurar-se como estratégias extremamente adequadas a uma metodologia do ensino de leitura e prática textual.

Ao lermos uma crônica, envolvemo-nos, pelo prazer da leitura e proximidade com o gênero, o que nos permite ampliar nosso universo de conhecimento, pois somos instigados à interpretação e, assim, avançamos como leitores: ultrapassamos a linearidade, rompemos com a paráfrase, passamos às relações necessárias à leitura polissêmica – aquela que de fato nos permite atuar como leitores críticos; adentramos, enfim, à riqueza do mundo discursivo como fenômeno prático, social e cultural.

Nas crônicas, a realidade dos fatos tratados numa contemporaneidade por nós vivida estimula, ao mesmo tempo, a busca da coerência do texto organizado bem como o estabelecimento de uma interação social e, assim, realizamos uma leitura que se apóia numa análise do discurso entendida como ação social permanente e também concentrada na ordem e organização.

Tal enfoque de leitura permite ao leitor trilhar caminhos cujo contexto se compreende de diversas formas, seja pela sintaxe, pela semântica, pela estilística e pela retórica, seja pelo gênero crônica, definido entre a argumentação e a narração sobre fatos do cotidiano e um pouco mais.

Consoante Antonio Candido, em “A vida ao rés-do-chão”, na crônica, “tudo é vida, tudo é motivo de experiência e reflexão, ou simplesmente de divertimento, de esquecimento momentâneo de nós mesmos a troco do sonho ou da piada que nos transporta ao mundo da imaginação. Para voltarmos mais maduros à vida…”

Uma folha em branco, às vezes, puxa como tema o próprio ato de escrever… a angústia de escrever… co-irmã da ânsia de viver. Na crônica cabem mundos.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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